Eu não te amo mais.
Algo foi retirado de mim.
Não você, mas o amor que eu sentia. Uma vez que eu descobri que a pessoa por quem eu sentia não existia.
Eu estava tão enganada e por tanto tempo.
Eu fui tão ingênua.
Essa ingenuidade foi esmagada de um dia para o outro, tão rápido, que me deixou confusa e atordoada.
Todos esses dias foram os dias que precisei para assimilar isso: a verdadeira perda da minha inocência. Agora sim.
Nada nunca mais poderá ser idealizado, encantado, após a percepção sobre o tamanho erro de cálculo que eu cometi. A minha visão, temo, está irreversivelmente desencantada.
Você para mim brilhava.
Eu amava verdadeiramente a forma como você pensava. Amava sua existência em si.
Eu estava tão inconsciente do fato de que todas as minhas percepções de insegurança eram fundadas na realidade.
Você não me olhava. Não me via. Não me ouvia.
Eu não entendia porque era doloroso quando um terceiro, em um grupo em que estávamos, perguntava sobre mim. Sobre meus interesses, meu trabalho, minha pesquisa, meus gostos. Eu sempre era pega de surpresa e me sentia triste e confusa. Eu não consigo lembrar com clareza uma única vez nos últimos tempos em que você olhou para mim de verdade. Em que se interessou pela minha mente. Eu não sei se algum dia você já sentiu isso, que eu sentia por você com tanta naturalidade.
Eu era um acessório seu. Uma companhia íntima e confortável.
E eu permaneceria sendo.
Para mim estar com você era tão mais que suficiente que mesmo nessas condições eu jamais, nunca, cogitei ainda que por um segundo te deixar.
Como poderia? O homem perfeito. Não existia ninguém assim como você. Um anjo.
Meu sentimento por você era mais do que amor, era uma incompreensível devoção. Uma que você não fez nada para merecer. Eu via seus defeitos (alguns) mas nenhum deles conseguia rebaixar a sua imagem para mim. Nenhum deles era motivo de comparação ou dúvida ou ainda a menor hesitação. Eram coisas que eu queria que fossem resolvidas, mas se não fossem, tudo bem. Discutiríamos um pouco. Abandono estava fora de questão. Esse é o quão consistente era o meu amor.
Quando você me deixou, parece que arrancaram uma venda dos meus olhos.
Porque o homem que eu adorava, ele nunca faria isso. Por mais que fosse egoísta, insensível e apático, era com os outros, era nas coisas bobas, nunca nas cruciais. Ele nunca me abandonaria de uma forma tão desrespeitosa e superficial. Ele nunca me pisaria com grosseria e indiferença. Ele nunca daria tão pouco valor a toda a dedicação que eu lhe tinha. De fato, ele não faria isso. A questão é que ele não existia. Quem existia era você. Alguém que eu não posso admirar. Alguém que eu não amo, agora que eu compreendo.
Todas as pistas para esse final estavam muito claras, muito visíveis. Ainda que fossem inconcebíveis para mim. Ainda que para mim tudo tenha sido um choque. Uma surpresa tão previsível.
A única verdade tangível dessa história é o quão tragicamente enganada eu estava, por minha própria inocência.
E o quão imerecida foi a sua sorte. Por ter sido tão amado assim por mim.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2024
quinta-feira, 25 de janeiro de 2024
Os perigos de não ser amada
Quando ela o conheceu, se apaixonou rápido, mas não de imediato.
A coisa toda se desenrolou em um contexto que era muito propício: país estrangeiro, língua desconhecida, a cidade inteira enfeitada de luzes natalinas. Seria difícil não se apaixonar.
Quando eles saíram, na verdade, ela estava apaixonada por outro. Nessa época ela estava sempre apaixonada, bastava pouco estímulo para a sua determinada criatividade.
Mas o objeto de seu afeto foi logo substituído, embora ela soubesse, intimamente, que poderia ser qualquer um em seu lugar. Isso a tranquilizou. Algo que a agradou de início nele, logo no começo, foi que viu de pronto um elemento de ridículo em suas ações. Um jeito performático, pouco natural, até caricato. Isso deu aquele alívio que sempre procurava ao começar uma paixão. A segurança de que não amaria aquele homem muito ou por muito tempo, então tudo bem se envolver.
Ainda assim, tudo se desenvolveu intensamente a ponto de lhe provocar desespero de paixão, lágrimas, saudades antecipadas. Coisas assim, desoladas e suficientes para uma boa sessão de choro em frente ao espelho. Cartas sinceras, declarações. Tudo aquilo. Ela gostava dessa lembrança, em particular. Era um lembrete da transitoriedade das coisas.
Quando terminaram, ela sofreu muito. Mas não de saudade. Ele tinha uma personalidade perturbada, o italiano. Obsessiva e adoecedora e todas essas coisas lhe contaminaram muito ao longo dos 10 meses que passaram juntos. O suficiente para lhe deixarem bem mal, mas não cega. Sempre soube que ia terminar, sempre. Quando ele falava de possibilidades que lhe soavam malucas, casamento, mudança, filhos, ela tinha frio na espinha. Era óbvio que aquele homem não seria seu marido.
Meses depois ele lhe contataria, tentativas de uma amizade que nunca existiu e a visão desapaixonada pelas luzes de Florença dela lhe levaria a dizer as coisas mais cruéis, com uma naturalidade inevitável.
"Eu não gosto da forma como você pensa". Era a mais sincera das declarações. Não gostava do rumo dos raciocínios dele, de sua forma de existir, de sua alma. Conhecê-lo tão bem em tão pouco tempo a fez detestá-lo o suficiente para não conseguir sentir empatia. Sabia que ele era um homem mau, mas que lhe queria muito. Tudo isso a enojava. Não conseguiu atender o pedido que ele lhe fizera quando estavam juntos: "Por favor seja gentil quando deixar de me amar". Que coisas teatrais ele dizia. Ainda assim foi difícil no fim. Por todo o adoecimento da relação. Até que ela foi recebida de volta por outros braços, braços conhecidos.
No começo foi lento e desconectado. Ela realmente não conseguia lembrar de ter amado aquele rapaz, com quem estivera por alguns anos antes do italiano. Um tempo depois, porém, todas as coisas ao redor, em especial o fato de até então ainda não saber como é a sensação de ser amada, a fizeram sentir-se a pessoa mais sortuda do mundo por ter retornado a esse antigo amor depois de um relacionamento tão conturbado. Novamente estava ela, envolta em emoção.
Olhando em retrospecto, uma frase do italiano lhe vinha em mente:
"Lhe basta pouco." É verdade, lhe bastava pouquíssimo para ver qualidades naquele homem irresponsável e impulsivo. Pensava sobre isso com muita racionalidade nos anos seguintes, do alto de seu então relacionamento feliz. O que não pensava ou percebia é que novamente estava lhe bastando pouco.
A ausência de referência de um relacionamento bom a fez interpretar ele, o homem pouco gentil, mas ainda, mais gentil que todos os outros, como um excelente parceiro. A ele dedicou o benefício que nenhum outro tinha ganhado até então: não lhe achar ridículo. Sem esforço. Ele era, pela primeira vez, genuinamente brilhante aos seus olhos. Todos seus defeitos lhe encantavam, a honravam por ser digna da intimidade de conhecê-los. Agora sim, se via em uma vida inteira com alguém, seu amor era real. Mas o dele, por outro lado, era pouco. Isso ela veria depois.
Depois desse novo término, vários anos depois, ela se via pela primeira vez em muito tempo sozinha. Caído o véu que estava lhe cegando, se viu rememorando frases do primeiro ex: "Lhe basta pouco".
Novamente tinha acontecido. Tão pouco tinha recebido. E por esse pouco tanto havia lutado. É um perigo não saber como é ser amada.
A coisa toda se desenrolou em um contexto que era muito propício: país estrangeiro, língua desconhecida, a cidade inteira enfeitada de luzes natalinas. Seria difícil não se apaixonar.
Quando eles saíram, na verdade, ela estava apaixonada por outro. Nessa época ela estava sempre apaixonada, bastava pouco estímulo para a sua determinada criatividade.
Mas o objeto de seu afeto foi logo substituído, embora ela soubesse, intimamente, que poderia ser qualquer um em seu lugar. Isso a tranquilizou. Algo que a agradou de início nele, logo no começo, foi que viu de pronto um elemento de ridículo em suas ações. Um jeito performático, pouco natural, até caricato. Isso deu aquele alívio que sempre procurava ao começar uma paixão. A segurança de que não amaria aquele homem muito ou por muito tempo, então tudo bem se envolver.
Ainda assim, tudo se desenvolveu intensamente a ponto de lhe provocar desespero de paixão, lágrimas, saudades antecipadas. Coisas assim, desoladas e suficientes para uma boa sessão de choro em frente ao espelho. Cartas sinceras, declarações. Tudo aquilo. Ela gostava dessa lembrança, em particular. Era um lembrete da transitoriedade das coisas.
Quando terminaram, ela sofreu muito. Mas não de saudade. Ele tinha uma personalidade perturbada, o italiano. Obsessiva e adoecedora e todas essas coisas lhe contaminaram muito ao longo dos 10 meses que passaram juntos. O suficiente para lhe deixarem bem mal, mas não cega. Sempre soube que ia terminar, sempre. Quando ele falava de possibilidades que lhe soavam malucas, casamento, mudança, filhos, ela tinha frio na espinha. Era óbvio que aquele homem não seria seu marido.
Meses depois ele lhe contataria, tentativas de uma amizade que nunca existiu e a visão desapaixonada pelas luzes de Florença dela lhe levaria a dizer as coisas mais cruéis, com uma naturalidade inevitável.
"Eu não gosto da forma como você pensa". Era a mais sincera das declarações. Não gostava do rumo dos raciocínios dele, de sua forma de existir, de sua alma. Conhecê-lo tão bem em tão pouco tempo a fez detestá-lo o suficiente para não conseguir sentir empatia. Sabia que ele era um homem mau, mas que lhe queria muito. Tudo isso a enojava. Não conseguiu atender o pedido que ele lhe fizera quando estavam juntos: "Por favor seja gentil quando deixar de me amar". Que coisas teatrais ele dizia. Ainda assim foi difícil no fim. Por todo o adoecimento da relação. Até que ela foi recebida de volta por outros braços, braços conhecidos.
No começo foi lento e desconectado. Ela realmente não conseguia lembrar de ter amado aquele rapaz, com quem estivera por alguns anos antes do italiano. Um tempo depois, porém, todas as coisas ao redor, em especial o fato de até então ainda não saber como é a sensação de ser amada, a fizeram sentir-se a pessoa mais sortuda do mundo por ter retornado a esse antigo amor depois de um relacionamento tão conturbado. Novamente estava ela, envolta em emoção.
Olhando em retrospecto, uma frase do italiano lhe vinha em mente:
"Lhe basta pouco." É verdade, lhe bastava pouquíssimo para ver qualidades naquele homem irresponsável e impulsivo. Pensava sobre isso com muita racionalidade nos anos seguintes, do alto de seu então relacionamento feliz. O que não pensava ou percebia é que novamente estava lhe bastando pouco.
A ausência de referência de um relacionamento bom a fez interpretar ele, o homem pouco gentil, mas ainda, mais gentil que todos os outros, como um excelente parceiro. A ele dedicou o benefício que nenhum outro tinha ganhado até então: não lhe achar ridículo. Sem esforço. Ele era, pela primeira vez, genuinamente brilhante aos seus olhos. Todos seus defeitos lhe encantavam, a honravam por ser digna da intimidade de conhecê-los. Agora sim, se via em uma vida inteira com alguém, seu amor era real. Mas o dele, por outro lado, era pouco. Isso ela veria depois.
Depois desse novo término, vários anos depois, ela se via pela primeira vez em muito tempo sozinha. Caído o véu que estava lhe cegando, se viu rememorando frases do primeiro ex: "Lhe basta pouco".
Novamente tinha acontecido. Tão pouco tinha recebido. E por esse pouco tanto havia lutado. É um perigo não saber como é ser amada.
terça-feira, 23 de janeiro de 2024
Passado
Muito se esperou por essa conversa, que nunca aconteceu.
É fácil não pensar. Delegar para um futuro incerto a resolução de coisas difíceis. Que exigem coração, fibra, sangue nas veias.
Era mais fácil deixar secar. A emoção, o peito oco, o copo em uma noite maldita.
Seco, um vácuo completo. Como o sexo que fazia quase toda noite, cego e desconexo.
Secar até tornar-se pouco mais que uma carcaça ambulante, a lembrança embaçada de uma ex-pessoa.
Quem eu era? Ele perguntou no espelho. Lembrava de imagens, mas não tinha certeza. Sabia apenas que fora amado. É, disso lembrava.
Não foi pouco tempo, mas também não foi muito. Já fazia tantos anos... mas de alguma forma, essa era a única coisa que tinha importado em sua vida. E agora era passado.
segunda-feira, 22 de janeiro de 2024
Ponto final
-Todo o amor e saudade passaram. - Ela declarou, do alto de seu sorriso frio. As mãos longas, gélidas, sobre a mesa disfarçavam um discreto tremor que acompanhava a sensação de rebuliço em seu estômago.
Seu interlocutor assentiu, conformado.
Mentirosa, mentirosa, mentirosa. Repetiu ela mentalmente para si mesma.
Mas algo, de fato, passou.
Ela só não saberia dizer o quê.
-O que ficou? - Um fio de voz perguntou do outro lado da mesa.
Lá fora o vento era violento, balançava os cabelos de ambos, emaranhando aquele encontro de lembranças torpes, imprecisas, estilhaçadas. A unha vermelha e longa dela fez um círculo da mesa, o observando, com a expressão de quem mascara o cansaço de fingir. Inocente tentativa de dignidade.
-Alguma revolta pela forma como eu fui tratada. Mágoa. Desprezo pelas minhas descobertas sobre a real natureza do nosso relacionamento.
Ele engoliu em seco, inconsciente. Jamais entenderia um terço de suas palavras. Precisaria entrar em si mesmo, arrancar as tripas e o coração e olhá-los frente a frente. Coisa impossível para um homem que recusava-se sequer a olhar no espelho.
-Você se arrepende?
Nesse momento os olhares se cruzaram. Castanho no mel. Líquido no sólido. Ela olhava para ele e via tantas coisas mais: tudo o que viveram juntos em 10 anos de relacionamentos diluídos entre memórias reais e narrativas inventadas; entre gentis interpretações e genuína felicidade. Viu num só relance, como em um momento antes da morte: viu a inocência, o encontro, o fogo, o desengano, o desespero, o medo, o abraço, o acolhimento, a distância, o reencontro, a felicidade, ah! a felicidade, essa lhe doeu especialmente fundo, como um espinho inesperado. A felicidade do dia a dia, da tranquilidade em casa, das brincadeiras na cozinha, de ver o pôr do sol.
"Esse momento já parece uma lembrança", dissera profética, um dia, no passado, abraçada em seus braços, sentindo-se feliz. E então outras coisas: a incompreensão, o desespero, a ausência e o vazio; a solidão imensa, mesmo ao seu lado, o secar de seus lábios, o seu olhar frio. Essas lembranças mais recentes, essas, tão doídas, tanto quanto as alegres. Sim, eram suas maiores feridas.
A resposta não podia ser outra para um coração tão machucado:
-É claro que eu me arrependo.
Seu interlocutor assentiu, conformado.
Mentirosa, mentirosa, mentirosa. Repetiu ela mentalmente para si mesma.
Mas algo, de fato, passou.
Ela só não saberia dizer o quê.
-O que ficou? - Um fio de voz perguntou do outro lado da mesa.
Lá fora o vento era violento, balançava os cabelos de ambos, emaranhando aquele encontro de lembranças torpes, imprecisas, estilhaçadas. A unha vermelha e longa dela fez um círculo da mesa, o observando, com a expressão de quem mascara o cansaço de fingir. Inocente tentativa de dignidade.
-Alguma revolta pela forma como eu fui tratada. Mágoa. Desprezo pelas minhas descobertas sobre a real natureza do nosso relacionamento.
Ele engoliu em seco, inconsciente. Jamais entenderia um terço de suas palavras. Precisaria entrar em si mesmo, arrancar as tripas e o coração e olhá-los frente a frente. Coisa impossível para um homem que recusava-se sequer a olhar no espelho.
-Você se arrepende?
Nesse momento os olhares se cruzaram. Castanho no mel. Líquido no sólido. Ela olhava para ele e via tantas coisas mais: tudo o que viveram juntos em 10 anos de relacionamentos diluídos entre memórias reais e narrativas inventadas; entre gentis interpretações e genuína felicidade. Viu num só relance, como em um momento antes da morte: viu a inocência, o encontro, o fogo, o desengano, o desespero, o medo, o abraço, o acolhimento, a distância, o reencontro, a felicidade, ah! a felicidade, essa lhe doeu especialmente fundo, como um espinho inesperado. A felicidade do dia a dia, da tranquilidade em casa, das brincadeiras na cozinha, de ver o pôr do sol.
"Esse momento já parece uma lembrança", dissera profética, um dia, no passado, abraçada em seus braços, sentindo-se feliz. E então outras coisas: a incompreensão, o desespero, a ausência e o vazio; a solidão imensa, mesmo ao seu lado, o secar de seus lábios, o seu olhar frio. Essas lembranças mais recentes, essas, tão doídas, tanto quanto as alegres. Sim, eram suas maiores feridas.
A resposta não podia ser outra para um coração tão machucado:
-É claro que eu me arrependo.
domingo, 14 de janeiro de 2024
Choque térmico (fundo do poço)
Essas são as últimas lágrimas
As últimas
De um estoque que estava cheio
Transbordando
Implorando para implodir
É uma dor cansada, repetida
Cansativa em sua repetição
Não tem nada de novo nela
Nunca houve
Nem no primeiro pôr do sol
Em que segurei a sua mão.
Eu já pensei em tudo
Tudo, juro. Tudo.
Meu lado, o seu. O dos outros.
Pensei em tudo o que seria sua responsabilidade
Mas em que você nunca pensará
Pensei tanto que estou exaurida.
Sinto escorrer de mim a última centelha de vida
Fugitiva de um pesadelo insano
De uma armadilha.
Que idiota
Sofrendo tanto.
Tudo e de novo múltiplas vezes
Enquanto o outro lado flutua na indiferença
Não sei nem o que me dói mais
O desprezo ou a banalidade
O tempo perdido
A saudade
Do que começo a suspeitar que nunca existiu.
A burrice
Dos meus olhos que tanto viram.
Dói tudo.
Doem meus braços,
Minhas articulações
O vazio físico que suga meu peito.
Minha ausência e excesso de emoções
Alternadas em doses extremas
Como a mais doentia das mutações
Me fazendo adoecer em um choque térmico
Que só quero que acabe.
As últimas
De um estoque que estava cheio
Transbordando
Implorando para implodir
É uma dor cansada, repetida
Cansativa em sua repetição
Não tem nada de novo nela
Nunca houve
Nem no primeiro pôr do sol
Em que segurei a sua mão.
Eu já pensei em tudo
Tudo, juro. Tudo.
Meu lado, o seu. O dos outros.
Pensei em tudo o que seria sua responsabilidade
Mas em que você nunca pensará
Pensei tanto que estou exaurida.
Sinto escorrer de mim a última centelha de vida
Fugitiva de um pesadelo insano
De uma armadilha.
Que idiota
Sofrendo tanto.
Tudo e de novo múltiplas vezes
Enquanto o outro lado flutua na indiferença
Não sei nem o que me dói mais
O desprezo ou a banalidade
O tempo perdido
A saudade
Do que começo a suspeitar que nunca existiu.
A burrice
Dos meus olhos que tanto viram.
Dói tudo.
Doem meus braços,
Minhas articulações
O vazio físico que suga meu peito.
Minha ausência e excesso de emoções
Alternadas em doses extremas
Como a mais doentia das mutações
Me fazendo adoecer em um choque térmico
Que só quero que acabe.
Ela pediu paz
Eu espero todo mundo sair
Para chorar de fininho
A paz tem sido assim para mim
Uma tristeza delicada
Eu tenho tentado sumir da vida de todos
Muito discretamente
Desaparecer em pequenas doses
Até ser uma lembrança confusa
Eu me sinto sozinha, é verdade
Mas isso não é mais um problema
É melhor se sentir sozinha estando só
Do que acompanhada
Agora eu entendo o clichê
Eu olho nos olhos dele
O rapaz mais amado do mundo
O que foi mais amado
No passado
É verdade, ele também tem um nome agora
O que significa
Que ele também virou história
Eu olho e me pergunto o sentido de ainda estar ao seu lado
"É para não se sentir só"
Mas eu já me sinto
"É para não ter saudade dele"
Mas eu já tenho.
Eu tenho saudade de quem ele foi
De como me amou
Da mistura entre ilusão e passado
Que minha mente criou.
Para chorar de fininho
A paz tem sido assim para mim
Uma tristeza delicada
Eu tenho tentado sumir da vida de todos
Muito discretamente
Desaparecer em pequenas doses
Até ser uma lembrança confusa
Eu me sinto sozinha, é verdade
Mas isso não é mais um problema
É melhor se sentir sozinha estando só
Do que acompanhada
Agora eu entendo o clichê
Eu olho nos olhos dele
O rapaz mais amado do mundo
O que foi mais amado
No passado
É verdade, ele também tem um nome agora
O que significa
Que ele também virou história
Eu olho e me pergunto o sentido de ainda estar ao seu lado
"É para não se sentir só"
Mas eu já me sinto
"É para não ter saudade dele"
Mas eu já tenho.
Eu tenho saudade de quem ele foi
De como me amou
Da mistura entre ilusão e passado
Que minha mente criou.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2024
Vazia
É tudo tão passageiro
Tão perfeito
Que eu não consigo nem lembrar
Para quem escrevi cada um dos meus textos.
Te vejo debater-se
Passarinho contra a janela
Cena triste e comovente
Capta minha visão periférica.
Busca saídas e artimanhas
Tentativas de escapar do meu carinho
Sozinho
Não pode fazer nada contra minha paixão
Conta a si mesmo todos os dias a mesma mentira
De que tem controle sobre a decisão.
Me divido entre necessidade e indiferença
Presa na tensão que me arranca da solidão
E me joga na dependência
Todos meus sentimentos sempre foram e serão meus
E se hoje eu pareço transbordar por você
É menos carinho do que violência.
Me aborreço lendo textos passados
Afetados
De sentimentos cujo destinatário não recordo
Deles só lembro a insinceridade
As tentativas forçadas
De transformarem-se em verdade.
Formando figuras tão absurdas
"Você é meu, eu sou tua"
Cuja mera leitura hoje me dá angústia.
Eu nunca fui, não sou e nunca serei
E possuir ninguém nunca poderei.
Tudo o que eu tenho é o que o vazio dos meus braços abraça
Tempo e destruição
Meu carrasco, meu mártir, meu rei.
Tão perfeito
Que eu não consigo nem lembrar
Para quem escrevi cada um dos meus textos.
Te vejo debater-se
Passarinho contra a janela
Cena triste e comovente
Capta minha visão periférica.
Busca saídas e artimanhas
Tentativas de escapar do meu carinho
Sozinho
Não pode fazer nada contra minha paixão
Conta a si mesmo todos os dias a mesma mentira
De que tem controle sobre a decisão.
Me divido entre necessidade e indiferença
Presa na tensão que me arranca da solidão
E me joga na dependência
Todos meus sentimentos sempre foram e serão meus
E se hoje eu pareço transbordar por você
É menos carinho do que violência.
Me aborreço lendo textos passados
Afetados
De sentimentos cujo destinatário não recordo
Deles só lembro a insinceridade
As tentativas forçadas
De transformarem-se em verdade.
Formando figuras tão absurdas
"Você é meu, eu sou tua"
Cuja mera leitura hoje me dá angústia.
Eu nunca fui, não sou e nunca serei
E possuir ninguém nunca poderei.
Tudo o que eu tenho é o que o vazio dos meus braços abraça
Tempo e destruição
Meu carrasco, meu mártir, meu rei.
segunda-feira, 1 de janeiro de 2024
Registros IV
Uma lágrima escorreu despercebida.
O que ela estava tentando me dizer?
Eu perdi mil anéis de prata.
Pouco a pouco e sem perceber.
Tanta gente já passou por aqui...
Todos eles eu guardei em mim.
"Você é muito mole", era verdade.
Ainda tenho carinho por todos meus inimigos.
Ela estava certa, a menina que não olha nos olhos.
Eu guardo um tanto dela em mim também.
Ou de um rapaz que carrega a tempestade,
Ou uma moça de olhos maternos que tornou-se outra,
Até daquele que sorri como quem leva um tapa,
Cuja mudança deu-se em virtude do meu olhar.
Tudo morre o tempo todo.
Seja o objeto ou o olhar que observa.
Tudo renasce o tempo inteiro.
Verdade dita, eu sou um cemitério
Cujos túmulos são sentimentos.
Hoje em dia essas pessoas andam por aí
De vez em quando conversamos ou passamos direto
Mas minha saudade é pelo que foram.
As lembranças me comovem,
As pessoas me esgotam.
Eu sou uma deixadora de emoções vencidas...
Quantas vezes já me desvinculei de vidas?
Pareço fria ou convencida?
Mas se tudo em algum momento foi uma fase...
Hoje sou outra e me assusto um pouco.
E até o presente já é um passado que arde.
O que ela estava tentando me dizer?
Eu perdi mil anéis de prata.
Pouco a pouco e sem perceber.
Tanta gente já passou por aqui...
Todos eles eu guardei em mim.
"Você é muito mole", era verdade.
Ainda tenho carinho por todos meus inimigos.
Ela estava certa, a menina que não olha nos olhos.
Eu guardo um tanto dela em mim também.
Ou de um rapaz que carrega a tempestade,
Ou uma moça de olhos maternos que tornou-se outra,
Até daquele que sorri como quem leva um tapa,
Cuja mudança deu-se em virtude do meu olhar.
Tudo morre o tempo todo.
Seja o objeto ou o olhar que observa.
Tudo renasce o tempo inteiro.
Verdade dita, eu sou um cemitério
Cujos túmulos são sentimentos.
Hoje em dia essas pessoas andam por aí
De vez em quando conversamos ou passamos direto
Mas minha saudade é pelo que foram.
As lembranças me comovem,
As pessoas me esgotam.
Eu sou uma deixadora de emoções vencidas...
Quantas vezes já me desvinculei de vidas?
Pareço fria ou convencida?
Mas se tudo em algum momento foi uma fase...
Hoje sou outra e me assusto um pouco.
E até o presente já é um passado que arde.
Registros III
A mulher estava sentada ereta, as mãos apoiadas nas pernas.
Era feita de gelo, sentada em um trono de aço.
O interessante do fogo é que ele rapidamente torna-se congelante.
Em seus olhos pretos, fagulhas chamuscavam.
Era composta da frieza ardentemente gelada.
De um frio que queimava a pele e a deteriorava.
Rainha de seu mundo, o encarava com escultural intransponibilidade.
Ele lhe perguntava o que houve, o que aconteceu com toda a doçura.
- Meu coração é uma criança impaciente. - Veio a voz do rosto de cristal.
O seu desejo era simples. Possuir-lhe o passado e futuro. Queria ser dona de sua história, única musa de suas músicas, inspiração de seus sonhos e o arco diretriz de seus planos.
Não admitia vida pré-ela, não admitia não ser dona. Das histórias, dos passados, das memórias e de seus passos.
Triste dos seres que não a pertenciam derrubados pela tenebrosa neve de sua decepção.
Mais tristes ainda dos que a pertenceram. Pois vez ou outra alguém a pertenceu, entregando a si toda sua história.
Ao ter o quadro completo, o prato feito, disposto em todos os seus ingredientes, o doce olhar dela se desfragmentou em tédio e nada mais daquilo a comoveu. A pele que lhe parecia atrativa tornou-se gosmenta. O coração pulsante vivo a chamava, entregue.
Ela fazia a única coisa possível, portanto, mastigando-o delicadamente.
Ele olhava-a, e tinha razão no que dizia:
"Só falta o sal."
Era feita de gelo, sentada em um trono de aço.
O interessante do fogo é que ele rapidamente torna-se congelante.
Em seus olhos pretos, fagulhas chamuscavam.
Era composta da frieza ardentemente gelada.
De um frio que queimava a pele e a deteriorava.
Rainha de seu mundo, o encarava com escultural intransponibilidade.
Ele lhe perguntava o que houve, o que aconteceu com toda a doçura.
- Meu coração é uma criança impaciente. - Veio a voz do rosto de cristal.
O seu desejo era simples. Possuir-lhe o passado e futuro. Queria ser dona de sua história, única musa de suas músicas, inspiração de seus sonhos e o arco diretriz de seus planos.
Não admitia vida pré-ela, não admitia não ser dona. Das histórias, dos passados, das memórias e de seus passos.
Triste dos seres que não a pertenciam derrubados pela tenebrosa neve de sua decepção.
Mais tristes ainda dos que a pertenceram. Pois vez ou outra alguém a pertenceu, entregando a si toda sua história.
Ao ter o quadro completo, o prato feito, disposto em todos os seus ingredientes, o doce olhar dela se desfragmentou em tédio e nada mais daquilo a comoveu. A pele que lhe parecia atrativa tornou-se gosmenta. O coração pulsante vivo a chamava, entregue.
Ela fazia a única coisa possível, portanto, mastigando-o delicadamente.
Ele olhava-a, e tinha razão no que dizia:
"Só falta o sal."
Registros II
As estações nasceram e morreram no berço do calendário.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reivento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afungentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.
Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.
Os cabelos e sorrisos foram cortados e remodelados ao aço, ferro e pó das pegadas de quem esteve por aqui.
O chão é o mesmo, eu não sou a mesma. Já conheço essa casa, essas arestas das tuas falas, tuas curvas e verticalidades.
Já andei por aqui. Cheiro o ar, e ouço as vozes impregnadas nas paredes desses cômodos.
Engraçado como os caminhos se entrelaçam. As linhas prateadas - sempre avermelhadas - fazem nós e pergaminhos, traçam tranças nos cabelos das crianças. Nos caminhos, nas andanças. Em nossos passos, canções e danças.
O tempo passa, resumindo. Sorrateiro e surdino, na sua roupa de menino. Corroendo e diluindo, entre os dedos, em cada ninho.
Eu já nem sei quem sou: se no espelho me reconheço ou reivento. Se nos lábios que beijo, desejo ou lamento. Se pelas páginas passadas me ergo ou destruo.
Não reconheço o sol de hoje. Ele nasce ardente e delinquente. Desesperado por gente quente. Afungentando os doentes, adoecendo nossas mentes. Morrendo às cinco e quarenta e sete, pontualmente.
E enquanto morre, me parto num quarto. Tatuando em tuas costas
Uns três poemas apavorantes. Adocicando com soda cáustica
esse caminho agonizante.
Absorvendo mais outro ser.
Vermelho é a cor do berço.
É a cor do desepero.
De meus lábios a teus pêlos
Vermelho escorre sombrio
Não há paz nessa cidade
Por aqui nunca se viu.
It's my party but i'm waiting for someone to start it
Veja essas manchas pretas no assoalho.
Os verdadeiros monstros só pegam o amor emprestado.
Eles acham que podem te chamar de vil,
Que suas mãos estão sujas da tristeza do passado.
Você costumava ser diferente para mim,
Seu amor costumava ser doce.
Doce agora é a ironia que te roubou.
Eu costumava pensar que éramos um soneto triste,
Agora somos uma balada desafinada.
Eles falaram o que você pode fazer por mim,
Pegue um pouco da minha tristeza emprestada.
Dê-me emoções diferentes das que sinto,
Porque por nós eu já não sinto mais nada.
30.11.2013
Os verdadeiros monstros só pegam o amor emprestado.
Eles acham que podem te chamar de vil,
Que suas mãos estão sujas da tristeza do passado.
Você costumava ser diferente para mim,
Seu amor costumava ser doce.
Doce agora é a ironia que te roubou.
Eu costumava pensar que éramos um soneto triste,
Agora somos uma balada desafinada.
Eles falaram o que você pode fazer por mim,
Pegue um pouco da minha tristeza emprestada.
Dê-me emoções diferentes das que sinto,
Porque por nós eu já não sinto mais nada.
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