quinta-feira, 9 de novembro de 2023

"It means i'm bad in parties"

Eu acredito que viver é uma experiência, por natureza, solitária.
O papel que as outras pessoas exercem na nossa vida é fatalmente instrumental. Não tem como ser diferente, se você é o ser. Se você define suas relações à partir de seu bem estar e desenvolve sensações que nomeia como afeto à partir das ausências que alguém é capaz de suprir; da autoimagem que vê refletida em seu olhar, fica claro que todas as pessoas, todas as outras existências ao seu redor são instrumentos ou, ainda, meios através dos quais você aprimora ou enfraquece a qualidade da sua experiência "vida".
Tudo bem.
Eu não vejo como pode ser diferente, em que tipo de lógica o outro tivesse a centralidade da experiência ou, se sim, o quão deturpado e distorcido isso pudesse ser, a menos, talvez, que a exclusão da sua própria centralidade se desse por considerar-se, de alguma forma, elemento orgânico de uma ideia maior, autônoma, indiferente: o mais perto que concebo de Deus.
Mas ainda que pense assim, não é de acordo com isso que vivo. Caso contrário, que tipo de vida seria? É uma linha tênue, quase um fingimento, essa tal de vida, onde criamos mentiras, ou, para ser mais gentil, narrativas que nos fazem atribuir sentido a: nós mesmos, o outro, o tempo, o emaranhado de coisas que acontece sem nenhum lógica nessa viagem em direção ao fim.
Eu crio a narrativa do amor, do fazer bem: até porque a mágoa do outro é um fato e é capaz de gerar efeito em mim (novamente, sujeito protagonista de tudo). Mas por que doi? Existe algum fundamento menos cético para o afeto?
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Esse é o tipo de pensamento-base que me forma e que me coloca em uma situação peculiar na seguinte circunstância:
* Pessoas que demandam afeto *
Sendo mais prática, eu conheci mais uma vez uma pessoa muito carente e, por isso, muito amorosa e prestativa. Novamente uma pessoa assim entrou no meu radar, invadindo o círculo fechado da minha individualidade, com suas tentativas de ser necessária. É uma forma detestável a que eu descrevo alguém muito prestativo. Mas eu não consigo imaginar que motivo leva alguém, distante, e num momento inicial desconhecido a mim a insinuar-se à minha vida (e eu não tenho nada de especial, esse deve ser um procedimento padrão da pessoa) com a determinação de: servir, ajudar, ser necessário. Uma demanda que eu, absolutamente, não manifestei.
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Na minha experiência com pessoas, esse tipo de personalidade costuma refletir alguém que precisa muito formar laços e os tenta fazer a partir de uma relação de interdependência. Eu identifico, várias vezes, relações com essas características e vejo as pessoas as denominando de *** amizade ***
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Existe um fenômeno que por coincidência eu observei ontem e me veio à mente quando comecei a pensar sobre essa pessoa e todas as pessoas e eu e a nossa matéria frágil: cultos evangélicos.
Na verdade, eu não estava em um culto evangélico ontem e sim em uma sessão de coaching, obviamente por razões fora do meu controle. É difícil para mim descrever a superficialidade do conteúdo, da mensagem, do entusiasmo ensaiado e falso; a caricatural emoção, motivação, sei lá como chamam isso, honestamente me dá preguiça até de escrever sobre. Mas ainda assim, funcionou: uma plateia de centenas de pessoas vibrou, se emocionou e urrou. A diferença do culto foi que não chegamos ao ponto dos desmaios. Talvez por pouco. A razão para isso é muito pouco nova e já se refletiu bastante a respeito: a angústia, vazio, matéria frágil, como quiser chamar, abre portas para esse tipo de vulnerabilidade (dentre outras mais), criando terreno para uma série de fenômenos tentarem apossar-se de sua consciência, fazendo morada naquele espaço vácuo natural que você leva no estômago, que nós levamos, devido ao simples fato de sermos inconscientes seres humanos: nascidos para morrer, sem nenhuma compressão sobre nada.
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Tudo bem também. Deixar essas coisas preencherem e estar a mercê das técnicas de oratória e comoção que tem o mesmo objetivo: mobilizar o que há de mais frágil e preencher de sentido, ainda que o sentido seja apenas uma falsa atenção, um falso afeto, um falso O QUÊ que pode mover as pessoas às maiores loucuras.
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Pode parecer um pulo largo mas isso me lembra, em maior medida, da pessoa carente. Do pequeno príncipe, livro ordinário. De todas as necessidades que fazem o outro quererem nos inserir no seio de sua vida através das amarras de uma relação e com você suprir, te suprir.
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Eu não sei por que isso me afasta tanto. Se é por medo do contato e da perda (eu sinceramente não acho que seja isso) ou porque fundamentalmente eu não acredito em nada. Na minha opinião, talvez, a única forma de relação honesta seja um ceticismo conjunto.

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