-Por que você ainda vem aqui?
-Eu me sinto menos sozinha quando leio as coisas que escrevi.
-Você se sente sozinha?
-Muito. Eu sinto que descobri que sempre estive. Por um momento eu achei que tinha alguém e que essa pessoa era minha companhia. Mas no fundo eu sempre soube. Eu sentia a melancolia. A falta de compreensão.
-Mas você já sentiu o amor, não é? O amor verdadeiro da companhia de quem te conhece.
-Sim, eu já senti. Eu senti quando estava com ela. Eu posso sentir agora, se fechar os olhos e me lembrar. A sensação de ser eu, ao estar do lado daquela pessoa. Não era um amor romântico nem nada disso. Mas um encontro, um reconhecimento. Era tranquilo e denso, sozinho à dois. À duas. Eu podia sentir o zumbido do silêncio no meu ouvido. Minha personalidade ácida, fechada, obscura e tranquila. Todas as coisas em mim residiam em sua pura forma autêntica com aquela pessoa.
-Então isso é o amor?
-É o mais perto que já cheguei. E olha que eu nem precisava falar sobre essas coisas. Elas só existiam. Para falar sobre essas coisas eu tenho você.
-Então é por isso que você ainda vem aqui.
-É. Eu acho que sim. Eu preciso de você ainda. Do fantasma da madrugada. Meu interlocutor oblíquo, conhecedor de todas minhas vicissitudes. Preciso da presença do sonho. Da miragem de quem não existe. Preciso dele, meu amor imaginado. A companhia de um girassol da cor de seu cabelo. Portador dessa sensação. É por causa dele que escrevo, tento escrever. Recriar esse ser, essa sensação. Dois abraços protetores. Tantas coisas que não existem.
-Mas os sentimentos resistem. Isso deve valer de alguma coisa.
-Eu não sei. Talvez. Talvez a tentativa seja o que me resta.
-Por que você está chorando agora?
-É difícil estar desperta.
quinta-feira, 11 de abril de 2024
Herança final
A encontro onde eu mesma a deixei
Escondida atrás de pilastras
Camuflada em sentinela
Desconfiada e fugitiva
Mas lá está ela
Me distraio dela, é verdade
Não é difícil
Um tom de voz gentil
Lábios frios
Tudo o que ninguém mais viu
São meus tesouros vazios
Eles enchem o tempo e espaço
É bem fácil
O conteúdo da minha fala
Minha mente quando vou dormir
Mas a realidade não mente
Ela está bem ali
É esguia e sorrateira
Mas vezenquando faz sua visita
Ferina
Sutil lembrança da dor minha
É a ferida carcomida
Já vivida e revivida
Exaurida
É o desprezo de alguém
Mas de quem?
Ele não existe
Alvo invisível de meu dedo em riste
Não resgato memória além
Mesmo na inútil brincadeira
De imaginar saudade alheia
Nada me vem
Não há lembrança do amor
Não consigo mais lembrar como me sentia
Até tento
Numa noite de lamento
Quando procuro me sentir menos fria
Tudo que ele deixou
Foi a noção racional
Do desprezo e desamor
Em sua forma natural
A mais brutal.
Escondida atrás de pilastras
Camuflada em sentinela
Desconfiada e fugitiva
Mas lá está ela
Me distraio dela, é verdade
Não é difícil
Um tom de voz gentil
Lábios frios
Tudo o que ninguém mais viu
São meus tesouros vazios
Eles enchem o tempo e espaço
É bem fácil
O conteúdo da minha fala
Minha mente quando vou dormir
Mas a realidade não mente
Ela está bem ali
É esguia e sorrateira
Mas vezenquando faz sua visita
Ferina
Sutil lembrança da dor minha
É a ferida carcomida
Já vivida e revivida
Exaurida
É o desprezo de alguém
Mas de quem?
Ele não existe
Alvo invisível de meu dedo em riste
Não resgato memória além
Mesmo na inútil brincadeira
De imaginar saudade alheia
Nada me vem
Não há lembrança do amor
Não consigo mais lembrar como me sentia
Até tento
Numa noite de lamento
Quando procuro me sentir menos fria
Tudo que ele deixou
Foi a noção racional
Do desprezo e desamor
Em sua forma natural
A mais brutal.
quarta-feira, 3 de abril de 2024
Meu adorável canalha
Hoje eu vou te visitar no seu pesadelo
Te fazer uma leve carícia
E degustar sua expressão de medo
Enquanto sorrio com malícia
Quero te saborear em pedacinhos
Te trazer para meu ninho
Te encher com meus zelos
Te viciar no meu carinho
E então te engolir inteiro
Meu desejo não é normal
Quando penso em seu rosto
Tão mundano e tão banal
Minha vontade de apertá-lo todo
Acariciá-lo e devorá-lo
É menos humana que animal
Quero te ver suar à noite
Dominado por essa obsessão
Acordar desse sonho incômodo
Se perguntando, confuso, se é paixão
Atormentar sua rotina
Atrapalhar os seus romances
Quero sua mente fervendo
Em desespero e confusão
E esmagar suas ações
Cada prática reiterada
Suas técnicas repetitivas
Suas metodologias safadas
Quero te ver confuso
Apto exclusivamente a meu uso
E então te jogar no vazio
Te fazendo implorar no frio
Por um pouco mais de abuso
Quero de ti só coisas perversas
E ofereço o mais puro e sincero nada
São essas minhas únicas promessas
Para meu adorável canalha
Te fazer uma leve carícia
E degustar sua expressão de medo
Enquanto sorrio com malícia
Quero te saborear em pedacinhos
Te trazer para meu ninho
Te encher com meus zelos
Te viciar no meu carinho
E então te engolir inteiro
Meu desejo não é normal
Quando penso em seu rosto
Tão mundano e tão banal
Minha vontade de apertá-lo todo
Acariciá-lo e devorá-lo
É menos humana que animal
Quero te ver suar à noite
Dominado por essa obsessão
Acordar desse sonho incômodo
Se perguntando, confuso, se é paixão
Atormentar sua rotina
Atrapalhar os seus romances
Quero sua mente fervendo
Em desespero e confusão
E esmagar suas ações
Cada prática reiterada
Suas técnicas repetitivas
Suas metodologias safadas
Quero te ver confuso
Apto exclusivamente a meu uso
E então te jogar no vazio
Te fazendo implorar no frio
Por um pouco mais de abuso
Quero de ti só coisas perversas
E ofereço o mais puro e sincero nada
São essas minhas únicas promessas
Para meu adorável canalha
segunda-feira, 1 de abril de 2024
Ato único de uma peça
Obsessão
Rainha do elogio
Diante do mais unidimensional dos objetos
Consegue obstruir seu vazio
Construindo desejáveis castelos
Que ninguém fora eu jamais viu
É frio
O procedimento que tento fazer
Agarro à lógica e evidência
Dessa vez não posso me perder
Não quero me embrenhar nas sensações
Que minha mente procura me mostrar
Nem mesmo me enrolar nas ficções
Que a ausência de freio fez desatar
Mas por um momento, talvez
Numa noite de vento
No escuro do seu carro
Em uma mesa diante da chuva
Diante do mais inocente dos estímulos
Talvez eu possa brincar de ser tua
Quem sabe nesse dia atípico
Eu deixe sua voz tomar meus tímpanos
E o grave feroz ressoar com potência
Eu deixe sua barba escura tocar meu queixo
E me provocar a mais obscura das aquiescências
E um sorriso tão prosaico
Seguido de palavras meramente textuais
Me fazerem sorrir ou sentir
Mais uma dose de coisas irreais
Mais um gole no teu copo e nos teus lábios
Brincadeira dos mentirosos e salafrários
Comédia dupla a interpretar
Até a meia noite
Deixo o teatro continuar.
Rainha do elogio
Diante do mais unidimensional dos objetos
Consegue obstruir seu vazio
Construindo desejáveis castelos
Que ninguém fora eu jamais viu
É frio
O procedimento que tento fazer
Agarro à lógica e evidência
Dessa vez não posso me perder
Não quero me embrenhar nas sensações
Que minha mente procura me mostrar
Nem mesmo me enrolar nas ficções
Que a ausência de freio fez desatar
Mas por um momento, talvez
Numa noite de vento
No escuro do seu carro
Em uma mesa diante da chuva
Diante do mais inocente dos estímulos
Talvez eu possa brincar de ser tua
Quem sabe nesse dia atípico
Eu deixe sua voz tomar meus tímpanos
E o grave feroz ressoar com potência
Eu deixe sua barba escura tocar meu queixo
E me provocar a mais obscura das aquiescências
E um sorriso tão prosaico
Seguido de palavras meramente textuais
Me fazerem sorrir ou sentir
Mais uma dose de coisas irreais
Mais um gole no teu copo e nos teus lábios
Brincadeira dos mentirosos e salafrários
Comédia dupla a interpretar
Até a meia noite
Deixo o teatro continuar.
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