Eu seguro em mim o impulso de escorrer desse sentimento.
Não seria bem sentimento o nome, talvez uma sensação, um mero descontrole.
Uma raiva ou impaciência, não importa o nome escolhido.
Ele é o estouro de tudo que estou reprimindo. É a explosão da matéria sufocada.
Frustração.
Situações práticas, reais, não imaginárias me perturbam essa noite.
Situações que exigem de mim uma resposta, uma resolução, calma.
Mas eu me sinto cansada e inconstante, me sinto sufocada e exasperada. Crítica e ácida, até mesmo malvada.
Culpo todos ao meu redor pelos infortúnios que me têm acometido. Culpo a mim por culpá-los, pelo meu descontrole sobre as situações. E me ressinto da minha falta de habilidade em olhar sob a perspectiva adequada a situação.
Me sinto usando um óculos manchado, sei que há uma imagem clara adiante, mas não consigo ver. Me sinto amarrada, presa. Por um sentimento que me esgota e tira o ar.
Estou cansada, doente, triste e arrependida. E tudo isso me torna incapaz de agir da forma como desejarei que tivesse agido daqui a um tempo.
Como se não bastasse culpar meu eu do presente e me ressentir do meu eu do passado, ora essa, ainda preciso temer o julgamento do meu eu do futuro.
Estou precisando de umas férias de mim. Essa é a única conclusão lógica dessa noite.
No afã de resolver tudo, concluo meus pensamentos desejando ser uma pedra.
Ou sumir.
É um pensamento perigoso então o afasto.
Gostaria de me divertir sem correntes apenas por uma tarde.
Mas a diversão vem seguida de culpa pela diversão que eu não pude proporcionar aos outros.
E no final, julgamento e escárnio porque eu devo me achar muito boa por ter todos esses pensamentos, não é?
Minha mera sequência de auto julgamentos me exaspera a um ponto que eu me pergunto como, por céus, as pessoas andam ao meu lado ainda.
Mas talvez eu seja boa em dissimular ou quem sabe incite pena.
Minha nossa.
Hoje não é uma noite boa.
domingo, 20 de novembro de 2022
terça-feira, 8 de novembro de 2022
"O meu de ontem, o meu de hoje, o meu de amanhã" - V.2.
"Todas as coisas encontram seu antídoto no acúmulo de experiências e tempo"
Abri os olhos lentamente. Inesperadamente.
Eu não morri, constato.
Observando silenciosamente de dentro do corpo em que habito.
Ela estava fazendo algo casual, procurando documentos, se estressando. O de sempre.
Está sempre procurando documentos quando algo estranho acontece.
Abri os olhos, dessa vez minha sonolência foi longa.
Observo aquela lembrança, aquele gatilho, diriam hoje em dia, que me acorda.
Foi uma folha de agenda de uma amiga do passado. Algo que veio a mim, eu não procurei.
Vi uma assinatura antiga, algo tão familiar quanto alienígena. O suficiente para me despertar. A familiar alienígena que habita nela. Eu.
Não saberia dizer qual de nós é a real, principalmente em momentos de ruptura assim, em que ambas parecemos deslocar-se uma da outra, como um espectro de um corpo. Uma verdadeira dissociação.
Mas eu, percebo, mais que tudo talvez seja só um sentimento.
Um sentimento seu, um pedaço. Um pedaço do passado que não morreu e não morrerá.
"Tem um milhão de eus dentro de mim", uma música tão recente, tão dela, mas que na verdade fala sobre mim porque é verdade, eu ainda estou aqui, eu ainda estou dentro dela.
Eu ainda sou seu olhar afiado e mordaz na escuridão, inconstante e cética. Escorradia e sarcástica. Eu ainda sou sua juventude amordaçada. Acalmada, tranquilizada, como é que dizem? Maturidade. Sim, é o nome que dão.
Depois de acostumar-se com a calmaria, com a paz. De cansar-se. De acostumar-se com o carinho e a constância, a estabilidade e o costume. Ainda assim, surpreendentemente, hoje eu acordei. Devo dormir de novo, em breve. Cada vez eu durmo mais. Me pergunto se um dia eu não vou acordar. A parte dela inquieta, que lhe causava temor, que escreveu a maior parte de seus textos. A parte raposa.
Eu me pergunto se todas aquelas almas angustiadas do passado ainda se sentem assim de vez em quando.
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
À moda da casa
Qual é o tema repetitivo da vez?
Qual é o dilema
Fácil
Para meu eu do futuro
Que hoje me aprisiona?
Em que ciclo me meti?
Em algum fácil de sair
Isso com certeza.
Fácil para os que não são sádicos
Ou masoquistas
Para os que não rodeiam e batem sempre na mesma trave
Como mosquitos perdidos.
Qual é a mentira repetitiva
Que estou construindo em minha imagem agora?
Dizendo reiteradamente à mim mesma
Até que se crave em minha pele
E penetre em meus ossos
Que me componha e mude
Como o mais infantil dos procedimentos.
Eu estou tentando ser mais sincera comigo.
Ao menos comigo.
Ser mais clara sobre o que penso
Distinguir o que eu sou
Em meio ao que queria ser
E ao que achei que era
Estou tentando conservar esse mínimo de honestidade
Ou quem sabe
Essa seja a mentira em que escolhi acreditar agora.
Qual é o dilema
Fácil
Para meu eu do futuro
Que hoje me aprisiona?
Em que ciclo me meti?
Em algum fácil de sair
Isso com certeza.
Fácil para os que não são sádicos
Ou masoquistas
Para os que não rodeiam e batem sempre na mesma trave
Como mosquitos perdidos.
Qual é a mentira repetitiva
Que estou construindo em minha imagem agora?
Dizendo reiteradamente à mim mesma
Até que se crave em minha pele
E penetre em meus ossos
Que me componha e mude
Como o mais infantil dos procedimentos.
Eu estou tentando ser mais sincera comigo.
Ao menos comigo.
Ser mais clara sobre o que penso
Distinguir o que eu sou
Em meio ao que queria ser
E ao que achei que era
Estou tentando conservar esse mínimo de honestidade
Ou quem sabe
Essa seja a mentira em que escolhi acreditar agora.
Dias assim
Eu voltei aqui para reencontrá-las
Todas as partes de mim que eu não gosto
É fácil esquecê-las na correria do dia a dia
Embora de vez em quando eu lembre de algo vergonhoso do passado
E feche os olhos com o constrangimento.
Mas quando eu não sei como agir ou ajo sem direção
Como um carro desgovernado, uma bússula quebrada
Ou todas as outras metáforas de desorientação
Então é fácil lembrar.
Quando eu magoo ao pessoas por não saber me expressar com clareza
Ou expressar com clareza sentimentos que não sei se sinto
Essa dissociação que me ocorre, que me faz sair de mim e preciso
lembrar, racionalizar, dar um passo e me puxar pela mão antes que eu me perca.
Todos esses sentimentos são tão cansativos
E repetitivos
E saem em forma de palavras que ferem os ouvidos alheios.
São dias em que é fácil não gostar de mim.
Todas as partes de mim que eu não gosto
É fácil esquecê-las na correria do dia a dia
Embora de vez em quando eu lembre de algo vergonhoso do passado
E feche os olhos com o constrangimento.
Mas quando eu não sei como agir ou ajo sem direção
Como um carro desgovernado, uma bússula quebrada
Ou todas as outras metáforas de desorientação
Então é fácil lembrar.
Quando eu magoo ao pessoas por não saber me expressar com clareza
Ou expressar com clareza sentimentos que não sei se sinto
Essa dissociação que me ocorre, que me faz sair de mim e preciso
lembrar, racionalizar, dar um passo e me puxar pela mão antes que eu me perca.
Todos esses sentimentos são tão cansativos
E repetitivos
E saem em forma de palavras que ferem os ouvidos alheios.
São dias em que é fácil não gostar de mim.
sexta-feira, 15 de julho de 2022
Um nó
Eu sinto um nó se formar e apertar em meu peito.
A distância entre as ações que devo tomar para satisfazer as expectativas das pessoas que amo e aquelas que satisfazem o meu ser alarga a rigidez de sua indissolibilidade.
Eu paro e penso. Olho esse horizonte de montanhas, nuvens e pássaros. Tento encontrar linhas, caminhos, lógica racional - tento compreender o quanto do meu sentimento é justo o quanto do dessas pessoas que é. Tento encontrar os caminhos certos e tocar as respostas adequadas à pergunta do "como agir".
Mas é tudo muito mutável, fluido e corrente. De acordo com a circunstância que destaco em minha mente, a resposta muda.
Do ponto de vista dela...
Do ponto de vista dele...
De acordo com os processos naturais...
De acordo com o que é mais importante...
De acordo com o que quero viver em minha vida...
De acordo com o que os magoa...
De acordo com o que me magoa...
A resposta muda, não há resposta.
Isso me frustra e enfurece.
Porque eu sei que eu saberei, depois, ela ficará clara. O tempo e a experiência iluminam com uma luz de simplicidade os dilemas do passado.
Mas ela ainda não chegou.
Então eu me contorço e estrangulo nesse nó.
A distância entre as ações que devo tomar para satisfazer as expectativas das pessoas que amo e aquelas que satisfazem o meu ser alarga a rigidez de sua indissolibilidade.
Eu paro e penso. Olho esse horizonte de montanhas, nuvens e pássaros. Tento encontrar linhas, caminhos, lógica racional - tento compreender o quanto do meu sentimento é justo o quanto do dessas pessoas que é. Tento encontrar os caminhos certos e tocar as respostas adequadas à pergunta do "como agir".
Mas é tudo muito mutável, fluido e corrente. De acordo com a circunstância que destaco em minha mente, a resposta muda.
Do ponto de vista dela...
Do ponto de vista dele...
De acordo com os processos naturais...
De acordo com o que é mais importante...
De acordo com o que quero viver em minha vida...
De acordo com o que os magoa...
De acordo com o que me magoa...
A resposta muda, não há resposta.
Isso me frustra e enfurece.
Porque eu sei que eu saberei, depois, ela ficará clara. O tempo e a experiência iluminam com uma luz de simplicidade os dilemas do passado.
Mas ela ainda não chegou.
Então eu me contorço e estrangulo nesse nó.
Quanta besteira dizia o pequeno príncipe
Outro impasse delineia-se em minha mente.
Uma situação que desperta um alvoroço de sentimentos incômodos, agonizantes, intransponíveis.
Intuição ou paranoia - eu não sei o fundamento das minhas percepções, mas elas estão aqui.
Sedimentam seus resultados e se colocam sobre mim como um manto.
A retirada não é uma opção.
Eu me percebo contorcer diante da exposição dos elementos que eu não gosto, que me incomodam: o carinho excesssivo, a necessidade de reafirmação, a invasividade dos cuidados.
Eles me fazem retrair e estreitar meus olhos e coração. Eu estou viciada em buscar o fundamento das coisas.
Por isso não é pouco natural que ao ver o seu largo sorriso e o afeto intenso, as suas mãos que tentam me alcançar tão desesperadamente embora saibam tão pouco sobre mim... É natural que eu pergunte:
Por que?
Qual é o objetivo do seu coração?
Não a sua mente, geralmente inconsciente a esses processos. Mas eles existem e motivam estas ações radicais e intensas.
Por que se insinuar assim na vida de outra pessoa?
Será natural?
Algo é natural?
Eu não sou adivinha, mas meu corpo sabe a resposta.
Todas as coisas entregues podem ser cobradas, aquilo que lhe é empurrado à força justificará uma retirada violenta de outra coisa. Por isso eu não quero.
Eu me pergunto se me tornei tão estruturalmente cética, a ponto de crer com tanto afinco na matéria das coisas frágeis.
Desconfiar do afeto exagerado, da posse, da necessidade travestida de carinho. Da codependência que se insinua, sorrateiramente, nos olhos, sorrisos e mãos daqueles que precisam dominar as pessoas.
Eu não sou avessa a conhecer gente nova, não é essa a questão. Mas me sinto calejada, gata escaldada, de gente carente demais, sinuosa demais. Que por trás de fragilidade, lágrimas e uma enlouquecedora dinâmica de culpas e responsabilidades trocadas busca suprir suas ausências com os demais.
É a matéria das coisas fragéis.
Irrefutável mas passível de dominar. Ou apenas tentar. A responsabilidade de tomar o controle do próprio destino.
"O propósito da vida adulta é mirar na autonomia". Uma frase que me faz rir por sua simplicidade e verdade, dita por uma forma de vida nada simples.
Eu não sei se eu tenho razão. Se meu juízo agudo é cético, se ele deixa perder a facilidade da ingenuidade, do carinho desmedido. Mas eu preciso confiar nas percepções do meu corpo, na razão das minhas sensações, única companheira da minha responsabilidade.
Enquanto ela for essa e eu for essa, enquanto eu pensar assim....Eu não posso evitar estar atenta e viva. Duvidar de tudo, de todo mundo.
Até de mim mesma.
Uma situação que desperta um alvoroço de sentimentos incômodos, agonizantes, intransponíveis.
Intuição ou paranoia - eu não sei o fundamento das minhas percepções, mas elas estão aqui.
Sedimentam seus resultados e se colocam sobre mim como um manto.
A retirada não é uma opção.
Eu me percebo contorcer diante da exposição dos elementos que eu não gosto, que me incomodam: o carinho excesssivo, a necessidade de reafirmação, a invasividade dos cuidados.
Eles me fazem retrair e estreitar meus olhos e coração. Eu estou viciada em buscar o fundamento das coisas.
Por isso não é pouco natural que ao ver o seu largo sorriso e o afeto intenso, as suas mãos que tentam me alcançar tão desesperadamente embora saibam tão pouco sobre mim... É natural que eu pergunte:
Por que?
Qual é o objetivo do seu coração?
Não a sua mente, geralmente inconsciente a esses processos. Mas eles existem e motivam estas ações radicais e intensas.
Por que se insinuar assim na vida de outra pessoa?
Será natural?
Algo é natural?
Eu não sou adivinha, mas meu corpo sabe a resposta.
Todas as coisas entregues podem ser cobradas, aquilo que lhe é empurrado à força justificará uma retirada violenta de outra coisa. Por isso eu não quero.
Eu me pergunto se me tornei tão estruturalmente cética, a ponto de crer com tanto afinco na matéria das coisas frágeis.
Desconfiar do afeto exagerado, da posse, da necessidade travestida de carinho. Da codependência que se insinua, sorrateiramente, nos olhos, sorrisos e mãos daqueles que precisam dominar as pessoas.
Eu não sou avessa a conhecer gente nova, não é essa a questão. Mas me sinto calejada, gata escaldada, de gente carente demais, sinuosa demais. Que por trás de fragilidade, lágrimas e uma enlouquecedora dinâmica de culpas e responsabilidades trocadas busca suprir suas ausências com os demais.
É a matéria das coisas fragéis.
Irrefutável mas passível de dominar. Ou apenas tentar. A responsabilidade de tomar o controle do próprio destino.
"O propósito da vida adulta é mirar na autonomia". Uma frase que me faz rir por sua simplicidade e verdade, dita por uma forma de vida nada simples.
Eu não sei se eu tenho razão. Se meu juízo agudo é cético, se ele deixa perder a facilidade da ingenuidade, do carinho desmedido. Mas eu preciso confiar nas percepções do meu corpo, na razão das minhas sensações, única companheira da minha responsabilidade.
Enquanto ela for essa e eu for essa, enquanto eu pensar assim....Eu não posso evitar estar atenta e viva. Duvidar de tudo, de todo mundo.
Até de mim mesma.
terça-feira, 28 de junho de 2022
i'm not your fucking superego
Eu não sou uma palhaça
Para te fazer rir
Um espelho
Para ressaltar suas melhores qualidades
Uma dose de álcool
Para te deixar alegre e embriagado
Ou uma sessão de terapia
Para te fazer se entender
Eu não sou um antidepressivo
Para amorteceder seu vazio
Ou um diário
Para você explanar os seus dias
Eu não sou um instrumento
Para consertar suas falhas
Sua solidão, sua dor, seu abandono.
Eu não sou um meio para os seus fins.
Eu sou os meus próprios meios e meus próprios fins.
Seja você seus próprios meios e seus próprios fins.
Eu não te peço nada, além de companhia.
Não me encha o saco buscando que além disso eu te preencha.
Codependência não é amizade.
Companheirismo não é simbiose.
Resolva suas coisas,
Eu sempre resolvi as minhas sozinha.
Para te fazer rir
Um espelho
Para ressaltar suas melhores qualidades
Uma dose de álcool
Para te deixar alegre e embriagado
Ou uma sessão de terapia
Para te fazer se entender
Eu não sou um antidepressivo
Para amorteceder seu vazio
Ou um diário
Para você explanar os seus dias
Eu não sou um instrumento
Para consertar suas falhas
Sua solidão, sua dor, seu abandono.
Eu não sou um meio para os seus fins.
Eu sou os meus próprios meios e meus próprios fins.
Seja você seus próprios meios e seus próprios fins.
Eu não te peço nada, além de companhia.
Não me encha o saco buscando que além disso eu te preencha.
Codependência não é amizade.
Companheirismo não é simbiose.
Resolva suas coisas,
Eu sempre resolvi as minhas sozinha.
terça-feira, 31 de maio de 2022
Olhos de peixe morto
Meus olhos estão mudando de formato.
Constatei recentemente enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.
As partes laterais das pontas estão um pouco abaixadas, como se suportassem um pequeno peso. Isso juntado ao fato de que são afiados como duas lanças nas partes internas e que eu não tenho pálpebras como é comum nos olhos orientais me faz ficar com um aspecto de olhos baixos, de peixe morto.
Essa é apenas uma das coisas que constatei ter mudado em mim nos últimos tempos.
Tenho menos ânimo para provar que estou certa, discussões me dão uma ligeira vertigem. Momentos de alegria me trazem menos euforia e excessos me provocam menos excitação. Penso algumas vezes antes de reagir e analiso outras antes de sentir. A ordem das coisas se organiza automaticamente quando meu cérebro recebe informações do ambiente. É isso que é envelhecer?
Essa coisa dos olhos me deixou um pouco impressionada. Outras mudanças em meu rosto também foram verificadas. Está um pouco mais magro, mais fino. Um rosto um pouco mais austero do que algum tempo atrás.
Desde que li Dorian Gray há vários anos me pergunto se nossas almas são realmente refletidas em nosso rosto. Se as pequenas modificações - curvas irônicas eternizadas ao lado dos lábios, rugas de tensão fincadas no meio de nossa testa - se esses indícios de emoção alteram a nossa fisionomia - estampam nossa personalidade. Ou alma, como a chamei há pouco. No final é a mesma coisa.
Outro dia minha mãe me falou que um cirurgião plástico aconselha mulheres a usarem constantemente roupas estilo espartilho. A pressão contínua sobre o corpo modula sua estrutura. Isso é algo que eu não sabia, me deixou ligeiramente assombrada.
A pressão contínua sobre meu rosto também está alterando minha fisionomia, baixando meus olhos? Me pergunto. A pressão do que essas iris veem, ignoram ou absorvem. Refletem ou esvaziam. Isso também está me dando olhos de peixe morto?
Antes de sentar para escrever, eu pensei que seria mais divertido estudar. Isso também é uma mudança.
L comentou comigo uma vez que achava bonito quando mulheres tem olhos baixos, olheiras fundas. Olhos de peixe morto.
Foi apenas recentemente que eu percebi como os filósofos estão sempre falando sobre coisas simples. Vontade, segundo X.
Liberdade, segundo Y.
Estão todos tentando conceituar coisas diferentes sob o mesmo nome.
A linguagem está sempre tentando reduzir à logica o caos absoluto.
Eu estou tentando reduzir a palavras meus sentimentos.
Sentimentos são minhas percepções simplificadas sobre estímulos cuja natureza que desconheço.
Meus olhos de peixe morto? Só significam que eu preciso dormir mais mesmo.
Constatei recentemente enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.
As partes laterais das pontas estão um pouco abaixadas, como se suportassem um pequeno peso. Isso juntado ao fato de que são afiados como duas lanças nas partes internas e que eu não tenho pálpebras como é comum nos olhos orientais me faz ficar com um aspecto de olhos baixos, de peixe morto.
Essa é apenas uma das coisas que constatei ter mudado em mim nos últimos tempos.
Tenho menos ânimo para provar que estou certa, discussões me dão uma ligeira vertigem. Momentos de alegria me trazem menos euforia e excessos me provocam menos excitação. Penso algumas vezes antes de reagir e analiso outras antes de sentir. A ordem das coisas se organiza automaticamente quando meu cérebro recebe informações do ambiente. É isso que é envelhecer?
Essa coisa dos olhos me deixou um pouco impressionada. Outras mudanças em meu rosto também foram verificadas. Está um pouco mais magro, mais fino. Um rosto um pouco mais austero do que algum tempo atrás.
Desde que li Dorian Gray há vários anos me pergunto se nossas almas são realmente refletidas em nosso rosto. Se as pequenas modificações - curvas irônicas eternizadas ao lado dos lábios, rugas de tensão fincadas no meio de nossa testa - se esses indícios de emoção alteram a nossa fisionomia - estampam nossa personalidade. Ou alma, como a chamei há pouco. No final é a mesma coisa.
Outro dia minha mãe me falou que um cirurgião plástico aconselha mulheres a usarem constantemente roupas estilo espartilho. A pressão contínua sobre o corpo modula sua estrutura. Isso é algo que eu não sabia, me deixou ligeiramente assombrada.
A pressão contínua sobre meu rosto também está alterando minha fisionomia, baixando meus olhos? Me pergunto. A pressão do que essas iris veem, ignoram ou absorvem. Refletem ou esvaziam. Isso também está me dando olhos de peixe morto?
Antes de sentar para escrever, eu pensei que seria mais divertido estudar. Isso também é uma mudança.
L comentou comigo uma vez que achava bonito quando mulheres tem olhos baixos, olheiras fundas. Olhos de peixe morto.
Foi apenas recentemente que eu percebi como os filósofos estão sempre falando sobre coisas simples. Vontade, segundo X.
Liberdade, segundo Y.
Estão todos tentando conceituar coisas diferentes sob o mesmo nome.
A linguagem está sempre tentando reduzir à logica o caos absoluto.
Eu estou tentando reduzir a palavras meus sentimentos.
Sentimentos são minhas percepções simplificadas sobre estímulos cuja natureza que desconheço.
Meus olhos de peixe morto? Só significam que eu preciso dormir mais mesmo.
terça-feira, 15 de março de 2022
O meu eu de ontem, o meu eu de hoje, o meu eu de amanhã
Eu costumava pensar, quando mais nova
Costumava afirmar, com um misto de orgulho e nostalgia:
"Eu sinto falta de tudo
Sinto saudade de tudo e todos
De todos os momentos de todas as pessoas".
Hoje isso me espanta.
Eu não sinto falta de nada
Eu quero eliminar todas as lembranças
Eu não quero mais nada no caminho, mais nada
Que segure meus pés à noite.
Que mantenha meus olhos abertos
No escuro do meu quarto.
Eu quero a liberdade do presente e do futuro
Eu quero um destacamento que é impossível
Para nós
Criaturas humanas
Seres históricos feitos de passado.
-
Há coisas que eu devo fazer.
Há coisas que eu não preciso fazer.
É um pouco mais difícil do que imaginava distinguir entre os dois grupos.
Eu tenho uma breve noção agora da importância da gestão do
Tempo.
Do peso de suas escolhas.
Eu preciso de calma que não tenho, de experiência que não tenho ainda para ver agora
O que vou saber depois
Tarde demais.
Costumava afirmar, com um misto de orgulho e nostalgia:
"Eu sinto falta de tudo
Sinto saudade de tudo e todos
De todos os momentos de todas as pessoas".
Hoje isso me espanta.
Eu não sinto falta de nada
Eu quero eliminar todas as lembranças
Eu não quero mais nada no caminho, mais nada
Que segure meus pés à noite.
Que mantenha meus olhos abertos
No escuro do meu quarto.
Eu quero a liberdade do presente e do futuro
Eu quero um destacamento que é impossível
Para nós
Criaturas humanas
Seres históricos feitos de passado.
-
Há coisas que eu devo fazer.
Há coisas que eu não preciso fazer.
É um pouco mais difícil do que imaginava distinguir entre os dois grupos.
Eu tenho uma breve noção agora da importância da gestão do
Tempo.
Do peso de suas escolhas.
Eu preciso de calma que não tenho, de experiência que não tenho ainda para ver agora
O que vou saber depois
Tarde demais.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Reflexões familiares
Eu estive lendo o livro mais recente que minha mãe escreveu essa madrugada. É uma atividade difícil por vários motivos.
Primeiro, é um mergulho no coração da minha mãe. Um lugar que sempre me surpreende e atormenta pela similitude absurda das imagens que oferece do meu próprio.
Ler sobre suas noções de amor, lar e proteção me faz sentir um passo mais perto de compreendê-la - um empreendimento que cada vez mais parece ter muito a ver com compreender a mim mesma.
Mas outro motivo que me faz encerrar cada sessão de leitura com a garganta fechada e o rosto molhado são as menções ao meu avô. A forma como minha mãe descreve sua casa na infância, um porto seguro de proteção, brincadeiras e cumplicidade. Eu não sei até que ponto retrata o que viveu ou o que sua memória infantil lhe forneceu de informação. Mas seja qual for o caso, é uma lembrança que abre a ferida da ausência dessa noção na minha vida. A noção de um lar com um pai, ao menos quando eu era criança.
Meu pai. Figura da qual eu não falo, um meio enigma para a maior parte das pessoas que me conhece. Se nunca tive ou deixei de ter fica sempre um pouco ambíguo, já que não faz parte das minhas referências em conversas casuais, seja de forma positiva ou negativa. Não é proposital, eu simplesmente não lembro que tive pai no dia a dia. Mas o fato é que eu tive. Por 15 anos tive um pai em casa. Um pai que cozinhava às vezes, de vez em quando nos trazia presentes e ouvia boa música.
Todas essas lembranças incapazes de trazer a menor centelha de emoção e nostalgia pois são estruturalmente consumidas pela farsa que foi meu pai. Talvez por todo seu relacionamento conosco ter sido baseado em mentiras relacionadas aos postulados da nossa própria convivência: o horário de encerramento do trabalho às 22h, as viagens todo final de semana que faziam parte do trabalho, a eterna insuficiência financeira. Questões que eram tão características de quem era o meu pai de fato e como era o nosso convívio com ele: eram mentiras. Mentiras que até hoje me surpreendendo percebendo nas raras vezes que me lembro que tenho um pai. "Como por exemplo, ele tinha que ir todo final de semana viajar" comentei numa excepcional conversa sobre ele, ao que me responderam com ceticismo: "Só que claro que ele não viajava, não é". Eu ri. Claro que não. Um traço de convivência que eu me lembro desde criança. Foi apenas adolescente que entendi que o horário de trabalho não terminava às 22h.
Talvez por toda essa base estruturada em dubiedade, falsidade e realidade travestida, eu não sinta nenhuma emoção em relação aos momentos "bons". Como sentir saudade das chegadas dele de viagem, em que eu corria e pulava em seus braços após o final de semana de ansiedade, se nunca existiu viagem?
O mais interessante, porém, é perceber que nem quando eu estava sob o véu da mentira, naqueles anos, foram produzidas lembranças que suscitassem meu apego. Talvez por meu pai ser tão sinuoso, tão ardil, por entrar no meu quarto e perguntar entusiasmado sobre as histórias que eu escrevia - que eu descobriria depois que era só para irritar minha mãe. Talvez por tudo isso, pela falta inerente de sinceridade do seu carinho, eu nunca tenha me sentido apegada. Eu não choro pensando nele quando penso na ausência de uma figura paterna. Eu vivi com meu pai por 15 anos e ainda assim eu nunca tive a proteção e o cuidado de uma figura paterna. Sua proteção era ciúmes e seu cuidado era paranóia. O medo de que outros homens se aproximassem de suas filhas vinha unicamente do reconhecimento em todos os outros homens do tipo de homem que ele, por sua vez, era. A verdadeira proteção paterna, a que eu nunca tive em casa, essa sim me emociona, dessa sim eu sinto a ausência. Sinto especialmente quando eu leio o livro da minha mãe e a descrição desse lar protegido por um pai, o meu avô.
A emoção que eu nunca senti nem com a partida brusca do meu pai, eu sinto ao ler poucas páginas sobre a presença paternal do meu avô. Dele veio o mais próximo de referência paterna que eu pude sentir nessa vida. Quando minha mãe descreve sua expressão preocupada, suas brincadeiras pela casa, seu hábito de cochilar no chão, todas lembranças que fazem também parte de mim. Que eu gostaria de ter apreciado mais. É engraçado que eu só percebi após sua morte como eu amava meu avô. Os sonhos repetidos com ele, mesmo depois de tantos anos, o reconhecimento retroativo à sensação de proteção e tranquilidade que eu sentia em sua casa. Um lugar para ir.
Eu gostaria de tê-lo dito mais ou ao menos de naquele tempo, entender mais sobre o amor, pensar mais sobre o amor, entender como se manifesta, como se deve, obrigatoriamente, muni-lo de atenção e constância. Coisas que eu pareço ter aprendido muito recentemente e que diariamente me esforço para colocar em prática com as pessoas que eu amo. Essas coisas eu não fiz com meu avô, não o bastante. Não era madura o suficiente, não era atenta. Ele foi minha primeira e única grande perda até então nessa vida, uma perda com a qual eu aprendi que quando se ama alguém o amor nunca esmorece. O amor não acaba com a distância, ele continua perenemente molhando nossos olhos, de tempos em tempos, visitando nossos sonhos e nos fazendo sorrir. Eu agradeço ao meu avô por ter me dado a noção do sentimento de paternidade, de proteção. Eu invejo a experiência doméstica da infância da minha mãe. Mas essa é só uma experiência infantil. O verdadeiro significado de lar, construído de tal forma completamente a me fazer na maior parte do tempo esquecer que eu possuo essa lacuna, essa ausência paterna, se deu à partir da minha mãe. Minha mãe, a quem eu já fui começar a conhecer à partir da partida do meu pai. Que até adolescência eu achava que era chata, taciturna, impliquenta. Eu descobri ser engraçada, sincera, amorosa, alegre. À partir do momento em que pude finalmente conhecer minha mãe, nossa casa começou realmente a ser um lar, composto por mim, por ela e minha irmã. Essa lar eu consigo identificar com as descrições de seu livro, nesse lar reconheço um antro de proteção. Um lar fundado em confiança, verdade, amor e cuidado.
Foi tardiamente, porém, que isso veio e que pude conhecer, de fato, minha mãe. O peso que esse conhecimento tardio teve nela, o período sendo alguém que não ela mesma, todas essas são experiências terríveis que precisou passar, vivências que eu constantemente tento entender e ponderar como forma de compreendê-la, amá-la como ela precisa ser amada e não repetir comportamentos que emulem esse passado. Constantemente eu falho nessa empreitada e em outras vezes me vejo remoendo essas falhas. É um ciclo de pensamentos muito longo e atormentado, no qual coexistem tentativa de compreender, obter respostas, e entender o que fazer com elas: Qual é a melhor forma de agir, de amar? Qual é a melhor forma de contribuir para a felicidade das pessoas amadas?
Todos esses pensamentos fazem com que eu acabe me tornando uma pessoa muitas vezes pesada, tensa, austera. Muito atenta, atenta demais. Tensa demais, com muito medo de errar e muita dor em frente à rejeição de minhas tentativas. O contrário do que uma convivência leve precisa. Encontrar esse equilíbrio também é um desafio. Só tem desafios, ao que parece, quando nos importamos com as pessoas.
Mas outro motivo que me faz encerrar cada sessão de leitura com a garganta fechada e o rosto molhado são as menções ao meu avô. A forma como minha mãe descreve sua casa na infância, um porto seguro de proteção, brincadeiras e cumplicidade. Eu não sei até que ponto retrata o que viveu ou o que sua memória infantil lhe forneceu de informação. Mas seja qual for o caso, é uma lembrança que abre a ferida da ausência dessa noção na minha vida. A noção de um lar com um pai, ao menos quando eu era criança.
Meu pai. Figura da qual eu não falo, um meio enigma para a maior parte das pessoas que me conhece. Se nunca tive ou deixei de ter fica sempre um pouco ambíguo, já que não faz parte das minhas referências em conversas casuais, seja de forma positiva ou negativa. Não é proposital, eu simplesmente não lembro que tive pai no dia a dia. Mas o fato é que eu tive. Por 15 anos tive um pai em casa. Um pai que cozinhava às vezes, de vez em quando nos trazia presentes e ouvia boa música.
Todas essas lembranças incapazes de trazer a menor centelha de emoção e nostalgia pois são estruturalmente consumidas pela farsa que foi meu pai. Talvez por todo seu relacionamento conosco ter sido baseado em mentiras relacionadas aos postulados da nossa própria convivência: o horário de encerramento do trabalho às 22h, as viagens todo final de semana que faziam parte do trabalho, a eterna insuficiência financeira. Questões que eram tão características de quem era o meu pai de fato e como era o nosso convívio com ele: eram mentiras. Mentiras que até hoje me surpreendendo percebendo nas raras vezes que me lembro que tenho um pai. "Como por exemplo, ele tinha que ir todo final de semana viajar" comentei numa excepcional conversa sobre ele, ao que me responderam com ceticismo: "Só que claro que ele não viajava, não é". Eu ri. Claro que não. Um traço de convivência que eu me lembro desde criança. Foi apenas adolescente que entendi que o horário de trabalho não terminava às 22h.
Talvez por toda essa base estruturada em dubiedade, falsidade e realidade travestida, eu não sinta nenhuma emoção em relação aos momentos "bons". Como sentir saudade das chegadas dele de viagem, em que eu corria e pulava em seus braços após o final de semana de ansiedade, se nunca existiu viagem?
O mais interessante, porém, é perceber que nem quando eu estava sob o véu da mentira, naqueles anos, foram produzidas lembranças que suscitassem meu apego. Talvez por meu pai ser tão sinuoso, tão ardil, por entrar no meu quarto e perguntar entusiasmado sobre as histórias que eu escrevia - que eu descobriria depois que era só para irritar minha mãe. Talvez por tudo isso, pela falta inerente de sinceridade do seu carinho, eu nunca tenha me sentido apegada. Eu não choro pensando nele quando penso na ausência de uma figura paterna. Eu vivi com meu pai por 15 anos e ainda assim eu nunca tive a proteção e o cuidado de uma figura paterna. Sua proteção era ciúmes e seu cuidado era paranóia. O medo de que outros homens se aproximassem de suas filhas vinha unicamente do reconhecimento em todos os outros homens do tipo de homem que ele, por sua vez, era. A verdadeira proteção paterna, a que eu nunca tive em casa, essa sim me emociona, dessa sim eu sinto a ausência. Sinto especialmente quando eu leio o livro da minha mãe e a descrição desse lar protegido por um pai, o meu avô.
A emoção que eu nunca senti nem com a partida brusca do meu pai, eu sinto ao ler poucas páginas sobre a presença paternal do meu avô. Dele veio o mais próximo de referência paterna que eu pude sentir nessa vida. Quando minha mãe descreve sua expressão preocupada, suas brincadeiras pela casa, seu hábito de cochilar no chão, todas lembranças que fazem também parte de mim. Que eu gostaria de ter apreciado mais. É engraçado que eu só percebi após sua morte como eu amava meu avô. Os sonhos repetidos com ele, mesmo depois de tantos anos, o reconhecimento retroativo à sensação de proteção e tranquilidade que eu sentia em sua casa. Um lugar para ir.
Eu gostaria de tê-lo dito mais ou ao menos de naquele tempo, entender mais sobre o amor, pensar mais sobre o amor, entender como se manifesta, como se deve, obrigatoriamente, muni-lo de atenção e constância. Coisas que eu pareço ter aprendido muito recentemente e que diariamente me esforço para colocar em prática com as pessoas que eu amo. Essas coisas eu não fiz com meu avô, não o bastante. Não era madura o suficiente, não era atenta. Ele foi minha primeira e única grande perda até então nessa vida, uma perda com a qual eu aprendi que quando se ama alguém o amor nunca esmorece. O amor não acaba com a distância, ele continua perenemente molhando nossos olhos, de tempos em tempos, visitando nossos sonhos e nos fazendo sorrir. Eu agradeço ao meu avô por ter me dado a noção do sentimento de paternidade, de proteção. Eu invejo a experiência doméstica da infância da minha mãe. Mas essa é só uma experiência infantil. O verdadeiro significado de lar, construído de tal forma completamente a me fazer na maior parte do tempo esquecer que eu possuo essa lacuna, essa ausência paterna, se deu à partir da minha mãe. Minha mãe, a quem eu já fui começar a conhecer à partir da partida do meu pai. Que até adolescência eu achava que era chata, taciturna, impliquenta. Eu descobri ser engraçada, sincera, amorosa, alegre. À partir do momento em que pude finalmente conhecer minha mãe, nossa casa começou realmente a ser um lar, composto por mim, por ela e minha irmã. Essa lar eu consigo identificar com as descrições de seu livro, nesse lar reconheço um antro de proteção. Um lar fundado em confiança, verdade, amor e cuidado.
Foi tardiamente, porém, que isso veio e que pude conhecer, de fato, minha mãe. O peso que esse conhecimento tardio teve nela, o período sendo alguém que não ela mesma, todas essas são experiências terríveis que precisou passar, vivências que eu constantemente tento entender e ponderar como forma de compreendê-la, amá-la como ela precisa ser amada e não repetir comportamentos que emulem esse passado. Constantemente eu falho nessa empreitada e em outras vezes me vejo remoendo essas falhas. É um ciclo de pensamentos muito longo e atormentado, no qual coexistem tentativa de compreender, obter respostas, e entender o que fazer com elas: Qual é a melhor forma de agir, de amar? Qual é a melhor forma de contribuir para a felicidade das pessoas amadas?
Todos esses pensamentos fazem com que eu acabe me tornando uma pessoa muitas vezes pesada, tensa, austera. Muito atenta, atenta demais. Tensa demais, com muito medo de errar e muita dor em frente à rejeição de minhas tentativas. O contrário do que uma convivência leve precisa. Encontrar esse equilíbrio também é um desafio. Só tem desafios, ao que parece, quando nos importamos com as pessoas.
domingo, 2 de janeiro de 2022
Ansiedade
A essa hora do amanhecer, meu corpo sente que ainda é noite.
Impulsos infantis, fúrias infundadas, medo.
Com o passar o tempo, fiquei cada vez mais medrosa. Me procuro dentro do meu breviário de fins, de términos iminentes: desta luz do sol, deste dia. Do mais próximo momento de alegria, da vida minha e de todos que me cercam.
Medo do tempo, da passagem dele.
Eu me pergunto se envelhecer é sentir medo do tempo, se essa sensação de perda constante é o pagamento que faço pela capacidade de apreciar o seu valor.
Apreciar e temer perder: a inaptidão em lidar com a finitude, com a morte natural minha e de todas as coisas.
Eu vejo em mim, eu vejo: todas as coisas que temo, que julgo ou que repudio.
Vejo em mim os medos da minha mãe: vejo os defeitos e percebo que não são defeitos. Vejo seus traços de personalidade, posso tatear e acompanhar de que substância são feitas suas ações. Vejo pois reconheço em mim mas se a mim julgo, como posso perdoá-la?
Tenho plena consciência de que tudo isso, sob uma perspectiva mais ampla e distante, seria de simples resolução.
Tento me afastar de mim, me olhar do outro canto da sala: Qual é o problema? Por que você está complicando tudo?
Sinto que a capacidade de compreensão está no âmbito da consciência, está a meu alcance: obstaculizada só por um ou dois véus de confusão.
Sinto minha vista desvanecer e a névoa obstruir a clareza da minha percepção: tão afiada e metódica em relação ao mundo exterior. Tão emotiva e juvenil com meus próprios sentimentos destrambelhados.
Todo dia é essa pequena luta:
Lutar com a pequena e conturbada parte de mim.
Não busco por grandes coisas, por nenhuma compreensão maior. Qualquer teorema geral é pura bobagem, pintar fatos e pessoas de poesia é escape da realidade, tudo bem.
Mas eu só busco por paz.
Quero encontrar o equilíbrio entre observar e viver, sem precisar temer no caminho.
Quero relaxar meus ombros e respirar fundo sem me esforçar para isso, quero a ausência de esforço, a naturalidade.
Quero ver de forma clara e não obscurecida pelos meus próprios fantasmas e temores repetitivos.
Sei bem que é tudo uma questão de perspectiva.
Sei que uma leve alteração de cenários me faria reconhecer a simplicidade dos meus problemas abstratos.
Mas esse conhecimento não toca ainda meu coração - incluo o "ainda" como um ato de generosidade e esperança em mim mesma.
Minha mente - rápida, racional e potente - não consegue informar ao tremor das minhas mãos, à náusea em meu estômago e aos olhos vidrados antes de dormir.
Eu odeio dar nome às coisas, mas talvez possa chamar isso de ansiedade.
Impulsos infantis, fúrias infundadas, medo.
Com o passar o tempo, fiquei cada vez mais medrosa. Me procuro dentro do meu breviário de fins, de términos iminentes: desta luz do sol, deste dia. Do mais próximo momento de alegria, da vida minha e de todos que me cercam.
Medo do tempo, da passagem dele.
Eu me pergunto se envelhecer é sentir medo do tempo, se essa sensação de perda constante é o pagamento que faço pela capacidade de apreciar o seu valor.
Apreciar e temer perder: a inaptidão em lidar com a finitude, com a morte natural minha e de todas as coisas.
Eu vejo em mim, eu vejo: todas as coisas que temo, que julgo ou que repudio.
Vejo em mim os medos da minha mãe: vejo os defeitos e percebo que não são defeitos. Vejo seus traços de personalidade, posso tatear e acompanhar de que substância são feitas suas ações. Vejo pois reconheço em mim mas se a mim julgo, como posso perdoá-la?
Tenho plena consciência de que tudo isso, sob uma perspectiva mais ampla e distante, seria de simples resolução.
Tento me afastar de mim, me olhar do outro canto da sala: Qual é o problema? Por que você está complicando tudo?
Sinto que a capacidade de compreensão está no âmbito da consciência, está a meu alcance: obstaculizada só por um ou dois véus de confusão.
Sinto minha vista desvanecer e a névoa obstruir a clareza da minha percepção: tão afiada e metódica em relação ao mundo exterior. Tão emotiva e juvenil com meus próprios sentimentos destrambelhados.
Todo dia é essa pequena luta:
Lutar com a pequena e conturbada parte de mim.
Não busco por grandes coisas, por nenhuma compreensão maior. Qualquer teorema geral é pura bobagem, pintar fatos e pessoas de poesia é escape da realidade, tudo bem.
Mas eu só busco por paz.
Quero encontrar o equilíbrio entre observar e viver, sem precisar temer no caminho.
Quero relaxar meus ombros e respirar fundo sem me esforçar para isso, quero a ausência de esforço, a naturalidade.
Quero ver de forma clara e não obscurecida pelos meus próprios fantasmas e temores repetitivos.
Sei bem que é tudo uma questão de perspectiva.
Sei que uma leve alteração de cenários me faria reconhecer a simplicidade dos meus problemas abstratos.
Mas esse conhecimento não toca ainda meu coração - incluo o "ainda" como um ato de generosidade e esperança em mim mesma.
Minha mente - rápida, racional e potente - não consegue informar ao tremor das minhas mãos, à náusea em meu estômago e aos olhos vidrados antes de dormir.
Eu odeio dar nome às coisas, mas talvez possa chamar isso de ansiedade.
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