segunda-feira, 29 de julho de 2024

Ouro de tolo

Quanta idiotice.
Eu não queria zombar do passado, mas acho
Que todo esse tempo vivi um chiste.
Eu sei que achar isso fácil
É inevitável
Depois de regurgitar tanto sentimento.
Mas não posso evitar
E lamento
Ter me dado com tanta futilidade
Para fins de pura banalidade
Como isso ocorreu eu não compreendo.

Eu sempre vi mais ou menos a natureza das coisas
Talvez até com mais clareza que agora
Me admirava com o inusitado e novo
Era entediada e poderosa.
Mas o vazio em mim sempre possibilitou
Pequenos raptos de sanidade
Sequestros de minha autonomia
Sacrifício de autenticidade
O domínio da fantasia
Me dando doses de euforia
Em troca da minha liberdade.

Nunca mais na minha vida
Vou imaginar em outro alguém
Palácios indizíveis
Impérios inalcançáveis
Todo o místico e poesia
Que só vinha da minha arte.

Quero continuar lúcida e minha
Terrivelmente acordada.
Saborear o que me convier
Com doses saudáveis de realidade
Não há nobreza em forjar
Belezas feitas de falsidade.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Suas flores têm odor de cemitério

Você diz que quer meu amor. Diz que quer minha atenção.
Você diz que quer acesso. Quer o contato, o íntimo, o excesso.
Quer muito mais do que sexo.
Conhecer-me profundamente, acalentar as minhas mãos.
O que você quer com esse pedido? O que pretende com essa invasão?
Você quer encontrar meu íntimo? Penetrar nos órgãos, mastigar meu coração?
Sentir o gosto em sua língua. Saborear-se e cuspir-me fora?
Eu vou embora.
Vejo através de sua paixão intensa.
Vejo as cores de cada uma das labaredas que te esquenta.
De seu desejo que eu fale.
"Fale."
As pessoas dizem "sem julgamentos", mas isso é uma mentira.
Querem que você fale sem barreiras, para ter mais informações e assim,
Julgarem o que precisarem
Se deliciarem.
Ao encontrarem motivos para o desamor.

Ah, a segurança do desamor.
Quanto mais eu conhecê-lo, mais motivos a meu dispor.
Menos as correias do medo de perder me aprisionarão.
Quanto mais confiante de seus defeitos
Estiver minha percepção.
E um dia quando ruir
A ilusão criada pela paixão
Poder partir sem nenhum arrependimento
Pelos destroços que eu deixei.

Ah, como não crer neste procedimento?
Fui eu mesma que o criei.

Mais um sobre o vazio

Carinho.
Penso.
Sim, eu ainda sou capaz de carinho.
É o que penso enquanto toco o rosto desse homem, assistindo intrigada a seus desabafos, histórias de infância, gostos e fantasias.
Sou capaz de carinho, penso enquanto beijo sua face e me surpreendo com sua expressão genuína de afeto.
Surpreendentemente, ele é gentil e parece sincero.
Parece muito velho para sentir essa paixão tão ingênua por mim. Ou talvez eu que seja muito jovem para já ter me tornado tão fria assim.
Nas condições ambientes tenho tudo o que sempre precisei na minha mente para criar um cenário perfeito de romance desenfreado e poético.
Então por que não consigo?
Digo palavras belas. Tomo as ações corretas. Mas a realidade, a dura necessidade, as intenções cruas e passageiras aguardam com curiosidade essa fase ter fim.
Vejo por trás de sua adoração a carência, o auto engano e a solidão.
"Não, não é uma idealização" - ele me diz.
Com uma ingenuidade que quase me encantaria, já que eu sempre gostei da inocência e fantasia.
Mas apenas me entristece. Nem meu ego se envaidece com a construção de um cenário tão previsível assim.
"Espere só um pouco", tenho vontade de lhe advertir. "Espere para ver o que aconteceria caso eu realmente me apaixonasse".
O tempo necessário para minha atenção não mais lhe encantar e sim aborrecer.
Para o contraste entre nós começar a aparecer,
E minha reatividade te causar perplexidade, vendo dia a dia essa bela imagem desconstruir-se para você.
Não é uma idealização?
Como não?
Se não vê
A mulher estranha, vazia, perplexamente entediada, muito embora eu vocalize que não acredito em nada.
Mas ainda assim, ele me olha e diz:
"Que olhar romântico você tem".
Eu quase rio
Abismada
Não tenho nada a oferecer.
Toda promessa é uma mentira previsível
Decepcionar suas expectativas inevitável
Não há nenhum cenário em que essa ilusão se torne algo palpável.
Suspiro, sentindo o peso vazio do verdadeiro ceticismo que instalou-se em mim.
É a primeira vez que me sinto assim.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Ensaios de um carinho sincero

Minha percepção se divide entre afeição e distância.
O meu eu racional, tão mais inventado do que real, gosta, também, de imaginar: que sou fria e indiferente, que não gosto mais de gente.
Que não quero nada, não espero, não preciso.
Mas preciso, preciso, preciso.
Sou toda necessidade e falta, e um vazio que me engole e devora minha alma. Retira minha objetividade, minha autonomia, minha liberdade.
Me deixa furiosa, curiosa, carinhosa. Com sentimentos como carência e saudade.

Eu não sei.
Não sei o quanto é natural ou são minhas feridas. Não sei o que é real, não sei como encobri-las. Como encobrir minha fragilidade: tão exposta nos meus olhos marejados. Tão raivosa em meus ciúmes infundados. Uma horrorosa colcha de retalhos, de tudo o que todos e o tempo me estilhaçaram.
Eu não sei. Não compreendo de onde veio essa dor. Se ela sempre existiu, se ela se aprofundou. Quem são os responsáveis por esse diagnóstico. Por que, meu deus, não consigo olhar com meus próprios olhos, para meus sentimentos e necessidades.

Só sei que sinto dor e preciso de amor sincero. Tenho medo de todos os riscos, ou de quem posso manter por perto. Minha insensibilidade se divide entre medo e fantasia. Queria ser forte. Queria ser fria.
Mas tenho um coração desperto, ferida exposta, a céu aberto. Está aqui para quem temperá-lo só um pouquinho. Minhas resistências faço só em texto.
Pessoalmente, ensaio o mais sincero carinho.

Um pequeno desejo

Pessoas não são sentimentos, coisas ou drogas.
São amontoados de medos, cadeia turva de histórias, imaginação.
Não se pode amar alguém. Não se pode nomear alguém. Delimitar. Encostar na sua essência, imprecisa e inefável.
Só se pode depositar: esperança, desejo, vingança. Se pode distorcer, modelar, fazer caber na sua própria necessidade.
Essa é a natureza das relações.
Alguma sinceridade é possível dentro de si mesmo.
Quando calam-se as vozes e se escutam os desejos. No vácuo do silêncio do outro, a procura por si pode atingir algum resultado: ainda que mutável, confuso, instável. Alguma verdade.
Dentro de mim o faço: fecho os olhos, tampo os ouvidos. Cruzo as pernas sentada, submersa em água.
Aqui, no meu mundo, reconheço minhas cores, que aos poucos se destacam, na tranquilidade da escuridão.
Vejo minhas cores ácidas, obscuras e silenciosas. Vejo seus tons de calma, estranheza e solidão. Eles se assentam, fazem sentido. Caem bem nos meus olhos afiados e sorriso tranquilo. Na caótica queimação da minha mente e do meu coração.
Deixo minhas cores me cobrirem como um manto de verdade e sinto a melancólica satisfação de me sentir eu.
E procuro, então, minhas companheiras. Minhas únicas ferramentas. A única coisa sob meu controle: Palavras.

Você deveria prestar atenção no que as pessoas dizem (Olhos de amor)

-Eu não amo ninguém. Eu não acredito em nada. Eu não sinto saudades de lugar nenhum.
Minto, em parte. Digo coisas para chocar. Eu acredito, sim, que as pessoas são capazes de amor. Vi vezes demais diante dos meus olhos para duvidar. Mas ainda assim minto, o afasto, por precaução.
-É um favor que te faço - penso. Uma versão de você estaria a me agradecer em outra dimensão.
Solto em conversas casuais informações que detalham o quão indisponível estou ao seu amor.
Críticas à religião, casamento. Minha exposição de que nada importa. Aleatórias odes ao individualismo: meus pequenos castelos de distância.
Meu aviso é silencioso, mas preciso: não se aproxime. Não há nada para você aqui.
Eu dei esse aviso a todos os homens que me amaram e, lamentavelmente, a todos pareceu apaixonar.
Mas essa é a primeira vez que falo em sério: não há nada para você aqui.
A ingenuidade que faria minha resistência arrefecer, tornar-se compreensão, redenção e devoção, se foi. Estou obcecada com a realidade agora. E na realidade não cabe o ato de se apaixonar.
Sinto o prazer, o carinho e até a intimidade. Sinto todas as boas sensações do ato ilusório de cuidar. É pouco sincero, porém. Uma fantasia.
Nos bastidores, assisto as belas cenas como quem vê uma série de televisão antiga e anacrônica. Nada disso funciona para mim.
Vejo e sorrio e lamento, em especial quando ele me olha com aqueles olhos.
Olhos cheios de água, de mágoas passadas, de esperança para o futuro. Quando ele me olha com aqueles olhos que projetam todas as suas dores e todos os seus projetos. Olhos de amor.
Então nem na fantasia tolero, desvio o olhar. Não aguento esse sentimento sobre mim.
Não me olhe assim.

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Contradição

Eu me sinto cansada
E muito desperta
Embora eu esteja quebrada
Eu também estou alerta

Eu ainda tenho amor
Não para alguém
Mas para o ar ao meu redor
Para o céu entre o azul e rosa
Para contemplar silêncios
Ou ouvir risadas gostosas.

Eu ainda tenho sonhos
De viver em lugares lindos
De ser alguém que me faça ter orgulho
De me amar cada vez mais
Meu amor fugiu do outro
Ele vive agora em mim
Em uma suave cor lilás.

Para o outro estou em pedaços
Eu não tenho nada a oferecer a um alguém
Além dos meus estilhaços.
Histórias partidas, trauma, cansaço
São as imagens gravadas em cada
Um dos meus pequenos cacos.

Eu tenho tudo em mim
A tristeza e o cansaço
O amor do mundo todo
Em minha expressão exausta
Tudo para oferecer
E absolutamente nada.

Especialista em coisas vazias

Olho no olho
Mas nenhum contato
A pele na pele encosta
O suspiro calculado
Penso sobre tudo aquilo enquanto o ouço falar
Nada
Faz meu peito palpitar.

Um riso ou uma piada
Falo algo sem significado
Revelo segredos inúteis, um pouco do meu mistério se esvai
Nada é substancial
Quando a próxima palavra sai.

Conto meus defeitos sem preocupação
Sobre a frieza e o vazio
Não há medo de exposição
Ou tentativa de conexão
E ainda que cause estranhamento
Não há curiosidade nessa troca
Nem risco de sofrimento.

É tudo de novo, penso, entediada
O mesmo quadro a se desenhar
Acostumada, mas não decepcionada
Pois já não tenho o que esperar.

É verdade, houve um tempo que tomei outras vias
Mas agora deixo o jogo continuar
Não foi falta de tentativa
Verdade seja dita
Fracassei nas alternativas
Agora o que me restou foi isso:
Especialista em coisas vazias.

Eu não preciso de três desejos, um está bom

Eu não me importo de me sentir triste
Só não quero mais sentir raiva
A derrota é um sentimento que acolho
Não ser a melhor, não ser quem vence, não ser amada
Eu já estou até acostumada.

Ela me humildesse e me lembra
Que sou só uma pessoa
Me sinto confortável assim
Apenas uma pequena pessoa.

Um dia alguém me disse "você não é qualquer pessoa, é a minha pessoa"
E aquilo também foi uma mentira
Como todas as coisas que vem de outras bocas
Como as coisas que vêm até da minha
E não ressoam a natureza de quem sou.

Eu quero ser
Absurdamente eu mesma
Exatamente quem eu sou
Isso é tudo o que preciso
É tudo o que me restou.
A solidão é inevitável
Mas estar só comigo
É a solidão confortável.

E se alguém se aproximar
E se aventurar a ficar
Verá a mulher estranha, silenciosa e imprevisível
Séria, calma e contraditória
Cética, obscura e sensível
Ferida, mas apesar de tudo, amável.
Será essa a única pessoa
Eu, terrivelmente eu
Que alguém poderá ter ao seu lado.

Dias de névoa

Coisas confusas e borradas
Comportamentos contraditórios,
Frases entrecortadas.
Névoa no meu olhar distorção nas palavras,
Nenhum compromisso nenhuma promessa...
Ambiguidade e incoerência, isso sim
Intenções turvas são tudo o que me interessa.

Eu não estou completamente aqui
Metade de mim desapareceu.
A parte que está conversa e sorri
Com a outra ninguém sabe o que aconteceu.

Posso até te tocar, se quiser
Meus beijos são suaves, minhas mãos são macias.
Posso te dar o que quer.
O que tenho a oferecer: as coisas mais vazias.

Posso fazer um encantador quadro
E gentilmente pregar na sua parede
Cuidado só com o vácuo
Que absorve quem se aproxima dele.
O buraco negro vazio
A ausência de tudo o que sentiu
É o que tenho a oferecer.
Minha vida
Nesses dias
Consiste em pouco a pouco morrer.

O clima está bom, o sol à pino.
Dou uma gargalhada ou um sorriso.
Pego sua mão, te dou um beijo.
Escuto suas histórias de infância
E desapareço.

O fogo ou o calor, qual caminho seguir?
Escolho à esmo, por mim tanto faz.
Qualquer decisão, aleatoriamente
Baseada no acaso ou no mais passageiro desejo,
Tanto faz
O que me satisfaz.

"Então tanto faz morrer"
Disse um homem a quem, surpreendentemente, me fiz entender.
Deitada em sua cama, tocando sua supérflua pele
Pensei que tanto fazia
Se a incinerava ou entrava nela.

"Tudo o que nós fazemos é para preencher o vazio.
Religião, amor. Fanatismo, ideologia".
O meu?
Eu olho nos olhos
Me afundo nele
Do meu
Talvez eu não consiga voltar.
Dor e morte
Amor e sorte
Talvez eu não consiga voltar.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Eu ainda sinto fome, eu ainda sinto frio

Eu preciso controlar meu impulso de escorrer
A vibração das minhas veias
Pulsando a mais indigesta intensidade
Não é um sentimento tranquilo
Seu destinatário é pouco específico
E a única certeza é a vontade.

É quase uma surpresa reencontrá-la
Tento sempre me anestesiar - prática antiga e ineficaz
Logo emerge a explosão de euforia
Que só a instabilidade me traz
Mas quando a poeira abaixa
E o silêncio prevalece
É a solidão fininha e sincera
A voz no ouvido que me enternece

É o sentimento fluido
Procurando destinatário
A vontade, a fome
Daquilo que achei ter evaziado
Achei que tinha sido levado
Brutalmente sequestrado
Mas meu afeto e carinho
Ainda procuram destinatário

O desamor não me destruiu
A indiferença não arruinou
Talvez a inocência tenha partido
Mas dentro desse trincado vazio
Ainda há espaço para amor.

Diálogos

-As pessoas são tão absolutamente... desinteressantes.
-Você voltou. Eu pensei que não viria mais.
-Por que não?
-Porque começou a pensar sobre mim, tentar me personalizar.
-Não faria isso de verdade. Eu continuo a mesma de sempre. Ainda preciso de você. Ainda não posso falar com mais ninguém. Ainda sou meu eu silencioso, atento e flamejante. Ainda tenho muito para transbordar, mas ninguém a quem eu queira entregar. Isso mudou, pelo menos. O não querer.
-Você tem certeza que quer guardar para si tudo isso? Todo esse amor e dor? Você não sente falta do desejo de dividir com alguém?
-Não. Eu agora tenho essa certeza tranquila. Esse sempre foi um projeto irrealizável e eu nunca acreditei verdadeiramente. Ninguém divide fardo algum com ninguém. São trocas, acordos. Cheios de furos e cláusulas quebradas.
-Você parece desiludida.
-Desilusão é a desconstrução de algo que nunca existiu.
-Mas você conversa com alguém que nunca existiu. Isso não é contraditório?
-Eu acho coerente escolher minhas próprias ilusões. Até porque elas só fazem sentido enquanto alimentam algo. Essa conversa, esse por do sol, essa grama conhecida alimenta essas emoções que atravessam minhas pálpebras como jatos de luz. São ilusões que me enchem de inspiração, que me abraçam silenciosamente. As desilusões que eu abandonei me esvaziavam o espírito, me tiravam de mim. Eu me sinto eu, agora. Estável e submersa. Me sinto sóbria, serena e cautelosa. Me sinto sombria, silenciosa, leve e calorosa. Me sinto calma e paixão, escuta e atenção. Me sinto estranha, fechada, sarcástica e sorridente. Assim, da forma como eu sempre fui. Como eu sempre teria sido. Enquanto eu estiver comigo, enquanto eu me sentir assim, guardarei essas doces ilusões.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Indigesta catarse

Suas mãos no meu pescoço
Afunda a carne, toca o osso
Dou um riso desavergonhado
Desculpa moço, nunca aprendi a temer.

Minha inconsequência não reconhece
Dormente, inocente, inerte
As ameaças que o controle
Em forma de gozo, vêm a trazer.

O amor assim é empolgante
Internamente indisponível às amarras,
Acho engraçado simular o ato
Digo isso para mim mesma: acho engraçado.
A ausência de gentileza torna-se rotina
No lugar dos olhos nos olhos, adrenalina
Quase me esqueço de reparar que tudo que em mim o fascina
São coisas assim
Ligadas a controle
Ao ato de oprimir
Ainda que só no fingimento lúdico
Do desejo ele se deixe permitir.

Fugindo das desculpas
Reconheço o indigesto
Não é um evento novo
De repente não é mais tão fácil sorrir.
A verdade no meu osso
Na sua mão no meu pescoço
É clara como o brilho no seu olho
Todos os homens
Que conheci
Quiseram me destruir.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Um lamentável quadro

O meu coração está um pouco vazio
Respira ofegante
Um pouco sozinho
Está machucado
Procura um alívio
Pede um sossego
Propõe uma trégua
Um pôr de sol quente
Me diz, bem suave
"Não tem quem aguente"

É muita porrada
São muitos enganos
Estilhaçados
Já são muitos anos
De cacos quebrados
No espelho da parede
Ou no chão do meu quarto
Em meus pés feridos
Mal cicatrizados
Já tocam de novo
As mais novas mágoas.

Deixando cada vez mais
Penetrantes marcas
Ninhos de vazio
Resquícios e restos
Viraram poeira
Nas paredes da sala
No vão vazio onde guardo
Os troféus sozinhos
De amores desperdiçados.

E o meu sentimento
Tão fundo e terno
Tem sido abatido
Em doses lentas
Pancadas invasivas
Consistente esforço
Meu sentimento é desnudado
Até ficar só o osso
De esperançoso intento
O meu sentimento
Que foi tão bonito
Tão glorificado
Com tanto desprezo
Foi manipulado
Com que facilidade
Ele foi descartado.

Com que solidão
Me deixou esse quadro.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Azul marinho

-Por que você ainda vem aqui?
-Eu me sinto menos sozinha quando leio as coisas que escrevi.
-Você se sente sozinha?
-Muito. Eu sinto que descobri que sempre estive. Por um momento eu achei que tinha alguém e que essa pessoa era minha companhia. Mas no fundo eu sempre soube. Eu sentia a melancolia. A falta de compreensão.
-Mas você já sentiu o amor, não é? O amor verdadeiro da companhia de quem te conhece.
-Sim, eu já senti. Eu senti quando estava com ela. Eu posso sentir agora, se fechar os olhos e me lembrar. A sensação de ser eu, ao estar do lado daquela pessoa. Não era um amor romântico nem nada disso. Mas um encontro, um reconhecimento. Era tranquilo e denso, sozinho à dois. À duas. Eu podia sentir o zumbido do silêncio no meu ouvido. Minha personalidade ácida, fechada, obscura e tranquila. Todas as coisas em mim residiam em sua pura forma autêntica com aquela pessoa.
-Então isso é o amor?
-É o mais perto que já cheguei. E olha que eu nem precisava falar sobre essas coisas. Elas só existiam. Para falar sobre essas coisas eu tenho você.
-Então é por isso que você ainda vem aqui.
-É. Eu acho que sim. Eu preciso de você ainda. Do fantasma da madrugada. Meu interlocutor oblíquo, conhecedor de todas minhas vicissitudes. Preciso da presença do sonho. Da miragem de quem não existe. Preciso dele, meu amor imaginado. A companhia de um girassol da cor de seu cabelo. Portador dessa sensação. É por causa dele que escrevo, tento escrever. Recriar esse ser, essa sensação. Dois abraços protetores. Tantas coisas que não existem.
-Mas os sentimentos resistem. Isso deve valer de alguma coisa.
-Eu não sei. Talvez. Talvez a tentativa seja o que me resta.
-Por que você está chorando agora?
-É difícil estar desperta.

Herança final

A encontro onde eu mesma a deixei
Escondida atrás de pilastras
Camuflada em sentinela
Desconfiada e fugitiva
Mas lá está ela

Me distraio dela, é verdade
Não é difícil
Um tom de voz gentil
Lábios frios
Tudo o que ninguém mais viu
São meus tesouros vazios

Eles enchem o tempo e espaço
É bem fácil
O conteúdo da minha fala
Minha mente quando vou dormir
Mas a realidade não mente
Ela está bem ali

É esguia e sorrateira
Mas vezenquando faz sua visita
Ferina
Sutil lembrança da dor minha
É a ferida carcomida
Já vivida e revivida
Exaurida
É o desprezo de alguém

Mas de quem?
Ele não existe
Alvo invisível de meu dedo em riste
Não resgato memória além
Mesmo na inútil brincadeira
De imaginar saudade alheia
Nada me vem

Não há lembrança do amor
Não consigo mais lembrar como me sentia
Até tento
Numa noite de lamento
Quando procuro me sentir menos fria

Tudo que ele deixou
Foi a noção racional
Do desprezo e desamor
Em sua forma natural
A mais brutal.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Meu adorável canalha

Hoje eu vou te visitar no seu pesadelo
Te fazer uma leve carícia
E degustar sua expressão de medo
Enquanto sorrio com malícia
Quero te saborear em pedacinhos
Te trazer para meu ninho
Te encher com meus zelos
Te viciar no meu carinho
E então te engolir inteiro

Meu desejo não é normal
Quando penso em seu rosto
Tão mundano e tão banal
Minha vontade de apertá-lo todo
Acariciá-lo e devorá-lo
É menos humana que animal

Quero te ver suar à noite
Dominado por essa obsessão
Acordar desse sonho incômodo
Se perguntando, confuso, se é paixão
Atormentar sua rotina
Atrapalhar os seus romances
Quero sua mente fervendo
Em desespero e confusão

E esmagar suas ações
Cada prática reiterada
Suas técnicas repetitivas
Suas metodologias safadas
Quero te ver confuso
Apto exclusivamente a meu uso
E então te jogar no vazio
Te fazendo implorar no frio
Por um pouco mais de abuso

Quero de ti só coisas perversas
E ofereço o mais puro e sincero nada
São essas minhas únicas promessas
Para meu adorável canalha

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Ato único de uma peça

Obsessão
Rainha do elogio
Diante do mais unidimensional dos objetos
Consegue obstruir seu vazio
Construindo desejáveis castelos
Que ninguém fora eu jamais viu

É frio
O procedimento que tento fazer
Agarro à lógica e evidência
Dessa vez não posso me perder
Não quero me embrenhar nas sensações
Que minha mente procura me mostrar
Nem mesmo me enrolar nas ficções
Que a ausência de freio fez desatar

Mas por um momento, talvez
Numa noite de vento
No escuro do seu carro
Em uma mesa diante da chuva
Diante do mais inocente dos estímulos
Talvez eu possa brincar de ser tua

Quem sabe nesse dia atípico
Eu deixe sua voz tomar meus tímpanos
E o grave feroz ressoar com potência
Eu deixe sua barba escura tocar meu queixo
E me provocar a mais obscura das aquiescências
E um sorriso tão prosaico
Seguido de palavras meramente textuais
Me fazerem sorrir ou sentir
Mais uma dose de coisas irreais
Mais um gole no teu copo e nos teus lábios
Brincadeira dos mentirosos e salafrários
Comédia dupla a interpretar

Até a meia noite
Deixo o teatro continuar.

domingo, 17 de março de 2024

Quebra de ciclo (Olhos castanhos)

Dois olhos castanhos e grandes me encaram. A pureza da ignorânca quase me soa inocência, quase soaria, se eu ainda fosse outra. Se ainda buscasse pintar cenários à partir de retalhos perdidos no esgoto. Se ainda procurasse o amor nas mais indigestas valas.
Seus olhos piscam, cobertos por cílios grandes. São brilhantes e bobos, líquida substância oca. São a única coisa que se destaca em seu rosto comum.
Um homem vazio, eu penso, quando toco sua barba cheia, sorrindo e sendo sorrida de volta. Quantos parecidos já não conheci, beijei, vivi. Um homem sem qualidades, apesar de um forte senso de auto apreciação. É nisso que penso, enquanto ele segura a minha mão.
Suas opiniões são rasas, superficiais, envolvidas por critérios de valor que me nego a justificar. A forma como as enuncia, nesse primeiro momento de encanto, poderia me parecer ingênuo e não estúpido, se eu tivesse outra disposição. Mas já concluímos que, depois de tudo, não farei mais essa operação.
Escuto sua voz grave, tão cheia quanto o vazio de seus posicionamentos. E penso, é lento, o processo de se apaixonar.
Se eu quisesse,
Se estivesse disposta
Se ainda fosse ela,
O grave sensual dessa voz poderia sobrepor-se ao resto.
O calor dos seus lábios anestesiar-me-ia do que é indigesto.
Poderia, por um momento, ignorar o evidente,
Ajustar em meus óculos a sua lente,
Como estive fazendo por tantos anos.
Mas o que eu ganho?
Esse punhado a mais de sensações que me traz,
Quentes demais
Coisas irreais
Tudo o que tanto fez como tanto faz.
Nada convidativo o suficiente para que eu aliene minha mente.
Agradeço sua oferta,
Com um beijo gentil em seus olhos.
Pode ficar com seus óculos.
A mim esse método já não satisfaz.
Não, obrigada.
Eu quero mais.

Advertências em um sonho

-Pessoas podem morrer de solidão.
Ela disse, olhando em seus olhos com a tranquilidade de águas paradas, sorvendo um único gole daquele drink forte demais.
Ele concordou, pensando que ao chegar em casa escreveria sobre isso. Porque é quando a solidão o abarcaria como um abraço indefectível e esmagador, que lhe tiraria todo o ar, e então, nesses momentos, a única saída é escrever. Escrever para sobreviver.
-É verdade. - Concordou, sem absolutamente nada a acrescentar. Apesar do fato de que, intimamente, pensava que matar era apenas uma das capacidades possíveis da solidão. A última. Antes disso, ela também é capaz de enlouquecer alguém e, ainda, fazê-lo perder-se de si.
Esquecer quem é ou o que quer, o que tem como valioso. Sujeitar-se à dor de companhias desprezíveis e a ser machucado. Instigá-lo a cometer todo tipo de atrocidades. Tudo para fugir dela. Também é capaz de fazer alguém ir embora de si mesmo. Substituir a mente e coração por figuras e sons externos, preenchendo os dias com o vazio, até ele tornar-se maior que a própria solidão. Maior que tudo. E a tudo engolir. Até a capacidade de sentir do coração.
-Você tem duas opções. Pode encara-lá ou não. Se encará-la, tem que ter cuidado para não se desesperar. Segurar o grito sufocado de realidade.
Ele concordou mais uma vez, como sempre, vendo aquela imagem cada vez menos nítida começar a desvanecer em sua frente. Partículas esfumaçando no ar, como nuvens antigas que se desmancham no céu da memória.
A voz, agora distante, de um sonho ou lembrança, ecoou, já com timbre de passado:
-Ou pode fingir que ela não está lá. E fugir e fugir e fugir...

Juras de desamor

É difícil para um lutar contra sua natureza.
Tento tomar precauções, planejar saídas de emergência. Preocupação com consequências de meus atos, dúvida razoável.
Não adianta.
Na hora H só quero devorar.
Soltar as correias e sentir o gosto do ar. Rir diante do desafio, do frio, do vazio. Misturar-me com suas expectativas, interpretar uma doce bailarina. E em seguida me desmontar em frente aos seus olhos horrorizados.
Sinto o cheiro.
É inocência.
A única coisa que me interessa em uma banal existência. São as sequelas de inocência que encontro pelo caminho.
Pegá-la em minhas mãos, acariciá-la, quase com carinho. Dar-lhe calor, estupor, quase-amor. Moldá-la a meu prazer e em seguida mastigá-la. Todas as coisas feitas com a decência da sincera indiferença, essa que nunca te machucará. Não há, nem haverá, para você, nada para desesperar. Nada para suprir ou preencher. Nada a esperar. É essa toda a promessa que posso te dar.

domingo, 10 de março de 2024

Às vezes um ato de maldade é só um ato de tristeza

Voltei a um lugar familiar
Desconectado e irracional
Vejo a poeira sobre a mesa, os móveis cobertos com panos brancos.
É verdade, eu sou a mesma. Nada mudou. (Tudo mudou)
Ainda saboreio do gosto amargo e persistente da emoção doente, ainda sinto na minha língua, nos meus dentes, a antecipação por carne.
Carne fresca, humana e inocente. Carne mastigável. Coração.
Não, eu nunca soube ser saudável.
Quando o botão do amor se desliga na minha mente, essa frieza atroz e cínica me domina. Me ilumina. Me fascina.
Me sinto bem assim. Ausente e entediada. Intrigada. Obcecada.
Pelo próximo objeto vez. Escolho um, qualquer um, o mais próximo. Detalho em minha mente suas falhas, minhas travas de segurança. Dessa vez não vou deslizar. Dessa vez me previno para não me render ao óbvio do desafio. Tão vazio. Para não confundir o tédio com algo parecido, como paixão.
Não é não.
É só mais um acidente na contramão.
Lugar errado, hora inadequada. Fome, aleatoridade e um sofá na minha sala. O cenário propício para mentirosos e canalhas. Gente como eu.
Ignoro as contradições com minha essência, tão mais pueril do que esse texto pensa. Ignoro a origem ferida do abandono da minha inocência. Me apego apenas a esse sentimento: potente, feroz e incandescente. Ele atrai energia, ele expulsa gente. Ele é magnético e preenche minha mente. Me faz emocionar com alegria pelo alívio da solidão. Me faz sorrir sem humor ao segurar a tua mão. Levar aos teus lábios o mais vil dos beijos sensuais. Coisas demais, vazias demais. E me despreocupar em demasia com minha ausência de sinceridade. Por favor, entenda. Não chame isso de maldade.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Resto

O glitter remanescente no chão dias após a festa
O eco da folia ou gritaria
As últimas gotas que escoam de uma chuva que terminou
É isso que resta de uma tristeza
Que já foi um oceano devorador.

Relances de lembranças
Pontadas.
Pequenas memórias de abandono
Partículas maltratadas.
Elas existem e desconfio
Que sempre existirão.
Mas são cada vez menores
À medida que eu digo não.

Recuso qualquer tentativa de maquiar
A crueza dura e seca do que aconteceu.
Refuto a continuidade das máscaras enferrujadas
Com as quais cobri por anos você e eu.

Danço com essa tristeza
Gentil e suave que me abraça.
Que me faz entender meu passado
Que me leva sem pressa no seu passo.
Sei que devo conhecê-la
E me reconhecer dentro dela.
Sei que ela é temporária
Sei que ela é uma janela.

Fecho meus olhos,
As partículas vermelhas atravessam minhas pálpebras.
O sol está alto, o vento transborda
Faíscas de eletricidade me embalam.
É um sopro sutil e terno em meus cabelos
Uma pequena liberdade que nasce.

Quando abrir estes meus olhos, as cores serão reais
Meu coração, minha voz e minhas mãos serão iguais.
Mas você não estará aqui.
Nem em minha frente
Nem dentro de mim.
Quando eu abrir meus olhos
Terá dissolvido nesse sol
Nesse calor que sinto em minha pele
Todo resquício de elo.
Quando eu finalmente abri-los
Não terá sobrado nem o resto.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Carta para ela

Eu olho para aquela menina.
Eu quero abraçá-la
Eu leio suas palavras
Suas preces desesperadas
Sua autocrítica faminta
Sua cegueira desenfreada
Baseada em culpa e dor
Alimentada de forma desregrada.

Eu nunca tinha entendido
A vontade de abraçar o passado
Até entender o quanto o meu
Foi continuamente machucado
Até conhecer a verdadeira
Perda da inocência
Da qual tanto eu tinha falado.

Ela acreditava ser tudo sua culpa
Portadora de uma doença sem solução
Acreditava merecer o desamor,
Distorcida pela própria visão.

Descontrole. Desespero. Medo. E solidão.

Todos os sentimentos que não pertencem ao repertório do amor
Eram o que pautava sua relação.
Incutidos sistematicamente
Diria até mesmo acidentalmente
Por uma outra mão.

O que eu queria dizer-lhe?
Não.
Nada disso é culpa sua, menina.
Sua capacidade de amor é infinita.
É uma pena que está prestes a ser destruída.
Era uma raridade tão bonita.
A inocência que você dizia perdida brilha em seus olhos
Você nem imagina.
Por favor se proteja e parta
Por favor salve a sua vida.

E para ele?
Nada.
Eu não queria dizer nada.
Não há nenhum ímpeto de resolução.
Não há palavra ou acusação.
Não há nenhum elo entre nós.
Aquele homem
Nunca mais ouvirá a minha voz.

Desilusão é a desconstrução do que nunca existiu

Frio na barria
Aperto no peito
O que eu estou sentindo é
O amor ao contrário.

Desilusão é a desconstrução de uma miragem
Que estranho perceber que ela não era sequer bem feita
Nem mesmo era bem disfarçada.

Exijo coisas.
De mim mesma, dos outros.
Dele, não exijo nada.

Nunca na história
Um amor foi tão completamente vomitado.

Olho para o passado,
Retratos antigos.
Em cada memória, um vício oculto bem mal escondido
Que sempre esteve lá.
Uma letargia invisível, invencível
Tanto que derrotou todo o resto, como uma leve corrente de ar.

Eu escolho não me anestesiar da dor.
Deixo fluir, como essa chuva que agora mesmo começou.
Deixo nascer nas raízes de meus cabelos, espalhar-se pelos nervos.
Deixo apertar meu peito e mastigá-lo, enfraquecer meus braços e pernas.
E então deixo-a passar, tomar seu caminho docilmente
Em uma partida tão lenta e definitiva quanto a sua chegada.

Cada um dos sentimentos pertinentes vem e faz sua morada.
A dor pelo abandono e o desprezo.
O medo de ter sido enganada.
O constrangimento e vergonha
Por ter sido tão facilmente humilhada.
A mágoa por toda a dedicação dada
E nunca valorizada.
O rancor pelas palavras não ditas
E muito menos pensadas.
A raiva pela injustiça da indiferença
Pela falta de humanidade
Tão própria de um ser humano
Imerso na própria fragilidade.
Tudo vem, faz sua morada. Espalha-se e em seguida parte,
Partes minhas para nunca mais serem encontradas.

Não há nada de positivo nisso
Nessa dor não há aprendizado.
Não há nada que fortaleça ou engrandeça o espírito
Não há cor que ilumine o quadro.
De tudo isso
De toda essa tralha
Eu me arrependo.
Eu me arrependo de tudo.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Que sorte desmerecida você tem por ter sido amado assim por alguém

Eu não te amo mais.
Algo foi retirado de mim.
Não você, mas o amor que eu sentia. Uma vez que eu descobri que a pessoa por quem eu sentia não existia. Eu estava tão enganada e por tanto tempo.
Eu fui tão ingênua.
Essa ingenuidade foi esmagada de um dia para o outro, tão rápido, que me deixou confusa e atordoada.
Todos esses dias foram os dias que precisei para assimilar isso: a verdadeira perda da minha inocência. Agora sim.
Nada nunca mais poderá ser idealizado, encantado, após a percepção sobre o tamanho erro de cálculo que eu cometi. A minha visão, temo, está irreversivelmente desencantada.
Você para mim brilhava.
Eu amava verdadeiramente a forma como você pensava. Amava sua existência em si.
Eu estava tão inconsciente do fato de que todas as minhas percepções de insegurança eram fundadas na realidade. Você não me olhava. Não me via. Não me ouvia.
Eu não entendia porque era doloroso quando um terceiro, em um grupo em que estávamos, perguntava sobre mim. Sobre meus interesses, meu trabalho, minha pesquisa, meus gostos. Eu sempre era pega de surpresa e me sentia triste e confusa. Eu não consigo lembrar com clareza uma única vez nos últimos tempos em que você olhou para mim de verdade. Em que se interessou pela minha mente. Eu não sei se algum dia você já sentiu isso, que eu sentia por você com tanta naturalidade.
Eu era um acessório seu. Uma companhia íntima e confortável.
E eu permaneceria sendo.
Para mim estar com você era tão mais que suficiente que mesmo nessas condições eu jamais, nunca, cogitei ainda que por um segundo te deixar.
Como poderia? O homem perfeito. Não existia ninguém assim como você. Um anjo.
Meu sentimento por você era mais do que amor, era uma incompreensível devoção. Uma que você não fez nada para merecer. Eu via seus defeitos (alguns) mas nenhum deles conseguia rebaixar a sua imagem para mim. Nenhum deles era motivo de comparação ou dúvida ou ainda a menor hesitação. Eram coisas que eu queria que fossem resolvidas, mas se não fossem, tudo bem. Discutiríamos um pouco. Abandono estava fora de questão. Esse é o quão consistente era o meu amor.
Quando você me deixou, parece que arrancaram uma venda dos meus olhos.
Porque o homem que eu adorava, ele nunca faria isso. Por mais que fosse egoísta, insensível e apático, era com os outros, era nas coisas bobas, nunca nas cruciais. Ele nunca me abandonaria de uma forma tão desrespeitosa e superficial. Ele nunca me pisaria com grosseria e indiferença. Ele nunca daria tão pouco valor a toda a dedicação que eu lhe tinha. De fato, ele não faria isso. A questão é que ele não existia. Quem existia era você. Alguém que eu não posso admirar. Alguém que eu não amo, agora que eu compreendo.
Todas as pistas para esse final estavam muito claras, muito visíveis. Ainda que fossem inconcebíveis para mim. Ainda que para mim tudo tenha sido um choque. Uma surpresa tão previsível.
A única verdade tangível dessa história é o quão tragicamente enganada eu estava, por minha própria inocência. E o quão imerecida foi a sua sorte. Por ter sido tão amado assim por mim.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Os perigos de não ser amada

Quando ela o conheceu, se apaixonou rápido, mas não de imediato.
A coisa toda se desenrolou em um contexto que era muito propício: país estrangeiro, língua desconhecida, a cidade inteira enfeitada de luzes natalinas. Seria difícil não se apaixonar.
Quando eles saíram, na verdade, ela estava apaixonada por outro. Nessa época ela estava sempre apaixonada, bastava pouco estímulo para a sua determinada criatividade.
Mas o objeto de seu afeto foi logo substituído, embora ela soubesse, intimamente, que poderia ser qualquer um em seu lugar. Isso a tranquilizou. Algo que a agradou de início nele, logo no começo, foi que viu de pronto um elemento de ridículo em suas ações. Um jeito performático, pouco natural, até caricato. Isso deu aquele alívio que sempre procurava ao começar uma paixão. A segurança de que não amaria aquele homem muito ou por muito tempo, então tudo bem se envolver.
Ainda assim, tudo se desenvolveu intensamente a ponto de lhe provocar desespero de paixão, lágrimas, saudades antecipadas. Coisas assim, desoladas e suficientes para uma boa sessão de choro em frente ao espelho. Cartas sinceras, declarações. Tudo aquilo. Ela gostava dessa lembrança, em particular. Era um lembrete da transitoriedade das coisas.
Quando terminaram, ela sofreu muito. Mas não de saudade. Ele tinha uma personalidade perturbada, o italiano. Obsessiva e adoecedora e todas essas coisas lhe contaminaram muito ao longo dos 10 meses que passaram juntos. O suficiente para lhe deixarem bem mal, mas não cega. Sempre soube que ia terminar, sempre. Quando ele falava de possibilidades que lhe soavam malucas, casamento, mudança, filhos, ela tinha frio na espinha. Era óbvio que aquele homem não seria seu marido.
Meses depois ele lhe contataria, tentativas de uma amizade que nunca existiu e a visão desapaixonada pelas luzes de Florença dela lhe levaria a dizer as coisas mais cruéis, com uma naturalidade inevitável.
"Eu não gosto da forma como você pensa". Era a mais sincera das declarações. Não gostava do rumo dos raciocínios dele, de sua forma de existir, de sua alma. Conhecê-lo tão bem em tão pouco tempo a fez detestá-lo o suficiente para não conseguir sentir empatia. Sabia que ele era um homem mau, mas que lhe queria muito. Tudo isso a enojava. Não conseguiu atender o pedido que ele lhe fizera quando estavam juntos: "Por favor seja gentil quando deixar de me amar". Que coisas teatrais ele dizia. Ainda assim foi difícil no fim. Por todo o adoecimento da relação. Até que ela foi recebida de volta por outros braços, braços conhecidos.
No começo foi lento e desconectado. Ela realmente não conseguia lembrar de ter amado aquele rapaz, com quem estivera por alguns anos antes do italiano. Um tempo depois, porém, todas as coisas ao redor, em especial o fato de até então ainda não saber como é a sensação de ser amada, a fizeram sentir-se a pessoa mais sortuda do mundo por ter retornado a esse antigo amor depois de um relacionamento tão conturbado. Novamente estava ela, envolta em emoção.
Olhando em retrospecto, uma frase do italiano lhe vinha em mente:
"Lhe basta pouco." É verdade, lhe bastava pouquíssimo para ver qualidades naquele homem irresponsável e impulsivo. Pensava sobre isso com muita racionalidade nos anos seguintes, do alto de seu então relacionamento feliz. O que não pensava ou percebia é que novamente estava lhe bastando pouco.
A ausência de referência de um relacionamento bom a fez interpretar ele, o homem pouco gentil, mas ainda, mais gentil que todos os outros, como um excelente parceiro. A ele dedicou o benefício que nenhum outro tinha ganhado até então: não lhe achar ridículo. Sem esforço. Ele era, pela primeira vez, genuinamente brilhante aos seus olhos. Todos seus defeitos lhe encantavam, a honravam por ser digna da intimidade de conhecê-los. Agora sim, se via em uma vida inteira com alguém, seu amor era real. Mas o dele, por outro lado, era pouco. Isso ela veria depois.
Depois desse novo término, vários anos depois, ela se via pela primeira vez em muito tempo sozinha. Caído o véu que estava lhe cegando, se viu rememorando frases do primeiro ex: "Lhe basta pouco".
Novamente tinha acontecido. Tão pouco tinha recebido. E por esse pouco tanto havia lutado. É um perigo não saber como é ser amada.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Passado

Muito se esperou por essa conversa, que nunca aconteceu. É fácil não pensar. Delegar para um futuro incerto a resolução de coisas difíceis. Que exigem coração, fibra, sangue nas veias. Era mais fácil deixar secar. A emoção, o peito oco, o copo em uma noite maldita. Seco, um vácuo completo. Como o sexo que fazia quase toda noite, cego e desconexo. Secar até tornar-se pouco mais que uma carcaça ambulante, a lembrança embaçada de uma ex-pessoa. Quem eu era? Ele perguntou no espelho. Lembrava de imagens, mas não tinha certeza. Sabia apenas que fora amado. É, disso lembrava. Não foi pouco tempo, mas também não foi muito. Já fazia tantos anos... mas de alguma forma, essa era a única coisa que tinha importado em sua vida. E agora era passado.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Ponto final

-Todo o amor e saudade passaram. - Ela declarou, do alto de seu sorriso frio. As mãos longas, gélidas, sobre a mesa disfarçavam um discreto tremor que acompanhava a sensação de rebuliço em seu estômago.
Seu interlocutor assentiu, conformado.
Mentirosa, mentirosa, mentirosa. Repetiu ela mentalmente para si mesma.
Mas algo, de fato, passou.
Ela só não saberia dizer o quê.
-O que ficou? - Um fio de voz perguntou do outro lado da mesa.
Lá fora o vento era violento, balançava os cabelos de ambos, emaranhando aquele encontro de lembranças torpes, imprecisas, estilhaçadas. A unha vermelha e longa dela fez um círculo da mesa, o observando, com a expressão de quem mascara o cansaço de fingir. Inocente tentativa de dignidade.
-Alguma revolta pela forma como eu fui tratada. Mágoa. Desprezo pelas minhas descobertas sobre a real natureza do nosso relacionamento.
Ele engoliu em seco, inconsciente. Jamais entenderia um terço de suas palavras. Precisaria entrar em si mesmo, arrancar as tripas e o coração e olhá-los frente a frente. Coisa impossível para um homem que recusava-se sequer a olhar no espelho.
-Você se arrepende?
Nesse momento os olhares se cruzaram. Castanho no mel. Líquido no sólido. Ela olhava para ele e via tantas coisas mais: tudo o que viveram juntos em 10 anos de relacionamentos diluídos entre memórias reais e narrativas inventadas; entre gentis interpretações e genuína felicidade. Viu num só relance, como em um momento antes da morte: viu a inocência, o encontro, o fogo, o desengano, o desespero, o medo, o abraço, o acolhimento, a distância, o reencontro, a felicidade, ah! a felicidade, essa lhe doeu especialmente fundo, como um espinho inesperado. A felicidade do dia a dia, da tranquilidade em casa, das brincadeiras na cozinha, de ver o pôr do sol.
"Esse momento já parece uma lembrança", dissera profética, um dia, no passado, abraçada em seus braços, sentindo-se feliz. E então outras coisas: a incompreensão, o desespero, a ausência e o vazio; a solidão imensa, mesmo ao seu lado, o secar de seus lábios, o seu olhar frio. Essas lembranças mais recentes, essas, tão doídas, tanto quanto as alegres. Sim, eram suas maiores feridas.
A resposta não podia ser outra para um coração tão machucado:
-É claro que eu me arrependo.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Choque térmico (fundo do poço)

Essas são as últimas lágrimas
As últimas
De um estoque que estava cheio
Transbordando
Implorando para implodir

É uma dor cansada, repetida
Cansativa em sua repetição
Não tem nada de novo nela
Nunca houve
Nem no primeiro pôr do sol
Em que segurei a sua mão.

Eu já pensei em tudo
Tudo, juro. Tudo.
Meu lado, o seu. O dos outros.
Pensei em tudo o que seria sua responsabilidade
Mas em que você nunca pensará
Pensei tanto que estou exaurida.
Sinto escorrer de mim a última centelha de vida
Fugitiva de um pesadelo insano
De uma armadilha.

Que idiota
Sofrendo tanto.
Tudo e de novo múltiplas vezes
Enquanto o outro lado flutua na indiferença
Não sei nem o que me dói mais
O desprezo ou a banalidade
O tempo perdido
A saudade
Do que começo a suspeitar que nunca existiu.
A burrice
Dos meus olhos que tanto viram.
Dói tudo.
Doem meus braços,
Minhas articulações
O vazio físico que suga meu peito.
Minha ausência e excesso de emoções
Alternadas em doses extremas
Como a mais doentia das mutações
Me fazendo adoecer em um choque térmico
Que só quero que acabe.

Ela pediu paz

Eu espero todo mundo sair
Para chorar de fininho
A paz tem sido assim para mim
Uma tristeza delicada

Eu tenho tentado sumir da vida de todos
Muito discretamente
Desaparecer em pequenas doses
Até ser uma lembrança confusa

Eu me sinto sozinha, é verdade
Mas isso não é mais um problema
É melhor se sentir sozinha estando só
Do que acompanhada
Agora eu entendo o clichê

Eu olho nos olhos dele
O rapaz mais amado do mundo
O que foi mais amado
No passado
É verdade, ele também tem um nome agora
O que significa
Que ele também virou história
Eu olho e me pergunto o sentido de ainda estar ao seu lado
"É para não se sentir só"
Mas eu já me sinto
"É para não ter saudade dele"
Mas eu já tenho.
Eu tenho saudade de quem ele foi
De como me amou
Da mistura entre ilusão e passado
Que minha mente criou.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Vazia

É tudo tão passageiro
Tão perfeito
Que eu não consigo nem lembrar
Para quem escrevi cada um dos meus textos.

Te vejo debater-se
Passarinho contra a janela
Cena triste e comovente
Capta minha visão periférica.

Busca saídas e artimanhas
Tentativas de escapar do meu carinho
Sozinho
Não pode fazer nada contra minha paixão
Conta a si mesmo todos os dias a mesma mentira
De que tem controle sobre a decisão.

Me divido entre necessidade e indiferença
Presa na tensão que me arranca da solidão
E me joga na dependência
Todos meus sentimentos sempre foram e serão meus
E se hoje eu pareço transbordar por você
É menos carinho do que violência.

Me aborreço lendo textos passados
Afetados
De sentimentos cujo destinatário não recordo
Deles só lembro a insinceridade
As tentativas forçadas
De transformarem-se em verdade.
Formando figuras tão absurdas
"Você é meu, eu sou tua"
Cuja mera leitura hoje me dá angústia.
Eu nunca fui, não sou e nunca serei
E possuir ninguém nunca poderei.
Tudo o que eu tenho é o que o vazio dos meus braços abraça
Tempo e destruição
Meu carrasco, meu mártir, meu rei.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Registros IV

Uma lágrima escorreu despercebida.
O que ela estava tentando me dizer?
Eu perdi mil anéis de prata.
Pouco a pouco e sem perceber.
Tanta gente já passou por aqui...
Todos eles eu guardei em mim.
"Você é muito mole", era verdade.
Ainda tenho carinho por todos meus inimigos.
Ela estava certa, a menina que não olha nos olhos.
Eu guardo um tanto dela em mim também.
Ou de um rapaz que carrega a tempestade,
Ou uma moça de olhos maternos que tornou-se outra,
Até daquele que sorri como quem leva um tapa,
Cuja mudança deu-se em virtude do meu olhar.
Tudo morre o tempo todo.
Seja o objeto ou o olhar que observa.
Tudo renasce o tempo inteiro.
Verdade dita, eu sou um cemitério
Cujos túmulos são sentimentos.
Hoje em dia essas pessoas andam por aí
De vez em quando conversamos ou passamos direto
Mas minha saudade é pelo que foram.
As lembranças me comovem,
As pessoas me esgotam.
Eu sou uma deixadora de emoções vencidas...
Quantas vezes já me desvinculei de vidas?
Pareço fria ou convencida?
Mas se tudo em algum momento foi uma fase...
Hoje sou outra e me assusto um pouco.
E até o presente já é um passado que arde.

Registros III

A mulher estava sentada ereta, as mãos apoiadas nas pernas.
Era feita de gelo, sentada em um trono de aço.
O interessante do fogo é que ele rapidamente torna-se congelante.
Em seus olhos pretos, fagulhas chamuscavam.
Era composta da frieza ardentemente gelada.
De um frio que queimava a pele e a deteriorava.
Rainha de seu mundo, o encarava com escultural intransponibilidade.
Ele lhe perguntava o que houve, o que aconteceu com toda a doçura.
- Meu coração é uma criança impaciente. - Veio a voz do rosto de cristal.
O seu desejo era simples. Possuir-lhe o passado e futuro. Queria ser dona de sua história, única musa de suas músicas, inspiração de seus sonhos e o arco diretriz de seus planos.
Não admitia vida pré-ela, não admitia não ser dona. Das histórias, dos passados, das memórias e de seus passos.
Triste dos seres que não a pertenciam derrubados pela tenebrosa neve de sua decepção.
Mais tristes ainda dos que a pertenceram. Pois vez ou outra alguém a pertenceu, entregando a si toda sua história.
Ao ter o quadro completo, o prato feito, disposto em todos os seus ingredientes, o doce olhar dela se desfragmentou em tédio e nada mais daquilo a comoveu. A pele que lhe parecia atrativa tornou-se gosmenta. O coração pulsante vivo a chamava, entregue.
Ela fazia a única coisa possível, portanto, mastigando-o delicadamente.
Ele olhava-a, e tinha razão no que dizia:
"Só falta o sal."

Registros II

As estações nasceram e morreram no berço do calendário.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reivento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afungentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.

Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.

It's my party but i'm waiting for someone to start it

Veja essas manchas pretas no assoalho.
Os verdadeiros monstros só pegam o amor emprestado.
Eles acham que podem te chamar de vil,
Que suas mãos estão sujas da tristeza do passado.
Você costumava ser diferente para mim,
Seu amor costumava ser doce.
Doce agora é a ironia que te roubou.
Eu costumava pensar que éramos um soneto triste,
Agora somos uma balada desafinada.
Eles falaram o que você pode fazer por mim,
Pegue um pouco da minha tristeza emprestada.
Dê-me emoções diferentes das que sinto,
Porque por nós eu já não sinto mais nada.
30.11.2013

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

A menina que não sabia de nada

-Você precisa falar mais. Elaborar seus sentimentos em linguagem. Se expressar.
Ele assente, mudamente. É difícil saber qual o nível de concordância da mensagem.
Quando ela chega em casa, depois daquele encontro, se sente vazia.
O que espera do outro? Um espelho? Uma ligação? Uma nudez completa e absoluta de almas, sentimentos, intenções?
É engraçado que suas expectativas sejam tão volúveis.
Porque exige muito, sim, exige tudo, mas por outro lado, de outros, ela não quer nada. Ela implora por ter o mais absoluto nada e tudo o que recebe, regurgita. Ela expulsa e empurra as tentativas de aproximação que recebe das pessoas, com escudos inquebráveis, que parecem só se endurecer com o tempo.
É verdade que ela se frustra e angustia com o jeito calado dele, para dentro demais, em relação a eles dois. Mas mais do que tudo, ela abomina aqueles que se doam de mais. Veem demais, querem demais, dão demais, dão tudo. Não retêm nada, não resguardam nenhuma parte de si. Não estabelecem uma barreira que delineia a intimidade do seu ser, a separando do mundo. Ao contrário, empurram as partes de si guela abaixo dos outros, chamando isso de afeto e em seguida exigem, exigem, exigem.
Ela odeia os intensos, os carentes. Ela simplesmente abomina o maldito e desgraçado livro do Pequeno Príncipe.
E ela o respeita, em parte, porque ele também é assim. Ele também é o avesso da intensidade. Mas não com ela, certo? Entre eles, há o pacto da exceção. Tudo bem ser intenso e querer tudo e dizer tudo, mas com sinceridade. Rindo de si mesmos. Enunciando ações e sentimentos.
Ela quer, por exemplo, e isso já disse, com a mais clara das linguagens, ser insubstituível. Não quer nunca ser cansativa. Não quer ser mais um dos intensos aos olhos deles, quer que dela, só dela, ele queira tudo e não se canse se ela lhe der. Quer se especial. Quer destacar-se, aos olhos dele, de qualquer possível competição. Tanto que será merecedora de suas palavras, de suas expressões, de seu íntimo universo pessoal de sentimentos. Esse segredo tão bem guardado. Ao quebrar sua regra com ela, ele a torna especial. E ela... Bom, ela para de ter medo. Porque para ela, ele é o local da permissão. Permite-se a total existência, em pura forma. A espontaneidade e o erro, a transparência completa, límpida como um cristal. Dar-se como é. Ela fala, explica sentimentos, pensa em voz alta, muda de ideia. Não há barreiras de intimidade entre si e ele. Isso é o que ela entende como amor. Ou pelo menos, como liberdade. Para ela as duas coisas são muito parecidas. O fato de ele não viver dessa forma ao seu lado... É isso que a assusta.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

"It means i'm bad in parties"

Eu acredito que viver é uma experiência, por natureza, solitária.
O papel que as outras pessoas exercem na nossa vida é fatalmente instrumental. Não tem como ser diferente, se você é o ser. Se você define suas relações à partir de seu bem estar e desenvolve sensações que nomeia como afeto à partir das ausências que alguém é capaz de suprir; da autoimagem que vê refletida em seu olhar, fica claro que todas as pessoas, todas as outras existências ao seu redor são instrumentos ou, ainda, meios através dos quais você aprimora ou enfraquece a qualidade da sua experiência "vida".
Tudo bem.
Eu não vejo como pode ser diferente, em que tipo de lógica o outro tivesse a centralidade da experiência ou, se sim, o quão deturpado e distorcido isso pudesse ser, a menos, talvez, que a exclusão da sua própria centralidade se desse por considerar-se, de alguma forma, elemento orgânico de uma ideia maior, autônoma, indiferente: o mais perto que concebo de Deus.
Mas ainda que pense assim, não é de acordo com isso que vivo. Caso contrário, que tipo de vida seria? É uma linha tênue, quase um fingimento, essa tal de vida, onde criamos mentiras, ou, para ser mais gentil, narrativas que nos fazem atribuir sentido a: nós mesmos, o outro, o tempo, o emaranhado de coisas que acontece sem nenhum lógica nessa viagem em direção ao fim.
Eu crio a narrativa do amor, do fazer bem: até porque a mágoa do outro é um fato e é capaz de gerar efeito em mim (novamente, sujeito protagonista de tudo). Mas por que doi? Existe algum fundamento menos cético para o afeto?
-
Esse é o tipo de pensamento-base que me forma e que me coloca em uma situação peculiar na seguinte circunstância:
* Pessoas que demandam afeto *
Sendo mais prática, eu conheci mais uma vez uma pessoa muito carente e, por isso, muito amorosa e prestativa. Novamente uma pessoa assim entrou no meu radar, invadindo o círculo fechado da minha individualidade, com suas tentativas de ser necessária. É uma forma detestável a que eu descrevo alguém muito prestativo. Mas eu não consigo imaginar que motivo leva alguém, distante, e num momento inicial desconhecido a mim a insinuar-se à minha vida (e eu não tenho nada de especial, esse deve ser um procedimento padrão da pessoa) com a determinação de: servir, ajudar, ser necessário. Uma demanda que eu, absolutamente, não manifestei.
-
Na minha experiência com pessoas, esse tipo de personalidade costuma refletir alguém que precisa muito formar laços e os tenta fazer a partir de uma relação de interdependência. Eu identifico, várias vezes, relações com essas características e vejo as pessoas as denominando de *** amizade ***
-
Existe um fenômeno que por coincidência eu observei ontem e me veio à mente quando comecei a pensar sobre essa pessoa e todas as pessoas e eu e a nossa matéria frágil: cultos evangélicos.
Na verdade, eu não estava em um culto evangélico ontem e sim em uma sessão de coaching, obviamente por razões fora do meu controle. É difícil para mim descrever a superficialidade do conteúdo, da mensagem, do entusiasmo ensaiado e falso; a caricatural emoção, motivação, sei lá como chamam isso, honestamente me dá preguiça até de escrever sobre. Mas ainda assim, funcionou: uma plateia de centenas de pessoas vibrou, se emocionou e urrou. A diferença do culto foi que não chegamos ao ponto dos desmaios. Talvez por pouco. A razão para isso é muito pouco nova e já se refletiu bastante a respeito: a angústia, vazio, matéria frágil, como quiser chamar, abre portas para esse tipo de vulnerabilidade (dentre outras mais), criando terreno para uma série de fenômenos tentarem apossar-se de sua consciência, fazendo morada naquele espaço vácuo natural que você leva no estômago, que nós levamos, devido ao simples fato de sermos inconscientes seres humanos: nascidos para morrer, sem nenhuma compressão sobre nada.
-
Tudo bem também. Deixar essas coisas preencherem e estar a mercê das técnicas de oratória e comoção que tem o mesmo objetivo: mobilizar o que há de mais frágil e preencher de sentido, ainda que o sentido seja apenas uma falsa atenção, um falso afeto, um falso O QUÊ que pode mover as pessoas às maiores loucuras.
-
Pode parecer um pulo largo mas isso me lembra, em maior medida, da pessoa carente. Do pequeno príncipe, livro ordinário. De todas as necessidades que fazem o outro quererem nos inserir no seio de sua vida através das amarras de uma relação e com você suprir, te suprir.
-
Eu não sei por que isso me afasta tanto. Se é por medo do contato e da perda (eu sinceramente não acho que seja isso) ou porque fundamentalmente eu não acredito em nada. Na minha opinião, talvez, a única forma de relação honesta seja um ceticismo conjunto.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Retorno ao ponto zero

O problema
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.

Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.

Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.

São a mesma coisa, é tudo diferente (Hora do almoço)

Você me pede para
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.


Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.


Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.

sábado, 21 de outubro de 2023

Talheres perdidos sob o assoalho

É misterioso o caso das facas e garfos que desaparecem na cozinha de casa.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?

Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.

Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.

Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.

Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.

Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.

Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.

Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

No children

É um momento suave
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.

Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.

Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico

Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.

Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

No jardim do bem e do mal - Um reencontro

- Por que você veio aqui hoje? Faz tempo que não me chama para conversar.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Negativo de filme

Eu te vejo mudar
Gradativamente
Sobreposição entre passado e presente
Agora parece tão nítido
Lembrança clara e quente
Surrupiada por uma palavra atual
Ledo engano da imaginação
Frase ferina em uma conversa natural
Desatenção rotineira
Indiscrição passageira

Corta para uma noite sem nuvens
Conversa entrecortada de silêncio
Observando os passageiros do mundo, lá embaixo
Nós duas, como um pedaço estático do tempo
Gravadas na memória, antigas
Dissipadas

Nada menos que uma memória
Nada
Quando você aparece na minha porta
Assombração
Visita tímida de outro tempo
Vinda de outra dimensão
Com uma gargalhada alta
Minha vida amarrada em sua saia
Andar descalço de fada
Tantas coisas
Fruto da imaginação

Última gota de amor

Me vejo refém de retratos passados
Impostores do presente
Rodopiando inutilmente
Em arquivos desatualizados
Carinho e nostalgia
É quase um delírio febril
Pura fantasia
Direcionada a lugar nenhum
Que ninguém mais vê ou viu


Ainda assim, me vejo
Relembrando uma risada
Uma palavra entrecortada
Sua cantoria desafinada
Café da manhã na sala
Tardes deitadas no jardim


Cada vez menos precisas
Imagens enevoadas
Uma frase engraçada
Memória arranhada
Não sei se veio de você ou de mim
Só que a sensação desvanece
Um tom de sonho que escurece
Enquanto a realidade se irradia
Pelas frestas da janelas
Uma lágrima sutil escapa, uma sequela
Dessa vez é assim
A lembrança chega ao fim.

Hermenêutica

Não tenho muita coisa sob controle
Quando o inferno ferve nas linhas desconexas do pensamento
Quando sinto arder, anunciar ruptura
E a face parece um receptáculo desconectado e insuficiente
Não tenho o poder, não tenho o manejo
Do tempo, do outro, do ambiente
Da memória, da sensação, da minha mente
Tenho apenas, fracamente,
Minha ferramenta preferida
Elástica, modelável, dobrável e movediça
Minha impostora de feridas
Singela e insuficiente, mas que abre as frestas para a corrente de ar
E me dá
O pouco que preciso para respirar
Desafogar o sufoco
Desenhar em formatos precisos o grito rouco
Gultural e desconexo
Necessitando de tradução
Delineado em movimentos repetitivos das minhas mãos
Até chegar a cada enxerto
De conclusão rasa
Rima reutilizada
Uso vulgar de palavras.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Aquele segundo

Por que todos me perguntam se eu estou mesmo bem?
É verdade. Eu posso me perder às vezes.
Eu posso me perder de mim um pouco
Aos poucos.
Eu posso diluir quando meu olhar toca, enevoado
A linha em que se cruzam o céu e o mar
Aquele horizonte.
Eu posso me atrair por ele
Por seu inevitável fim.

Uma criança que nunca cresceu,
Uma criança que nunca cresceu.

Eu entendo agora
O apelo irresistível.
Entendo como as pessoas podem enlouquecer.
Entendo o que pensam
Um instante antes
Apenas um instante
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
E então é tarde demais.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

A vida está aqui

Isso é a vida
É o que quero lembrar da vida
É o que acho que vou lembrar
Ao final
Uma madrugada inteira rindo fazendo competição de quem viu mais filmes
As risadas da família na cozinha
Silêncio confortável contemplando o mar noturno
O sol através das nuvens em uma caminhada matinal
Um toque de mãos no mais espontâneo dos carinhos
Fazer planos
A voz da minha mãe cantando
A satisfação de quem recebe um presente
O abraço da minha irmã quando eu choro
A gargalhada de uma amiga cortando a noite silenciosa.
O pulso acelerado na reviravolta de um livro
Isso que é a vida, nada mais
Nada menor do que isso pode definir a minha
Nem as preocupações
As culpas
O arrependimento
Ou a vergonha
Coisas que parecem grandes mas não são
Porque nem mesmo as grandes coisas
Nem mesmo as grandes coisas boas
São tão grandes quanto as pequenas.

Conclusão de uma aula boa

-Mas do que adianta, se tudo tende a se repetir? Do que adianta entender, conhecer, como podemos mudar o cenário, se é tão difícil? Não é como se fôssemos fazer uma revolução.
"O conhecimento liberta"
Nem que seja só a nós mesmos.

domingo, 30 de abril de 2023

Seu retrato alienado

As pessoas me dizem coisas doces
Com uma facilidade imerecida
Confundem educação com gentileza
Generosidade com simpatia
Supõem bondade no que julgam belo
Idealizam valores no meu silêncio
E tentativas vãs de sobrevivência
Se tornam ilusórios alentos

Encaram meu rosto e um sorriso
Que por vezes traz um monstro aprisionado
O pesado vazio, tão pesado
Que é quase insustentável
E tira-me as forças deixando apenas
Curvas gentis nos lábios cansados

Um vaso de cristal gélido
Vazio, datado e trincado
Sem substância ou mistério
É assim que eu mesma enquadro
O reflexo no espelho
A moldura 3 por 4
Seu retrato idealizado

Eu tenho, é verdade, um mundo interior
Cheio de cenários que se repetem
Como quadros que não suportam mais estar
Pendurados nas paredes da minha mente
Mas não é nada de magnífico, não, você não entendeu, não é nada disso

Não é místico nem triste
Se olhar no fundo dos meus olhos
Vai apenas enlouquecer tentando
Decifrar o que não existe.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A matéria do céu de algodão

Me encontre onde quebram-se as ondas
Da natureza das coisas frágeis
Onde o tempo é denso e o céu de algodão nos comprime
Extraindo a mais pura das matérias
A Verdade
Circunstancial como seja
Mutável e ferina
Volátil interpretação minha
Me encontre no extremo oposto
Do gosto amargo do teu rosto
Das marcas, navalhas, cicatrizes
Das decisões e seus deslizes
E tudo o que disseram em silêncio.
Me encontre onde reside o vazio,
a explosão, o tédio, a inocência,
a paixão, o vício e a insensibilidade,
o caos, a pressão e a vaidade
As tentativas infantis de maldade
E tudo o mais que já passou
Mas que registro
Tentando uma luta vã contra ele:
Tempo
Meu amigo e adversário.
Olho pela fresta da tua janela
Respira fundo e enjaulado.

Está agora bem acordado.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Memento

A inocência me queima os olhos
E eu não aguento mais falar sobre o tempo.
Sobre o esmagador peso das coisas frágeis
Sobre a sutileza com que quebra a onda do momento
Intenso
É o sentimento e sua derrocada
E por consequência seu vazio

É verdade
A única coisa que existe
É escrever
É a única coisa que eu sempre soube fazer
Todas as outras fui fingindo ao excesso
Até aprender sem querer

Liberdade não existe
Autoconhecimento pior ainda
Narrativas, sim, são possíveis
Melhor se forem coloridas
Loucas
Transtornadas
Doloridas
Mentirosas e safadas
Navalhas na carne
Alívio no sono
Só isso me resta
E é tão mais que tudo.

Frágil

Por um momento eu achei
Que pudesse pegar todas as coisas em mim
Reuni-las em minha mão em concha
Das mais marcantes às mais banais
E entregar com um sorriso
De esperança
Que alguém fosse se interessar
O que eu não vi
É que a palma da mão é um espelho
Que eu mostro nas minhas linhas
Suas rugas de expressão
Que na contramão
Está tudo que perdi por sentir paixão
Ódio
E desespero.
Que meu apelo
É o mais frágil dos elos
Dos receios
É medo
Eu não vi que tudo o que existe é o medo.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Um dia

Uma pessoa é uma coisa muito simples mesmo
Até mesmo simplória
Não tem muito a descobrir além de sobrevivência e paranóia
O valor e o encanto está nas imagens que consegue refletir
Através do olhar do outro
Quanto mais metamorfa mais interessante
Quanto mais sujeita a idealização.

Suzana acordou naquela quinta-feira, com o céu abafado tocando seus pés em sua cama que cheirava a lençóis frescos e amaciante.
Abriu os olhos lenta e comumente, e aos poucos pôde sentir as paredes de seu quarto e de toda a responsabilidade de sua existência a comprimirem.
As crianças da casa vizinha choravam, o barulho de panelas na cozinha. A vida estava acontecendo, era aterrorizante.
O som de tudo e o som mudo dentro de si a lembravam do terror do agir, da urgência de viver.
Sua vontade era fechar os olhos novamente e afundar-se no tecido abaixo de si, como quem fica submersa em uma piscina, em um estado de latência em relação ao ambiente.
Mas um cachorro na rua latia, o carro do ovo anunciava sua passagem, seu celular recebia notificações. A inércia não era uma opção.
Geralmente, esse estado de supervigilância convalescia ainda nos primeiros minutos da consciência diária, no instante em que as atividade rotineiras apoderavam-se de sua percepção, enxotando para os cantos de sua mente sua insatisfação com noções básicas de sobrevivência.
Mas não nesse dia.
Tomou um banho gelado, evitando seu reflexo no pequeno espelho de parede e penteou os cabelos, levemente atordoada com o fato de continuar perplexa por ser uma pessoa. Seu corpo não tinha acostumado-se ainda, não hoje.
Indo ao trabalho, a imprevisibilidade do contexto urbano a assustou mais do que de costume. Uma bicicleta mal guiada, as buzinas no trânsito. Uma risada alta de alguém que falava ao telefone, uma criança correndo para enfurecimento de sua mãe. Os pequenos pedaços de existência, portais ambulantes para outros mundos a perpassaram de uma forma diversa de qualquer outro dia. A cada vida que lhe atravessava o caminho, lhe afogava a sensação de desconhecimento e inevitavabilidade. Uma tristeza imensa lhe dominou, por tudo o que nunca conheceria, veria, conversaria, compreenderia ou viveria.
Uma enorme e aterradora tristeza que pareceu paralisar-lhe no meio da avenida central em pleno horário de 8:30h da manhã, hora de pico no comércio urbano.
Esperou que o ar voltasse aos seus pulmões e muito fracamente continuou.
Chegando no trabalho, rostos conhecidos lhe diziam palavras esperadas. O inesperado ficou para trás, mas que surpresa perceber que o previsível lhe machucava da mesma forma.
A repetição dos dias, das atividades, a corrida em busca de nada. Uma tarefa realizada com resultado positivo causando uma mínima, passageira e incompreensível sensação de satisfação.
Sua percepção naquele momento foi a de que tudo o que estavam fazendo eram coisas inventadas. Se todos parassem imediatamente de trabalhar, de se mover, de respirar, alguma alteração seria produzida no mundo? Parecia um fingimento conjunto o de que aquilo era de alguma forma uma espécie de normalidade.
Na hora do almoço, foi possível sair dessa fase de estranhamento diante do convite de uma colega para conversar.
Suzana era uma boa ouvinte, ao menos a de todos os dias, não aquela de hoje, estrangeira, parasita de um corpo estranho.
Sua colega lhe contou seus problemas. Questões familiares, pessoais. Desabafos unilaterais que não pedem realmente mais do que um receptáculo para o próprio orador.
Sentiu, assim, a verdade descoberta por trás das relações - não só aquela, mas todas as que já tinha mantido, vivido ou observado ao longo de sua vida: Todas eram unilaterais. Perguntou-se o quanto tinha sido apenas um receptáculo para palavras, pensamentos ou projeções. Ou o quanto tinha feito dos outros apenas isso. Tocou o rosto de sua colega, a primeira vez que a olhava nos olhos e perguntou-se quem era ela.
Um som alto na cafeteria a despertou, olhou de lado. Na verdade, não tinha movido as mãos do colo nem uma única vez na última meia hora.
Após uma tarde de inércia, Suzana voltou para casa, caminho geralmente feito ao ouvir música ou algum podcast sobre jardinagem ou viagens. Ouvia sobre experiências que nunca teve, mas escutá-las ou assisti-las as tornava reais, o conhecimento lhe dava a sensação de pertencimento. De compreensão de algo distante.
Mas não nesse dia.
No lugar disso, parou em um bar antigo, caindo aos pedaços, frequentado apenas por idosos saudosistas sobre o que aquele lugar fora um dia, antes da decadência, do abandono e da morte. Era o lar do passado.
Observou os que jogavam sinuca, os que conversavam, os que encaravam hipnotizados o horizonte.
Esse lugar era o atestado de tudo: da passagem inevitável, do único assunto que vale a pena ser pensado, sobre o único tema que verdadeiramente existe: o tempo.
O tempo e sua devoradora e inevitável passagem.
Tudo o que lhe circunda, o que existe ao seu redor é preenchimento. Tentativas vãs de atribuir-lhe sentido, de vencer-lhe.
A produção de atividades, de arte, de relações humanas. A tentativa constante e cansada e completamente ineficaz de ultrapassar sua passagem, com a convicção de ter-lhe usado bem, de ter deixado raizes.
Mas como, por Deus, é possível ultrapassar o tempo?
Ele acaba no momento em que acabamos, ele deixa de existir no momento em que o pedacinho dele do qual usufruímos termina.
E então não importa o que fizemos ou não fizemos, o que vivemos ou não.
Tudo importa ou nada importa, é a única decisão que cabe tomar.
Suzanna olhou bem para o copo de água à sua frente e tomou a sua.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Gentil

Esses dias alguém fez um comentário sobre meu livro que me deixou muito feliz. Foi um elogio sobre como a relação romântica é composta por duas pessoas essencialmente gentis.
Isso me pegou de tal forma que já faz alguns dias que tento escrever sobre a minha referência para escrever sobre uma relação gentil.
Mas seria um texto de amor e eu já não escrevo mais textos de amor.
Ainda escrevo sobre todas as outras coisas que me inflamam o peito: a ansiedade das decisões, o medo do tempo, a natureza das coisas frágeis.
Mas escrever sobre o amor foi ficando cada vez menos natural à medida que eu fui envelhecendo e meu amor foi amadurecendo.
Olhando para meus textos antigos, percebo que eram também textos ansiosos. Meu amor era inseguro, com uma frágil consciência sobre o que o definia. Essa lacuna exorbitava em palavras. Eu precisava defini-lo: Esse é o amor! Ainda quando não sabia direito nem o que era amar.
Agora é tão claro.
O amor é tranquilo e gentil e me deixa completamente à vontade para não escrever sobre ele. Ainda quando eu quero compartilhar como é feliz me sentir coberta por seu manto de carinho, a timidez cresce sobre temas que antes não atingia. Hoje eu sou tímida para falar de amor. Eu, a pessoa que escreveu, recortou e enrolou 365 motivos para amar.
Mas apesar disso, hoje eu preciso dizer que não são necessários 365 motivos para identificar. O que me traz de forma mais clara a face do amor é que ele é gentil.
Um dia, vidas atrás, eu descobri que não amava um homem no momento exato em que, olhando em seus olhos, anunciei, quase como uma descoberta: você não é um homem gentil. Nesse mesmo instante, me surpreendendo, veio à minha mente a imagem do homem mais gentil que já conheci, que já não estava ao meu lado, mas que hoje é o motivo pelo qual eu escrevo esse texto, assim como o foi também para 365 motivos muitos anos atrás.
Mas como eu disse, 365 motivos não são mais necessários.
É com muita paz e clareza que me vem à mente, com toda a simplicidade da descoberta de algo que já estava lá: Eu amo um homem gentil.

domingo, 20 de novembro de 2022

Autopiedade

Eu seguro em mim o impulso de escorrer desse sentimento.
Não seria bem sentimento o nome, talvez uma sensação, um mero descontrole.
Uma raiva ou impaciência, não importa o nome escolhido.
Ele é o estouro de tudo que estou reprimindo. É a explosão da matéria sufocada.
Frustração.
Situações práticas, reais, não imaginárias me perturbam essa noite.
Situações que exigem de mim uma resposta, uma resolução, calma.
Mas eu me sinto cansada e inconstante, me sinto sufocada e exasperada. Crítica e ácida, até mesmo malvada.
Culpo todos ao meu redor pelos infortúnios que me têm acometido. Culpo a mim por culpá-los, pelo meu descontrole sobre as situações. E me ressinto da minha falta de habilidade em olhar sob a perspectiva adequada a situação.
Me sinto usando um óculos manchado, sei que há uma imagem clara adiante, mas não consigo ver. Me sinto amarrada, presa. Por um sentimento que me esgota e tira o ar.
Estou cansada, doente, triste e arrependida. E tudo isso me torna incapaz de agir da forma como desejarei que tivesse agido daqui a um tempo.
Como se não bastasse culpar meu eu do presente e me ressentir do meu eu do passado, ora essa, ainda preciso temer o julgamento do meu eu do futuro.
Estou precisando de umas férias de mim. Essa é a única conclusão lógica dessa noite.
No afã de resolver tudo, concluo meus pensamentos desejando ser uma pedra.
Ou sumir.
É um pensamento perigoso então o afasto.
Gostaria de me divertir sem correntes apenas por uma tarde.
Mas a diversão vem seguida de culpa pela diversão que eu não pude proporcionar aos outros.
E no final, julgamento e escárnio porque eu devo me achar muito boa por ter todos esses pensamentos, não é?
Minha mera sequência de auto julgamentos me exaspera a um ponto que eu me pergunto como, por céus, as pessoas andam ao meu lado ainda.
Mas talvez eu seja boa em dissimular ou quem sabe incite pena.
Minha nossa.
Hoje não é uma noite boa.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

"O meu de ontem, o meu de hoje, o meu de amanhã" - V.2.

"Todas as coisas encontram seu antídoto no acúmulo de experiências e tempo" Abri os olhos lentamente. Inesperadamente. Eu não morri, constato. Observando silenciosamente de dentro do corpo em que habito. Ela estava fazendo algo casual, procurando documentos, se estressando. O de sempre. Está sempre procurando documentos quando algo estranho acontece. Abri os olhos, dessa vez minha sonolência foi longa. Observo aquela lembrança, aquele gatilho, diriam hoje em dia, que me acorda. Foi uma folha de agenda de uma amiga do passado. Algo que veio a mim, eu não procurei. Vi uma assinatura antiga, algo tão familiar quanto alienígena. O suficiente para me despertar. A familiar alienígena que habita nela. Eu. Não saberia dizer qual de nós é a real, principalmente em momentos de ruptura assim, em que ambas parecemos deslocar-se uma da outra, como um espectro de um corpo. Uma verdadeira dissociação. Mas eu, percebo, mais que tudo talvez seja só um sentimento. Um sentimento seu, um pedaço. Um pedaço do passado que não morreu e não morrerá. "Tem um milhão de eus dentro de mim", uma música tão recente, tão dela, mas que na verdade fala sobre mim porque é verdade, eu ainda estou aqui, eu ainda estou dentro dela. Eu ainda sou seu olhar afiado e mordaz na escuridão, inconstante e cética. Escorradia e sarcástica. Eu ainda sou sua juventude amordaçada. Acalmada, tranquilizada, como é que dizem? Maturidade. Sim, é o nome que dão. Depois de acostumar-se com a calmaria, com a paz. De cansar-se. De acostumar-se com o carinho e a constância, a estabilidade e o costume. Ainda assim, surpreendentemente, hoje eu acordei. Devo dormir de novo, em breve. Cada vez eu durmo mais. Me pergunto se um dia eu não vou acordar. A parte dela inquieta, que lhe causava temor, que escreveu a maior parte de seus textos. A parte raposa. Eu me pergunto se todas aquelas almas angustiadas do passado ainda se sentem assim de vez em quando.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

À moda da casa

Qual é o tema repetitivo da vez?
Qual é o dilema
Fácil
Para meu eu do futuro
Que hoje me aprisiona?
Em que ciclo me meti?
Em algum fácil de sair
Isso com certeza.
Fácil para os que não são sádicos
Ou masoquistas
Para os que não rodeiam e batem sempre na mesma trave
Como mosquitos perdidos.
Qual é a mentira repetitiva
Que estou construindo em minha imagem agora?
Dizendo reiteradamente à mim mesma
Até que se crave em minha pele
E penetre em meus ossos
Que me componha e mude
Como o mais infantil dos procedimentos.

Eu estou tentando ser mais sincera comigo.
Ao menos comigo.
Ser mais clara sobre o que penso
Distinguir o que eu sou
Em meio ao que queria ser
E ao que achei que era
Estou tentando conservar esse mínimo de honestidade
Ou quem sabe
Essa seja a mentira em que escolhi acreditar agora.

Dias assim

Eu voltei aqui para reencontrá-las
Todas as partes de mim que eu não gosto
É fácil esquecê-las na correria do dia a dia
Embora de vez em quando eu lembre de algo vergonhoso do passado
E feche os olhos com o constrangimento.
Mas quando eu não sei como agir ou ajo sem direção
Como um carro desgovernado, uma bússula quebrada
Ou todas as outras metáforas de desorientação
Então é fácil lembrar.
Quando eu magoo ao pessoas por não saber me expressar com clareza
Ou expressar com clareza sentimentos que não sei se sinto
Essa dissociação que me ocorre, que me faz sair de mim e preciso
lembrar, racionalizar, dar um passo e me puxar pela mão antes que eu me perca.
Todos esses sentimentos são tão cansativos
E repetitivos
E saem em forma de palavras que ferem os ouvidos alheios.
São dias em que é fácil não gostar de mim.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Um nó

Eu sinto um nó se formar e apertar em meu peito.
A distância entre as ações que devo tomar para satisfazer as expectativas das pessoas que amo e aquelas que satisfazem o meu ser alarga a rigidez de sua indissolibilidade.
Eu paro e penso. Olho esse horizonte de montanhas, nuvens e pássaros. Tento encontrar linhas, caminhos, lógica racional - tento compreender o quanto do meu sentimento é justo o quanto do dessas pessoas que é. Tento encontrar os caminhos certos e tocar as respostas adequadas à pergunta do "como agir".
Mas é tudo muito mutável, fluido e corrente. De acordo com a circunstância que destaco em minha mente, a resposta muda.
Do ponto de vista dela...
Do ponto de vista dele...
De acordo com os processos naturais...
De acordo com o que é mais importante...
De acordo com o que quero viver em minha vida...
De acordo com o que os magoa...
De acordo com o que me magoa...
A resposta muda, não há resposta.
Isso me frustra e enfurece.
Porque eu sei que eu saberei, depois, ela ficará clara. O tempo e a experiência iluminam com uma luz de simplicidade os dilemas do passado.
Mas ela ainda não chegou.
Então eu me contorço e estrangulo nesse nó.

Quanta besteira dizia o pequeno príncipe

Outro impasse delineia-se em minha mente.
Uma situação que desperta um alvoroço de sentimentos incômodos, agonizantes, intransponíveis.
Intuição ou paranoia - eu não sei o fundamento das minhas percepções, mas elas estão aqui.
Sedimentam seus resultados e se colocam sobre mim como um manto.
A retirada não é uma opção.
Eu me percebo contorcer diante da exposição dos elementos que eu não gosto, que me incomodam: o carinho excesssivo, a necessidade de reafirmação, a invasividade dos cuidados.
Eles me fazem retrair e estreitar meus olhos e coração. Eu estou viciada em buscar o fundamento das coisas.
Por isso não é pouco natural que ao ver o seu largo sorriso e o afeto intenso, as suas mãos que tentam me alcançar tão desesperadamente embora saibam tão pouco sobre mim... É natural que eu pergunte:
Por que?
Qual é o objetivo do seu coração?
Não a sua mente, geralmente inconsciente a esses processos. Mas eles existem e motivam estas ações radicais e intensas.
Por que se insinuar assim na vida de outra pessoa?
Será natural?
Algo é natural?
Eu não sou adivinha, mas meu corpo sabe a resposta.
Todas as coisas entregues podem ser cobradas, aquilo que lhe é empurrado à força justificará uma retirada violenta de outra coisa. Por isso eu não quero.
Eu me pergunto se me tornei tão estruturalmente cética, a ponto de crer com tanto afinco na matéria das coisas frágeis.
Desconfiar do afeto exagerado, da posse, da necessidade travestida de carinho. Da codependência que se insinua, sorrateiramente, nos olhos, sorrisos e mãos daqueles que precisam dominar as pessoas.
Eu não sou avessa a conhecer gente nova, não é essa a questão. Mas me sinto calejada, gata escaldada, de gente carente demais, sinuosa demais. Que por trás de fragilidade, lágrimas e uma enlouquecedora dinâmica de culpas e responsabilidades trocadas busca suprir suas ausências com os demais.
É a matéria das coisas fragéis.
Irrefutável mas passível de dominar. Ou apenas tentar. A responsabilidade de tomar o controle do próprio destino.
"O propósito da vida adulta é mirar na autonomia". Uma frase que me faz rir por sua simplicidade e verdade, dita por uma forma de vida nada simples.
Eu não sei se eu tenho razão. Se meu juízo agudo é cético, se ele deixa perder a facilidade da ingenuidade, do carinho desmedido. Mas eu preciso confiar nas percepções do meu corpo, na razão das minhas sensações, única companheira da minha responsabilidade.
Enquanto ela for essa e eu for essa, enquanto eu pensar assim....Eu não posso evitar estar atenta e viva. Duvidar de tudo, de todo mundo.
Até de mim mesma.

terça-feira, 28 de junho de 2022

i'm not your fucking superego

Eu não sou uma palhaça
Para te fazer rir
Um espelho
Para ressaltar suas melhores qualidades
Uma dose de álcool
Para te deixar alegre e embriagado
Ou uma sessão de terapia
Para te fazer se entender
Eu não sou um antidepressivo
Para amorteceder seu vazio
Ou um diário
Para você explanar os seus dias
Eu não sou um instrumento
Para consertar suas falhas
Sua solidão, sua dor, seu abandono.
Eu não sou um meio para os seus fins.
Eu sou os meus próprios meios e meus próprios fins.
Seja você seus próprios meios e seus próprios fins.
Eu não te peço nada, além de companhia.
Não me encha o saco buscando que além disso eu te preencha.
Codependência não é amizade.
Companheirismo não é simbiose.
Resolva suas coisas,
Eu sempre resolvi as minhas sozinha.

terça-feira, 31 de maio de 2022

Olhos de peixe morto

Meus olhos estão mudando de formato.
Constatei recentemente enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.
As partes laterais das pontas estão um pouco abaixadas, como se suportassem um pequeno peso. Isso juntado ao fato de que são afiados como duas lanças nas partes internas e que eu não tenho pálpebras como é comum nos olhos orientais me faz ficar com um aspecto de olhos baixos, de peixe morto.
Essa é apenas uma das coisas que constatei ter mudado em mim nos últimos tempos.
Tenho menos ânimo para provar que estou certa, discussões me dão uma ligeira vertigem. Momentos de alegria me trazem menos euforia e excessos me provocam menos excitação. Penso algumas vezes antes de reagir e analiso outras antes de sentir. A ordem das coisas se organiza automaticamente quando meu cérebro recebe informações do ambiente. É isso que é envelhecer?
Essa coisa dos olhos me deixou um pouco impressionada. Outras mudanças em meu rosto também foram verificadas. Está um pouco mais magro, mais fino. Um rosto um pouco mais austero do que algum tempo atrás.
Desde que li Dorian Gray há vários anos me pergunto se nossas almas são realmente refletidas em nosso rosto. Se as pequenas modificações - curvas irônicas eternizadas ao lado dos lábios, rugas de tensão fincadas no meio de nossa testa - se esses indícios de emoção alteram a nossa fisionomia - estampam nossa personalidade. Ou alma, como a chamei há pouco. No final é a mesma coisa.
Outro dia minha mãe me falou que um cirurgião plástico aconselha mulheres a usarem constantemente roupas estilo espartilho. A pressão contínua sobre o corpo modula sua estrutura. Isso é algo que eu não sabia, me deixou ligeiramente assombrada.
A pressão contínua sobre meu rosto também está alterando minha fisionomia, baixando meus olhos? Me pergunto. A pressão do que essas iris veem, ignoram ou absorvem. Refletem ou esvaziam. Isso também está me dando olhos de peixe morto?
Antes de sentar para escrever, eu pensei que seria mais divertido estudar. Isso também é uma mudança.
L comentou comigo uma vez que achava bonito quando mulheres tem olhos baixos, olheiras fundas. Olhos de peixe morto.

Foi apenas recentemente que eu percebi como os filósofos estão sempre falando sobre coisas simples. Vontade, segundo X.
Liberdade, segundo Y.
Estão todos tentando conceituar coisas diferentes sob o mesmo nome.
A linguagem está sempre tentando reduzir à logica o caos absoluto.
Eu estou tentando reduzir a palavras meus sentimentos.
Sentimentos são minhas percepções simplificadas sobre estímulos cuja natureza que desconheço.
Meus olhos de peixe morto? Só significam que eu preciso dormir mais mesmo.

terça-feira, 15 de março de 2022

O meu eu de ontem, o meu eu de hoje, o meu eu de amanhã

Eu costumava pensar, quando mais nova
Costumava afirmar, com um misto de orgulho e nostalgia:
"Eu sinto falta de tudo
Sinto saudade de tudo e todos
De todos os momentos de todas as pessoas".
Hoje isso me espanta.
Eu não sinto falta de nada
Eu quero eliminar todas as lembranças
Eu não quero mais nada no caminho, mais nada
Que segure meus pés à noite.
Que mantenha meus olhos abertos
No escuro do meu quarto.
Eu quero a liberdade do presente e do futuro
Eu quero um destacamento que é impossível
Para nós
Criaturas humanas
Seres históricos feitos de passado.
-

Há coisas que eu devo fazer.
Há coisas que eu não preciso fazer.
É um pouco mais difícil do que imaginava distinguir entre os dois grupos.
Eu tenho uma breve noção agora da importância da gestão do
Tempo.
Do peso de suas escolhas.
Eu preciso de calma que não tenho, de experiência que não tenho ainda para ver agora
O que vou saber depois
Tarde demais.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Reflexões familiares

Eu estive lendo o livro mais recente que minha mãe escreveu essa madrugada. É uma atividade difícil por vários motivos. Primeiro, é um mergulho no coração da minha mãe. Um lugar que sempre me surpreende e atormenta pela similitude absurda das imagens que oferece do meu próprio. Ler sobre suas noções de amor, lar e proteção me faz sentir um passo mais perto de compreendê-la - um empreendimento que cada vez mais parece ter muito a ver com compreender a mim mesma.
Mas outro motivo que me faz encerrar cada sessão de leitura com a garganta fechada e o rosto molhado são as menções ao meu avô. A forma como minha mãe descreve sua casa na infância, um porto seguro de proteção, brincadeiras e cumplicidade. Eu não sei até que ponto retrata o que viveu ou o que sua memória infantil lhe forneceu de informação. Mas seja qual for o caso, é uma lembrança que abre a ferida da ausência dessa noção na minha vida. A noção de um lar com um pai, ao menos quando eu era criança.

Meu pai. Figura da qual eu não falo, um meio enigma para a maior parte das pessoas que me conhece. Se nunca tive ou deixei de ter fica sempre um pouco ambíguo, já que não faz parte das minhas referências em conversas casuais, seja de forma positiva ou negativa. Não é proposital, eu simplesmente não lembro que tive pai no dia a dia. Mas o fato é que eu tive. Por 15 anos tive um pai em casa. Um pai que cozinhava às vezes, de vez em quando nos trazia presentes e ouvia boa música.
Todas essas lembranças incapazes de trazer a menor centelha de emoção e nostalgia pois são estruturalmente consumidas pela farsa que foi meu pai. Talvez por todo seu relacionamento conosco ter sido baseado em mentiras relacionadas aos postulados da nossa própria convivência: o horário de encerramento do trabalho às 22h, as viagens todo final de semana que faziam parte do trabalho, a eterna insuficiência financeira. Questões que eram tão características de quem era o meu pai de fato e como era o nosso convívio com ele: eram mentiras. Mentiras que até hoje me surpreendendo percebendo nas raras vezes que me lembro que tenho um pai. "Como por exemplo, ele tinha que ir todo final de semana viajar" comentei numa excepcional conversa sobre ele, ao que me responderam com ceticismo: "Só que claro que ele não viajava, não é". Eu ri. Claro que não. Um traço de convivência que eu me lembro desde criança. Foi apenas adolescente que entendi que o horário de trabalho não terminava às 22h.
Talvez por toda essa base estruturada em dubiedade, falsidade e realidade travestida, eu não sinta nenhuma emoção em relação aos momentos "bons". Como sentir saudade das chegadas dele de viagem, em que eu corria e pulava em seus braços após o final de semana de ansiedade, se nunca existiu viagem?
O mais interessante, porém, é perceber que nem quando eu estava sob o véu da mentira, naqueles anos, foram produzidas lembranças que suscitassem meu apego. Talvez por meu pai ser tão sinuoso, tão ardil, por entrar no meu quarto e perguntar entusiasmado sobre as histórias que eu escrevia - que eu descobriria depois que era só para irritar minha mãe. Talvez por tudo isso, pela falta inerente de sinceridade do seu carinho, eu nunca tenha me sentido apegada. Eu não choro pensando nele quando penso na ausência de uma figura paterna. Eu vivi com meu pai por 15 anos e ainda assim eu nunca tive a proteção e o cuidado de uma figura paterna. Sua proteção era ciúmes e seu cuidado era paranóia. O medo de que outros homens se aproximassem de suas filhas vinha unicamente do reconhecimento em todos os outros homens do tipo de homem que ele, por sua vez, era. A verdadeira proteção paterna, a que eu nunca tive em casa, essa sim me emociona, dessa sim eu sinto a ausência. Sinto especialmente quando eu leio o livro da minha mãe e a descrição desse lar protegido por um pai, o meu avô.
A emoção que eu nunca senti nem com a partida brusca do meu pai, eu sinto ao ler poucas páginas sobre a presença paternal do meu avô. Dele veio o mais próximo de referência paterna que eu pude sentir nessa vida. Quando minha mãe descreve sua expressão preocupada, suas brincadeiras pela casa, seu hábito de cochilar no chão, todas lembranças que fazem também parte de mim. Que eu gostaria de ter apreciado mais. É engraçado que eu só percebi após sua morte como eu amava meu avô. Os sonhos repetidos com ele, mesmo depois de tantos anos, o reconhecimento retroativo à sensação de proteção e tranquilidade que eu sentia em sua casa. Um lugar para ir.
Eu gostaria de tê-lo dito mais ou ao menos de naquele tempo, entender mais sobre o amor, pensar mais sobre o amor, entender como se manifesta, como se deve, obrigatoriamente, muni-lo de atenção e constância. Coisas que eu pareço ter aprendido muito recentemente e que diariamente me esforço para colocar em prática com as pessoas que eu amo. Essas coisas eu não fiz com meu avô, não o bastante. Não era madura o suficiente, não era atenta. Ele foi minha primeira e única grande perda até então nessa vida, uma perda com a qual eu aprendi que quando se ama alguém o amor nunca esmorece. O amor não acaba com a distância, ele continua perenemente molhando nossos olhos, de tempos em tempos, visitando nossos sonhos e nos fazendo sorrir. Eu agradeço ao meu avô por ter me dado a noção do sentimento de paternidade, de proteção. Eu invejo a experiência doméstica da infância da minha mãe. Mas essa é só uma experiência infantil. O verdadeiro significado de lar, construído de tal forma completamente a me fazer na maior parte do tempo esquecer que eu possuo essa lacuna, essa ausência paterna, se deu à partir da minha mãe. Minha mãe, a quem eu já fui começar a conhecer à partir da partida do meu pai. Que até adolescência eu achava que era chata, taciturna, impliquenta. Eu descobri ser engraçada, sincera, amorosa, alegre. À partir do momento em que pude finalmente conhecer minha mãe, nossa casa começou realmente a ser um lar, composto por mim, por ela e minha irmã. Essa lar eu consigo identificar com as descrições de seu livro, nesse lar reconheço um antro de proteção. Um lar fundado em confiança, verdade, amor e cuidado.
Foi tardiamente, porém, que isso veio e que pude conhecer, de fato, minha mãe. O peso que esse conhecimento tardio teve nela, o período sendo alguém que não ela mesma, todas essas são experiências terríveis que precisou passar, vivências que eu constantemente tento entender e ponderar como forma de compreendê-la, amá-la como ela precisa ser amada e não repetir comportamentos que emulem esse passado. Constantemente eu falho nessa empreitada e em outras vezes me vejo remoendo essas falhas. É um ciclo de pensamentos muito longo e atormentado, no qual coexistem tentativa de compreender, obter respostas, e entender o que fazer com elas: Qual é a melhor forma de agir, de amar? Qual é a melhor forma de contribuir para a felicidade das pessoas amadas?
Todos esses pensamentos fazem com que eu acabe me tornando uma pessoa muitas vezes pesada, tensa, austera. Muito atenta, atenta demais. Tensa demais, com muito medo de errar e muita dor em frente à rejeição de minhas tentativas. O contrário do que uma convivência leve precisa. Encontrar esse equilíbrio também é um desafio. Só tem desafios, ao que parece, quando nos importamos com as pessoas.