Eu não vou mentir, é claro que foi um choque.
Muito embora o tempo, o espaço, e as modificações naturais que ocorrem à matéria abstrata, colidiu a mim como um acidente a imagem de você e ela.
Então era essa, ela. - Minha curiosidade instintiva de mulher aguçou, procurando na primeira visão os defeitos visíveis mais evidentes. Você sorriu, me abraçou. Não estava prestando muita atenção na sua
reação, mas se não me engano a senti estrangeira. Estava constrangido. Quase como se tivesse sido pego no flagra. Irônico, no mínimo. Não acha?
Eu senti minha expressão endurecer e a encarei com um sorriso seco. O corpo dela se comprimiu um pouco, involuntariamente? Sua energia era fraca e, eu percebia agora, inteiramente atrelada à sua. Deprimente.
Você, como sempre, um predador. E sua presença englobava a dela quase que num círculo perfeito. Permissiva do início ao fim desde a postura até à frágil tentativa infrutífera de impôr-se à mim. Paciência, nada mais perfeito para sua personalidade dominante. Quase revirei os olhos.
Esperei que você fosse embora, se despedisse, como provavelmente reza o protocolo, mas nada. Ficou e desconversou. Eu não entendi, mas e daí, achei interessante. Queria vê-la. Queria vê-los. Minha obsessão me soou como um choque ainda maior que o anterior. Veja só!
Você, por motivos obscuros a mim e provavelmente à ela, nos orquestrou, como diapasão:
-Vamos todos tomar um café, pois não?
E a tríade indecente em seu elogio ao absurdo prolongou:
Você a olha com amor.
Desculpa a escolha óbvia de palavras, mas nada mais convém.
Ela interpreta como numa dança, boneca móvel de porcelana,
Ainda se amolda à tua ânsia. - Natural.
Nós não poderíamos ser mais diferentes. Ela com seu ar de donzela inconsequente. Na verdade imita teus passos e repete teus desatinos.
Me lembro de criticar tuas verdades e entender teus erros, me lembro de muitas coisas, na verdade, enquanto esqueço de nossa conversa, diluída no fundo da xícara de café.
-Ei, está aí? - Você pergunta, a mão em frente ao meu rosto.
-Ah, desculpa. - Tomo um gole do café. Minha mão toca a aba da xícara enquanto a sua segura o ombro dela num movimento inequívoco. Inconsciente.
Percebo o quão estão inconscientes da simbiose. "-Fala sério, é dose."
-Você parece meio distraída.
-Apenas pensando na vida.
E sorrimos ao mesmo tempo como que numa interna rima.
Ela não disfarça, se contorce toda. Bonequinha frágil, sua rima é falha e rota.
E me surpreendo com meu próprio pensamento de mulher traída.
Mas traição jamais houve, ao menos não nessa ordem dos fatores e quando retorno à órbita, o olhar de vocês combina.
-Sim, falem mais sobre a viagem.
Você fala, sempre você, nunca ela. Ela observa e procura entre nós reservas, mas veja só, não encontra.
Mantenho o olhar de um para o outro. A disciplina sempre foi meu esporte tosco e a manejo com distância e diplomacia.
Seu olhar não passa mais que alguns segundos longe dela e reconheço, com aquele ressentimento em sequela, essa fascinação que o domina. Você nunca foi bom em reter sentimentos e esse afeto todo te transborda pelas retinas como outrora era a mim que se dirigia. Tenho ânsia de sacodir a cabeça, mas não o faço. Outro gole de café e o movimento é quase falho - E eu percebo quando o olhar ansioso dela sobre isso se ilumina.
Ela está insegura - Grande bela ironia.
Você faz uma de suas piadas, mistura com uma de suas ideias e solta um de seus sorrisos-luz. Ela não resiste, a desconfiança dá lugar à admiração de praxe e o rosto dela se volta, se seduz. Olho para baixo e retenho um sorriso conformado: O engraçado, meu caro, é que nem te quero.
Porque tua piada me soou fraca, tua ideia pareceu manjada e o sorriso pura beleza estética. Percebo meu erro, o equívoco conceitual na substância do meu sentimento. Com um muxoxo e um sorriso, lamento.
-Ai, ai. - Digo na certeza de não ser entendida. -Mulheres, homens e principalmente lagostas - e suas manias feias que impõem à vida.

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ResponderExcluirÉ tão legal saber que isso é vida real!!!
Eu adorei, ta muito legal, muito mesmo, não sei se é pq eu estou num estado de espirito,meio que otaku, em relação a sua vida, mas eu fiquei mó contente com esse texto, apesar de ser meio .... "triste" pra vc. Ele ficou tão ..... "transformo a realidade em poesia"! *_*
hahahaahahaha A gente tem que conversar.
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