Eu seguro em mim o impulso de escorrer desse sentimento.
Não seria bem sentimento o nome, talvez uma sensação, um mero descontrole.
Uma raiva ou impaciência, não importa o nome escolhido.
Ele é o estouro de tudo que estou reprimindo. É a explosão da matéria sufocada.
Frustração.
Situações práticas, reais, não imaginárias me perturbam essa noite.
Situações que exigem de mim uma resposta, uma resolução, calma.
Mas eu me sinto cansada e inconstante, me sinto sufocada e exasperada. Crítica e ácida, até mesmo malvada.
Culpo todos ao meu redor pelos infortúnios que me têm acometido. Culpo a mim por culpá-los, pelo meu descontrole sobre as situações. E me ressinto da minha falta de habilidade em olhar sob a perspectiva adequada a situação.
Me sinto usando um óculos manchado, sei que há uma imagem clara adiante, mas não consigo ver. Me sinto amarrada, presa. Por um sentimento que me esgota e tira o ar.
Estou cansada, doente, triste e arrependida. E tudo isso me torna incapaz de agir da forma como desejarei que tivesse agido daqui a um tempo.
Como se não bastasse culpar meu eu do presente e me ressentir do meu eu do passado, ora essa, ainda preciso temer o julgamento do meu eu do futuro.
Estou precisando de umas férias de mim. Essa é a única conclusão lógica dessa noite.
No afã de resolver tudo, concluo meus pensamentos desejando ser uma pedra.
Ou sumir.
É um pensamento perigoso então o afasto.
Gostaria de me divertir sem correntes apenas por uma tarde.
Mas a diversão vem seguida de culpa pela diversão que eu não pude proporcionar aos outros.
E no final, julgamento e escárnio porque eu devo me achar muito boa por ter todos esses pensamentos, não é?
Minha mera sequência de auto julgamentos me exaspera a um ponto que eu me pergunto como, por céus, as pessoas andam ao meu lado ainda.
Mas talvez eu seja boa em dissimular ou quem sabe incite pena.
Minha nossa.
Hoje não é uma noite boa.
domingo, 20 de novembro de 2022
terça-feira, 8 de novembro de 2022
"O meu de ontem, o meu de hoje, o meu de amanhã" - V.2.
"Todas as coisas encontram seu antídoto no acúmulo de experiências e tempo"
Abri os olhos lentamente. Inesperadamente.
Eu não morri, constato.
Observando silenciosamente de dentro do corpo em que habito.
Ela estava fazendo algo casual, procurando documentos, se estressando. O de sempre.
Está sempre procurando documentos quando algo estranho acontece.
Abri os olhos, dessa vez minha sonolência foi longa.
Observo aquela lembrança, aquele gatilho, diriam hoje em dia, que me acorda.
Foi uma folha de agenda de uma amiga do passado. Algo que veio a mim, eu não procurei.
Vi uma assinatura antiga, algo tão familiar quanto alienígena. O suficiente para me despertar. A familiar alienígena que habita nela. Eu.
Não saberia dizer qual de nós é a real, principalmente em momentos de ruptura assim, em que ambas parecemos deslocar-se uma da outra, como um espectro de um corpo. Uma verdadeira dissociação.
Mas eu, percebo, mais que tudo talvez seja só um sentimento.
Um sentimento seu, um pedaço. Um pedaço do passado que não morreu e não morrerá.
"Tem um milhão de eus dentro de mim", uma música tão recente, tão dela, mas que na verdade fala sobre mim porque é verdade, eu ainda estou aqui, eu ainda estou dentro dela.
Eu ainda sou seu olhar afiado e mordaz na escuridão, inconstante e cética. Escorradia e sarcástica. Eu ainda sou sua juventude amordaçada. Acalmada, tranquilizada, como é que dizem? Maturidade. Sim, é o nome que dão.
Depois de acostumar-se com a calmaria, com a paz. De cansar-se. De acostumar-se com o carinho e a constância, a estabilidade e o costume. Ainda assim, surpreendentemente, hoje eu acordei. Devo dormir de novo, em breve. Cada vez eu durmo mais. Me pergunto se um dia eu não vou acordar. A parte dela inquieta, que lhe causava temor, que escreveu a maior parte de seus textos. A parte raposa.
Eu me pergunto se todas aquelas almas angustiadas do passado ainda se sentem assim de vez em quando.
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