Entramos no seu quarto cheio de dúbias intenções e o resultado óbvio a nos encarar. Você disfarça, sorri, abre espaço. Vejo em seus movimentos uma fórmula pré-calculada, com o tempo aperfeiçoada e já muito utilizada. Me abarca com os braços, numa demonstração de carinho absolutamente inócua a mim. Danço: - Eu sempre danço.- Te abraço e sorrio, digo palavras doces, transmito calor no olhar. A verdade, meu caro (leitor), é que procuro. Procuro nas minhas mentiras alguma ponta de verdade. E para isso enalteço-as. Para isso, enlargueço-as! Digo palavras de amor, uma mais seca que a outra. Talvez eu entenda os homens naquilo que tanto são criticados, no final das contas.
E observo sorrindo quando você deixa seu ego inflar, sua expressão aguçar-se como um caçador. Mal sabe que não há caçada ali, mal sabe que não há nada a conseguir! De dentro de mim, saio e sento na sua cadeira velha de balanço, observando aqueles dois estranhos. Coloco a mão no queixo e como quem programa um servidor, calculo os movimentos da minha marionete.
Ela beija, ela grita, ela rosna, ela excita. Ela certamente é uma figura, essa menina.
Mas observo isso com olhos entediados, com olhos condescendentes. Observo com tédio, para ser bem sincera. O modo como você se desmancha nas mãos dela apenas abate minhas expectativas. Tão carnal é a nossa carne. Tão insignificante!
De todo modo o resultado meramente empírico foi coletado. Volto a ela, me sentindo somente um pouquinho estuprada por minha própria personalidade caprichosa e doentia; E me afasto no segundo em que você começa a transmitir aquele olhar de afeto escrachado: Olha para mim e faz menção de palavras. Faz menção de gestos, faz menção de promessas. E a cada passo dessa sua dança repulsiva, o encaro mais alienígena. Encaro completamente absorta de quão alienado você pode ser da verdade!
Me olha, porém. E constato, com este crescente enfado, seu latente sentimento. Se soubesses o quanto te odeio nesse momento, me temeria. Mesmo sendo eu um corpo tão frágil ante o teu, um rosto tão doce e uma voz tão calma, eu garanto, meu amigo, temeria.
Espero que vire para o lado e conto os minutos. É abril e estou me sentindo generosa então numa breve contenção de danos, parto em silêncio, decidindo fazer à sua sanidade um favor - e jamais me ver novamente na vida.
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(P.s: Minha gente, alguém conhece algum site bom de imagens? Ultimamente só tenho conseguido umas bem ruinzinhas para ilustrar meus contos. Sugestões, me mandem por comentários, por favor? Grata!)

