quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

I'm still so strange and wild

Às vezes eu ainda quero ser vista nesse mundo.
Quero ser conhecida, e ser vista e conhecida, a meu ver, é ser amada.
Às vezes ainda quero ser querida, da minha forma estranha e selvagem que me é natural.
Às vezes, ser um objeto distante de admiração não é suficiente, visto que minha própria companhia se torna sufocante.
Num repente, tudo muda assim: de equilíbrio e a desespero, tudo sucumbe num instante.
Minha mente, onde habito, torna-se um ambiente inóspito. Minhas tentativas de melhorias passam a sufocar-me até os ossos.
Questiono tudo: palavras, pensamentos e ações. Passado, planos e projeções. Questiono e me envergonho. Tenho tanta vergonha que quero me encolher, sumir. E de repente não quero ser vista, nem conhecida. Não quero ser amada, só quero me tornar invisível.

São todos os mesmos sentimentos da infância, da adolescência. O retorno a um centro tão famíliar me faz sentir que não evoluí nada. O fato dessa convicção seguir sensações de grande clareza e coerência me faz duvidar da minha própria percepção. Me sinto confusa, insana, pouco confiável.

Tento dar dois passos para longe de mim e ver a mim mesma. Entender o motivo da minha tristeza. Dessa tristeza estranha que me toma de assalto em uma tarefa banal. Coloca lágrimas nadando pelos olhos sem nunca escorrer, como uma represa esperando para transbordar.

Não tenho uma resposta clara nessa condição, apenas flashes de coisas que doem: a ideia de amar algo estranho e inóspito. A saudade de coisas que nunca aconteceram. A vergonha que se acumula em pilhas. A percepção da fragilidade alheia, tão palpável, tão crua. Tudo me dói, penetra minhas entranhas e balança o vazio no meu peito que mais parece com um grito oco, cru e visceral aprisionado.

Esse contraste entre silêncio e estrondo parece me sufocar porque não tem lógica, sentido ou contorno bem definidos. Não consigo encaixá-lo em uma narrativa, explicá-lo com clareza ou me conciliar com seus motivos. Apenas existe em pequeno caos, habitando meu pequeno ser do qual eu sinto tanta vergonha e nesses momentos tanta repulsa. Do qual não me orgulho, o qual não protejo. Do qual me ressinto em silêncio. Um silêncio que queima meus tímpanos.

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