-Você precisa falar mais. Elaborar seus sentimentos em linguagem. Se expressar.
Ele assente, mudamente. É difícil saber qual o nível de concordância da mensagem.
Quando ela chega em casa, depois daquele encontro, se sente vazia.
O que espera do outro? Um espelho? Uma ligação? Uma nudez completa e absoluta de almas, sentimentos, intenções?
É engraçado que suas expectativas sejam tão volúveis.
Porque exige muito, sim, exige tudo, mas por outro lado, de outros, ela não quer nada. Ela implora por ter o mais absoluto nada e tudo o que recebe, regurgita. Ela expulsa e empurra as tentativas de aproximação que recebe das pessoas, com escudos inquebráveis, que parecem só se endurecer com o tempo.
É verdade que ela se frustra e angustia com o jeito calado dele, para dentro demais, em relação a eles dois. Mas mais do que tudo, ela abomina aqueles que se doam de mais. Veem demais, querem demais, dão demais, dão tudo. Não retêm nada, não resguardam nenhuma parte de si. Não estabelecem uma barreira que delineia a intimidade do seu ser, a separando do mundo. Ao contrário, empurram as partes de si guela abaixo dos outros, chamando isso de afeto e em seguida exigem, exigem, exigem.
Ela odeia os intensos, os carentes. Ela simplesmente abomina o maldito e desgraçado livro do Pequeno Príncipe.
E ela o respeita, em parte, porque ele também é assim. Ele também é o avesso da intensidade. Mas não com ela, certo? Entre eles, há o pacto da exceção. Tudo bem ser intenso e querer tudo e dizer tudo, mas com sinceridade. Rindo de si mesmos. Enunciando ações e sentimentos.
Ela quer, por exemplo, e isso já disse, com a mais clara das linguagens, ser insubstituível. Não quer nunca ser cansativa. Não quer ser mais um dos intensos aos olhos deles, quer que dela, só dela, ele queira tudo e não se canse se ela lhe der. Quer se especial. Quer destacar-se, aos olhos dele, de qualquer possível competição. Tanto que será merecedora de suas palavras, de suas expressões, de seu íntimo universo pessoal de sentimentos. Esse segredo tão bem guardado. Ao quebrar sua regra com ela, ele a torna especial. E ela... Bom, ela para de ter medo. Porque para ela, ele é o local da permissão. Permite-se a total existência, em pura forma. A espontaneidade e o erro, a transparência completa, límpida como um cristal. Dar-se como é. Ela fala, explica sentimentos, pensa em voz alta, muda de ideia. Não há barreiras de intimidade entre si e ele. Isso é o que ela entende como amor. Ou pelo menos, como liberdade. Para ela as duas coisas são muito parecidas. O fato de ele não viver dessa forma ao seu lado... É isso que a assusta.