domingo, 2 de janeiro de 2022

Ansiedade

A essa hora do amanhecer, meu corpo sente que ainda é noite.
Impulsos infantis, fúrias infundadas, medo.
Com o passar o tempo, fiquei cada vez mais medrosa. Me procuro dentro do meu breviário de fins, de términos iminentes: desta luz do sol, deste dia. Do mais próximo momento de alegria, da vida minha e de todos que me cercam.
Medo do tempo, da passagem dele.
Eu me pergunto se envelhecer é sentir medo do tempo, se essa sensação de perda constante é o pagamento que faço pela capacidade de apreciar o seu valor.
Apreciar e temer perder: a inaptidão em lidar com a finitude, com a morte natural minha e de todas as coisas.
Eu vejo em mim, eu vejo: todas as coisas que temo, que julgo ou que repudio.
Vejo em mim os medos da minha mãe: vejo os defeitos e percebo que não são defeitos. Vejo seus traços de personalidade, posso tatear e acompanhar de que substância são feitas suas ações. Vejo pois reconheço em mim mas se a mim julgo, como posso perdoá-la?
Tenho plena consciência de que tudo isso, sob uma perspectiva mais ampla e distante, seria de simples resolução.
Tento me afastar de mim, me olhar do outro canto da sala: Qual é o problema? Por que você está complicando tudo?
Sinto que a capacidade de compreensão está no âmbito da consciência, está a meu alcance: obstaculizada só por um ou dois véus de confusão.
Sinto minha vista desvanecer e a névoa obstruir a clareza da minha percepção: tão afiada e metódica em relação ao mundo exterior. Tão emotiva e juvenil com meus próprios sentimentos destrambelhados.
Todo dia é essa pequena luta:
Lutar com a pequena e conturbada parte de mim.
Não busco por grandes coisas, por nenhuma compreensão maior. Qualquer teorema geral é pura bobagem, pintar fatos e pessoas de poesia é escape da realidade, tudo bem.
Mas eu só busco por paz.
Quero encontrar o equilíbrio entre observar e viver, sem precisar temer no caminho.
Quero relaxar meus ombros e respirar fundo sem me esforçar para isso, quero a ausência de esforço, a naturalidade.
Quero ver de forma clara e não obscurecida pelos meus próprios fantasmas e temores repetitivos.
Sei bem que é tudo uma questão de perspectiva.
Sei que uma leve alteração de cenários me faria reconhecer a simplicidade dos meus problemas abstratos.
Mas esse conhecimento não toca ainda meu coração - incluo o "ainda" como um ato de generosidade e esperança em mim mesma.
Minha mente - rápida, racional e potente - não consegue informar ao tremor das minhas mãos, à náusea em meu estômago e aos olhos vidrados antes de dormir.
Eu odeio dar nome às coisas, mas talvez possa chamar isso de ansiedade.