A mulher estava sentada ereta, as mãos apoiadas nas pernas.
Era feita de gelo, sentada em um trono de aço.
O interessante do fogo é que ele rapidamente torna-se congelante.
Em seus olhos pretos, fagulhas chamuscavam.
Era composta da frieza ardentemente gelada.
De um frio que queimava a pele e a deteriorava.
Rainha de seu mundo, o encarava com escultural intransponibilidade.
Ele lhe perguntava o que houve, o que aconteceu com toda a doçura.
- Meu coração é uma criança impaciente. - Veio a voz do rosto de cristal.
O seu desejo era simples. Possuir-lhe o passado e futuro. Queria ser dona de sua história, única musa de suas músicas, inspiração de seus sonhos e o arco diretriz de seus planos.
Não admitia vida pré-ela, não admitia não ser dona. Das histórias, dos passados, das memórias e de seus passos.
Triste dos seres que não a pertenciam derrubados pela tenebrosa neve de sua decepção.
Mais tristes ainda dos que a pertenceram. Pois vez ou outra alguém a pertenceu, entregando a si toda sua história.
Ao ter o quadro completo, o prato feito, disposto em todos os seus ingredientes, o doce olhar dela se desfragmentou em tédio e nada mais daquilo a comoveu. A pele que lhe parecia atrativa tornou-se gosmenta. O coração pulsante vivo a chamava, entregue.
Ela fazia a única coisa possível, portanto, mastigando-o delicadamente.
Ele olhava-a, e tinha razão no que dizia:
"Só falta o sal."
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