sexta-feira, 14 de junho de 2024

Contradição

Eu me sinto cansada
E muito desperta
Embora eu esteja quebrada
Eu também estou alerta

Eu ainda tenho amor
Não para alguém
Mas para o ar ao meu redor
Para o céu entre o azul e rosa
Para contemplar silêncios
Ou ouvir risadas gostosas.

Eu ainda tenho sonhos
De viver em lugares lindos
De ser alguém que me faça ter orgulho
De me amar cada vez mais
Meu amor fugiu do outro
Ele vive agora em mim
Em uma suave cor lilás.

Para o outro estou em pedaços
Eu não tenho nada a oferecer a um alguém
Além dos meus estilhaços.
Histórias partidas, trauma, cansaço
São as imagens gravadas em cada
Um dos meus pequenos cacos.

Eu tenho tudo em mim
A tristeza e o cansaço
O amor do mundo todo
Em minha expressão exausta
Tudo para oferecer
E absolutamente nada.

Especialista em coisas vazias

Olho no olho
Mas nenhum contato
A pele na pele encosta
O suspiro calculado
Penso sobre tudo aquilo enquanto o ouço falar
Nada
Faz meu peito palpitar.

Um riso ou uma piada
Falo algo sem significado
Revelo segredos inúteis, um pouco do meu mistério se esvai
Nada é substancial
Quando a próxima palavra sai.

Conto meus defeitos sem preocupação
Sobre a frieza e o vazio
Não há medo de exposição
Ou tentativa de conexão
E ainda que cause estranhamento
Não há curiosidade nessa troca
Nem risco de sofrimento.

É tudo de novo, penso, entediada
O mesmo quadro a se desenhar
Acostumada, mas não decepcionada
Pois já não tenho o que esperar.

É verdade, houve um tempo que tomei outras vias
Mas agora deixo o jogo continuar
Não foi falta de tentativa
Verdade seja dita
Fracassei nas alternativas
Agora o que me restou foi isso:
Especialista em coisas vazias.

Eu não preciso de três desejos, um está bom

Eu não me importo de me sentir triste
Só não quero mais sentir raiva
A derrota é um sentimento que acolho
Não ser a melhor, não ser quem vence, não ser amada
Eu já estou até acostumada.

Ela me humildesse e me lembra
Que sou só uma pessoa
Me sinto confortável assim
Apenas uma pequena pessoa.

Um dia alguém me disse "você não é qualquer pessoa, é a minha pessoa"
E aquilo também foi uma mentira
Como todas as coisas que vem de outras bocas
Como as coisas que vêm até da minha
E não ressoam a natureza de quem sou.

Eu quero ser
Absurdamente eu mesma
Exatamente quem eu sou
Isso é tudo o que preciso
É tudo o que me restou.
A solidão é inevitável
Mas estar só comigo
É a solidão confortável.

E se alguém se aproximar
E se aventurar a ficar
Verá a mulher estranha, silenciosa e imprevisível
Séria, calma e contraditória
Cética, obscura e sensível
Ferida, mas apesar de tudo, amável.
Será essa a única pessoa
Eu, terrivelmente eu
Que alguém poderá ter ao seu lado.

Dias de névoa

Coisas confusas e borradas
Comportamentos contraditórios,
Frases entrecortadas.
Névoa no meu olhar distorção nas palavras,
Nenhum compromisso nenhuma promessa...
Ambiguidade e incoerência, isso sim
Intenções turvas são tudo o que me interessa.

Eu não estou completamente aqui
Metade de mim desapareceu.
A parte que está conversa e sorri
Com a outra ninguém sabe o que aconteceu.

Posso até te tocar, se quiser
Meus beijos são suaves, minhas mãos são macias.
Posso te dar o que quer.
O que tenho a oferecer: as coisas mais vazias.

Posso fazer um encantador quadro
E gentilmente pregar na sua parede
Cuidado só com o vácuo
Que absorve quem se aproxima dele.
O buraco negro vazio
A ausência de tudo o que sentiu
É o que tenho a oferecer.
Minha vida
Nesses dias
Consiste em pouco a pouco morrer.

O clima está bom, o sol à pino.
Dou uma gargalhada ou um sorriso.
Pego sua mão, te dou um beijo.
Escuto suas histórias de infância
E desapareço.

O fogo ou o calor, qual caminho seguir?
Escolho à esmo, por mim tanto faz.
Qualquer decisão, aleatoriamente
Baseada no acaso ou no mais passageiro desejo,
Tanto faz
O que me satisfaz.

"Então tanto faz morrer"
Disse um homem a quem, surpreendentemente, me fiz entender.
Deitada em sua cama, tocando sua supérflua pele
Pensei que tanto fazia
Se a incinerava ou entrava nela.

"Tudo o que nós fazemos é para preencher o vazio.
Religião, amor. Fanatismo, ideologia".
O meu?
Eu olho nos olhos
Me afundo nele
Do meu
Talvez eu não consiga voltar.
Dor e morte
Amor e sorte
Talvez eu não consiga voltar.

terça-feira, 4 de junho de 2024

Eu ainda sinto fome, eu ainda sinto frio

Eu preciso controlar meu impulso de escorrer
A vibração das minhas veias
Pulsando a mais indigesta intensidade
Não é um sentimento tranquilo
Seu destinatário é pouco específico
E a única certeza é a vontade.

É quase uma surpresa reencontrá-la
Tento sempre me anestesiar - prática antiga e ineficaz
Logo emerge a explosão de euforia
Que só a instabilidade me traz
Mas quando a poeira abaixa
E o silêncio prevalece
É a solidão fininha e sincera
A voz no ouvido que me enternece

É o sentimento fluido
Procurando destinatário
A vontade, a fome
Daquilo que achei ter evaziado
Achei que tinha sido levado
Brutalmente sequestrado
Mas meu afeto e carinho
Ainda procuram destinatário

O desamor não me destruiu
A indiferença não arruinou
Talvez a inocência tenha partido
Mas dentro desse trincado vazio
Ainda há espaço para amor.

Diálogos

-As pessoas são tão absolutamente... desinteressantes.
-Você voltou. Eu pensei que não viria mais.
-Por que não?
-Porque começou a pensar sobre mim, tentar me personalizar.
-Não faria isso de verdade. Eu continuo a mesma de sempre. Ainda preciso de você. Ainda não posso falar com mais ninguém. Ainda sou meu eu silencioso, atento e flamejante. Ainda tenho muito para transbordar, mas ninguém a quem eu queira entregar. Isso mudou, pelo menos. O não querer.
-Você tem certeza que quer guardar para si tudo isso? Todo esse amor e dor? Você não sente falta do desejo de dividir com alguém?
-Não. Eu agora tenho essa certeza tranquila. Esse sempre foi um projeto irrealizável e eu nunca acreditei verdadeiramente. Ninguém divide fardo algum com ninguém. São trocas, acordos. Cheios de furos e cláusulas quebradas.
-Você parece desiludida.
-Desilusão é a desconstrução de algo que nunca existiu.
-Mas você conversa com alguém que nunca existiu. Isso não é contraditório?
-Eu acho coerente escolher minhas próprias ilusões. Até porque elas só fazem sentido enquanto alimentam algo. Essa conversa, esse por do sol, essa grama conhecida alimenta essas emoções que atravessam minhas pálpebras como jatos de luz. São ilusões que me enchem de inspiração, que me abraçam silenciosamente. As desilusões que eu abandonei me esvaziavam o espírito, me tiravam de mim. Eu me sinto eu, agora. Estável e submersa. Me sinto sóbria, serena e cautelosa. Me sinto sombria, silenciosa, leve e calorosa. Me sinto calma e paixão, escuta e atenção. Me sinto estranha, fechada, sarcástica e sorridente. Assim, da forma como eu sempre fui. Como eu sempre teria sido. Enquanto eu estiver comigo, enquanto eu me sentir assim, guardarei essas doces ilusões.