-Você precisa falar mais. Elaborar seus sentimentos em linguagem. Se expressar.
Ele assente, mudamente. É difícil saber qual o nível de concordância da mensagem.
Quando ela chega em casa, depois daquele encontro, se sente vazia.
O que espera do outro? Um espelho? Uma ligação? Uma nudez completa e absoluta de almas, sentimentos, intenções?
É engraçado que suas expectativas sejam tão volúveis.
Porque exige muito, sim, exige tudo, mas por outro lado, de outros, ela não quer nada. Ela implora por ter o mais absoluto nada e tudo o que recebe, regurgita. Ela expulsa e empurra as tentativas de aproximação que recebe das pessoas, com escudos inquebráveis, que parecem só se endurecer com o tempo.
É verdade que ela se frustra e angustia com o jeito calado dele, para dentro demais, em relação a eles dois. Mas mais do que tudo, ela abomina aqueles que se doam de mais. Veem demais, querem demais, dão demais, dão tudo. Não retêm nada, não resguardam nenhuma parte de si. Não estabelecem uma barreira que delineia a intimidade do seu ser, a separando do mundo. Ao contrário, empurram as partes de si guela abaixo dos outros, chamando isso de afeto e em seguida exigem, exigem, exigem.
Ela odeia os intensos, os carentes. Ela simplesmente abomina o maldito e desgraçado livro do Pequeno Príncipe.
E ela o respeita, em parte, porque ele também é assim. Ele também é o avesso da intensidade. Mas não com ela, certo? Entre eles, há o pacto da exceção. Tudo bem ser intenso e querer tudo e dizer tudo, mas com sinceridade. Rindo de si mesmos. Enunciando ações e sentimentos.
Ela quer, por exemplo, e isso já disse, com a mais clara das linguagens, ser insubstituível. Não quer nunca ser cansativa. Não quer ser mais um dos intensos aos olhos deles, quer que dela, só dela, ele queira tudo e não se canse se ela lhe der. Quer se especial. Quer destacar-se, aos olhos dele, de qualquer possível competição. Tanto que será merecedora de suas palavras, de suas expressões, de seu íntimo universo pessoal de sentimentos. Esse segredo tão bem guardado. Ao quebrar sua regra com ela, ele a torna especial. E ela... Bom, ela para de ter medo. Porque para ela, ele é o local da permissão. Permite-se a total existência, em pura forma. A espontaneidade e o erro, a transparência completa, límpida como um cristal. Dar-se como é. Ela fala, explica sentimentos, pensa em voz alta, muda de ideia. Não há barreiras de intimidade entre si e ele. Isso é o que ela entende como amor. Ou pelo menos, como liberdade. Para ela as duas coisas são muito parecidas. O fato de ele não viver dessa forma ao seu lado... É isso que a assusta.
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
"It means i'm bad in parties"
Eu acredito que viver é uma experiência, por natureza, solitária.
O papel que as outras pessoas exercem na nossa vida é fatalmente instrumental. Não tem como ser diferente, se você é o ser. Se você define suas relações à partir de seu bem estar e desenvolve sensações que nomeia como afeto à partir das ausências que alguém é capaz de suprir; da autoimagem que vê refletida em seu olhar, fica claro que todas as pessoas, todas as outras existências ao seu redor são instrumentos ou, ainda, meios através dos quais você aprimora ou enfraquece a qualidade da sua experiência "vida".
Tudo bem.
Eu não vejo como pode ser diferente, em que tipo de lógica o outro tivesse a centralidade da experiência ou, se sim, o quão deturpado e distorcido isso pudesse ser, a menos, talvez, que a exclusão da sua própria centralidade se desse por considerar-se, de alguma forma, elemento orgânico de uma ideia maior, autônoma, indiferente: o mais perto que concebo de Deus.
Mas ainda que pense assim, não é de acordo com isso que vivo. Caso contrário, que tipo de vida seria? É uma linha tênue, quase um fingimento, essa tal de vida, onde criamos mentiras, ou, para ser mais gentil, narrativas que nos fazem atribuir sentido a: nós mesmos, o outro, o tempo, o emaranhado de coisas que acontece sem nenhum lógica nessa viagem em direção ao fim.
Eu crio a narrativa do amor, do fazer bem: até porque a mágoa do outro é um fato e é capaz de gerar efeito em mim (novamente, sujeito protagonista de tudo). Mas por que doi? Existe algum fundamento menos cético para o afeto?
-
Esse é o tipo de pensamento-base que me forma e que me coloca em uma situação peculiar na seguinte circunstância:
* Pessoas que demandam afeto *
Sendo mais prática, eu conheci mais uma vez uma pessoa muito carente e, por isso, muito amorosa e prestativa. Novamente uma pessoa assim entrou no meu radar, invadindo o círculo fechado da minha individualidade, com suas tentativas de ser necessária. É uma forma detestável a que eu descrevo alguém muito prestativo. Mas eu não consigo imaginar que motivo leva alguém, distante, e num momento inicial desconhecido a mim a insinuar-se à minha vida (e eu não tenho nada de especial, esse deve ser um procedimento padrão da pessoa) com a determinação de: servir, ajudar, ser necessário. Uma demanda que eu, absolutamente, não manifestei.
-
Na minha experiência com pessoas, esse tipo de personalidade costuma refletir alguém que precisa muito formar laços e os tenta fazer a partir de uma relação de interdependência. Eu identifico, várias vezes, relações com essas características e vejo as pessoas as denominando de *** amizade ***
-
Existe um fenômeno que por coincidência eu observei ontem e me veio à mente quando comecei a pensar sobre essa pessoa e todas as pessoas e eu e a nossa matéria frágil: cultos evangélicos.
Na verdade, eu não estava em um culto evangélico ontem e sim em uma sessão de coaching, obviamente por razões fora do meu controle. É difícil para mim descrever a superficialidade do conteúdo, da mensagem, do entusiasmo ensaiado e falso; a caricatural emoção, motivação, sei lá como chamam isso, honestamente me dá preguiça até de escrever sobre. Mas ainda assim, funcionou: uma plateia de centenas de pessoas vibrou, se emocionou e urrou. A diferença do culto foi que não chegamos ao ponto dos desmaios. Talvez por pouco. A razão para isso é muito pouco nova e já se refletiu bastante a respeito: a angústia, vazio, matéria frágil, como quiser chamar, abre portas para esse tipo de vulnerabilidade (dentre outras mais), criando terreno para uma série de fenômenos tentarem apossar-se de sua consciência, fazendo morada naquele espaço vácuo natural que você leva no estômago, que nós levamos, devido ao simples fato de sermos inconscientes seres humanos: nascidos para morrer, sem nenhuma compressão sobre nada.
-
Tudo bem também. Deixar essas coisas preencherem e estar a mercê das técnicas de oratória e comoção que tem o mesmo objetivo: mobilizar o que há de mais frágil e preencher de sentido, ainda que o sentido seja apenas uma falsa atenção, um falso afeto, um falso O QUÊ que pode mover as pessoas às maiores loucuras.
-
Pode parecer um pulo largo mas isso me lembra, em maior medida, da pessoa carente. Do pequeno príncipe, livro ordinário. De todas as necessidades que fazem o outro quererem nos inserir no seio de sua vida através das amarras de uma relação e com você suprir, te suprir.
-
Eu não sei por que isso me afasta tanto. Se é por medo do contato e da perda (eu sinceramente não acho que seja isso) ou porque fundamentalmente eu não acredito em nada. Na minha opinião, talvez, a única forma de relação honesta seja um ceticismo conjunto.
O papel que as outras pessoas exercem na nossa vida é fatalmente instrumental. Não tem como ser diferente, se você é o ser. Se você define suas relações à partir de seu bem estar e desenvolve sensações que nomeia como afeto à partir das ausências que alguém é capaz de suprir; da autoimagem que vê refletida em seu olhar, fica claro que todas as pessoas, todas as outras existências ao seu redor são instrumentos ou, ainda, meios através dos quais você aprimora ou enfraquece a qualidade da sua experiência "vida".
Tudo bem.
Eu não vejo como pode ser diferente, em que tipo de lógica o outro tivesse a centralidade da experiência ou, se sim, o quão deturpado e distorcido isso pudesse ser, a menos, talvez, que a exclusão da sua própria centralidade se desse por considerar-se, de alguma forma, elemento orgânico de uma ideia maior, autônoma, indiferente: o mais perto que concebo de Deus.
Mas ainda que pense assim, não é de acordo com isso que vivo. Caso contrário, que tipo de vida seria? É uma linha tênue, quase um fingimento, essa tal de vida, onde criamos mentiras, ou, para ser mais gentil, narrativas que nos fazem atribuir sentido a: nós mesmos, o outro, o tempo, o emaranhado de coisas que acontece sem nenhum lógica nessa viagem em direção ao fim.
Eu crio a narrativa do amor, do fazer bem: até porque a mágoa do outro é um fato e é capaz de gerar efeito em mim (novamente, sujeito protagonista de tudo). Mas por que doi? Existe algum fundamento menos cético para o afeto?
-
Esse é o tipo de pensamento-base que me forma e que me coloca em uma situação peculiar na seguinte circunstância:
* Pessoas que demandam afeto *
Sendo mais prática, eu conheci mais uma vez uma pessoa muito carente e, por isso, muito amorosa e prestativa. Novamente uma pessoa assim entrou no meu radar, invadindo o círculo fechado da minha individualidade, com suas tentativas de ser necessária. É uma forma detestável a que eu descrevo alguém muito prestativo. Mas eu não consigo imaginar que motivo leva alguém, distante, e num momento inicial desconhecido a mim a insinuar-se à minha vida (e eu não tenho nada de especial, esse deve ser um procedimento padrão da pessoa) com a determinação de: servir, ajudar, ser necessário. Uma demanda que eu, absolutamente, não manifestei.
-
Na minha experiência com pessoas, esse tipo de personalidade costuma refletir alguém que precisa muito formar laços e os tenta fazer a partir de uma relação de interdependência. Eu identifico, várias vezes, relações com essas características e vejo as pessoas as denominando de *** amizade ***
-
Existe um fenômeno que por coincidência eu observei ontem e me veio à mente quando comecei a pensar sobre essa pessoa e todas as pessoas e eu e a nossa matéria frágil: cultos evangélicos.
Na verdade, eu não estava em um culto evangélico ontem e sim em uma sessão de coaching, obviamente por razões fora do meu controle. É difícil para mim descrever a superficialidade do conteúdo, da mensagem, do entusiasmo ensaiado e falso; a caricatural emoção, motivação, sei lá como chamam isso, honestamente me dá preguiça até de escrever sobre. Mas ainda assim, funcionou: uma plateia de centenas de pessoas vibrou, se emocionou e urrou. A diferença do culto foi que não chegamos ao ponto dos desmaios. Talvez por pouco. A razão para isso é muito pouco nova e já se refletiu bastante a respeito: a angústia, vazio, matéria frágil, como quiser chamar, abre portas para esse tipo de vulnerabilidade (dentre outras mais), criando terreno para uma série de fenômenos tentarem apossar-se de sua consciência, fazendo morada naquele espaço vácuo natural que você leva no estômago, que nós levamos, devido ao simples fato de sermos inconscientes seres humanos: nascidos para morrer, sem nenhuma compressão sobre nada.
-
Tudo bem também. Deixar essas coisas preencherem e estar a mercê das técnicas de oratória e comoção que tem o mesmo objetivo: mobilizar o que há de mais frágil e preencher de sentido, ainda que o sentido seja apenas uma falsa atenção, um falso afeto, um falso O QUÊ que pode mover as pessoas às maiores loucuras.
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Pode parecer um pulo largo mas isso me lembra, em maior medida, da pessoa carente. Do pequeno príncipe, livro ordinário. De todas as necessidades que fazem o outro quererem nos inserir no seio de sua vida através das amarras de uma relação e com você suprir, te suprir.
-
Eu não sei por que isso me afasta tanto. Se é por medo do contato e da perda (eu sinceramente não acho que seja isso) ou porque fundamentalmente eu não acredito em nada. Na minha opinião, talvez, a única forma de relação honesta seja um ceticismo conjunto.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
Retorno ao ponto zero
O problema
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.
Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.
Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.
Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.
Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.
São a mesma coisa, é tudo diferente (Hora do almoço)
Você me pede para
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.
Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.
Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.
Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.
Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.
sábado, 21 de outubro de 2023
Talheres perdidos sob o assoalho
É misterioso o caso das facas e garfos que desaparecem na cozinha de casa.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
No children
É um momento suave
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.
Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.
Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico
Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.
Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.
Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.
Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico
Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.
Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
No jardim do bem e do mal - Um reencontro
- Por que você veio aqui hoje? Faz tempo que não me chama para conversar.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
Negativo de filme
Eu te vejo mudar
Gradativamente
Sobreposição entre passado e presente
Agora parece tão nítido
Lembrança clara e quente
Surrupiada por uma palavra atual
Ledo engano da imaginação
Frase ferina em uma conversa natural
Desatenção rotineira
Indiscrição passageira
Corta para uma noite sem nuvens
Conversa entrecortada de silêncio
Observando os passageiros do mundo, lá embaixo
Nós duas, como um pedaço estático do tempo
Gravadas na memória, antigas
Dissipadas
Nada menos que uma memória
Nada
Quando você aparece na minha porta
Assombração
Visita tímida de outro tempo
Vinda de outra dimensão
Com uma gargalhada alta
Minha vida amarrada em sua saia
Andar descalço de fada
Tantas coisas
Fruto da imaginação
Gradativamente
Sobreposição entre passado e presente
Agora parece tão nítido
Lembrança clara e quente
Surrupiada por uma palavra atual
Ledo engano da imaginação
Frase ferina em uma conversa natural
Desatenção rotineira
Indiscrição passageira
Corta para uma noite sem nuvens
Conversa entrecortada de silêncio
Observando os passageiros do mundo, lá embaixo
Nós duas, como um pedaço estático do tempo
Gravadas na memória, antigas
Dissipadas
Nada menos que uma memória
Nada
Quando você aparece na minha porta
Assombração
Visita tímida de outro tempo
Vinda de outra dimensão
Com uma gargalhada alta
Minha vida amarrada em sua saia
Andar descalço de fada
Tantas coisas
Fruto da imaginação
Última gota de amor
Me vejo refém de retratos passados
Impostores do presente
Rodopiando inutilmente
Em arquivos desatualizados
Carinho e nostalgia
É quase um delírio febril
Pura fantasia
Direcionada a lugar nenhum
Que ninguém mais vê ou viu
Ainda assim, me vejo
Relembrando uma risada
Uma palavra entrecortada
Sua cantoria desafinada
Café da manhã na sala
Tardes deitadas no jardim
Cada vez menos precisas
Imagens enevoadas
Uma frase engraçada
Memória arranhada
Não sei se veio de você ou de mim
Só que a sensação desvanece
Um tom de sonho que escurece
Enquanto a realidade se irradia
Pelas frestas da janelas
Uma lágrima sutil escapa, uma sequela
Dessa vez é assim
A lembrança chega ao fim.
Impostores do presente
Rodopiando inutilmente
Em arquivos desatualizados
Carinho e nostalgia
É quase um delírio febril
Pura fantasia
Direcionada a lugar nenhum
Que ninguém mais vê ou viu
Ainda assim, me vejo
Relembrando uma risada
Uma palavra entrecortada
Sua cantoria desafinada
Café da manhã na sala
Tardes deitadas no jardim
Cada vez menos precisas
Imagens enevoadas
Uma frase engraçada
Memória arranhada
Não sei se veio de você ou de mim
Só que a sensação desvanece
Um tom de sonho que escurece
Enquanto a realidade se irradia
Pelas frestas da janelas
Uma lágrima sutil escapa, uma sequela
Dessa vez é assim
A lembrança chega ao fim.
Hermenêutica
Não tenho muita coisa sob controle
Quando o inferno ferve nas linhas desconexas do pensamento
Quando sinto arder, anunciar ruptura
E a face parece um receptáculo desconectado e insuficiente
Não tenho o poder, não tenho o manejo
Do tempo, do outro, do ambiente
Da memória, da sensação, da minha mente
Tenho apenas, fracamente,
Minha ferramenta preferida
Elástica, modelável, dobrável e movediça
Minha impostora de feridas
Singela e insuficiente, mas que abre as frestas para a corrente de ar
E me dá
O pouco que preciso para respirar
Desafogar o sufoco
Desenhar em formatos precisos o grito rouco
Gultural e desconexo
Necessitando de tradução
Delineado em movimentos repetitivos das minhas mãos
Até chegar a cada enxerto
De conclusão rasa
Rima reutilizada
Uso vulgar de palavras.
Quando o inferno ferve nas linhas desconexas do pensamento
Quando sinto arder, anunciar ruptura
E a face parece um receptáculo desconectado e insuficiente
Não tenho o poder, não tenho o manejo
Do tempo, do outro, do ambiente
Da memória, da sensação, da minha mente
Tenho apenas, fracamente,
Minha ferramenta preferida
Elástica, modelável, dobrável e movediça
Minha impostora de feridas
Singela e insuficiente, mas que abre as frestas para a corrente de ar
E me dá
O pouco que preciso para respirar
Desafogar o sufoco
Desenhar em formatos precisos o grito rouco
Gultural e desconexo
Necessitando de tradução
Delineado em movimentos repetitivos das minhas mãos
Até chegar a cada enxerto
De conclusão rasa
Rima reutilizada
Uso vulgar de palavras.
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
Aquele segundo
Por que todos me perguntam se eu estou mesmo bem?
É verdade. Eu posso me perder às vezes.
Eu posso me perder de mim um pouco
Aos poucos.
Eu posso diluir quando meu olhar toca, enevoado
A linha em que se cruzam o céu e o mar
Aquele horizonte.
Eu posso me atrair por ele
Por seu inevitável fim.
Uma criança que nunca cresceu,
Uma criança que nunca cresceu.
Eu entendo agora
O apelo irresistível.
Entendo como as pessoas podem enlouquecer.
Entendo o que pensam
Um instante antes
Apenas um instante
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
E então é tarde demais.
É verdade. Eu posso me perder às vezes.
Eu posso me perder de mim um pouco
Aos poucos.
Eu posso diluir quando meu olhar toca, enevoado
A linha em que se cruzam o céu e o mar
Aquele horizonte.
Eu posso me atrair por ele
Por seu inevitável fim.
Uma criança que nunca cresceu,
Uma criança que nunca cresceu.
Eu entendo agora
O apelo irresistível.
Entendo como as pessoas podem enlouquecer.
Entendo o que pensam
Um instante antes
Apenas um instante
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
"Então é assim que as pessoas enlouquecem."
E então é tarde demais.
quinta-feira, 18 de maio de 2023
A vida está aqui
Isso é a vida
É o que quero lembrar da vida
É o que acho que vou lembrar
Ao final
Uma madrugada inteira rindo fazendo competição de quem viu mais filmes
As risadas da família na cozinha
Silêncio confortável contemplando o mar noturno
O sol através das nuvens em uma caminhada matinal
Um toque de mãos no mais espontâneo dos carinhos
Fazer planos
A voz da minha mãe cantando
A satisfação de quem recebe um presente
O abraço da minha irmã quando eu choro
A gargalhada de uma amiga cortando a noite silenciosa.
O pulso acelerado na reviravolta de um livro
Isso que é a vida, nada mais
Nada menor do que isso pode definir a minha
Nem as preocupações
As culpas
O arrependimento
Ou a vergonha
Coisas que parecem grandes mas não são
Porque nem mesmo as grandes coisas
Nem mesmo as grandes coisas boas
São tão grandes quanto as pequenas.
É o que quero lembrar da vida
É o que acho que vou lembrar
Ao final
Uma madrugada inteira rindo fazendo competição de quem viu mais filmes
As risadas da família na cozinha
Silêncio confortável contemplando o mar noturno
O sol através das nuvens em uma caminhada matinal
Um toque de mãos no mais espontâneo dos carinhos
Fazer planos
A voz da minha mãe cantando
A satisfação de quem recebe um presente
O abraço da minha irmã quando eu choro
A gargalhada de uma amiga cortando a noite silenciosa.
O pulso acelerado na reviravolta de um livro
Isso que é a vida, nada mais
Nada menor do que isso pode definir a minha
Nem as preocupações
As culpas
O arrependimento
Ou a vergonha
Coisas que parecem grandes mas não são
Porque nem mesmo as grandes coisas
Nem mesmo as grandes coisas boas
São tão grandes quanto as pequenas.
Conclusão de uma aula boa
-Mas do que adianta, se tudo tende a se repetir? Do que adianta entender, conhecer, como podemos mudar o cenário, se é tão difícil? Não é como se fôssemos fazer uma revolução.
"O conhecimento liberta"
Nem que seja só a nós mesmos.
"O conhecimento liberta"
Nem que seja só a nós mesmos.
domingo, 30 de abril de 2023
Seu retrato alienado
As pessoas me dizem coisas doces
Com uma facilidade imerecida
Confundem educação com gentileza
Generosidade com simpatia
Supõem bondade no que julgam belo
Idealizam valores no meu silêncio
E tentativas vãs de sobrevivência
Se tornam ilusórios alentos
Encaram meu rosto e um sorriso
Que por vezes traz um monstro aprisionado
O pesado vazio, tão pesado
Que é quase insustentável
E tira-me as forças deixando apenas
Curvas gentis nos lábios cansados
Um vaso de cristal gélido
Vazio, datado e trincado
Sem substância ou mistério
É assim que eu mesma enquadro
O reflexo no espelho
A moldura 3 por 4
Seu retrato idealizado
Eu tenho, é verdade, um mundo interior
Cheio de cenários que se repetem
Como quadros que não suportam mais estar
Pendurados nas paredes da minha mente
Mas não é nada de magnífico, não, você não entendeu, não é nada disso
Não é místico nem triste
Se olhar no fundo dos meus olhos
Vai apenas enlouquecer tentando
Decifrar o que não existe.
Com uma facilidade imerecida
Confundem educação com gentileza
Generosidade com simpatia
Supõem bondade no que julgam belo
Idealizam valores no meu silêncio
E tentativas vãs de sobrevivência
Se tornam ilusórios alentos
Encaram meu rosto e um sorriso
Que por vezes traz um monstro aprisionado
O pesado vazio, tão pesado
Que é quase insustentável
E tira-me as forças deixando apenas
Curvas gentis nos lábios cansados
Um vaso de cristal gélido
Vazio, datado e trincado
Sem substância ou mistério
É assim que eu mesma enquadro
O reflexo no espelho
A moldura 3 por 4
Seu retrato idealizado
Eu tenho, é verdade, um mundo interior
Cheio de cenários que se repetem
Como quadros que não suportam mais estar
Pendurados nas paredes da minha mente
Mas não é nada de magnífico, não, você não entendeu, não é nada disso
Não é místico nem triste
Se olhar no fundo dos meus olhos
Vai apenas enlouquecer tentando
Decifrar o que não existe.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
A matéria do céu de algodão
Me encontre onde quebram-se as ondas
Da natureza das coisas frágeis
Onde o tempo é denso e o céu de algodão nos comprime
Extraindo a mais pura das matérias
A Verdade
Circunstancial como seja
Mutável e ferina
Volátil interpretação minha
Me encontre no extremo oposto
Do gosto amargo do teu rosto
Das marcas, navalhas, cicatrizes
Das decisões e seus deslizes
E tudo o que disseram em silêncio.
Me encontre onde reside o vazio,
a explosão, o tédio, a inocência,
a paixão, o vício e a insensibilidade,
o caos, a pressão e a vaidade
As tentativas infantis de maldade
E tudo o mais que já passou
Mas que registro
Tentando uma luta vã contra ele:
Tempo
Meu amigo e adversário.
Olho pela fresta da tua janela
Respira fundo e enjaulado.
Está agora bem acordado.
Da natureza das coisas frágeis
Onde o tempo é denso e o céu de algodão nos comprime
Extraindo a mais pura das matérias
A Verdade
Circunstancial como seja
Mutável e ferina
Volátil interpretação minha
Me encontre no extremo oposto
Do gosto amargo do teu rosto
Das marcas, navalhas, cicatrizes
Das decisões e seus deslizes
E tudo o que disseram em silêncio.
Me encontre onde reside o vazio,
a explosão, o tédio, a inocência,
a paixão, o vício e a insensibilidade,
o caos, a pressão e a vaidade
As tentativas infantis de maldade
E tudo o mais que já passou
Mas que registro
Tentando uma luta vã contra ele:
Tempo
Meu amigo e adversário.
Olho pela fresta da tua janela
Respira fundo e enjaulado.
Está agora bem acordado.
quinta-feira, 30 de março de 2023
Memento
A inocência me queima os olhos
E eu não aguento mais falar sobre o tempo.
Sobre o esmagador peso das coisas frágeis
Sobre a sutileza com que quebra a onda do momento
Intenso
É o sentimento e sua derrocada
E por consequência seu vazio
É verdade
A única coisa que existe
É escrever
É a única coisa que eu sempre soube fazer
Todas as outras fui fingindo ao excesso
Até aprender sem querer
Liberdade não existe
Autoconhecimento pior ainda
Narrativas, sim, são possíveis
Melhor se forem coloridas
Loucas
Transtornadas
Doloridas
Mentirosas e safadas
Navalhas na carne
Alívio no sono
Só isso me resta
E é tão mais que tudo.
E eu não aguento mais falar sobre o tempo.
Sobre o esmagador peso das coisas frágeis
Sobre a sutileza com que quebra a onda do momento
Intenso
É o sentimento e sua derrocada
E por consequência seu vazio
É verdade
A única coisa que existe
É escrever
É a única coisa que eu sempre soube fazer
Todas as outras fui fingindo ao excesso
Até aprender sem querer
Liberdade não existe
Autoconhecimento pior ainda
Narrativas, sim, são possíveis
Melhor se forem coloridas
Loucas
Transtornadas
Doloridas
Mentirosas e safadas
Navalhas na carne
Alívio no sono
Só isso me resta
E é tão mais que tudo.
Frágil
Por um momento eu achei
Que pudesse pegar todas as coisas em mim
Reuni-las em minha mão em concha
Das mais marcantes às mais banais
E entregar com um sorriso
De esperança
Que alguém fosse se interessar
O que eu não vi
É que a palma da mão é um espelho
Que eu mostro nas minhas linhas
Suas rugas de expressão
Que na contramão
Está tudo que perdi por sentir paixão
Ódio
E desespero.
Que meu apelo
É o mais frágil dos elos
Dos receios
É medo
Eu não vi que tudo o que existe é o medo.
Que pudesse pegar todas as coisas em mim
Reuni-las em minha mão em concha
Das mais marcantes às mais banais
E entregar com um sorriso
De esperança
Que alguém fosse se interessar
O que eu não vi
É que a palma da mão é um espelho
Que eu mostro nas minhas linhas
Suas rugas de expressão
Que na contramão
Está tudo que perdi por sentir paixão
Ódio
E desespero.
Que meu apelo
É o mais frágil dos elos
Dos receios
É medo
Eu não vi que tudo o que existe é o medo.
quinta-feira, 23 de março de 2023
Um dia
Uma pessoa é uma coisa muito simples mesmo
Até mesmo simplória
Não tem muito a descobrir além de sobrevivência e paranóia
O valor e o encanto está nas imagens que consegue refletir
Através do olhar do outro
Quanto mais metamorfa mais interessante
Quanto mais sujeita a idealização.
Suzana acordou naquela quinta-feira, com o céu abafado tocando seus pés em sua cama que cheirava a lençóis frescos e amaciante.
Abriu os olhos lenta e comumente, e aos poucos pôde sentir as paredes de seu quarto e de toda a responsabilidade de sua existência a comprimirem.
As crianças da casa vizinha choravam, o barulho de panelas na cozinha. A vida estava acontecendo, era aterrorizante.
O som de tudo e o som mudo dentro de si a lembravam do terror do agir, da urgência de viver.
Sua vontade era fechar os olhos novamente e afundar-se no tecido abaixo de si, como quem fica submersa em uma piscina, em um estado de latência em relação ao ambiente.
Mas um cachorro na rua latia, o carro do ovo anunciava sua passagem, seu celular recebia notificações. A inércia não era uma opção.
Geralmente, esse estado de supervigilância convalescia ainda nos primeiros minutos da consciência diária, no instante em que as atividade rotineiras apoderavam-se de sua percepção, enxotando para os cantos de sua mente sua insatisfação com noções básicas de sobrevivência.
Mas não nesse dia.
Tomou um banho gelado, evitando seu reflexo no pequeno espelho de parede e penteou os cabelos, levemente atordoada com o fato de continuar perplexa por ser uma pessoa. Seu corpo não tinha acostumado-se ainda, não hoje.
Indo ao trabalho, a imprevisibilidade do contexto urbano a assustou mais do que de costume. Uma bicicleta mal guiada, as buzinas no trânsito. Uma risada alta de alguém que falava ao telefone, uma criança correndo para enfurecimento de sua mãe. Os pequenos pedaços de existência, portais ambulantes para outros mundos a perpassaram de uma forma diversa de qualquer outro dia. A cada vida que lhe atravessava o caminho, lhe afogava a sensação de desconhecimento e inevitavabilidade. Uma tristeza imensa lhe dominou, por tudo o que nunca conheceria, veria, conversaria, compreenderia ou viveria.
Uma enorme e aterradora tristeza que pareceu paralisar-lhe no meio da avenida central em pleno horário de 8:30h da manhã, hora de pico no comércio urbano.
Esperou que o ar voltasse aos seus pulmões e muito fracamente continuou.
Chegando no trabalho, rostos conhecidos lhe diziam palavras esperadas. O inesperado ficou para trás, mas que surpresa perceber que o previsível lhe machucava da mesma forma.
A repetição dos dias, das atividades, a corrida em busca de nada. Uma tarefa realizada com resultado positivo causando uma mínima, passageira e incompreensível sensação de satisfação.
Sua percepção naquele momento foi a de que tudo o que estavam fazendo eram coisas inventadas. Se todos parassem imediatamente de trabalhar, de se mover, de respirar, alguma alteração seria produzida no mundo? Parecia um fingimento conjunto o de que aquilo era de alguma forma uma espécie de normalidade.
Na hora do almoço, foi possível sair dessa fase de estranhamento diante do convite de uma colega para conversar.
Suzana era uma boa ouvinte, ao menos a de todos os dias, não aquela de hoje, estrangeira, parasita de um corpo estranho.
Sua colega lhe contou seus problemas. Questões familiares, pessoais. Desabafos unilaterais que não pedem realmente mais do que um receptáculo para o próprio orador.
Sentiu, assim, a verdade descoberta por trás das relações - não só aquela, mas todas as que já tinha mantido, vivido ou observado ao longo de sua vida: Todas eram unilaterais. Perguntou-se o quanto tinha sido apenas um receptáculo para palavras, pensamentos ou projeções. Ou o quanto tinha feito dos outros apenas isso. Tocou o rosto de sua colega, a primeira vez que a olhava nos olhos e perguntou-se quem era ela.
Um som alto na cafeteria a despertou, olhou de lado. Na verdade, não tinha movido as mãos do colo nem uma única vez na última meia hora.
Após uma tarde de inércia, Suzana voltou para casa, caminho geralmente feito ao ouvir música ou algum podcast sobre jardinagem ou viagens. Ouvia sobre experiências que nunca teve, mas escutá-las ou assisti-las as tornava reais, o conhecimento lhe dava a sensação de pertencimento. De compreensão de algo distante.
Mas não nesse dia.
No lugar disso, parou em um bar antigo, caindo aos pedaços, frequentado apenas por idosos saudosistas sobre o que aquele lugar fora um dia, antes da decadência, do abandono e da morte. Era o lar do passado.
Observou os que jogavam sinuca, os que conversavam, os que encaravam hipnotizados o horizonte.
Esse lugar era o atestado de tudo: da passagem inevitável, do único assunto que vale a pena ser pensado, sobre o único tema que verdadeiramente existe: o tempo.
O tempo e sua devoradora e inevitável passagem.
Tudo o que lhe circunda, o que existe ao seu redor é preenchimento. Tentativas vãs de atribuir-lhe sentido, de vencer-lhe.
A produção de atividades, de arte, de relações humanas. A tentativa constante e cansada e completamente ineficaz de ultrapassar sua passagem, com a convicção de ter-lhe usado bem, de ter deixado raizes.
Mas como, por Deus, é possível ultrapassar o tempo?
Ele acaba no momento em que acabamos, ele deixa de existir no momento em que o pedacinho dele do qual usufruímos termina.
E então não importa o que fizemos ou não fizemos, o que vivemos ou não.
Tudo importa ou nada importa, é a única decisão que cabe tomar.
Suzanna olhou bem para o copo de água à sua frente e tomou a sua.
Até mesmo simplória
Não tem muito a descobrir além de sobrevivência e paranóia
O valor e o encanto está nas imagens que consegue refletir
Através do olhar do outro
Quanto mais metamorfa mais interessante
Quanto mais sujeita a idealização.
Suzana acordou naquela quinta-feira, com o céu abafado tocando seus pés em sua cama que cheirava a lençóis frescos e amaciante.
Abriu os olhos lenta e comumente, e aos poucos pôde sentir as paredes de seu quarto e de toda a responsabilidade de sua existência a comprimirem.
As crianças da casa vizinha choravam, o barulho de panelas na cozinha. A vida estava acontecendo, era aterrorizante.
O som de tudo e o som mudo dentro de si a lembravam do terror do agir, da urgência de viver.
Sua vontade era fechar os olhos novamente e afundar-se no tecido abaixo de si, como quem fica submersa em uma piscina, em um estado de latência em relação ao ambiente.
Mas um cachorro na rua latia, o carro do ovo anunciava sua passagem, seu celular recebia notificações. A inércia não era uma opção.
Geralmente, esse estado de supervigilância convalescia ainda nos primeiros minutos da consciência diária, no instante em que as atividade rotineiras apoderavam-se de sua percepção, enxotando para os cantos de sua mente sua insatisfação com noções básicas de sobrevivência.
Mas não nesse dia.
Tomou um banho gelado, evitando seu reflexo no pequeno espelho de parede e penteou os cabelos, levemente atordoada com o fato de continuar perplexa por ser uma pessoa. Seu corpo não tinha acostumado-se ainda, não hoje.
Indo ao trabalho, a imprevisibilidade do contexto urbano a assustou mais do que de costume. Uma bicicleta mal guiada, as buzinas no trânsito. Uma risada alta de alguém que falava ao telefone, uma criança correndo para enfurecimento de sua mãe. Os pequenos pedaços de existência, portais ambulantes para outros mundos a perpassaram de uma forma diversa de qualquer outro dia. A cada vida que lhe atravessava o caminho, lhe afogava a sensação de desconhecimento e inevitavabilidade. Uma tristeza imensa lhe dominou, por tudo o que nunca conheceria, veria, conversaria, compreenderia ou viveria.
Uma enorme e aterradora tristeza que pareceu paralisar-lhe no meio da avenida central em pleno horário de 8:30h da manhã, hora de pico no comércio urbano.
Esperou que o ar voltasse aos seus pulmões e muito fracamente continuou.
Chegando no trabalho, rostos conhecidos lhe diziam palavras esperadas. O inesperado ficou para trás, mas que surpresa perceber que o previsível lhe machucava da mesma forma.
A repetição dos dias, das atividades, a corrida em busca de nada. Uma tarefa realizada com resultado positivo causando uma mínima, passageira e incompreensível sensação de satisfação.
Sua percepção naquele momento foi a de que tudo o que estavam fazendo eram coisas inventadas. Se todos parassem imediatamente de trabalhar, de se mover, de respirar, alguma alteração seria produzida no mundo? Parecia um fingimento conjunto o de que aquilo era de alguma forma uma espécie de normalidade.
Na hora do almoço, foi possível sair dessa fase de estranhamento diante do convite de uma colega para conversar.
Suzana era uma boa ouvinte, ao menos a de todos os dias, não aquela de hoje, estrangeira, parasita de um corpo estranho.
Sua colega lhe contou seus problemas. Questões familiares, pessoais. Desabafos unilaterais que não pedem realmente mais do que um receptáculo para o próprio orador.
Sentiu, assim, a verdade descoberta por trás das relações - não só aquela, mas todas as que já tinha mantido, vivido ou observado ao longo de sua vida: Todas eram unilaterais. Perguntou-se o quanto tinha sido apenas um receptáculo para palavras, pensamentos ou projeções. Ou o quanto tinha feito dos outros apenas isso. Tocou o rosto de sua colega, a primeira vez que a olhava nos olhos e perguntou-se quem era ela.
Um som alto na cafeteria a despertou, olhou de lado. Na verdade, não tinha movido as mãos do colo nem uma única vez na última meia hora.
Após uma tarde de inércia, Suzana voltou para casa, caminho geralmente feito ao ouvir música ou algum podcast sobre jardinagem ou viagens. Ouvia sobre experiências que nunca teve, mas escutá-las ou assisti-las as tornava reais, o conhecimento lhe dava a sensação de pertencimento. De compreensão de algo distante.
Mas não nesse dia.
No lugar disso, parou em um bar antigo, caindo aos pedaços, frequentado apenas por idosos saudosistas sobre o que aquele lugar fora um dia, antes da decadência, do abandono e da morte. Era o lar do passado.
Observou os que jogavam sinuca, os que conversavam, os que encaravam hipnotizados o horizonte.
Esse lugar era o atestado de tudo: da passagem inevitável, do único assunto que vale a pena ser pensado, sobre o único tema que verdadeiramente existe: o tempo.
O tempo e sua devoradora e inevitável passagem.
Tudo o que lhe circunda, o que existe ao seu redor é preenchimento. Tentativas vãs de atribuir-lhe sentido, de vencer-lhe.
A produção de atividades, de arte, de relações humanas. A tentativa constante e cansada e completamente ineficaz de ultrapassar sua passagem, com a convicção de ter-lhe usado bem, de ter deixado raizes.
Mas como, por Deus, é possível ultrapassar o tempo?
Ele acaba no momento em que acabamos, ele deixa de existir no momento em que o pedacinho dele do qual usufruímos termina.
E então não importa o que fizemos ou não fizemos, o que vivemos ou não.
Tudo importa ou nada importa, é a única decisão que cabe tomar.
Suzanna olhou bem para o copo de água à sua frente e tomou a sua.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
Gentil
Esses dias alguém fez um comentário sobre meu livro que me deixou muito feliz. Foi um elogio sobre como a relação romântica é composta por duas pessoas essencialmente gentis.
Isso me pegou de tal forma que já faz alguns dias que tento escrever sobre a minha referência para escrever sobre uma relação gentil.
Mas seria um texto de amor e eu já não escrevo mais textos de amor.
Ainda escrevo sobre todas as outras coisas que me inflamam o peito: a ansiedade das decisões, o medo do tempo, a natureza das coisas frágeis.
Mas escrever sobre o amor foi ficando cada vez menos natural à medida que eu fui envelhecendo e meu amor foi amadurecendo.
Olhando para meus textos antigos, percebo que eram também textos ansiosos. Meu amor era inseguro, com uma frágil consciência sobre o que o definia. Essa lacuna exorbitava em palavras. Eu precisava defini-lo: Esse é o amor! Ainda quando não sabia direito nem o que era amar.
Agora é tão claro.
O amor é tranquilo e gentil e me deixa completamente à vontade para não escrever sobre ele. Ainda quando eu quero compartilhar como é feliz me sentir coberta por seu manto de carinho, a timidez cresce sobre temas que antes não atingia. Hoje eu sou tímida para falar de amor. Eu, a pessoa que escreveu, recortou e enrolou 365 motivos para amar.
Mas apesar disso, hoje eu preciso dizer que não são necessários 365 motivos para identificar. O que me traz de forma mais clara a face do amor é que ele é gentil.
Um dia, vidas atrás, eu descobri que não amava um homem no momento exato em que, olhando em seus olhos, anunciei, quase como uma descoberta: você não é um homem gentil. Nesse mesmo instante, me surpreendendo, veio à minha mente a imagem do homem mais gentil que já conheci, que já não estava ao meu lado, mas que hoje é o motivo pelo qual eu escrevo esse texto, assim como o foi também para 365 motivos muitos anos atrás.
Mas como eu disse, 365 motivos não são mais necessários.
É com muita paz e clareza que me vem à mente, com toda a simplicidade da descoberta de algo que já estava lá: Eu amo um homem gentil.
Isso me pegou de tal forma que já faz alguns dias que tento escrever sobre a minha referência para escrever sobre uma relação gentil.
Mas seria um texto de amor e eu já não escrevo mais textos de amor.
Ainda escrevo sobre todas as outras coisas que me inflamam o peito: a ansiedade das decisões, o medo do tempo, a natureza das coisas frágeis.
Mas escrever sobre o amor foi ficando cada vez menos natural à medida que eu fui envelhecendo e meu amor foi amadurecendo.
Olhando para meus textos antigos, percebo que eram também textos ansiosos. Meu amor era inseguro, com uma frágil consciência sobre o que o definia. Essa lacuna exorbitava em palavras. Eu precisava defini-lo: Esse é o amor! Ainda quando não sabia direito nem o que era amar.
Agora é tão claro.
O amor é tranquilo e gentil e me deixa completamente à vontade para não escrever sobre ele. Ainda quando eu quero compartilhar como é feliz me sentir coberta por seu manto de carinho, a timidez cresce sobre temas que antes não atingia. Hoje eu sou tímida para falar de amor. Eu, a pessoa que escreveu, recortou e enrolou 365 motivos para amar.
Mas apesar disso, hoje eu preciso dizer que não são necessários 365 motivos para identificar. O que me traz de forma mais clara a face do amor é que ele é gentil.
Um dia, vidas atrás, eu descobri que não amava um homem no momento exato em que, olhando em seus olhos, anunciei, quase como uma descoberta: você não é um homem gentil. Nesse mesmo instante, me surpreendendo, veio à minha mente a imagem do homem mais gentil que já conheci, que já não estava ao meu lado, mas que hoje é o motivo pelo qual eu escrevo esse texto, assim como o foi também para 365 motivos muitos anos atrás.
Mas como eu disse, 365 motivos não são mais necessários.
É com muita paz e clareza que me vem à mente, com toda a simplicidade da descoberta de algo que já estava lá: Eu amo um homem gentil.
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