sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Vazia

É tudo tão passageiro
Tão perfeito
Que eu não consigo nem lembrar
Para quem escrevi cada um dos meus textos.

Te vejo debater-se
Passarinho contra a janela
Cena triste e comovente
Capta minha visão periférica.

Busca saídas e artimanhas
Tentativas de escapar do meu carinho
Sozinho
Não pode fazer nada contra minha paixão
Conta a si mesmo todos os dias a mesma mentira
De que tem controle sobre a decisão.

Me divido entre necessidade e indiferença
Presa na tensão que me arranca da solidão
E me joga na dependência
Todos meus sentimentos sempre foram e serão meus
E se hoje eu pareço transbordar por você
É menos carinho do que violência.

Me aborreço lendo textos passados
Afetados
De sentimentos cujo destinatário não recordo
Deles só lembro a insinceridade
As tentativas forçadas
De transformarem-se em verdade.
Formando figuras tão absurdas
"Você é meu, eu sou tua"
Cuja mera leitura hoje me dá angústia.
Eu nunca fui, não sou e nunca serei
E possuir ninguém nunca poderei.
Tudo o que eu tenho é o que o vazio dos meus braços abraça
Tempo e destruição
Meu carrasco, meu mártir, meu rei.

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