Outro impasse delineia-se em minha mente.
Uma situação que desperta um alvoroço de sentimentos incômodos, agonizantes, intransponíveis.
Intuição ou paranoia - eu não sei o fundamento das minhas percepções, mas elas estão aqui.
Sedimentam seus resultados e se colocam sobre mim como um manto.
A retirada não é uma opção.
Eu me percebo contorcer diante da exposição dos elementos que eu não gosto, que me incomodam: o carinho excesssivo, a necessidade de reafirmação, a invasividade dos cuidados.
Eles me fazem retrair e estreitar meus olhos e coração. Eu estou viciada em buscar o fundamento das coisas.
Por isso não é pouco natural que ao ver o seu largo sorriso e o afeto intenso, as suas mãos que tentam me alcançar tão desesperadamente embora saibam tão pouco sobre mim... É natural que eu pergunte:
Por que?
Qual é o objetivo do seu coração?
Não a sua mente, geralmente inconsciente a esses processos. Mas eles existem e motivam estas ações radicais e intensas.
Por que se insinuar assim na vida de outra pessoa?
Será natural?
Algo é natural?
Eu não sou adivinha, mas meu corpo sabe a resposta.
Todas as coisas entregues podem ser cobradas, aquilo que lhe é empurrado à força justificará uma retirada violenta de outra coisa.
Por isso eu não quero.
Eu me pergunto se me tornei tão estruturalmente cética, a ponto de crer com tanto afinco na matéria das coisas frágeis.
Desconfiar do afeto exagerado, da posse, da necessidade travestida de carinho. Da codependência que se insinua, sorrateiramente, nos olhos, sorrisos e mãos daqueles que precisam dominar as pessoas.
Eu não sou avessa a conhecer gente nova, não é essa a questão. Mas me sinto calejada, gata escaldada, de gente carente demais, sinuosa demais. Que por trás de fragilidade, lágrimas e uma enlouquecedora dinâmica de culpas e responsabilidades trocadas busca suprir suas ausências com os demais.
É a matéria das coisas fragéis.
Irrefutável mas passível de dominar. Ou apenas tentar. A responsabilidade de tomar o controle do próprio destino.
"O propósito da vida adulta é mirar na autonomia". Uma frase que me faz rir por sua simplicidade e verdade, dita por uma forma de vida nada simples.
Eu não sei se eu tenho razão. Se meu juízo agudo é cético, se ele deixa perder a facilidade da ingenuidade, do carinho desmedido. Mas eu preciso confiar nas percepções do meu corpo, na razão das minhas sensações, única companheira da minha responsabilidade.
Enquanto ela for essa e eu for essa, enquanto eu pensar assim....Eu não posso evitar estar atenta e viva. Duvidar de tudo, de todo mundo.
Até de mim mesma.
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