domingo, 29 de dezembro de 2013

Ao final de todas as contas, faz-se com elas um colar?

Hoje é 2013, ainda por alguns dias.
Há tempos eu não sinto mais ânsia de escrever e há anos venho dizendo que estou envelhecendo por dentro. Minha amargura injustificada tem me aborrecido bastante, de modo que é um difícil convívio aqui nesta casa que sou eu, onde tenho que residir comigo mesma. Há anos atrás ser cética era uma intenção, quase que uma proteção. Hoje em dia é uma prisão, meu ceticismo desencanta tudo ao meu redor. Eu estava pensando que preciso passar a ver prazer nas coisas mais simples, de um jeito que não seja forçado. Mas é difícil fazer qualquer coisa quando à minha frente, já tenho dado 10 passos e estou olhando para mim mesma, com desdém. Talvez um psicólogo me ajudasse nisso, mas é muito improvável porque meu ceticismo desconstruiria qualquer abertura para que eu pudesse ser ajudada. O que eu preciso, mesmo, é que me derrubem um pouco. É ser desconstruída, desestabilizada. Daqui de onde me sentei, tudo parece repetitivo e entediante. É exatamente nisso que consiste minha arrogância. "Tudo é só uma versão de outra coisa". Minha auto-crítica me consome diariamente, e torna minha crítica com os demais exacerbada. Eu procuro perfeição em um nível absurdo e extremo e torno assim algoz de mim mesma e daqueles que me amam.
Eu sempre tive a teoria tão bem posta, não acham?
Eu sempre falei coisas bonitas sobre amor, convívio, aceitação e relacionamentos. Na minha cabeça, tudo faz muito sentido. Na minha pele, no entanto, essas coisas queimam. Dizem que aqueles com os discursos mais incisivos são os mais ferrados, não é? Desculpe, tenho que concordar.
Eu tendo a fazer um balanço negativo do que já aconteceu até aqui, como se 21 anos fossem 81. Mas eu sei que estou só entrando no mesmo ciclo de autocrítica. Dizem que o primeiro passo para superar um problema é reconhecê-lo, mas não se escuta muito sobre qual é o segundo passo.
Eu gostaria de dizer que não sei mais escrever, que perdi minha intensidade. Mas isso é uma desculpa muito confortável para me jogar no marasmo autodestrutivo da autocrítica e omissão. Ou no caso, de continuar nele. Vejam os textos desse blog. Há quanto tempo repito isso?
Talvez por hoje eu me force a me esforçar um pouco. Talvez eu não aceite o fato de ser uma velha cansada de 21 anos. Talvez eu reconheça que isso é preguiça de viver, é acomodação. Uma versão mais light e covarde de uma depressão. Talvez eu me liberte um pouco dessa persona que eu criei para justificar minha falta de ação em procurar mudanças em mim mesma. Talvez eu me esforce para criticar menos, julgar menos, me julgar menos.
Talvez, talvez, eu comece a tentar.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Origami II

Ela dançava descoordenada, em cima de uma navalha. Era difícil orientar-se na paixão.
Agachou-se em sua frente, tirou seus óculos, mordeu seu lábio. Ele a deixava livre, louca, com esse sorriso de quem sente prazer no vento.
"Tudo pode ser, nada vai te acontecer."
Queria bebê-lo como quem bebe um vinho bom, não, queria bebê-lo como quem bebe cachaça.
Queria-lhe descendo pela garganta, arranhando e dando tontura. Queria-lhe ao mesmo tempo como uma água doce em um dia quente. Queria-lhe em maneiras controversas, em todas as que existiam. Queria seu olhar mais tranquilo e também o mais sombrio. Como um pânico, um delírio, uma música amada; Um homem, um menino.
Amara-lhe com as entranhas. Com forças estranhas, que ele lhe inspirava - Amava, e sem saber direito o significado dessa palavra, com suas ações, a explicava.
Desdobrava-lhe as camadas, dobrava-lhe os lados, três-quartos, por cima, por baixo, até formar-lhe o origami.
"Me ame"
Era o resultado da obra. A figura de um lobo, de um coringa, de um rapaz bom ou de um traquina? Cada lado do papel, ao dobrar-se, derrubava um véu. Ele era muitos, cada um num dia, com uma energia, dependendo da sintonia...
Ao mesmo tempo, era o mesmo.
E era a ele que ela amava.

"The darkness. It has me."

A escuridão em mim, me é.
Eu sinto muito, mas não sinto nada.
Vejo uma estranha no espelho,
uma inimiga.
Meu rosto não acompanha os anos,
como uma criança demoníaca.
Aqui dentro tudo apodrece.
Como podes amar algo sem alma?
Só não cometo atrocidades por causa de minha educação.
Mas viveria em crime, numa terra de liberdade.

Olhe nos fundos dos meus olhos
O que você vê?
A escuridão tem olhos puxados,
implacáveis e cansados.

Seria eu uma psicopata?
Sendo a dor um caminho tão prazeroso...
Ser feliz me parece uma enganação passageira,
O amor doce me ameaça lentamente.
Estou tendo problemas de identificação.
Seria minha mente em outra enganação?
Realmente parece estar tudo bem?

Veja bem,
eu nunca serei capaz de dizer "amém".