Você poderia pensar que minha cor preferida é vermelho, mas na verdade é azul.
-As coisas estão ruins, ein? Para voltar aqui.
Estão. Suficientemente ruins para eu ver metáforas em cores. Para que minhas unhas vermelhas representem o caos do qual só gosto na teoria. E o azul aquela coisa inatingível. A coisa que eu sempre amei, eu sempre quis. Eu só não sabia.
-O que é o azul? É aquela sensação quente?
É aquela sensação morna e líquida. É o abraço que não aperta. Passagem de ar. É respirar paz, boiar à tarde. O céu sem nuvens e sem sol. O amanhecer. As rajadas claras no meio da escuridão. É algo que me faz chorar, porque eu não encontrei ainda. Tudo o que vejo é vermelho, vermelho sangue. Entranhas, desejo visceral. Destruição travestida de amor. Morte. O vermelho me consome, ele suga meus lábios, meus seios, minha paz. Ele leva tudo de mim e eu sinto que nada sobra mais. Ele é violência e fragilidade, insegurança e intensidade. Ele vem de olhos sedentos, oblíquos, enevoados pelo desejo voraz. Eu não quero mais ser alvo desses olhos, dessas mãos afoitas. Não quero mais ser depósito de projeções, esperanças, sonhos inventados. Não quero mais a ausência de paz que esse rebuliço todo causa. E depois suga, consome, gruda, implora, pede, machuca. Não aguento mais essa fruta suculenta que apodrece na minha boca na segunda mordida. E me consome, confunde, anestesia e joga fora. Me tensiona entre a necessidade e o abandono e responde meus limites com obsessão, violação e controle. O vermelho queima meus olhos, incha minhas olheiras, comprime meu corpo, me afunda no chão. Para ele, não tenho sequer reação. Não tenho força, não tenho pulsão.
Não aguento mais o vermelho na minha vida, que é só o que me procura e que rejeito como destino.
Nada tranquilo nunca cruzou o meu caminho.
terça-feira, 27 de agosto de 2024
quinta-feira, 22 de agosto de 2024
Homem de cálculos (Você se sente amado?)
"Você se sente amado?"
Olhos baixos, marejados.
Rubor no rosto, cabelos bagunçados.
Sorriso frouxo, relaxado.
Uma anuência lenta e sincera.
Está devidamente salgado.
Essa é a hora mais bela.
Um homem de cálculos me sorri
Mente objetiva, exata.
Coração posto, mesa decorada.
Um monte de lembranças, dores, desabafos.
Receita reutilizada.
Pego minhas percepções, calculo seus fardos
Crio as soluções
Para meu homem de cálculos.
Leio seus lábios
Suas necessidades
O que em sua fragilidade ressoa
Ou lhe toca como belo
Calculo os fatores dessa pessoa
E sutilmente os entrego.
Lentamente me aproximo
Lhe ensino
A sensação de ser aceito
De destino.
A sensação de ser descoberto
De carinho.
Enrolo em doce presente
Lhe envolvo.
Corpo, coração e rosto
Oferenda gentil e inesperada
De irresistível tempero e gosto.
Enquanto o faço, esvazio.
Nunca na minha história
Eu senti tanto frio.
Enquanto salgo o almoço
Órgão decorado pelo tempo e esforço
No ponto certo da degustação
Não sinto culpa nessa operação
Não tenho desculpa para minha ação
Não vejo sentido em justificar
O coração do meu homem de cálculos
Entregue em meus braços
Nasceu para ser meu jantar.
Olhos baixos, marejados.
Rubor no rosto, cabelos bagunçados.
Sorriso frouxo, relaxado.
Uma anuência lenta e sincera.
Está devidamente salgado.
Essa é a hora mais bela.
Um homem de cálculos me sorri
Mente objetiva, exata.
Coração posto, mesa decorada.
Um monte de lembranças, dores, desabafos.
Receita reutilizada.
Pego minhas percepções, calculo seus fardos
Crio as soluções
Para meu homem de cálculos.
Leio seus lábios
Suas necessidades
O que em sua fragilidade ressoa
Ou lhe toca como belo
Calculo os fatores dessa pessoa
E sutilmente os entrego.
Lentamente me aproximo
Lhe ensino
A sensação de ser aceito
De destino.
A sensação de ser descoberto
De carinho.
Enrolo em doce presente
Lhe envolvo.
Corpo, coração e rosto
Oferenda gentil e inesperada
De irresistível tempero e gosto.
Enquanto o faço, esvazio.
Nunca na minha história
Eu senti tanto frio.
Enquanto salgo o almoço
Órgão decorado pelo tempo e esforço
No ponto certo da degustação
Não sinto culpa nessa operação
Não tenho desculpa para minha ação
Não vejo sentido em justificar
O coração do meu homem de cálculos
Entregue em meus braços
Nasceu para ser meu jantar.
terça-feira, 13 de agosto de 2024
Arapuca
Eu sinto o peso das suas amarras
Aperta o couro, arranha a pele, marca.
De vez em quando parecem me abraçar
Afinal, eu também sou criatura que anseia amar.
Me deixo invadir, às vezes, pelos seus cuidados e calor
Me deixo confundir a percepção, até fantasio que é amor.
Mas no fundo ela fareja, respirando fundo,
Quieta e observadora, o seu odor.
Meu eu raposa identifica, ela não vacila, ela viveu mil vidas
Ela conhece o sabor.
Ela sente o agridoce, o amargo na língua, o torpe
A real natureza da pele, do gosto, do doce
Que se desmancha em fel, desfazendo miragens
Que se derrete, diluindo mil imagens borradas
Mediante o mais frágil dos toques
Que com delicadeza ocultam navalhas.
Necessidade frágil
Violenta
Desesperada
A natureza humana não cansa
De me sugar
Me expurgar
E me deixar exausta.
Aperta o couro, arranha a pele, marca.
De vez em quando parecem me abraçar
Afinal, eu também sou criatura que anseia amar.
Me deixo invadir, às vezes, pelos seus cuidados e calor
Me deixo confundir a percepção, até fantasio que é amor.
Mas no fundo ela fareja, respirando fundo,
Quieta e observadora, o seu odor.
Meu eu raposa identifica, ela não vacila, ela viveu mil vidas
Ela conhece o sabor.
Ela sente o agridoce, o amargo na língua, o torpe
A real natureza da pele, do gosto, do doce
Que se desmancha em fel, desfazendo miragens
Que se derrete, diluindo mil imagens borradas
Mediante o mais frágil dos toques
Que com delicadeza ocultam navalhas.
Necessidade frágil
Violenta
Desesperada
A natureza humana não cansa
De me sugar
Me expurgar
E me deixar exausta.
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