quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Homem de cálculos (Você se sente amado?)

"Você se sente amado?"
Olhos baixos, marejados.
Rubor no rosto, cabelos bagunçados.
Sorriso frouxo, relaxado.
Uma anuência lenta e sincera.
Está devidamente salgado.
Essa é a hora mais bela.

Um homem de cálculos me sorri
Mente objetiva, exata.
Coração posto, mesa decorada.
Um monte de lembranças, dores, desabafos.
Receita reutilizada.
Pego minhas percepções, calculo seus fardos
Crio as soluções
Para meu homem de cálculos.

Leio seus lábios
Suas necessidades
O que em sua fragilidade ressoa
Ou lhe toca como belo
Calculo os fatores dessa pessoa
E sutilmente os entrego.

Lentamente me aproximo
Lhe ensino
A sensação de ser aceito
De destino.
A sensação de ser descoberto
De carinho.
Enrolo em doce presente
Lhe envolvo.
Corpo, coração e rosto
Oferenda gentil e inesperada
De irresistível tempero e gosto.

Enquanto o faço, esvazio.
Nunca na minha história
Eu senti tanto frio.
Enquanto salgo o almoço
Órgão decorado pelo tempo e esforço
No ponto certo da degustação
Não sinto culpa nessa operação
Não tenho desculpa para minha ação
Não vejo sentido em justificar
O coração do meu homem de cálculos
Entregue em meus braços
Nasceu para ser meu jantar.

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