Dois olhos castanhos e grandes me encaram. A pureza da ignorânca quase me soa inocência, quase soaria, se eu ainda fosse outra. Se ainda buscasse pintar cenários à partir de retalhos perdidos no esgoto. Se ainda procurasse o amor nas mais indigestas valas.
Seus olhos piscam, cobertos por cílios grandes. São brilhantes e bobos, líquida substância oca. São a única coisa que se destaca em seu rosto comum.
Um homem vazio, eu penso, quando toco sua barba cheia, sorrindo e sendo sorrida de volta. Quantos parecidos já não conheci, beijei, vivi. Um homem sem qualidades, apesar de um forte senso de auto apreciação. É nisso que penso, enquanto ele segura a minha mão.
Suas opiniões são rasas, superficiais, envolvidas por critérios de valor que me nego a justificar. A forma como as enuncia, nesse primeiro momento de encanto, poderia me parecer ingênuo e não estúpido, se eu tivesse outra disposição. Mas já concluímos que, depois de tudo, não farei mais essa operação.
Escuto sua voz grave, tão cheia quanto o vazio de seus posicionamentos. E penso, é lento, o processo de se apaixonar.
Se eu quisesse,
Se estivesse disposta
Se ainda fosse ela,
O grave sensual dessa voz poderia sobrepor-se ao resto.
O calor dos seus lábios anestesiar-me-ia do que é indigesto.
Poderia, por um momento, ignorar o evidente,
Ajustar em meus óculos a sua lente,
Como estive fazendo por tantos anos.
Mas o que eu ganho?
Esse punhado a mais de sensações que me traz,
Quentes demais
Coisas irreais
Tudo o que tanto fez como tanto faz.
Nada convidativo o suficiente para que eu aliene minha mente.
Agradeço sua oferta,
Com um beijo gentil em seus olhos.
Pode ficar com seus óculos.
A mim esse método já não satisfaz.
Não, obrigada.
Eu quero mais.
domingo, 17 de março de 2024
Advertências em um sonho
-Pessoas podem morrer de solidão.
Ela disse, olhando em seus olhos com a tranquilidade de águas paradas, sorvendo um único gole daquele drink forte demais.
Ele concordou, pensando que ao chegar em casa escreveria sobre isso. Porque é quando a solidão o abarcaria como um abraço indefectível e esmagador, que lhe tiraria todo o ar, e então, nesses momentos, a única saída é escrever. Escrever para sobreviver.
-É verdade. - Concordou, sem absolutamente nada a acrescentar. Apesar do fato de que, intimamente, pensava que matar era apenas uma das capacidades possíveis da solidão. A última. Antes disso, ela também é capaz de enlouquecer alguém e, ainda, fazê-lo perder-se de si.
Esquecer quem é ou o que quer, o que tem como valioso. Sujeitar-se à dor de companhias desprezíveis e a ser machucado. Instigá-lo a cometer todo tipo de atrocidades. Tudo para fugir dela. Também é capaz de fazer alguém ir embora de si mesmo. Substituir a mente e coração por figuras e sons externos, preenchendo os dias com o vazio, até ele tornar-se maior que a própria solidão. Maior que tudo. E a tudo engolir. Até a capacidade de sentir do coração.
-Você tem duas opções. Pode encara-lá ou não. Se encará-la, tem que ter cuidado para não se desesperar. Segurar o grito sufocado de realidade.
Ele concordou mais uma vez, como sempre, vendo aquela imagem cada vez menos nítida começar a desvanecer em sua frente. Partículas esfumaçando no ar, como nuvens antigas que se desmancham no céu da memória.
A voz, agora distante, de um sonho ou lembrança, ecoou, já com timbre de passado:
-Ou pode fingir que ela não está lá. E fugir e fugir e fugir...
Ela disse, olhando em seus olhos com a tranquilidade de águas paradas, sorvendo um único gole daquele drink forte demais.
Ele concordou, pensando que ao chegar em casa escreveria sobre isso. Porque é quando a solidão o abarcaria como um abraço indefectível e esmagador, que lhe tiraria todo o ar, e então, nesses momentos, a única saída é escrever. Escrever para sobreviver.
-É verdade. - Concordou, sem absolutamente nada a acrescentar. Apesar do fato de que, intimamente, pensava que matar era apenas uma das capacidades possíveis da solidão. A última. Antes disso, ela também é capaz de enlouquecer alguém e, ainda, fazê-lo perder-se de si.
Esquecer quem é ou o que quer, o que tem como valioso. Sujeitar-se à dor de companhias desprezíveis e a ser machucado. Instigá-lo a cometer todo tipo de atrocidades. Tudo para fugir dela. Também é capaz de fazer alguém ir embora de si mesmo. Substituir a mente e coração por figuras e sons externos, preenchendo os dias com o vazio, até ele tornar-se maior que a própria solidão. Maior que tudo. E a tudo engolir. Até a capacidade de sentir do coração.
-Você tem duas opções. Pode encara-lá ou não. Se encará-la, tem que ter cuidado para não se desesperar. Segurar o grito sufocado de realidade.
Ele concordou mais uma vez, como sempre, vendo aquela imagem cada vez menos nítida começar a desvanecer em sua frente. Partículas esfumaçando no ar, como nuvens antigas que se desmancham no céu da memória.
A voz, agora distante, de um sonho ou lembrança, ecoou, já com timbre de passado:
-Ou pode fingir que ela não está lá. E fugir e fugir e fugir...
Juras de desamor
É difícil para um lutar contra sua natureza.
Tento tomar precauções, planejar saídas de emergência. Preocupação com consequências de meus atos, dúvida razoável.
Não adianta.
Na hora H só quero devorar.
Soltar as correias e sentir o gosto do ar. Rir diante do desafio, do frio, do vazio. Misturar-me com suas expectativas, interpretar uma doce bailarina. E em seguida me desmontar em frente aos seus olhos horrorizados.
Sinto o cheiro.
É inocência.
A única coisa que me interessa em uma banal existência. São as sequelas de inocência que encontro pelo caminho.
Pegá-la em minhas mãos, acariciá-la, quase com carinho. Dar-lhe calor, estupor, quase-amor. Moldá-la a meu prazer e em seguida mastigá-la. Todas as coisas feitas com a decência da sincera indiferença, essa que nunca te machucará. Não há, nem haverá, para você, nada para desesperar. Nada para suprir ou preencher. Nada a esperar. É essa toda a promessa que posso te dar.
Tento tomar precauções, planejar saídas de emergência. Preocupação com consequências de meus atos, dúvida razoável.
Não adianta.
Na hora H só quero devorar.
Soltar as correias e sentir o gosto do ar. Rir diante do desafio, do frio, do vazio. Misturar-me com suas expectativas, interpretar uma doce bailarina. E em seguida me desmontar em frente aos seus olhos horrorizados.
Sinto o cheiro.
É inocência.
A única coisa que me interessa em uma banal existência. São as sequelas de inocência que encontro pelo caminho.
Pegá-la em minhas mãos, acariciá-la, quase com carinho. Dar-lhe calor, estupor, quase-amor. Moldá-la a meu prazer e em seguida mastigá-la. Todas as coisas feitas com a decência da sincera indiferença, essa que nunca te machucará. Não há, nem haverá, para você, nada para desesperar. Nada para suprir ou preencher. Nada a esperar. É essa toda a promessa que posso te dar.
domingo, 10 de março de 2024
Às vezes um ato de maldade é só um ato de tristeza
Voltei a um lugar familiar
Desconectado e irracional
Vejo a poeira sobre a mesa, os móveis cobertos com panos brancos.
É verdade, eu sou a mesma. Nada mudou. (Tudo mudou)
Ainda saboreio do gosto amargo e persistente da emoção doente, ainda sinto na minha língua, nos meus dentes, a antecipação por carne.
Carne fresca, humana e inocente. Carne mastigável. Coração.
Não, eu nunca soube ser saudável.
Quando o botão do amor se desliga na minha mente, essa frieza atroz e cínica me domina. Me ilumina. Me fascina.
Me sinto bem assim. Ausente e entediada. Intrigada. Obcecada.
Pelo próximo objeto vez. Escolho um, qualquer um, o mais próximo. Detalho em minha mente suas falhas, minhas travas de segurança. Dessa vez não vou deslizar. Dessa vez me previno para não me render ao óbvio do desafio. Tão vazio. Para não confundir o tédio com algo parecido, como paixão.
Não é não.
É só mais um acidente na contramão.
Lugar errado, hora inadequada. Fome, aleatoridade e um sofá na minha sala. O cenário propício para mentirosos e canalhas. Gente como eu.
Ignoro as contradições com minha essência, tão mais pueril do que esse texto pensa. Ignoro a origem ferida do abandono da minha inocência. Me apego apenas a esse sentimento: potente, feroz e incandescente. Ele atrai energia, ele expulsa gente. Ele é magnético e preenche minha mente. Me faz emocionar com alegria pelo alívio da solidão. Me faz sorrir sem humor ao segurar a tua mão. Levar aos teus lábios o mais vil dos beijos sensuais. Coisas demais, vazias demais. E me despreocupar em demasia com minha ausência de sinceridade. Por favor, entenda. Não chame isso de maldade.
Desconectado e irracional
Vejo a poeira sobre a mesa, os móveis cobertos com panos brancos.
É verdade, eu sou a mesma. Nada mudou. (Tudo mudou)
Ainda saboreio do gosto amargo e persistente da emoção doente, ainda sinto na minha língua, nos meus dentes, a antecipação por carne.
Carne fresca, humana e inocente. Carne mastigável. Coração.
Não, eu nunca soube ser saudável.
Quando o botão do amor se desliga na minha mente, essa frieza atroz e cínica me domina. Me ilumina. Me fascina.
Me sinto bem assim. Ausente e entediada. Intrigada. Obcecada.
Pelo próximo objeto vez. Escolho um, qualquer um, o mais próximo. Detalho em minha mente suas falhas, minhas travas de segurança. Dessa vez não vou deslizar. Dessa vez me previno para não me render ao óbvio do desafio. Tão vazio. Para não confundir o tédio com algo parecido, como paixão.
Não é não.
É só mais um acidente na contramão.
Lugar errado, hora inadequada. Fome, aleatoridade e um sofá na minha sala. O cenário propício para mentirosos e canalhas. Gente como eu.
Ignoro as contradições com minha essência, tão mais pueril do que esse texto pensa. Ignoro a origem ferida do abandono da minha inocência. Me apego apenas a esse sentimento: potente, feroz e incandescente. Ele atrai energia, ele expulsa gente. Ele é magnético e preenche minha mente. Me faz emocionar com alegria pelo alívio da solidão. Me faz sorrir sem humor ao segurar a tua mão. Levar aos teus lábios o mais vil dos beijos sensuais. Coisas demais, vazias demais. E me despreocupar em demasia com minha ausência de sinceridade. Por favor, entenda. Não chame isso de maldade.
Assinar:
Postagens (Atom)