Às vezes eu ainda quero ser vista nesse mundo.
Quero ser conhecida, e ser vista e conhecida, a meu ver, é ser amada.
Às vezes ainda quero ser querida, da minha forma estranha e selvagem que me é natural.
Às vezes, ser um objeto distante de admiração não é suficiente, visto que minha própria companhia se torna sufocante.
Num repente, tudo muda assim: de equilíbrio e a desespero, tudo sucumbe num instante.
Minha mente, onde habito, torna-se um ambiente inóspito. Minhas tentativas de melhorias passam a sufocar-me até os ossos.
Questiono tudo: palavras, pensamentos e ações. Passado, planos e projeções. Questiono e me envergonho. Tenho tanta vergonha que quero me encolher, sumir. E de repente não quero ser vista, nem conhecida. Não quero ser amada, só quero me tornar invisível.
São todos os mesmos sentimentos da infância, da adolescência. O retorno a um centro tão famíliar me faz sentir que não evoluí nada. O fato dessa convicção seguir sensações de grande clareza e coerência me faz duvidar da minha própria percepção. Me sinto confusa, insana, pouco confiável.
Tento dar dois passos para longe de mim e ver a mim mesma. Entender o motivo da minha tristeza. Dessa tristeza estranha que me toma de assalto em uma tarefa banal. Coloca lágrimas nadando pelos olhos sem nunca escorrer, como uma represa esperando para transbordar.
Não tenho uma resposta clara nessa condição, apenas flashes de coisas que doem: a ideia de amar algo estranho e inóspito. A saudade de coisas que nunca aconteceram. A vergonha que se acumula em pilhas. A percepção da fragilidade alheia, tão palpável, tão crua. Tudo me dói, penetra minhas entranhas e balança o vazio no meu peito que mais parece com um grito oco, cru e visceral aprisionado.
Esse contraste entre silêncio e estrondo parece me sufocar porque não tem lógica, sentido ou contorno bem definidos. Não consigo encaixá-lo em uma narrativa, explicá-lo com clareza ou me conciliar com seus motivos. Apenas existe em pequeno caos, habitando meu pequeno ser do qual eu sinto tanta vergonha e nesses momentos tanta repulsa. Do qual não me orgulho, o qual não protejo. Do qual me ressinto em silêncio. Um silêncio que queima meus tímpanos.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Saleiro derramado
Ser amado é ser confiante
A ausência de amor gera o medo de tudo.
Descobrir um truque mental é como quebrar um encanto.
Não dá para voltar atrás.
Ela me ensinou a não transformar o medo em violência
*A relação dela com vergonha era muito diferente da dele. Uma quase serenidade com a derrota. Um humor gentil, não ácido. Ela não se atacava de forma depreciativa, embora se sentisse responsável por muitas coisas. (Ela tem uma família meio estranha, mas feliz e afetuosa)
Toda tentativa totalizante de controle nasce de uma sufocada fragilidade
Temas:
Controle
Vergonha
Identidade
Coerência
Validação
Inocência
A ausência de amor gera o medo de tudo.
Descobrir um truque mental é como quebrar um encanto.
Não dá para voltar atrás.
Ela me ensinou a não transformar o medo em violência
*A relação dela com vergonha era muito diferente da dele. Uma quase serenidade com a derrota. Um humor gentil, não ácido. Ela não se atacava de forma depreciativa, embora se sentisse responsável por muitas coisas. (Ela tem uma família meio estranha, mas feliz e afetuosa)
Toda tentativa totalizante de controle nasce de uma sufocada fragilidade
Temas:
Controle
Vergonha
Identidade
Coerência
Validação
Inocência
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Contraste (Balance)
É um pensamento comum a muitas culturas e correntes filosóficas que é preciso que haja a escuridão para que a luz aparece. Equilíbrio entre opostos é apresentado em ideias como o Yin e Yang, como uma necessária complementação entre extremos de um mesmo fenômeno, como o bem e o mal; a leveza e o peso; o controle e o caos.
O delicado equilíbrio (balance) entre dois opostos pode ser interpretado como um estado muito mais desejável do que a presença de um deles, ainda que do extremo positivo.
A felicidade, de forma geral, passa a ser reconhecida - compreendida, diante do conhecimento prévio sobre o que é a tristeza. É difícil conceber a apreciação plena de um estado positivo sem que o sujeito possua cognição sobre seu oposto. O contraste, mais do que um ideal, é uma condição necessária para que haja uma compreensão possível dos extremos que pontuam uma dada situação. A identidade se reforça diante de sua antítese. Elas são complementares, pois uma ajuda a dar sentido à outra.
Não é à toa que o contraste, em procedimentos médicos, é usado, para melhorar a visibilidade de estruturas e substâncias. É através da comparação que se obtém uma clara percepção sobre a coisa.
Seria, afinal, possível, conhecer algo, sem conhecer aquilo que ele não é?
Seríamos capaz de identificar que uma cor é uma cor se apenas ela existisse e não fosse possível ver as outras cores, distinguindo-as?
Essas reflexões podem nos levar a crer que as coisas - sentimentos, estados de espírito ou formas de experienciar possíveis não são só resultado do fato/momento em si, elas são sentidas e interpretadas a partir do conjunto de informações (memórias) sobre seus contrastes e elementos distintivos.
Quanto mais conhecedor da dor e tristeza, mais capaz de identificar (e talvez, apreciar) a felicidade.
Quanto maior a experiência na desordem e descontrole, melhor a habilidade de valorizar a paz e a calmaria.
Eu prefiro ser a coisa imaginada
Nós, seres previsíveis
Movidos à imaginação e mistério
Alimentados pela fome que só o desejo do incompreensível traz
Enfeitiçados por ilusões: encantados pelo imaginado
Sempre, eternamente, com o recorrente entediados.
Não é possível amar alguém
Não a longo prazo
Não como única opção.
Porque o finito e previsível nos recorda também nossa finitude
"Esse é meu par para a vida" é um atestado de que a sua vida acaba e seu destino está determinado
Que as possibilidade foram fechadas
Que uma hora acaba.
A maior fantasia:
Uma cidade imensa
De caminhos imprevisíveis
Possibilidades e rodovias
A cada esquina um novo mundo, tudo novo
O inesperado
Aquilo que nos dá a ilusão do inimaginável
Vida eterna
Possibilidades
A casa de mil portas
Tudo aquilo que nos lembra
Do imaginário
Da ideia de surpresa
De sorte
E nos faz esquecer
Da morte.
Movidos à imaginação e mistério
Alimentados pela fome que só o desejo do incompreensível traz
Enfeitiçados por ilusões: encantados pelo imaginado
Sempre, eternamente, com o recorrente entediados.
Não é possível amar alguém
Não a longo prazo
Não como única opção.
Porque o finito e previsível nos recorda também nossa finitude
"Esse é meu par para a vida" é um atestado de que a sua vida acaba e seu destino está determinado
Que as possibilidade foram fechadas
Que uma hora acaba.
A maior fantasia:
Uma cidade imensa
De caminhos imprevisíveis
Possibilidades e rodovias
A cada esquina um novo mundo, tudo novo
O inesperado
Aquilo que nos dá a ilusão do inimaginável
Vida eterna
Possibilidades
A casa de mil portas
Tudo aquilo que nos lembra
Do imaginário
Da ideia de surpresa
De sorte
E nos faz esquecer
Da morte.
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