sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

I'm not your superego

Faca afiada
Palavra navalha
Saudade de coisas reais
Gato escaldado
Bicho do mato
Eu gosto da sua risada
Quando você cozinha na sala
Canta de calcinha, descalça
Me dá duas sensações a mais
Quando você me dá a vida
Em repetidas doses líquidas de alegria
A confiança que me dá
Gato escaldado que não aguenta mais
Navalha seca e ácida
Na minha carne fraca
Sangra mais, que eu rio suor e lágrima
Rio teu curtir solto de fada
Curto duas ou três fileiras de paz
Me dá as coisas reais
Embrulhadas em lembranças demais
Doídas de mais
Sozinhas demais.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Método científico

Tomei um vinho para entrar no personagem
Hoje fez um clima de chuva que não fazia desde 2012
Eu acumulei um monte de coisas de lá para cá em minha bolsa:
Acumulei tudo o que roubei de mim mesma,
enquanto forçava cada vez mais a resistência da minha pureza.
Acumulei o resultado de todas minhas hipóteses negadas, minhas facas desafiadas, minhas armas enferrujadas.
Acumulei o que de algumas pessoas peguei - Que foi pouco mais que nada, porque bem menos trouxe do que deixei, por isso talvez hoje me sinta pouco lírica, pouco vazia, pouco.

Eu tomei um vinho amargo, que agora eu tomo em uma taça de vidro e não na imaginação.
Seu gosto me remete à noites frias e solitárias, música ambiente, praças joviais - bem longe aqui do sertão.
Me remete à coisas que vivi, que sorvi o gosto e comi. Até não significarem nada.
Papel fosco, risada seca engasgada.


Desde cedo eu soube,
Eu hipotetizei
Que nada teria sentido
Que ninguém seria meu rei
Mas agora sem nenhuma vitória
Posso dizer que provei


Nada importa nenhum pouco
Nada do que fiz, do que quis, do que sei.

Talvez fosse o caso de você procurar ajuda profissional

Às vezes eu me sinto tão triste que sinto um espaço vácuo pesando dentro de mim, se expandindo a medida que eu ando, falo, sorrio, faço minhas atividades. Quando eu me sento eu sinto que ele pesa e torna todo meu corpo muito pesado e tudo o que eu faço exige muito mais força do que o normal: falar, sorrir, me mexer, trabalhar. Quando me sinto assim, meu rosto fica um pouco dormente, como se eu tivesse passado muito tempo debaixo d'água, como se eu ainda estivesse lá. Parece que vai faltar ar a qualquer momento. Quando eu preciso ver pessoas, agir normalmente, conversar, essa tristeza fica em segundo plano guardada, quase como que observando o que eu faço, como uma visitante silenciosa. Ela fica em segundo plano à tudo o que eu faço e embora eu esteja pensando e fazendo outras coisas, estou absurdamente consciente dela todo o tempo. Quando eu não preciso sair e levá-la comigo nos ombros, e fico em casa, de pijamas, sem precisar olhar para ninguém, ela vira maior do que eu. Ela se senta em ambos os meus ombros e me abraça forte até pesar o suficiente para que eu precise me deitar porque não consigo carregá-la, preciso fechar os olhos porque ela me pesa as pálpebras. - Existem momentos nos quais eu sou viciada, nos quais eu esqueço essa tristeza. São momentos nos quais eu me sinto livre, leve e radiante. Mas na maioria deles Eu estou terrivelmente cansada De me sentir responsável pela felicidade de todo mundo E culpada por suas tristezas Uma carga que eu carrego Sem que ninguém tenha me pedido.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Velha cadência repetida

Me dê elementos literários, usados e esmagados em repetições enfadonhas.
E daí quem sabe eu possa esconder minhas perversidades - Em arte - instrumentalizar o que me convém;
Reinventar à vontade.
Tatuar
Nas marcas gentis e meninas feitas à ferro e fogo pelas minhas unhas felinas -
Os últimos resquícios de sinceridade.
Meu multiverso de esquizofrênicas realidades.

Eu hesito, não nego.
Não possuo mais a impulsividade de outros tempos.
Eu sorrio, lamento.
Meu ritmo se quebra em duas cadências de versos lentos.

No final da noite, reúno nada mais do que poucos elementos na minha memória seletiva:
Uma noite quente, a rua central iluminada, um sorriso quebrado, o espelho sujo, um velho quadro.
A mediocridade pincelada com minha própria interpretação pessoal de uma memória - Uma gargalhada ou um abuso.

Isso me basta, por agora.

Verdade seja dita, minha veia perversa se contenta com suas lágrimas no assoalho.
Ver aquela lembrança insistente, ser um pesadelo suado. A ideia de mim circulando pacientemente na sua mente me agrada muito mais do que o seu corpo no meu quarto.

Talvez tenha sido sempre assim ou eu tenha visto filmes demais. A verdade é que desde os dezesseis é mais ou menos a mesma coisa que ma apraz. 

A paz? É legal, tanto faz. Mas para uma boa história - ou sequer um texto enganchado depois de tanta hesitação - é necessário um gole de memórias, a velha centelha de caos e o destemor da destruição.