segunda-feira, 16 de março de 2026

Todas as outras dentro de mim

Aquela casa pequena em uma rua que ninguém se importa em nossa cidade insignificante.
Todas as coisas do nosso passado são assim: pequenas, irrelevantes. Nada comparado a sua vida agora.
Tanta vida, tanto sentimento. Tanta infinitude nos preencheu em tardes insignificantes.
Será que você lembra?
Que cada acordo e plano era um mundo a ser desbravado.
Que cada conversa, risada e brincadeira enchia o quarto de sensação de sonho e infinitude?
Será que você lembra de tudo isso?

- Todas as coisas existiram.
Elas foram enormes, infinitas, pioneiras e puras.
As coisas mais sinceras foram com vocês.
Aquelas fruto de amor, de obsessão, de desespero e de medo.
Todos os sentimentos na carne crua.
Aqueles sinceros, autênticos, lidos nos olhos.
Todas as coisas comigo foram assim, todas as coisas que existiam em mim.
Todo o amor que eu dei, as histórias que eu criei: pautadas na verdade e na adoração.
Uma adoração pelo presente, pela infinitude dos momentos.
Todas as minhas despedidas doeram como amputações: pedaços da minha carne sendo arrancados do meu coração.
Em cada um desses mundos, deixei um punhado de emoção.

Nunca nesse mundo existiu uma menina tão apaixonada.

Capaz de entregar tudo, de enlouquecer a si mesma e aos outros.
Capaz de quebrar cada uma das promessas que fez para si mesma, de abdicar da sanidade.
Guiada por impulsos, vontade e liberdade.
Todas essas histórias foram infinitas, imersas em sinceridade.
Em cada uma delas depositei esperanças de futuro
Sem saber que o presente
Era o limite da realidade.
Mas vivendo intensamente
Muito mais intensa que uma tempestade.
Devastando moinhos, quebrando limites, beirando a linha da insanidade.
E o quanto me entreguei, doei, apaixonei.
O quanto amaldiçoei, gritei, inconformei.
O quanto vivi, o quanto quis, o quanto fiz.
Todas as coisas que eu quis, eu fiz. E quão completamente.
No final de tudo isso
Eu não tenho arrependimentos
Só lembranças
Sorrisos delicados 
Um pouco de passado
Que me faz rir,
Imensa e distante
Do extremo oposto de uma linha plana
Que acaba e recomeça,
Tornando-se uma coisa nova.
Eu sou a outra, enfim
Guardando com carinho
Mas distante da nostalgia
Todas as outras dentro de mim.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Eu ouvi falar que nesse bosque moram fadas

Eu toquei com as pontas dos dedos a lembrança dos sentimentos de um outro tempo.
Inefável - eu odeio as pessoas que usam essa palavra.
As que se autodenominam aprendizes, o consciente movimento de auto-rotulação de humildade.

Estou cansada. Mergulho em mim, dou um salto. A distância é segura aqui. Procuro conforto na escuridão e silêncio.
É melhor do que uma noite cor de cinza em que vejo a chuva pela janela e lembro, lembro, lembro.

Lembro de outra versão de mim, da capacidade de sentimento. De querer, imaginar, sonhar.
Acreditar em magia.

Porque desde criança, desde a minha primeira lembrança: eu sempre acreditei em magia.
Vendo bosques encantados em um matagal abandonado, confundindo o som dos passarinhos com fadas.
Se fossem bruxas, também queria, não importava: meu objetivo era a mágica.

Crescendo, troquei as mãos. Meu sonho se tornou algo mais humano: a magia em forma de uma pessoa.
Buscando aquele sentimento: aventura, compreensão e o inesperado. Projetando, ansiando. Querendo sempre mais.
Eu ainda sentia a mesma centelha de empolgação de desbravar meus bosques, ao idealizar um sentimento místico nos receptáculos mais inadequados.
Eu continuava em busca da magia de uma verdadeira companhia. A ambição máxima fundamental: ser vista como uma igual. Ou apenas se vista, conhecida. Ser ouvida. Nos dias mais ambiciosos, quem sabe, compreendida.

Mas magia não existe, ou existe, em outras formas. Existe na poesia, na capacidade de depois de tantos caminhos percorridos, ainda ter vontade de fazer prosa. Existe na centelha fumegante em meu peito, no carinho que escorre pelos meus dedos, nos cabelos de quem eu amo. Existe porque eu ainda chamo, eu ainda espero o inesperado. Existe porque eu ainda amo.

Existe na linha invisível. Na ingenuidade até mesmo risível. Incompreensível. Que persiste porque quando menos espero, recebo: dias de magia, tão sagrados quanto mágica.
Existe porque ainda choro, ainda anseio, ainda receio, ainda adoro. Existe em coisas que não conheço, e porque as quero descobrir.
Nessas duas lágrimas que caem sem que eu perceba, que me informam que não adormeci. Estou acordada, estou aqui, estou viva. Hoje, essa é minha forma de magia.