O problema
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.
Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.
Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.
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