segunda-feira, 25 de maio de 2026

Reunião de ex-alunos

-Você disse que veio por conta de uma queixa. Qual seria ela? 

A mulher lhe indagava, com olhos redondos e simpáticos. Sua boca tinha um batom alaranjado que lhe lembrava uma tangerina velha, que ultrapassou o ponto da doçura e flertava com o amargor.

-Meu problema é o sono. - Ela olhava as próprias mãos. Longas, pálidas. Mãos de pianista.

-Você tem sonhos ruins?

-Não. Eu não tenho sonhos. Meu problema é que eu mal durmo.

Não era mentira. Ainda assim, não se sentiu confiante em uma possível melhora após a sessão. Olhando-se no espelho do elevador da clínica, pensava quão pouco sentido fazia sua figura atualmente. Como explicar que ela tinha sido, na verdade, uma garota de 15 anos, com medo de tudo, sempre em estado de sobrevivência? Uma garota que tinha um anseio desesperado por ser querida e nenhuma critério sobre como e por quem. Como entender que aquela menina tinha se tornado esta mulher, cuja presença emanava uma solene confiança, aspirando com naturalidade todo o ar de qualquer ambiente em que entrasse, como se tudo fosse, gentilmente, seu.

Saiu pelo saguão do prédio com um pé direito altíssimo, atraindo olhares enquanto o fazia. Ela era aquela figura mística, intocável. Silenciosamente atraia a energia, apenas por estar presente. Alguém incompatível com o ambiente. Como aquela menina reagiria sabendo que este era seu corpo, agora?

Era difícil identificar o ponto em que houve a virada. Em que sua pele parou de ser uma esponja para o mundo exterior. Em que passou a reconhecer as coisas por sua real forma, e precisar de coisas de dentro de si, não de fora. Mas a transição foi tão brusca, tão intensa, que era difícil conciliar essas duas realidades. O passado e o presente pareciam tão distantes como duas dimensões. Mas ainda assim, confusamente, não era difícil resgatar a memória.

Porque a verdade é que se lembrava. Se lembrava bem. Como era ter medo o tempo todo, ser dominada por carência e desespero. Moldar-se a desejos, deixar-se levar pelas mais absurdas situações na esperança de ser amada. Uma navegante de mares de outrem. Sempre à deriva.

Agora, não conseguia pensar em uma situação que fosse capaz de lhe constranger ou intimidar. Acostumada a lidar diariamente com as pessoas de todos os tipos, era natural olhar nos olhos e deslocar o foco de si, para o outro. A opinião do outro sobre si não era um fato que sequer cogitava, muito menos buscava controlar. Sentia-se alinhada com o seu eu, e por ele guiada e suas ações eram resultado de seus pensamentos. O mundo exterior tinha influência bastante limitada na forma como ela se sentia. Tornara-se, sem perceber quando, alguém incapaz de ser acuada. Não por tentativa, por consequência. De que? É difícil saber. 

Mas naquela noite, por alguma razão, sua consciência partia-se entre presente e passado e a elegante mulher sentia-se confusa sobre a identidade perdida de menina. Foi bem naquela hora, como se o adversário visse o ponto cego de uma barricada e a atacasse, que o telefone tocou.

-Reencontro? - Sua voz melódica soou no cômodo vazio de sua sala. A palavra lhe era cara, não era com isso que estava flertando?

Quando desligou a ligação, passou alguns momentos sentava em seu sofá de camurça branco. Afundada em si, encolhida como uma concha, como uma menina de 15 anos. Encarou as longas e altas janelas que davam para a vista noturna da cidade, cobrindo as paredes de seu apartamento. Sentiu-se pequena como se não conhecesse nada, como se tivesse apenas começado a viver. Como se fantasiasse com o futuro, ouvindo músicas em uma manhã chuvosa a caminho da escola. 

Em seguida balançou a cabeça e riu, deparando-se com seu próprio reflexo no vidro: Toda encolhida em um robe de veludo preto. Que absurdo. Nada disso tem razão de ser. E aceitou o convite.

**

Ela não costumava chegar atrasada nem adiantada. Na verdade, tão acostumada com o controle do fluxo das coisas, se adaptava ao tempo disponível de tal forma natural, que mesmo sem grande planejamento sempre chegava nos compromissos exatamente no horário proposto. Dessa vez, porém, chegou antes. Ainda faltavam 20 minutos para o horário, quando estacionou na rua do restaurante. Desligou o carro e ficou lá. Esperando para entrar. Uma atitude que nunca em sua vida adulta tivera. Se chegasse mais cedo, entraria mais cedo. Tomaria um drink, olharia os transeuntes. Não ficaria esperando sentada em um carro desligado, preocupada com o que sua chegada cedo poderia parecer. Preocupada com os pensamentos dos outros, com o que pensariam dela. 

Chega, decidiu. Essas tolices devem parar. 

E foi até o restaurante, pedindo uma mesa em seu local preferido - no 1o andar, na sacada. E informando o pequeno número de pessoas que em breve se juntariam a ela. 

Sentir o líquido suave do vinho descer por sua garganta, agora tão acostumada com sabores exóticos e sofisticados, lhe fez sentir-se si mesma novamente. Fechou os olhos por um momento, deixou o vento noturno tocar-lhe a face pálida, as sobrancelhas cheias, os cílios longos. Um sorriso sutil se formou em seu rosto. Momentos assim, saborosos, em que sentia-se como ela mesma, alimentavam a pessoa que descobrira que era. Foram os momentos em que sentiu o prazer inesperado de ser, que lhe forneceram a confiança que mil performances nunca conseguiriam emular ou muito menos construir.

Foi quando ele chegou.

Seu cheiro lhe atingiu do outro lado do salão. Cítrico, amadeirado, cheio de nuvem densa. De menino do rio. Quando ela abriu os olhos, de sua pequena meditação interna, os dele a encaravam, a metros de distância. Um elo direto, depois de tantos anos. Do outro lado do restaurante.

Ela observou quando ele sorriu para o garçom polidamente, sinalizando que tinha encontrado sua mesa e se dirigiu em sua direção. Ele também chegara cedo.

Era, para todos os efeitos, o mesmo: cabelos louros, de fios lisos e grossos. Agora um pouco mais longos, acompanhando o pescoço. Rosto de pele fina, pálida. Olhos baixos, meio sorriso. Estava mais alto, é verdade. Um pouco mais forte, mas ainda magro. Mas sempre com aquele jeito curvado, de senhor de idade de, agora, trinta e poucos anos.

Ela o observou enquanto ele se aproximava, sem nenhum constrangimento. A ausência de necessidade de desviar o olhar ou fingir surpresa ou indiferença lhe tranquilizou de que naquela noite, tinha voltado a sintonizar com quem era agora. E não há 15 anos atrás.

Ele chegou trazendo seu cheiro, tocou a cadeira em frente a dela, e sorriu. Sentou-se sem dizer uma única palavra, como se de alguma forma, entre eles, ainda fosse normal, serem completamente alheios a convenções sociais. 

A falta de um cumprimento formal, que os colocaria na condição de antigos conhecidos, imediatamente ressuscitou o elo da intimidade. Em poucos segundos, estava estabelecido que se comportariam como eles mesmos e não como suas personas sociais.

O garçom chegou com uma nova taça e ele se serviu, sem cortesia ou brinde. O contato ocular entre eles ainda não tinha sido quebrado, nem uma única vez.

Ela, então, sorriu. E voltou a olhar para a escuridão da noite, dos prédios, do vento noturno. Ele fez o mesmo, acompanhando o seu olhar. Beberam do mesmo vinho, enquanto o mesmo vento daquela cidade em que nasceram, em que cresceram e em que tragicamente se separaram, tocava-lhes o rosto. 

Assim permaneceram por exatos 15 minutos. Sem uma única palavra, em um reencontro após quase 10 anos. Algo tão estranho que só eles seriam capazes de fazer. Uma intimidade tão absoluta que só eles seriam capazes de conservar tanto tempo depois. 

Ao final do minuto 15, como a badalada que encerra o conto, seus demais ex-colegas chegaram. Sorrisos, abraços, cumprimentos. Ambos automaticamente assumiram seus papéis sociais. Palavras, comentários, histórias, atualizações. Conversaram com os demais e entre si. Tão sociáveis e cordiais que para qualquer um dos demais colegas, poderiam até mesmo esquecer que aqueles dois se amaram um dia. Que fizeram a vida um do outro um inferno. Durante 2 horas de jantar, sobremesa, amenidades e gentilezas, foi fácil parecer que nada daquilo jamais tinha acontecido.

Mas tinha. Porque por 15 minutos, eles foram novamente os mesmos. A garota de 15 anos, que tinha medo da própria sombra. O garoto raivoso e estranho, que fazia tudo errado. Anos de erros. Discussão na madrugada. Os primeiros grandes arrependimentos. As primeiras percepções do amor. Os primeiros choros de ciúmes. Descontrole e inocência. O começo de tudo. Uma conexão tão estranha que jamais baseou-se em declarações, e sim em frases soltas. Pensamentos compartilhados. Telepatia e silêncio.

Naqueles 15 minutos, foram novamente eles. E depois disso, por toda a vida, eles nunca tornaram a se reencontrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Seu céu, meu mar

 Aqui você tem 18 anos de inventário da minha vida.
Minha vida.
O que você vai fazer com minha vida?
Além de ter curiosidade e ressentimento.
Eu aproveito, com um prazer passageiro, esses instantes de curiosidade.
Coisa rápida, passageira. Só dura enquanto dura a idade.
Enquanto dura a beleza.
E o fascínio da disparidade
Entre uma mente potente e um coração louco.
Não foi sempre esta minha dualidade?
Se eu causo fascínio em seu repertório rouco
É só pelo poder encantador do contraste.

Eu entendo, talvez demais
Que o que sentem por mim nunca é amor.
Curiosidade, desafio
E outras formas de ardor.
Eles passam, como passa o frio
Diante da mais eficiente fonte de calor.
Ninguém quer aclarar o que é sombrio
É na sombra que sobrevive o esplendor.
Não serei eu a quebrar sua imagem
De mil contos de uma belíssima miragem.

Mas caso queira se aprofundar
Largar o encanto, botar os pés no mar
Em um dia de maio, posso te mostrar
Quando a chuva cai e o tempo não é frio
Quando estamos bobos e risonhos do abril
Quando não tenho nada a provar e tudo a surpreender
Nessa disposição de espírito, talvez possa te enternecer
Com algo além da imagem, da miragem
Algo além da perfeição que sua mente criou e na qual me aprisionou
Algo que eu posso dar, algo real a se amar

Mas até alguém chegar
Que não queira meu céu, e sim meu (a)mar
Devo, per forza, continuar
A performar...
A performar... 


Acerto de contas

Sinceridade.
Garota, você teve coragem.
O que diz agora, no acerto de contas consigo mesma?
O quanto se amou? que compromissos honrou?
Não faça perguntas injustas.
Eu fiz o que pude. Minhas chances nunca foram justas.
Nasci no berço do amor e do abandono. Minhas lentes demasiadamente puras.
Demorei tempo e experiência para entender: as coisas belas, as coisas cruas.
Estou tentando me perdoar: pelo abandono que não pude retroceder. Estou tentando me amar. Estou tentando viver!
É tudo tão difícil: não é fácil, isso é mentira. É absurdamente difícil.
Sentir o outro, entender. E a si mesmo, perdoar. Amar, amar. Sentimento enorme, dolorido, sacrificado e ingrato.
E de gratidão não há o que falar, porque no fim do dia são comigo mesma as contas a acertar:
O quanto me amei? O quanto me respeitei?
O quanto consegui nas condições que me foram dadas. Que não foram tão boas. Nem foram tão árduas.
O que fiz com elas: essas são minhas marcas.
Violência, carinho. Eu sempre fui assim. Nunca estável, sempre um passarinho. Em busca de um coração, em busca de um ninho. Destruindo sem compaixão tudo o que me atravessava o caminho.
Agora estou tranquila: tento pensar antes, olho nos olhos a vida. Abraço minha fragilidade. A esgano, por vezes, com vontade - é verdade. Depois a retomo, sou liberdade.
Coisa incerta. Menos clara do que certa. Que tenta acertar, mas parece que só erra. Que ri de tanto erro, mas que se nega
A viver uma vida supérfula.

Planeta Felicidade (Meu texto preferido)

(Bruxelas, 2024, uma tarde. Eu fugia do que há de pior em mim. Eu encontrava o melhor de mim. Planeta Felicidade.)

A prece de todo final de tarde. Cores cósmicas, azul e rosa. Minha pequenez em frente a tudo.
Amor.
Surpresa e expectativa. Esperança no inesperado.
Coisas pequenas, simples, rotineiras, permeadas por tanto sentimento que transborda, não cabe, molha tudo ao meu redor e me deixa submersa.
Eu me lembro.
De cheiros e cores. De sons espontâneos. Da textura do abraço, do calor de um sentimento.
Tentativa e erro.
Olhos que parecem que a qualquer momento vão desaguar.
Amor, amor. O que mais?
Alívio, talvez. Que eu não mudei. Que a dor não levou o melhor de mim. Que eu ainda posso me emocionar com as cores do céu, o toque do frio, você.
Você.
Vocativo aberto, um lugar.
Uma insistente esperança de lhe preencher.

Parte II

Nostalgia, sentimento quente e terno, deixo me dominar.
Mas nostalgia com o futuro, não com o passado.
Saudade do que vou encontrar, da possibilidade.
Saudade e vontade. Um coração preparado para o inesperado.
Bem vestido, alcochoado, apto a receber a felicidade.
Para isso, me despeço de um antigo traço de personalidade. Me despeço do meu velho hábito, ser histórico feito de passado: escrevendo para viver uma segunda vez e dessa segunda ser mais palatável.
Escrevendo para dizer: meu tempo e amor não foram desperdiçados.

Rompo esta linha hoje.
Um dia nem quente, nem frio.
Para todos os efeitos, mais uma noite de abril.

Nostalgia do futuro é o que me preenche agora, um músculo de cada vez, percorre minhas veias e relaxa minha tez.

Chega da saudade. Não há espaço para o passado quando meus olhos estao inebriados pela possibilidade.

É o Planeta Felicidade.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Todas as outras dentro de mim

Aquela casa pequena em uma rua que ninguém se importa em nossa cidade insignificante.
Todas as coisas do nosso passado são assim: pequenas, irrelevantes. Nada comparado a sua vida agora.
Tanta vida, tanto sentimento. Tanta infinitude nos preencheu em tardes insignificantes.
Será que você lembra?
Que cada acordo e plano era um mundo a ser desbravado.
Que cada conversa, risada e brincadeira enchia o quarto de sensação de sonho e infinitude?
Será que você lembra de tudo isso?

- Todas as coisas existiram.
Elas foram enormes, infinitas, pioneiras e puras.
As coisas mais sinceras foram com vocês.
Aquelas fruto de amor, de obsessão, de desespero e de medo.
Todos os sentimentos na carne crua.
Aqueles sinceros, autênticos, lidos nos olhos.
Todas as coisas comigo foram assim, todas as coisas que existiam em mim.
Todo o amor que eu dei, as histórias que eu criei: pautadas na verdade e na adoração.
Uma adoração pelo presente, pela infinitude dos momentos.
Todas as minhas despedidas doeram como amputações: pedaços da minha carne sendo arrancados do meu coração.
Em cada um desses mundos, deixei um punhado de emoção.

Nunca nesse mundo existiu uma menina tão apaixonada.

Capaz de entregar tudo, de enlouquecer a si mesma e aos outros.
Capaz de quebrar cada uma das promessas que fez para si mesma, de abdicar da sanidade.
Guiada por impulsos, vontade e liberdade.
Todas essas histórias foram infinitas, imersas em sinceridade.
Em cada uma delas depositei esperanças de futuro
Sem saber que o presente
Era o limite da realidade.
Mas vivendo intensamente
Muito mais intensa que uma tempestade.
Devastando moinhos, quebrando limites, beirando a linha da insanidade.
E o quanto me entreguei, doei, apaixonei.
O quanto amaldiçoei, gritei, inconformei.
O quanto vivi, o quanto quis, o quanto fiz.
Todas as coisas que eu quis, eu fiz. E quão completamente.
No final de tudo isso
Eu não tenho arrependimentos
Só lembranças
Sorrisos delicados 
Um pouco de passado
Que me faz rir,
Imensa e distante
Do extremo oposto de uma linha plana
Que acaba e recomeça,
Tornando-se uma coisa nova.
Eu sou a outra, enfim
Guardando com carinho
Mas distante da nostalgia
Todas as outras dentro de mim.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Eu ouvi falar que nesse bosque moram fadas

Eu toquei com as pontas dos dedos a lembrança dos sentimentos de um outro tempo.
Inefável - eu odeio as pessoas que usam essa palavra.
As que se autodenominam aprendizes, o consciente movimento de auto-rotulação de humildade.

Estou cansada. Mergulho em mim, dou um salto. A distância é segura aqui. Procuro conforto na escuridão e silêncio.
É melhor do que uma noite cor de cinza em que vejo a chuva pela janela e lembro, lembro, lembro.

Lembro de outra versão de mim, da capacidade de sentimento. De querer, imaginar, sonhar.
Acreditar em magia.

Porque desde criança, desde a minha primeira lembrança: eu sempre acreditei em magia.
Vendo bosques encantados em um matagal abandonado, confundindo o som dos passarinhos com fadas.
Se fossem bruxas, também queria, não importava: meu objetivo era a mágica.

Crescendo, troquei as mãos. Meu sonho se tornou algo mais humano: a magia em forma de uma pessoa.
Buscando aquele sentimento: aventura, compreensão e o inesperado. Projetando, ansiando. Querendo sempre mais.
Eu ainda sentia a mesma centelha de empolgação de desbravar meus bosques, ao idealizar um sentimento místico nos receptáculos mais inadequados.
Eu continuava em busca da magia de uma verdadeira companhia. A ambição máxima fundamental: ser vista como uma igual. Ou apenas se vista, conhecida. Ser ouvida. Nos dias mais ambiciosos, quem sabe, compreendida.

Mas magia não existe, ou existe, em outras formas. Existe na poesia, na capacidade de depois de tantos caminhos percorridos, ainda ter vontade de fazer prosa. Existe na centelha fumegante em meu peito, no carinho que escorre pelos meus dedos, nos cabelos de quem eu amo. Existe porque eu ainda chamo, eu ainda espero o inesperado. Existe porque eu ainda amo.

Existe na linha invisível. Na ingenuidade até mesmo risível. Incompreensível. Que persiste porque quando menos espero, recebo: dias de magia, tão sagrados quanto mágica.
Existe porque ainda choro, ainda anseio, ainda receio, ainda adoro. Existe em coisas que não conheço, e porque as quero descobrir.
Nessas duas lágrimas que caem sem que eu perceba, que me informam que não adormeci. Estou acordada, estou aqui, estou viva. Hoje, essa é minha forma de magia.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

I'm still so strange and wild

Às vezes eu ainda quero ser vista nesse mundo.
Quero ser conhecida, e ser vista e conhecida, a meu ver, é ser amada.
Às vezes ainda quero ser querida, da minha forma estranha e selvagem que me é natural.
Às vezes, ser um objeto distante de admiração não é suficiente, visto que minha própria companhia se torna sufocante.
Num repente, tudo muda assim: de equilíbrio e a desespero, tudo sucumbe num instante.
Minha mente, onde habito, torna-se um ambiente inóspito. Minhas tentativas de melhorias passam a sufocar-me até os ossos.
Questiono tudo: palavras, pensamentos e ações. Passado, planos e projeções. Questiono e me envergonho. Tenho tanta vergonha que quero me encolher, sumir. E de repente não quero ser vista, nem conhecida. Não quero ser amada, só quero me tornar invisível.

São todos os mesmos sentimentos da infância, da adolescência. O retorno a um centro tão famíliar me faz sentir que não evoluí nada. O fato dessa convicção seguir sensações de grande clareza e coerência me faz duvidar da minha própria percepção. Me sinto confusa, insana, pouco confiável.

Tento dar dois passos para longe de mim e ver a mim mesma. Entender o motivo da minha tristeza. Dessa tristeza estranha que me toma de assalto em uma tarefa banal. Coloca lágrimas nadando pelos olhos sem nunca escorrer, como uma represa esperando para transbordar.

Não tenho uma resposta clara nessa condição, apenas flashes de coisas que doem: a ideia de amar algo estranho e inóspito. A saudade de coisas que nunca aconteceram. A vergonha que se acumula em pilhas. A percepção da fragilidade alheia, tão palpável, tão crua. Tudo me dói, penetra minhas entranhas e balança o vazio no meu peito que mais parece com um grito oco, cru e visceral aprisionado.

Esse contraste entre silêncio e estrondo parece me sufocar porque não tem lógica, sentido ou contorno bem definidos. Não consigo encaixá-lo em uma narrativa, explicá-lo com clareza ou me conciliar com seus motivos. Apenas existe em pequeno caos, habitando meu pequeno ser do qual eu sinto tanta vergonha e nesses momentos tanta repulsa. Do qual não me orgulho, o qual não protejo. Do qual me ressinto em silêncio. Um silêncio que queima meus tímpanos.

Saleiro derramado

Ser amado é ser confiante

A ausência de amor gera o medo de tudo.

Descobrir um truque mental é como quebrar um encanto.
Não dá para voltar atrás.

Ela me ensinou a não transformar o medo em violência


*A relação dela com vergonha era muito diferente da dele. Uma quase serenidade com a derrota. Um humor gentil, não ácido. Ela não se atacava de forma depreciativa, embora se sentisse responsável por muitas coisas. (Ela tem uma família meio estranha, mas feliz e afetuosa)

Toda tentativa totalizante de controle nasce de uma sufocada fragilidade

Temas:
Controle
Vergonha
Identidade
Coerência
Validação
Inocência

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contraste (Balance)

É um pensamento comum a muitas culturas e correntes filosóficas que é preciso que haja a escuridão para que a luz aparece. Equilíbrio entre opostos é apresentado em ideias como o Yin e Yang, como uma necessária complementação entre extremos de um mesmo fenômeno, como o bem e o mal; a leveza e o peso; o controle e o caos. O delicado equilíbrio (balance) entre dois opostos pode ser interpretado como um estado muito mais desejável do que a presença de um deles, ainda que do extremo positivo. A felicidade, de forma geral, passa a ser reconhecida - compreendida, diante do conhecimento prévio sobre o que é a tristeza. É difícil conceber a apreciação plena de um estado positivo sem que o sujeito possua cognição sobre seu oposto. O contraste, mais do que um ideal, é uma condição necessária para que haja uma compreensão possível dos extremos que pontuam uma dada situação. A identidade se reforça diante de sua antítese. Elas são complementares, pois uma ajuda a dar sentido à outra. Não é à toa que o contraste, em procedimentos médicos, é usado, para melhorar a visibilidade de estruturas e substâncias. É através da comparação que se obtém uma clara percepção sobre a coisa. Seria, afinal, possível, conhecer algo, sem conhecer aquilo que ele não é? Seríamos capaz de identificar que uma cor é uma cor se apenas ela existisse e não fosse possível ver as outras cores, distinguindo-as? Essas reflexões podem nos levar a crer que as coisas - sentimentos, estados de espírito ou formas de experienciar possíveis não são só resultado do fato/momento em si, elas são sentidas e interpretadas a partir do conjunto de informações (memórias) sobre seus contrastes e elementos distintivos. Quanto mais conhecedor da dor e tristeza, mais capaz de identificar (e talvez, apreciar) a felicidade. Quanto maior a experiência na desordem e descontrole, melhor a habilidade de valorizar a paz e a calmaria.

Eu prefiro ser a coisa imaginada

Nós, seres previsíveis
Movidos à imaginação e mistério
Alimentados pela fome que só o desejo do incompreensível traz
Enfeitiçados por ilusões: encantados pelo imaginado
Sempre, eternamente, com o recorrente entediados.
Não é possível amar alguém
Não a longo prazo
Não como única opção.
Porque o finito e previsível nos recorda também nossa finitude
"Esse é meu par para a vida" é um atestado de que a sua vida acaba e seu destino está determinado
Que as possibilidade foram fechadas
Que uma hora acaba.

A maior fantasia:
Uma cidade imensa
De caminhos imprevisíveis
Possibilidades e rodovias
A cada esquina um novo mundo, tudo novo
O inesperado
Aquilo que nos dá a ilusão do inimaginável
Vida eterna
Possibilidades
A casa de mil portas
Tudo aquilo que nos lembra
Do imaginário
Da ideia de surpresa
De sorte
E nos faz esquecer
Da morte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Depois da perda da inocência

Vazio e o medo que ele provoca são feridas compartilhadas a todas as pessoas.
A estrutura interna e externa pode favorecer a adoção de formas serenas de lidar com a dor.
Essas coisas não vem, necessariamente, em palavras. Elas podem ser transmitidas pela sensação de ser amado.
Ser amado interrompe a insegurança de existir em um mundo sem respostas. Acalenta o medo - embora não o destrua - a partir de uma sensação de pertencimento, que fornece estabilidade e estrutura.
Dar sentido às coisas não é algo que pode ser resolvido com palavras. Quando se é amado, há uma percepção de que a vida faz sentido pois você é necessário para alguém. Há um elo de continuidade entre o eu e o outro que tira a existência do vazio sem significado.
Ser amado é ser confiante
A ausência de amor gera o medo de tudo.
O medo de tudo não subsiste na sua forma original por muito tempo. Ele logo adota formas que o travestem, que buscam suplantá-lo. Ele assume a faceta de violência, controle e ódio.
O controle é apenas uma tentativa de estabilizar a insegurança que o medo traz. A violência e o ódio buscam, pela negação do outro, fortalecer a identidade do eu. É a forma primitiva através da qual o sujeito que odeia a si mesmo busca validar-se. Como é impossível identificar o valor de si mesmo, é através da deterioração do seu semelhante, que ele se exalta.
Nessa estrutura, a vulnerabilidade deve, a todo custo, ser afastada. A vergonha é o pior dos pecados. O orgulho e a tentativa de controle da imagem provocada são os mecanismos de estabilização da identidade, na ausência de qualquer coisa mais sólida que a segure. Na verdade, o que impera no centro dessa dinâmica é o caos e o desespero. E o medo. O medo que tudo desmorone e a fragilidade seja exposta, já que ela é tudo o que existe.

Existem tentativas menos agressivas de estabilização da identidade, para aqueles que não se sentem seguros o suficiente. A busca pela validação do outro ou de um público incerto através da construção de uma imagem desejável é uma delas. É uma saída que oprime o próprio sujeito, ao invés de um terceiro. Ela requer uma manutenção constante da imagem projetada, seja através da ostentação material, física ou intelectual. É uma tentativa de auto-atribuição do valor através da agregação de qualidades consideradas desejáveis pelo meio social. Na verdade, ela só existe porque o sujeito não acredita possuir um valor intrínseco.
Ela nunca acaba. As conquistas possuem o efeito de aliviar, mas nunca preencher o vazio da autoestima. Por isso é necessário buscar sempre mais.

Apenas a clareza sobre essas dinâmicas, necessidades e sobre a dor fundamental é capaz de tranquilizar a mente. Não de eliminar a necessidade, mas ao menos fornecer uma visão clara sobre a razão do que fazemos e porque. Com essa clareza é possível tentar alinhar ações, sentimentos e pensamentos, buscando uma coerência interna e externa que traga alguma estabilidade, ainda que em meio ao caos. Ao elaborar uma estrutura interna de forma consciente, o sujeito pode retomar um pouco da sensação de controle - não sobre o outro, não sobre a percepção alheia em relação a si mesmo, mas sim sobre o seu próprio eu.

O desafio é mais difícil, mas não impossível, para quem não foi amado por uma pessoa. Quem não nasceu e cresceu em um ambiente de amor, pode aprender a nutri-lo em uma concepção mais ampla: amor por uma causa, um sonho, uma forma de viver. Amor por uma atividade, por um ofício, por um objetivo. Amor como elo de ligação que dá sentido e estrutura pertencimento. Esse é o eixo existencialmente estruturante, capaz de atribuir sentido e dar solidez.

E por fim, é preciso lembrar que não podemos ser otimistas a ponto de pensar no ódio apenas como um produto do terreno do desamor. O ódio também é alimentado por fatores externos, movimentos coletivos mentais, pelo contexto social, pela violência simbólica e estrutural infundida por macroestruturas que alimentam-se e lucram com a perpetuação sistêmica do ódio, que constroem simbolismos e o associam a necessidades básicas e primitivas, usurpando mentes que, por vezes, conheceram o amor, mas são ensinadas a desconhecê-lo.

E além disso, há o ódio que vem da maldade humana, que também é capaz de coisas que parecem inconcebíveis ou que tentamos justificar por um contexto de escassez, mas que devemos, à bem da justiça da realidade, admitir que existem, também, como um fenômeno autônomo e sem explicação.

Confiança - Clareza - Coerência - Coragem - Vulnerabilidade - Gentileza - Empatia

Controle - Vergonha - Insegurança - Necessidade - Medo - Violência - Fragilidade

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Performática

Transitando entre mundos, entre extremos
Tomando decisões.
Porque eu sempre fui assim: performática.
Inventando ao outro e me distorcendo
Mentindo na cara dura.
Que eu era fria, que era ácida, que era dura.
Quando na verdade era pura doçura
Era pura.
Agora, eu não sei
Possivelmente vivo pela mesma lei.
Mas prefiro buscar a coerência
É na minha verdade interna que está a potência.
Atestar a fragilidade do outro
Degustar a levianidade de sua opinião
Me deu uma certa liberdade
Um reencontro comigo mesma
Ou o primeiro encontro da vida, talvez.
Para mim, que sempre fui performática
E me vi tornar a imagem emblemática
Agora sem esforço, encrustada na mente alheia
Com uma simbologia tão mística quanto zombeteira
Justamente quando não me importo mais
Consegui ser o que sempre quis.
Agora quero outra coisa
Que não está dentro de ninguém além de mim
Agora, estou voltando para a casa
Agora a performance tem fim.

I couldn't help be bored. Guess it can be stressfull to be adored.

-Eu sou a pessoa mais entediante.
Respondeu ela. Sorriso gentil, vazio.
Ele não podia acreditar.
Não tinha nada, nem aquela afirmação, que soasse entediante.
Mas existia um mundo interno que ele não conhecia, do qual não se aproximava.
A sombra de um rosto, sob o rosto.
Sob a camada de loucura, selvageria, sensualidade e impulsividade.
Havia a camada do sorriso oco, riso seco, gentileza vazia. Vácuo.
E atrás disso, havia outra coisa mais.
Seria talvez o tédio?
As pessoas confundiam com mistério.

Ela observou, curiosidade e previsibilidade.
Sentia a vida escorrendo pelas próprias veias, a textura do lençol tocando a pele. O suor, o gosto, o cheiro.
A experiência que seu paladar tocava, apreciava. Extraía em uma operação extrema, detalhista.
Cavando um poço em busca de um mineral precioso.
Encontrando o oco do espelho. O escuro. O reflexo. O vazio.

O grito mudo desperado no subtexto da sua beleza.

E ao mesmo tempo, a segurança da invulnerabilidade.

A verdade, ao ser dita, diz que ela gostava do poder. E o tinha.
É engraçado que não costumasse a escrever sobre isso.
Tão afeita às coisas frágeis e sua descrição.
À expressar, com clareza, sua própria vulnerabilidade.

Nem parecia que sabia que era aquela mulher.
Aquela que controlava o ambiente com um mínimo gesto.
Que gerava modulação na corrente de ar com o ensaio de um movimento.
Ela sentia o poder fluir dela como um curso natural na maior parte dos ambientes.
Quando ela sorria, eles sorriam.
Quando elogiava, eles choravam.
Acessava o íntimo das pessoas com a naturalidade de quem opera um mecanismo conhecido.
Olhar distraído e preciso.
E gostava.
Saber que fascinava era um gentil elogio. Mas que também a entediava.
Era tão fácil. Tão... natural.
Separar a parte pura do ser animal.
No final das contas, todo mundo era igual.

2026 (os anos novos)

Há dois anos eu estava em frangalhos.
Tudo estava se despedaçando, o chão sob meus pés.
Eu sentia toda a dor excruciante do abandono e indiferença. Sentia uma fome vital de recuperar minha mente, caos. Quando minhas tentativas de sobreviver mentalmente falharam, me senti em desespero. Aquela dor que aperta o peito, excruciante. Você não sabe mais onde vai caber tanta dor. Foi assim meu início de 2024.

Há um ano eu estava do outro lado do mundo. E ainda assim, eu estava sentindo dor.
Depois de achar que tinha superado, me reinventado, estava em outro espiral tão parecido, tão igual. Esperando por alguém. Uma mensagem, um sinal de atenção. Colocando em um estranho minha autoafirmação.
Eu estava, ironicamente, sozinha na multidão. Na forma mais glamourizada que já vivi de solidão.

Hoje eu estou sólida. Não estou exultante, mas estou minha, estou sóbria.
Me sinto vigilante. Coerente, satisfeita. Fazendo planos sem desespero. Questionando os impulsos da minha própria mente.
Estou em um lugar seguro e calmo pela primeira vez em tanto tempo.
Estou quase surpresa ao comparar o hoje com o passado, esses dias atuais, que pareciam tão banais. E descobrir que estou em paz.
Olhar para os anos atrás de mim, e ver como, com tanta dificuldade, atravessei as armadilhas repetitivas da minha mente e do desespero em busca do outro.
Estou presente. Estou contente.
Feliz ano novo.