segunda-feira, 25 de maio de 2026

Reunião de ex-alunos

-Você disse que veio por conta de uma queixa. Qual seria ela? 

A mulher lhe indagava, com olhos redondos e simpáticos. Sua boca tinha um batom alaranjado que lhe lembrava uma tangerina velha, que ultrapassou o ponto da doçura e flertava com o amargor.

-Meu problema é o sono. - Ela olhava as próprias mãos. Longas, pálidas. Mãos de pianista.

-Você tem sonhos ruins?

-Não. Eu não tenho sonhos. Meu problema é que eu mal durmo.

Não era mentira. Ainda assim, não se sentiu confiante em uma possível melhora após a sessão. Olhando-se no espelho do elevador da clínica, pensava quão pouco sentido fazia sua figura atualmente. Como explicar que ela tinha sido, na verdade, uma garota de 15 anos, com medo de tudo, sempre em estado de sobrevivência? Uma garota que tinha um anseio desesperado por ser querida e nenhuma critério sobre como e por quem. Como entender que aquela menina tinha se tornado esta mulher, cuja presença emanava uma solene confiança, aspirando com naturalidade todo o ar de qualquer ambiente em que entrasse, como se tudo fosse, gentilmente, seu.

Saiu pelo saguão do prédio com um pé direito altíssimo, atraindo olhares enquanto o fazia. Ela era aquela figura mística, intocável. Silenciosamente atraia a energia, apenas por estar presente. Alguém incompatível com o ambiente. Como aquela menina reagiria sabendo que este era seu corpo, agora?

Era difícil identificar o ponto em que houve a virada. Em que sua pele parou de ser uma esponja para o mundo exterior. Em que passou a reconhecer as coisas por sua real forma, e precisar de coisas de dentro de si, não de fora. Mas a transição foi tão brusca, tão intensa, que era difícil conciliar essas duas realidades. O passado e o presente pareciam tão distantes como duas dimensões. Mas ainda assim, confusamente, não era difícil resgatar a memória.

Porque a verdade é que se lembrava. Se lembrava bem. Como era ter medo o tempo todo, ser dominada por carência e desespero. Moldar-se a desejos, deixar-se levar pelas mais absurdas situações na esperança de ser amada. Uma navegante de mares de outrem. Sempre à deriva.

Agora, não conseguia pensar em uma situação que fosse capaz de lhe constranger ou intimidar. Acostumada a lidar diariamente com as pessoas de todos os tipos, era natural olhar nos olhos e deslocar o foco de si, para o outro. A opinião do outro sobre si não era um fato que sequer cogitava, muito menos buscava controlar. Sentia-se alinhada com o seu eu, e por ele guiada e suas ações eram resultado de seus pensamentos. O mundo exterior tinha influência bastante limitada na forma como ela se sentia. Tornara-se, sem perceber quando, alguém incapaz de ser acuada. Não por tentativa, por consequência. De que? É difícil saber. 

Mas naquela noite, por alguma razão, sua consciência partia-se entre presente e passado e a elegante mulher sentia-se confusa sobre a identidade perdida de menina. Foi bem naquela hora, como se o adversário visse o ponto cego de uma barricada e a atacasse, que o telefone tocou.

-Reencontro? - Sua voz melódica soou no cômodo vazio de sua sala. A palavra lhe era cara, não era com isso que estava flertando?

Quando desligou a ligação, passou alguns momentos sentava em seu sofá de camurça branco. Afundada em si, encolhida como uma concha, como uma menina de 15 anos. Encarou as longas e altas janelas que davam para a vista noturna da cidade, cobrindo as paredes de seu apartamento. Sentiu-se pequena como se não conhecesse nada, como se tivesse apenas começado a viver. Como se fantasiasse com o futuro, ouvindo músicas em uma manhã chuvosa a caminho da escola. 

Em seguida balançou a cabeça e riu, deparando-se com seu próprio reflexo no vidro: Toda encolhida em um robe de veludo preto. Que absurdo. Nada disso tem razão de ser. E aceitou o convite.

**

Ela não costumava chegar atrasada nem adiantada. Na verdade, tão acostumada com o controle do fluxo das coisas, se adaptava ao tempo disponível de tal forma natural, que mesmo sem grande planejamento sempre chegava nos compromissos exatamente no horário proposto. Dessa vez, porém, chegou antes. Ainda faltavam 20 minutos para o horário, quando estacionou na rua do restaurante. Desligou o carro e ficou lá. Esperando para entrar. Uma atitude que nunca em sua vida adulta tivera. Se chegasse mais cedo, entraria mais cedo. Tomaria um drink, olharia os transeuntes. Não ficaria esperando sentada em um carro desligado, preocupada com o que sua chegada cedo poderia parecer. Preocupada com os pensamentos dos outros, com o que pensariam dela. 

Chega, decidiu. Essas tolices devem parar. 

E foi até o restaurante, pedindo uma mesa em seu local preferido - no 1o andar, na sacada. E informando o pequeno número de pessoas que em breve se juntariam a ela. 

Sentir o líquido suave do vinho descer por sua garganta, agora tão acostumada com sabores exóticos e sofisticados, lhe fez sentir-se si mesma novamente. Fechou os olhos por um momento, deixou o vento noturno tocar-lhe a face pálida, as sobrancelhas cheias, os cílios longos. Um sorriso sutil se formou em seu rosto. Momentos assim, saborosos, em que sentia-se como ela mesma, alimentavam a pessoa que descobrira que era. Foram os momentos em que sentiu o prazer inesperado de ser, que lhe forneceram a confiança que mil performances nunca conseguiriam emular ou muito menos construir.

Foi quando ele chegou.

Seu cheiro lhe atingiu do outro lado do salão. Cítrico, amadeirado, cheio de nuvem densa. De menino do rio. Quando ela abriu os olhos, de sua pequena meditação interna, os dele a encaravam, a metros de distância. Um elo direto, depois de tantos anos. Do outro lado do restaurante.

Ela observou quando ele sorriu para o garçom polidamente, sinalizando que tinha encontrado sua mesa e se dirigiu em sua direção. Ele também chegara cedo.

Era, para todos os efeitos, o mesmo: cabelos louros, de fios lisos e grossos. Agora um pouco mais longos, acompanhando o pescoço. Rosto de pele fina, pálida. Olhos baixos, meio sorriso. Estava mais alto, é verdade. Um pouco mais forte, mas ainda magro. Mas sempre com aquele jeito curvado, de senhor de idade de, agora, trinta e poucos anos.

Ela o observou enquanto ele se aproximava, sem nenhum constrangimento. A ausência de necessidade de desviar o olhar ou fingir surpresa ou indiferença lhe tranquilizou de que naquela noite, tinha voltado a sintonizar com quem era agora. E não há 15 anos atrás.

Ele chegou trazendo seu cheiro, tocou a cadeira em frente a dela, e sorriu. Sentou-se sem dizer uma única palavra, como se de alguma forma, entre eles, ainda fosse normal, serem completamente alheios a convenções sociais. 

A falta de um cumprimento formal, que os colocaria na condição de antigos conhecidos, imediatamente ressuscitou o elo da intimidade. Em poucos segundos, estava estabelecido que se comportariam como eles mesmos e não como suas personas sociais.

O garçom chegou com uma nova taça e ele se serviu, sem cortesia ou brinde. O contato ocular entre eles ainda não tinha sido quebrado, nem uma única vez.

Ela, então, sorriu. E voltou a olhar para a escuridão da noite, dos prédios, do vento noturno. Ele fez o mesmo, acompanhando o seu olhar. Beberam do mesmo vinho, enquanto o mesmo vento daquela cidade em que nasceram, em que cresceram e em que tragicamente se separaram, tocava-lhes o rosto. 

Assim permaneceram por exatos 15 minutos. Sem uma única palavra, em um reencontro após quase 10 anos. Algo tão estranho que só eles seriam capazes de fazer. Uma intimidade tão absoluta que só eles seriam capazes de conservar tanto tempo depois. 

Ao final do minuto 15, como a badalada que encerra o conto, seus demais ex-colegas chegaram. Sorrisos, abraços, cumprimentos. Ambos automaticamente assumiram seus papéis sociais. Palavras, comentários, histórias, atualizações. Conversaram com os demais e entre si. Tão sociáveis e cordiais que para qualquer um dos demais colegas, poderiam até mesmo esquecer que aqueles dois se amaram um dia. Que fizeram a vida um do outro um inferno. Durante 2 horas de jantar, sobremesa, amenidades e gentilezas, foi fácil parecer que nada daquilo jamais tinha acontecido.

Mas tinha. Porque por 15 minutos, eles foram novamente os mesmos. A garota de 15 anos, que tinha medo da própria sombra. O garoto raivoso e estranho, que fazia tudo errado. Anos de erros. Discussão na madrugada. Os primeiros grandes arrependimentos. As primeiras percepções do amor. Os primeiros choros de ciúmes. Descontrole e inocência. O começo de tudo. Uma conexão tão estranha que jamais baseou-se em declarações, e sim em frases soltas. Pensamentos compartilhados. Telepatia e silêncio.

Naqueles 15 minutos, foram novamente eles. E depois disso, por toda a vida, eles nunca tornaram a se reencontrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Seu céu, meu mar

 Aqui você tem 18 anos de inventário da minha vida.
Minha vida.
O que você vai fazer com minha vida?
Além de ter curiosidade e ressentimento.
Eu aproveito, com um prazer passageiro, esses instantes de curiosidade.
Coisa rápida, passageira. Só dura enquanto dura a idade.
Enquanto dura a beleza.
E o fascínio da disparidade
Entre uma mente potente e um coração louco.
Não foi sempre esta minha dualidade?
Se eu causo fascínio em seu repertório rouco
É só pelo poder encantador do contraste.

Eu entendo, talvez demais
Que o que sentem por mim nunca é amor.
Curiosidade, desafio
E outras formas de ardor.
Eles passam, como passa o frio
Diante da mais eficiente fonte de calor.
Ninguém quer aclarar o que é sombrio
É na sombra que sobrevive o esplendor.
Não serei eu a quebrar sua imagem
De mil contos de uma belíssima miragem.

Mas caso queira se aprofundar
Largar o encanto, botar os pés no mar
Em um dia de maio, posso te mostrar
Quando a chuva cai e o tempo não é frio
Quando estamos bobos e risonhos do abril
Quando não tenho nada a provar e tudo a surpreender
Nessa disposição de espírito, talvez possa te enternecer
Com algo além da imagem, da miragem
Algo além da perfeição que sua mente criou e na qual me aprisionou
Algo que eu posso dar, algo real a se amar

Mas até alguém chegar
Que não queira meu céu, e sim meu (a)mar
Devo, per forza, continuar
A performar...
A performar... 


Acerto de contas

Sinceridade.
Garota, você teve coragem.
O que diz agora, no acerto de contas consigo mesma?
O quanto se amou? que compromissos honrou?
Não faça perguntas injustas.
Eu fiz o que pude. Minhas chances nunca foram justas.
Nasci no berço do amor e do abandono. Minhas lentes demasiadamente puras.
Demorei tempo e experiência para entender: as coisas belas, as coisas cruas.
Estou tentando me perdoar: pelo abandono que não pude retroceder. Estou tentando me amar. Estou tentando viver!
É tudo tão difícil: não é fácil, isso é mentira. É absurdamente difícil.
Sentir o outro, entender. E a si mesmo, perdoar. Amar, amar. Sentimento enorme, dolorido, sacrificado e ingrato.
E de gratidão não há o que falar, porque no fim do dia são comigo mesma as contas a acertar:
O quanto me amei? O quanto me respeitei?
O quanto consegui nas condições que me foram dadas. Que não foram tão boas. Nem foram tão árduas.
O que fiz com elas: essas são minhas marcas.
Violência, carinho. Eu sempre fui assim. Nunca estável, sempre um passarinho. Em busca de um coração, em busca de um ninho. Destruindo sem compaixão tudo o que me atravessava o caminho.
Agora estou tranquila: tento pensar antes, olho nos olhos a vida. Abraço minha fragilidade. A esgano, por vezes, com vontade - é verdade. Depois a retomo, sou liberdade.
Coisa incerta. Menos clara do que certa. Que tenta acertar, mas parece que só erra. Que ri de tanto erro, mas que se nega
A viver uma vida supérfula.

Planeta Felicidade (Meu texto preferido)

(Bruxelas, 2024, uma tarde. Eu fugia do que há de pior em mim. Eu encontrava o melhor de mim. Planeta Felicidade.)

A prece de todo final de tarde. Cores cósmicas, azul e rosa. Minha pequenez em frente a tudo.
Amor.
Surpresa e expectativa. Esperança no inesperado.
Coisas pequenas, simples, rotineiras, permeadas por tanto sentimento que transborda, não cabe, molha tudo ao meu redor e me deixa submersa.
Eu me lembro.
De cheiros e cores. De sons espontâneos. Da textura do abraço, do calor de um sentimento.
Tentativa e erro.
Olhos que parecem que a qualquer momento vão desaguar.
Amor, amor. O que mais?
Alívio, talvez. Que eu não mudei. Que a dor não levou o melhor de mim. Que eu ainda posso me emocionar com as cores do céu, o toque do frio, você.
Você.
Vocativo aberto, um lugar.
Uma insistente esperança de lhe preencher.

Parte II

Nostalgia, sentimento quente e terno, deixo me dominar.
Mas nostalgia com o futuro, não com o passado.
Saudade do que vou encontrar, da possibilidade.
Saudade e vontade. Um coração preparado para o inesperado.
Bem vestido, alcochoado, apto a receber a felicidade.
Para isso, me despeço de um antigo traço de personalidade. Me despeço do meu velho hábito, ser histórico feito de passado: escrevendo para viver uma segunda vez e dessa segunda ser mais palatável.
Escrevendo para dizer: meu tempo e amor não foram desperdiçados.

Rompo esta linha hoje.
Um dia nem quente, nem frio.
Para todos os efeitos, mais uma noite de abril.

Nostalgia do futuro é o que me preenche agora, um músculo de cada vez, percorre minhas veias e relaxa minha tez.

Chega da saudade. Não há espaço para o passado quando meus olhos estao inebriados pela possibilidade.

É o Planeta Felicidade.