Esse é
longo: Tome fôlego ou vá para outro.
Quando eu digo que nossa realidade atual faz eu me sentir emocionalmente doente, acho que devo ao menos uma explicação. Veja bem... Eu me sinto literalmente absorta com a natural normalidade com a qual a maioria de nós acorda e passa seus dias em atividades habituais sem sentir ao menos uma centelha pulsante de repulsa pela situação robótica em que nos enquadramos.
Não, eu não estou falando do "Sistema", não especificamente, embora esteja intimamente atrelado à essência do "problema". Estudar, se esforçar e trabalhar, a meu ver, são precisos para quem pretende viver nessa formação social atual - o troco e a moeda - não vejo nenhum problema nisso. É uma questão de pesos e medidas, um contrato de compra e venda que firmamos (ou melhor que FIRMARAM por nós) em algum momento aí perdido no tempo. A formação teórica do Estado de Direito é linda, é simplesmente linda, sinto-me até emocionada em falar nela - sinceramente. Mas não. Definitivamente não é esse o problema.
Não parece estranho que ao passo que nossas Leis mais do que em qualquer momento na história ditam sobre liberdade, dignidade, segurança e igualdade - amoldando todos seus dispostivos para tentar alcançar estes objetivos - o nosso povo encontra-se mais e mais ausente da realidade por trás disso?
Realidade... Esse certamente é um conceito engraçado de ser discutido na atual formação de "VERDADES " múltiplas em que nós vivemos. Nosso jovem, nós, somos todos donos da verdade. Empenhar a verdade, a revolta e o sarcasmo sobre questões que sequer compreendemos, que absorvemos muito pouco através de meios eletrônicos, parece ter tornado-se a bandeira da nova geração.
O desuso da subjetividade, meus caros, é alarmante. O desuso da subjetividade é literalmente preocupante. Eu, diariamente, me sinto extremamente assustada em diversos momentos pela averiguação da quase cômica semelhança que nossos semelhantes porventura apresentam com robôs.
Sabe por que? porque o grito de guerra nunca foi tão alto. O jovem nunca clamou tanto por justiça como clama hoje em dia...NO FACEBOOK. Ele clama por algo que ele não entende, ele clama por algo que ele não idealizou, ele clama pois seu inconsciente coletivo o diz que é isso que deve fazer, porque ele viu na internet, porque um professor apresentou essa visão, porque ele OUVIU, não porque ele pensou. E olha que aí eu estou falando do jovem que ao menos digna-se em pseudo importar-se com isso.
No entanto, meus bens, eu sinto extremamente falta de pessoas que tenham chegado a essa conclusão por si mesmas. Eu sinto saudade do desenvolvimento mental, da elaboraçao de ideias que (eu prefiro acreditar que) existia outrora. Porque do jeito que as coisas estão, as ideias parecem vitrines vazias exibindo filmes antigos, repassando as mesmas histórias. Mas nisso tudo... onde estão as ideias novas? Onde está o pensamento além? Onde está aquilo que demonstra que ainda podemos pensar por nós mesmos, fazer SURGIR origem, não só ser espelho?
O grito de justiça que ecoa (em silêncio) é nulo, portanto. É inócuo. Sua existência é um elogio ao ridículo.
Me deprime como hoje em dia o jovem pensante é marginalizado, me deprime esta consciência pseudo-evoluída de que não adiante pensar, de que isso é hipocrisia, de que o "correto é ser sincero em relação a seu papel nulo no mundo", que o certo é se render.
Me DEPRIME que hoje em dia diz-se em alto em bom som, alegue-se, orgulhe-se:
"Eu sei que tais coisas são importantes, mas eu tenho preguiça ideológica."
É preocupante o alcance tenebroso que essa PREGUIÇA IDEOLÓGICA provocou no nosso jovem, na nossa vida, nessa preciosa dádiva da qual só dispomos aqui e agora e que graças a esta doença, está sendo desperdiçada em sua vertente mas transcedental, em sua vertente PENSANTE.
...
A culpa? A culpa não é nossa. A culpa não é dessa geração, não, não é.
A culpa é de uma tragédia friamente arquitetada por criaturas degradantes e degradadas em prol de seus próprios fins.
Calma, não estou falando de alienígenas e sim de algo bem pior chamado nossa própria raça humana. O VAZIO ideológico que se instaurou soberano sobre nossas cabeças, alimentado pela preguiça a qual fomos acostumados desde pequenininhos por cores brilhantes e inutilidades necessárias é arquitetura fantástica (no sentido literal da coisa) imposta com intuito de supressão de nossa capacidade cognitiva, de nossa capacidade de questionar, de gerar, de crescer?
Palmas, governantes. Realmente foi um trabalho de mestre.
Cabe aqui esclarecer que me refiro a um instante específico na história, precisamente (sendo até precisa demais, talvez) ao momento histórico onde houve o que gosto de chamar de O grande crime. Ocorre, meus caros, que houve um momento em nosso país, aqui mesmo, no Querido Brasil, onde a intelectualidade, artes e cultura estavam desenvolvendo-se como nunca. O jovem era militante porque o jovem estava revoltado com o que se opunha ao dever ser. O jovem sentia fervilhar a chama de fazer justiça e não só buscava distrair-se pois seu seriado favorito estava em hiatus.
A chama da razão começava a apontar para a capacidade humana, começava a dizer: "Ei, meu caro. Você pode fazer isso."
Houve isso e então houve a tragédia. Um genocídio mental e intelectual imposto pelo regime do terror que CONDICIONOU a massa social à simples, pura e PERIGOSÍSSIMA ideia de que é perigoso pensar.
E isso mudou tudo.
Até hoje.
Pois a partir daí passaram a nos mudar e moldar desde a raiz, desde nossa primeira ida à escola, desde o discurso e sistema a que somos academicamente e escolarmente submetidos, desde os comerciais que assistimos na TV em nosso tempo livre, desde a impossibilidade de adquirirmos livros e a memória histórica que nossos ascendentes nos transmitem mesmo que inconscientemente. Desde todo o jorro infindável de necessidades falsas que nos são apresentadas como verdadeiras, muitas vezes fruto de real e intensivo estudo mental, o que, meus caros!, é extremamente assustador.
Então não. Não podemos ser responsabilizados (ao menos integralmente) por este quadro. Por este crime.
...
Eu lamento do fundo do meu coração o que aconteceu com o nosso país e acredito que vocês (vocês? alguém aguentou até o fim desse texto maçante?) sabem exatamente do que eu estou falando quando me refiro a todo esse processo histórico.
Se bem que... Eu também não sei se foi bem assim, como posso saber? Mas espero que tenha sido. Porque por mais trágico que possa parecer este ceifamento, me parece mais trágico ainda pensar que tudo sempre foi assim, como apresenta-se hoje.
E pensar que já houve algum dia essa erupção intelectual torna possível obter esperança de alcançá-la novamente, por mais que pareçamos estar caminhando em direção ao seu extremo oposto: O maior inimigo do caminho à obtenção de um conhecimento é a falsa ideia de já se o possui.
É isso.
Hoje eu vou fazer algo muito atípico de mim e pedir, pela primeira vez desde que criei este blog, que quem ler este texto, comente. Por favor, acrescente sua ideia a essa ideia. Estou curiosa.
Um abraço.
(F)