Ela estava sentada, sobre as próprias pernas.
Longas e pálidas, pernas magras.
Claras como um vidro, transparentes como a chuva.
Seus olhos escorriam como mel, tocando o chão, pingando um doce
enjoado, manjado, escorrido e estrelado.
Ela devia ter uns 13 anos, em idade de estrelas.
Tinha nas mãos uns emaranhados. Uns fios incompreensíveis, de destinos
que já cruzou.
Eles perdiam-se em algum momento, todos eles, saiam de seu alcance. A
maioria prateados, alguns pouquíssimos vermelhos. Com o tempo, às vezes,
mudavam de cor.
Do lado esquerdo tinha uma sacola grande, cheia de coisas que lhe
deram. Cada um de seus amores:
Palavras, palavras, palavras.
-Eles falam muito.
Ela disse para si mesma, com sua voz de cristal, translúcida e incompreensível.
Tinha um grande montinho delas.
Palavras bonitas, articuladas. Muitas do tipo que menos gostava:
Promessas.
Elas vinham em cestas com flores, com doces: Com todo o tipo de coisas
que apodreciam com o tempo.
Eram das iguarias mais refinadas: Produtos com prazo de validade.
Enquanto serviam, eram deliciosas. Quando expiravam, apenas memórias velhas.
Ela separou as promessas ao seu lado, à esquerda de quem vem.
Com as linhas fez uma cortina, um bizarro trançado de lembranças. De
fantasmas.
Dentro de uma caixinha de veludo, no entanto, deu uma olhada mais
delicada. Até impediu que o mel a tocasse: Era a caixinha de corações.
Quem a olhasse de longe, o que diria? Envolta naquela penumbra escura e
fria, menina de vidro devoradora de corações.
Mas as pessoas eram hipócritas, eram todas umas farsantes. Enfiaram
vidrinhos em suas pernas. Sangraram a cada visita a força e vitalidade delas.
Arrancaram o mel forçado de seus olhos, e enfraqueceram suas costelas. A cada
visita delas.
Como esmola, deixaram, cada uma, de lembrança, seu coração.
Mas aqueles, ela dizia, abrindo a caixinha,
Eram corações descartáveis.
Que cresciam de novo, assim que davam dez passos.
Ainda não tinha provado, mas imaginava que quando o fizesse,
É quase certo que os vomitasse.