sexta-feira, 13 de março de 2026

Eu ouvi falar que nesse bosque moram fadas

Eu toquei com as pontas dos dedos a lembrança dos sentimentos de um outro tempo.
Inefável - eu odeio as pessoas que usam essa palavra.
As que se autodenominam aprendizes, o consciente movimento de auto-rotulação de humildade.

Estou cansada. Mergulho em mim, dou um salto. A distância é segura aqui. Procuro conforto na escuridão e silêncio.
É melhor do que uma noite cor de cinza em que vejo a chuva pela janela e lembro, lembro, lembro.

Lembro de outra versão de mim, da capacidade de sentimento. De querer, imaginar, sonhar.
Acreditar em magia.

Porque desde criança, desde a minha primeira lembrança: eu sempre acreditei em magia.
Vendo bosques encantados em um matagal abandonado, confundindo o som dos passarinhos com fadas.
Se fossem bruxas, também queria, não importava: meu objetivo era a mágica.

Crescendo, troquei as mãos. Meu sonho se tornou algo mais humano: a magia em forma de uma pessoa.
Buscando aquele sentimento: aventura, compreensão e o inesperado. Projetando, ansiando. Querendo sempre mais.
Eu ainda sentia a mesma centelha de empolgação de desbravar meus bosques, ao idealizar um sentimento místico nos receptáculos mais inadequados.
Eu continuava em busca da magia de uma verdadeira companhia. A ambição máxima fundamental: ser vista como uma igual. Ou apenas se vista, conhecida. Ser ouvida. Nos dias mais ambiciosos, quem sabe, compreendida.

Mas magia não existe, ou existe, em outras formas. Existe na poesia, na capacidade de depois de tantos caminhos percorridos, ainda ter vontade de fazer prosa. Existe na centelha fumegante em meu peito, no carinho que escorre pelos meus dedos, nos cabelos de quem eu amo. Existe porque eu ainda chamo, eu ainda espero o inesperado. Existe porque eu ainda amo.

Existe na linha invisível. Na ingenuidade até mesmo risível. Incompreensível. Que persiste porque quando menos espero, recebo: dias de magia, tão sagrados quanto mágica.
Existe porque ainda choro, ainda anseio, ainda receio, ainda adoro. Existe em coisas que não conheço, e porque as quero descobrir.
Nessas duas lágrimas que caem sem que eu perceba, que me informam que não adormeci. Estou acordada, estou aqui, estou viva. Hoje, essa é minha forma de magia.

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