O problema
É que eu não acredito
Nas coisas que eu quero
E arrisco dizer que preciso.
Eu não acredito
No que encheria o vazio
Insondável
Cansado
Entediado
De tanto ser mencionado.
Não posso crer na realidade
Da abstração impossível
De ser para o outro um pouco mais
Além de um espelho imprevisível
Destinado ao fracasso, ao rapto
De toda e qualquer lealdade
Projeto irrealizável
Para uma cética incorrigível.
Eu fui, eu era, eu sou.
Os demais parecem ter alguma imagem
Alguma noção
Usam de palavras com relativa coerência
Mera ficção
Amontoado de paisagens
Calma, intensa ou confiável
Etérea, desperta, inefável
Tudo o que eu ouvi
O que eu transmiti
Esse pobre poder
Rede de miragens.
Eu ando por esse chão
E toco essas paredes
Na estrutura da minha mente
Nada evolui ou cresce
É verdade, até parece
Que aquela menina ingênua
Dos textos passados
Nunca existiu
E por outro lado, é ela
Quem toca neste teclado
Rogando a mesma prece
Dos desesperados
Com as mesmas necessidades
Matéria frágil acumulável
Orando para os santos
Que tanto foram rejeitados
Cantando os mesmos cânticos
Que nunca foram entoados.
segunda-feira, 30 de outubro de 2023
São a mesma coisa, é tudo diferente (Hora do almoço)
Você me pede para
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.
Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.
Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.
Ajustar minha perspectiva
Me pede quase implorando
Exasperado pela minha imobilidade
O que você não sabe
(Graças a Deus)
É que no quadro da minha visão
Tudo o que o horizonte alcança
É o medo
É ele que me paralisa
E revira
Minhas entranhas
Sedentas
Pela cura
Da crença de não ser amada.
Você vê perigo em cada esquina
As arestas do seu olho
São vermelhas
De tanto que identificam
Possíveis chances de desastre
Chacina
Em cada rotineira atividade
O risco
Do imprevisto
Te imobiliza
Não fascina
E entra em mim
Ao reverso
Como excesso
Como inércia
Como o avesso
Do meu zelo
Como ódio
E desespero
O que nos une
Tenebroso elo
É o medo.
Eu vejo perigo
Em cada esquina.
Vejo a chance
Oportunidade
De mudança
E brevidade
O descuidado
O desamor
O abandono
Ante a mínima oportunidade
Vejo no gesto
Ou no olhar
Vejo na ausência
Vejo na rotina
Ou no imprevisto
Vejo naquilo e nisto
Na imaginação
Sequer preciso de fundamentação
Ou coisas reais
Minha visão é voraz
Devora toda e qualquer chance
de Paz.
sábado, 21 de outubro de 2023
Talheres perdidos sob o assoalho
É misterioso o caso das facas e garfos que desaparecem na cozinha de casa.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
No children
É um momento suave
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.
Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.
Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico
Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.
Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.
Sutil transição de cena
Quando capturo a sobreposição de imagens
Transborda a cor original da tela.
Demorei muito para te conhecer
Alvo de energia solar artificial
Anos aprisionado em meu espelho
Muito mais ilusão do que criatura natural.
Me apaixonei pelo que criei
A cantiga menos original do mundo artístico
A cada desencontro entre realidade e mente
Uma nova rachadura em meu retrato idílico
Me sentia traída e confortada
Por permanecer tão pouco vinculada
Àquele ser que nada tinha de místico
Porém
Das rupturas, inesperadamente
Surgiu algo muito mais bonito
No lugar de calma, impaciência
De tranquilidade, furiosa potência
A lealdade revelou ser medo
A resiliência era só carência
Suas qualidades eram apenas defeitos
Mascarados pelos mais bem elaborados conceitos
E no núcleo da sua mente
Encontrei novos e divertidos brinquedos.
Descobri seu humor sarcástico
E sua claustrofobia social
Impulsos animais e erráticos
E uma insensibilidade tão racional
Aproximando-te muito mais de mim
Que também por todos aqueles anos
Dissimulei meu estado original.
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
No jardim do bem e do mal - Um reencontro
- Por que você veio aqui hoje? Faz tempo que não me chama para conversar.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
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