quinta-feira, 30 de março de 2023

Memento

A inocência me queima os olhos
E eu não aguento mais falar sobre o tempo.
Sobre o esmagador peso das coisas frágeis
Sobre a sutileza com que quebra a onda do momento
Intenso
É o sentimento e sua derrocada
E por consequência seu vazio

É verdade
A única coisa que existe
É escrever
É a única coisa que eu sempre soube fazer
Todas as outras fui fingindo ao excesso
Até aprender sem querer

Liberdade não existe
Autoconhecimento pior ainda
Narrativas, sim, são possíveis
Melhor se forem coloridas
Loucas
Transtornadas
Doloridas
Mentirosas e safadas
Navalhas na carne
Alívio no sono
Só isso me resta
E é tão mais que tudo.

Frágil

Por um momento eu achei
Que pudesse pegar todas as coisas em mim
Reuni-las em minha mão em concha
Das mais marcantes às mais banais
E entregar com um sorriso
De esperança
Que alguém fosse se interessar
O que eu não vi
É que a palma da mão é um espelho
Que eu mostro nas minhas linhas
Suas rugas de expressão
Que na contramão
Está tudo que perdi por sentir paixão
Ódio
E desespero.
Que meu apelo
É o mais frágil dos elos
Dos receios
É medo
Eu não vi que tudo o que existe é o medo.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Um dia

Uma pessoa é uma coisa muito simples mesmo
Até mesmo simplória
Não tem muito a descobrir além de sobrevivência e paranóia
O valor e o encanto está nas imagens que consegue refletir
Através do olhar do outro
Quanto mais metamorfa mais interessante
Quanto mais sujeita a idealização.

Suzana acordou naquela quinta-feira, com o céu abafado tocando seus pés em sua cama que cheirava a lençóis frescos e amaciante.
Abriu os olhos lenta e comumente, e aos poucos pôde sentir as paredes de seu quarto e de toda a responsabilidade de sua existência a comprimirem.
As crianças da casa vizinha choravam, o barulho de panelas na cozinha. A vida estava acontecendo, era aterrorizante.
O som de tudo e o som mudo dentro de si a lembravam do terror do agir, da urgência de viver.
Sua vontade era fechar os olhos novamente e afundar-se no tecido abaixo de si, como quem fica submersa em uma piscina, em um estado de latência em relação ao ambiente.
Mas um cachorro na rua latia, o carro do ovo anunciava sua passagem, seu celular recebia notificações. A inércia não era uma opção.
Geralmente, esse estado de supervigilância convalescia ainda nos primeiros minutos da consciência diária, no instante em que as atividade rotineiras apoderavam-se de sua percepção, enxotando para os cantos de sua mente sua insatisfação com noções básicas de sobrevivência.
Mas não nesse dia.
Tomou um banho gelado, evitando seu reflexo no pequeno espelho de parede e penteou os cabelos, levemente atordoada com o fato de continuar perplexa por ser uma pessoa. Seu corpo não tinha acostumado-se ainda, não hoje.
Indo ao trabalho, a imprevisibilidade do contexto urbano a assustou mais do que de costume. Uma bicicleta mal guiada, as buzinas no trânsito. Uma risada alta de alguém que falava ao telefone, uma criança correndo para enfurecimento de sua mãe. Os pequenos pedaços de existência, portais ambulantes para outros mundos a perpassaram de uma forma diversa de qualquer outro dia. A cada vida que lhe atravessava o caminho, lhe afogava a sensação de desconhecimento e inevitavabilidade. Uma tristeza imensa lhe dominou, por tudo o que nunca conheceria, veria, conversaria, compreenderia ou viveria.
Uma enorme e aterradora tristeza que pareceu paralisar-lhe no meio da avenida central em pleno horário de 8:30h da manhã, hora de pico no comércio urbano.
Esperou que o ar voltasse aos seus pulmões e muito fracamente continuou.
Chegando no trabalho, rostos conhecidos lhe diziam palavras esperadas. O inesperado ficou para trás, mas que surpresa perceber que o previsível lhe machucava da mesma forma.
A repetição dos dias, das atividades, a corrida em busca de nada. Uma tarefa realizada com resultado positivo causando uma mínima, passageira e incompreensível sensação de satisfação.
Sua percepção naquele momento foi a de que tudo o que estavam fazendo eram coisas inventadas. Se todos parassem imediatamente de trabalhar, de se mover, de respirar, alguma alteração seria produzida no mundo? Parecia um fingimento conjunto o de que aquilo era de alguma forma uma espécie de normalidade.
Na hora do almoço, foi possível sair dessa fase de estranhamento diante do convite de uma colega para conversar.
Suzana era uma boa ouvinte, ao menos a de todos os dias, não aquela de hoje, estrangeira, parasita de um corpo estranho.
Sua colega lhe contou seus problemas. Questões familiares, pessoais. Desabafos unilaterais que não pedem realmente mais do que um receptáculo para o próprio orador.
Sentiu, assim, a verdade descoberta por trás das relações - não só aquela, mas todas as que já tinha mantido, vivido ou observado ao longo de sua vida: Todas eram unilaterais. Perguntou-se o quanto tinha sido apenas um receptáculo para palavras, pensamentos ou projeções. Ou o quanto tinha feito dos outros apenas isso. Tocou o rosto de sua colega, a primeira vez que a olhava nos olhos e perguntou-se quem era ela.
Um som alto na cafeteria a despertou, olhou de lado. Na verdade, não tinha movido as mãos do colo nem uma única vez na última meia hora.
Após uma tarde de inércia, Suzana voltou para casa, caminho geralmente feito ao ouvir música ou algum podcast sobre jardinagem ou viagens. Ouvia sobre experiências que nunca teve, mas escutá-las ou assisti-las as tornava reais, o conhecimento lhe dava a sensação de pertencimento. De compreensão de algo distante.
Mas não nesse dia.
No lugar disso, parou em um bar antigo, caindo aos pedaços, frequentado apenas por idosos saudosistas sobre o que aquele lugar fora um dia, antes da decadência, do abandono e da morte. Era o lar do passado.
Observou os que jogavam sinuca, os que conversavam, os que encaravam hipnotizados o horizonte.
Esse lugar era o atestado de tudo: da passagem inevitável, do único assunto que vale a pena ser pensado, sobre o único tema que verdadeiramente existe: o tempo.
O tempo e sua devoradora e inevitável passagem.
Tudo o que lhe circunda, o que existe ao seu redor é preenchimento. Tentativas vãs de atribuir-lhe sentido, de vencer-lhe.
A produção de atividades, de arte, de relações humanas. A tentativa constante e cansada e completamente ineficaz de ultrapassar sua passagem, com a convicção de ter-lhe usado bem, de ter deixado raizes.
Mas como, por Deus, é possível ultrapassar o tempo?
Ele acaba no momento em que acabamos, ele deixa de existir no momento em que o pedacinho dele do qual usufruímos termina.
E então não importa o que fizemos ou não fizemos, o que vivemos ou não.
Tudo importa ou nada importa, é a única decisão que cabe tomar.
Suzanna olhou bem para o copo de água à sua frente e tomou a sua.