quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Luz sobre os pensamentos (I)

Recentemente eu li que os fatos não geram efeitos emocionais em nós, por si mesmos. O que gera efeitos são as histórias que contamos sobre os fatos, as narrativas nas quais os enquadramos.
É um pensamento poderoso que sugere poder de escolha sobre a perspectiva que podemos adotar. Pensar assim faz eu me sentir um pouco mais poderosa, um pouco mais criadora de mundos. Menos refém de histórias nas quais eu já estou viciada em acreditar.
A questão da narrativa é importante porque por toda a minha vida – desde que eu possa me lembrar – eu me confrontei com a dificuldade entre separar a minha autoimagem e aquela imagem projetada de mim no olhar dos outros. Sempre me vi dependente da interpretação daquela imagem e convencida pelas histórias que ela me contava. É possível que estivesse, inclusive, errada, sobre ela. Eu não sei. Foi já no meio da vida adulta que vi esse conflito tomar forma, organizando-se ao redor de uma mesma dualidade: a leveza e o peso.
À leveza eu associei o amor, ainda que sem perceber. Ser amada por ser leve, espontânea, fácil de lidar e aceitar. Despreocupada e até mesmo inconsequente. Diluída por uma ausência de rigidez que torna qualquer pessoa agradável e fácil de se conviver: amável. – Essa é a história que eu criei sobre a leveza e que revisitei diversas vezes, no objetivo de me machucar. Isso porque eu sempre me senti presa no outro extremo oposto: eu não sei bem se devido a uma autopercepção ou imagem projetada dos outros. Novamente, distingui-las é uma dificuldade minha.
Mas comigo sempre houve – ou desde que posso me lembrar – algum peso. Só no peso eu fui capaz de expressar meu amor. Na atenção constante, rígida e consistente. Na responsabilidade e estabilidade. Que eu me tornei uma pessoa permeada por esses significados consigo afirmar com maior clareza, porque isso é atestado por minhas relações. A capacidade de resolver problemas e a segurança de estar presente são qualidades que fazem de mim um porto seguro. Mas que não me dão, de jeito nenhum, leveza. São qualidades relacionadas ao controle e à atenção aos detalhes. À cobrança, ao compromisso e pontualidade. Nenhuma dessas é característica de uma pessoa leve e a todas elas eu associei, por muito tempo, não ser amada. Eu sempre me senti muito útil, mas pouco desejável. Capaz de dizer a palavra certa, mas com pouca vocação para provocar o riso espontâneo.
Não sei se minha inclinação para a retidão se deu parcial, ou totalmente, à minha obsessão por obter a perfeição em todas as minhas atividades – inclusive as interrelacionais. São coisas que hoje eu vejo que estão relacionadas com a necessidade de ser amada a partir da ação, o que é contraditório, já que ser assim fez eu me sentir pouco amável. Mas sim, era isso que eu queria: Fazer por merecer ser amada através de atitudes de excelência. Merecer. Coisas que não existem, eu sei. Hoje eu sei. Eu também me perguntei porque, apesar de ser tão útil, tão confiável, eu não fui amada. Enquanto outras, por serem o exato oposto, foram. Eu vi uma injustiça nisso e me indignei. Vi um erro. Mas não existe erro. Existem apenas as coisas. E o amor é uma projeção – existem apenas pessoas e as coisas que elas querem ou podem suportar.
O que eu concluí com isso eu não sei exatamente. Apenas que eu estava desejando as coisas erradas do jeito errado. Que eu lamentei as coisas erradas. E que eu, insistentemente, tentei enfiar narrativas e histórias para tornar as coisas todas mais suportáveis. Mas eu não vejo mais graça em transformar as coisas no que elas não são. Não adianta construir fantasmas e alimentar idealizações. As coisas que eu procuro não estão fora, nessas respostas, ou em um reparo de mim mesma.
Talvez o que eu possa concluir, se é que posso, é que não tem absolutamente nada de errado em ser quem eu sou. Que eu não sou melhor ou pior que ninguém, então não adianta eu tentar comparar e intuir os defeitos escondidos dos outros. Que eu preciso parar de olhar para os outros e alimentar meu mundo interior, em busca de uma vida mais tranquila e consciente. Determinar as coisas que são importantes para mim, permitindo que sejam elásticas e flexíveis, e vive-las.
Não é tão fácil assim, não é nenhum pouco fácil assim. Eu vejo a imagem do que não sou e que, a meu ver, mereceu amor, e eu ainda torço pelos defeitos ocultos que me elevem diante de sua falha. Mas eu não quero mais sentir isso então eu posso começar parando de alimentar.
Afinal, eu também li que pensamentos são como seres vivos: crescem quando alimentados, morrem de inanição, quando privados. A saída não é bloquear com placas imaginárias de “pare”, fazer estratégias mentais de fuga desesperada. Vou encher minha mente de reflexões mais sinceras e profundas sobre os motivos das coisas. Afinal, sim, eu penso demais, eu sempre pensei demais e sim, todo mundo já me disse isso.
E eu não vou mudar.
Eu não preciso mudar quem eu sou.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Intermezzo: sobre as coisas frágeis belas, e também as repulsivas (Ou: quando eu descobri que sou Linda)

As pessoas escutam meus conselhos. Elas os seguem.
Eu acho que não deveriam. Não com tamanha disciplina.
Eu sou uma viciada em coisas. Em álcool, passado e prazeres passageiros. E nós sabemos que não devemos, por princípio, escutar viciados.
Mas elas não sabem. Então elas seguem.
Elas se apoiam em algumas premissas básicas para fazê-lo: que eu sou sábia, sensata e bela.
Elas não estão erradas em suas percepções. Eu sou, de fato, capaz das maiores sensatezes. De empatia. A portadora da responsabilidade. Eu não as engano, não as desminto: eu sou essas coisas. Mas sou outras também, outras coisas. Sou o excesso, o impulso, o vício. A obsessão e repetição. Sou o caos ilógico, logo eu, que amo a lógica. Sou o intermezzo, se é que essa palavra existe em português. Mas eu sou.
Algumas pessoas sabem todas as coisas que eu sou, poucas pessoas. Como os homens com quem me relacionei. Eles me viram beber demais, falar demais, brigar e chorar demais. Depois beijar e intensificar, tudo. Todos os homens que me amaram disseram que eu os levava do céu ao inferno em um minuto.
Com todos eles, eu tive, em algum momento, o seguinte diálogo:
-Você tem que entender que eu não sou perfeita.
Ao que eles responderam:
-Eu sei bem disso.
O que me ofendeu profundamente.
A maior parte das pessoas acha que eu sou perfeita.
Eu recebo comentários de estranhos, semidesconhecidos: ela é bonita, inteligente e gentil. Como não é perfeita?
Esses homens, esses que não me achavam perfeita, hoje eu vejo que eles tinham inveja de mim.
É evidente que eu não sou perfeita, mas hoje eu vejo, eu vejo claramente: todos os homens que eu amei tiveram inveja de mim.
Parece prepotente, mas é simples assim.
Pequenas competições cotidianas. Cuidados diários com seu ego frágil e sua ausência de realizações. Camuflar meu próprio sucesso, minha própria beleza.
Os homens são assim: as coisas mais frágeis.
E todas as coisas, por óbvio, todas as pessoas - e isso eu tenho dito em repetição - são frágeis. Sendo eu um belo exemplo delas, tão frágil que sou cristalina.
Mas os homens são frágeis de um jeito diferente, eu procuro outras palavras em meu cérebro, mas o que me vem é: de um jeito patético.
Uma fragilidade com ego, que precisa da constante submissão do outro. A fragilidade que se apoia em violência. Minha empatia não alcança todo esse fracasso, toda essa ausência.
E assim eram eles: uma sequência de homens frágeis, meus mil anéis de prata: sempre alegando minha imperfeição, como uma vitoriosa descoberta.
-Então ela não é tão superior assim, tão adorável assim, ela não é perfeita. Então ela não é límpida.
Eu sempre percebi o exato momento: o misto de descoberta e vitória. Me tirar do meu altar, me descer de patamar. Descobrir meu erro e incoerência sempre foi para eles uma potência, nunca um motivo a mais para me amar.
Todos eles sempre se regozijaram em meus defeitos, o gozo que é a antítese da empatia. Sempre se elevaram diante meus erros, e preencheram minha tristeza com sua folia.
É por isso que me ver pelos olhos dos homens é um exercício perigoso: por trás de sua fragilidade, apatia.
Que engraçado.
Todas as mulheres que conhecem meus mais profundos defeitos - o vício, a raiva, a incoerência - nunca me disseram que eu não sou perfeita - ainda que eu não seja.
Nunca me disseram que eu não sou límpida.
Ao contrário.
Todas elas sempre me fizeram sentir-me linda.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Lembranças anônimas (I love it when feelings make me feel human again.)

Fechar os olhos e deixar que esses sons entrem, dançando, como antigos conhecidos, em minha mente.
Balancem meu coração. Marejem meus olhos.
A inocência daqueles sonhos, daqueles anos. Daqueles fulgazes encontros. Dos destruidores desencontros.
A sensação de sentir. De ter vontade. De embriagar-se de sensações.
Eu toco com os dedos da minha mente em cada uma daquelas recordações, alforriadas de suas circunstâncias.
Os sentimentos meus, tão meus. Criados e cultivados por minha mente gentil, pura e cheia de possibilidades.

Eu não sei se ainda existe
A chance de um retorno a esse ponto.
Duvidar seria talvez
Mais ingenuidade ainda do que tê-lo vivido.

Querer.
Querer mais.
Ter e, ainda assim, querer.
Misturar-se nas cores e texturas do mundo feito pelo encontro.
Onde realidade e projeção misturam-se sem limites
E a ausência de limites é só um detalhe.

São essas as formas de descrever
Aqueles sentimentos aos quais eu só tenho acesso
Através de lembranças anônimas.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Conversa de fim de linha

-Você sente saudade? É saudade este sentimento?
-O tempo passou e eu me tornei assim. Antiga e desperta. O suficiente para entender que não há do que sentir saudade. Para reconhecer a natureza das minhas criações. Ver minhas lembranças pelo que são: sublimes criações. Meus momentos de paixão, entrega, euforia: maravilhosa construção de fantasia. A unilateralidade inevitável das coisas.
Eu estou desperta o suficiente para não conseguir entrar na simulação. Para ver através das camadas, mesmo que eu ponha vendas em meus olhos.
Eu não posso ter saudade de coisas que eu mesma criei. Mas não carrego mais a ignorância necessária para continuar a criá-las. Eu juro, eu penso, eu tentei. Mas minhas fichas mágicas finalmente acabaram.
Há tranquilidade nessa descoberta. Pé no chão: é assim que é estar desperta.
Mas há algo parecido com vazio. Não é exatamente frio, apenas realização.

-O que você vai fazer agora, então? A vida inteira você se preencheu de coisas irreais. Deliciosas demais. Agora delas você não tem mais nem a lembrança.
-Eu não sei. Talvez, quem sabe, eu gere uma criança. Se esse mundo não fosse tão destinado ao fracasso, esse seria um futuro válido para meu cansaço. Eu não vou mais encontrar realidade em nada além de vida. E de vidas vazias, bom, eu já estou preenchida.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

If nothing stays forever, who laughs next?

Eu planejo a minha partida dessa cidade, dessa vida, de mim mesma.
Planejo silenciosamente e penso que 33 anos talvez seja uma boa idade para ressuscitar.
Eu vejo diante de mim um objetivo claro agora - Sei que chegou a hora. Vejo o destino para onde minha mente se direciona: É hora de ir embora.

Nessa cidade vivi todas as coisas que ela podia me oferecer. Os mesmos rostos que me fizeram sorrir são os mesmos que quero esquecer. Não tenho mais nenhuma intenção que me ligue às raízes desse sertão. Não tenho mais vergonha ou receio de fazer esta declaração.

Eu vou para um lugar onde posso ser estranha e desconhecida. Vou concretizar meus desejos de mistério, de brotar uma segunda vida. Vou em busca da minha personalidade verdadeira, da liberdade de estar sozinha. Vou embora. Não volto. Sorrio com a expectativa.

Vou viver uma vida nova, em que eu finalmente seja eu mesma. Não pretendo me reinventar, só me livrar do que me mantém presa. Não lamento a partida, não sinto nem a sombra da despedida. A menina que amava o passado - feita de histórias e nostalgia - fica para trás agora. Junto com meus ressentimentos, com as lembranças, e os lamentos. Tudo escorre com o passar das horas. Tudo deixo e vou embora.

Meus planos estão traçados. O futuro me energiza. Vivo como se aqui já fosse o passado. Contando os minutos para essa nova vida.

I'm gonna leave that city far behind and get a long, long way from there

Quando eu estou triste, não quero conversar com ninguém.
Eu ando triste esses dias. Não sei se é só cansaço.
Paro e me vejo perguntando se eu sou mesmo parecida com o que acham todas as pessoas que não me amaram.
Todas essas pessoas que, de algum modo, agora parecem ser felizes.

Se é verdade que eu não sou livre o suficiente, solta o suficiente. Perfeitamente misturada com a matéria vaporosa ao meu redor. Como um confete do ambiente. Um riso fácil.

Eu acho que, de fato, eu não sou assim.
Eu tenho uma sombra escura no coração, que me aperta por todas as dores vividas. Eu sinto ressentimento, rancor e até ódio. Por todas as vezes que não me protegi. Minhas fantasias são cenários obscuros e não reluzentes. E os momentos em que eu me sinto mais feliz - aquela felicidade plena e tranquila, como um líquido denso e delicioso - são quando estou sozinha.

Eu gostaria, de verdade, de me livrar de todo o ressentimento. De me libertar da ferida da não aceitação. De não me importar - faz tanto sentido racionalmente, por que não posso me sentir assim?
Gostaria de ignorar o fato de que as melhores coisas em mim já foram - e talvez não só uma vez - banalizadas ao limite do descarte.

Às vezes eu sinto que possuo coisas preciosas. Puras e misteriosas. Que em meu jeito, possuo uma beleza única e particular. Mas hoje simplesmente não é um desses dias. Talvez eu só esteja cansada.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Animais de pelúcia (Sobre homens que odeiam as mulheres)

Annie era ruiva, escocesa. Olhos castanhos, grandes, suaves e desejosos.
Era uma transeunte, flanando por banalidades em busca do que lhe preenchesse.
Buscava algo que lhe calasse o vazio. Procurava nos lugares mais obscuros, nos olhos mais frios, em braços inseguros. - Até que o viu.
Mr. K.
Com seus olhos azuis, falou a melodia da necessidade e angústia. Notas doces derramavam de seus lábios cor de fúcsia.
Falava em seu ouvido, e de repente, lhe parecia ser o abrigo que respondia à sua busca.
Enchia o buraco no estômago de Annie com espuma.
Mais e mais espuma.

De longe, eu observo, como quem conhece o roteiro antigo.
Murmuro uma antiga balada, a memória de uma canção triste.
Sobre a morte de um sentimento, sobre a perda da inocência.
De cima desses prédios, sob a noite iluminada pelas luzes amarelas. Sob a geada cortante, o som de gemidos e alegrias vazias.
Sob o tom de mistério, que de novo não tem nada.

Observo quase triste os olhos de Annie derretidos em chocolate.
A essa altura, já parecia uma pelúcia estufada. A expressão de Mr. K, sentimento algum entregava. De seus lábios experientes, toda palavra é calculada.

Em dias de suor, prazer e cor. Cada momento arma o cenário, para o início de uma nova dor.
Quando o cerco está feito, o plantio realizado.
É hora de Mr. K, regozijar-se de seu prato.
A remoção estratégica: Linguagem, presença, afeto.
Retiradas mais que cirúrgicas, só não esperava deixar um feto.
Quando soube da novidade, sua máscara já desgastada... Partiu-se em mil pedaços. Ao Mr. K que conhecera, já em nada se assemelhava...

Onde estavam os olhos azuis ternos? A mão macia que lhe tocara? As palavras, juras, promessas? O ideal que se realizava?
Annie não podia crer, quando sua barriga ele cortava, e arrancava cada uma das espumas, que em seu vazio lhe estufara.

A retirada já não era estratégica. Tornara-se fria e implacável. Nada ficaria sobrando em Annie, que atestasse aquele laço.
Agora ele lhe negava três vezes: Sequer seu nome ele ratificava.
Para ele, era só mais um urso de pelúcia, cuja espuma ele emprestara.
Com quem brincara de teatro: Marido e mulher, fantasiara.
Até tornar-se muito real: era hora de bater em retirada.

Todo o desenrolar tão previsível. Me fizera quase verter uma lágrima. Enquanto via os fios de Annie, de um fogo vivo tornarem-se lava.
Seus olhos castanhos vivos, perderem a chama e derramarem...
Gotas de amargor vazio, sobre a nova vida que ela gerava.

Ao passo que do outro lado, a muralha de gelo se perpetuava.
E Mr. K oferecia
Mais um punhado de espuma
Para uma nova desavisada.

sábado, 7 de junho de 2025

These things you want. They are so empty. You are so empty. You don't even look like a real person.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Overlay

You have thick hair
And a wicked mind
I couldn't grasp who you was back then
When you seemed so kind.

Your overlays scary me then
Time over time
I couldn't face you, couldn't fake you, are you
one of a kind?

You looked like an angel when you smile
I now find pleasure in getting lost in your lies
Couldn't understand when you looked at me
Humor in your eyes

Thought you could pass as just insecure
Thought you were true, thought you were pure
Now that i know i mistaken you at all
I adore you.

Now i see a glimpse of your true self
Playing your games, doing your ways
Now that i see you have all the control
I can't let you go

Think about you when i try to sleep
When i seek some rest
Retracing every mistake i did
As if i could change it

I try to solve you like a puzzle
As if i could use you
I wish i could take hold of you but i like it
I love the unusual

You became a ghost in my mind
A welcomed nightmare
I can't look at any other glance right now
Without seing you stare

On the other side you remained unbothered
Cold and adored
I wish i could mess up with your mind
As you did with mine
But i just want you more.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Ode à rainha

Lendo sem muitas surpresas aquele livro antigo, eu percebo que me tornei uma versão aprimorada do que eu idealizei. Decadente e virtuosa, em medidas perfeitamente proporcionais o suficiente para garantir a admiração e a ironia da situação. Sim, é verdade. Eu estou agora vivendo meu auge. Eu consigo sentir em meu rosto, agora tão mais macio, a gentileza do elogio. A admiração que desperto, os sorrisos de imerecido afeto. O reconhecimento desperto. Eu consigo sentir tudo isso de perto. Me sentir bonita é inevitável quando os olhos abrem-se assim e as palavras jorram como rios sem um escoamento. De outro lado, o riso interno. A verdade conhecida por poucos. Que sou uma low-key alcóolotra, sleep-deprived workaholic, uma junkie. Que gosto de coisas estranhas, tenho um humor estranho, adoro pessoas estranhas. E tudo isso distancia os dois mundos, tornando ambos banais. Meramente instrumentais. Me distancio e saio. Muto e mudo, vou de um a outro, a meu bel prazer. E nos dois chego portando segredos, desfrutando dos meus disfarces. A rainha dos meus mundos. É nesse ponto que estamos, eu não sinto nada, que não esteja em meu poder.

domingo, 18 de maio de 2025

What do they know, anyway, you read it in a book. (Fox in the snow)

Música, solidão, álcool. Um gole de sentimento genuíno, dança, sorrisos estranhos, sombrios, solitários. Eu me sinto eu mesma assim, eu volto pra casa dentro de mim. Eu fecho os olhos, sorrio, lembro de sensações, choro. Sinto. Lembro de como é sentir pela primeira vez. Entre melancolia e alívio, sei que nunca mais terei aquelas novas antigas sensações. Tenho outras, porém. Confiança, solidez. Uma genuína e gentil apreciação pela síntese de tudo o que me aconteceu. Extrair o belo da dor, extrair a ternura da dor. Extrair da dor - que tanto me corroeu e agora é uma lembrança. Extrair da inocência e da ingenuidade a delícia das primeiras e segundas sensações. Ser transportada para lá e por um momento me sentir livre e louca e eu. Sem observadores. Sem uma câmera, uma companhia, uma validação. Apenas eu e essa sensação que me escorre pelos cabelos, pelos pelos, pelos sentidos. Essa sensação de eu, e que eu gosto. Eu gosto. Eu acho que posso estar começando a me amar.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

You want me to transgress when I’m on my Sunday best

Adoras meu pescoço fino
Tão fino
Frágil
Uma quebradiça de distância de teu desatino
Corromper esse corpo limpo
Tão limpo
Pálido e perfeito, “feito artesanalmente”. Tão sutil e raro. Tão pálido. Todas as fantasias de seu imaginário.
Você quer minha submissão. A fantasia máxima: uma mulher poderosa em adoração.
Cabeça empurrada contra a cama, devoção.
Tudo o que é necessário para um ego frágil em construção.
Eu lido bem com tudo isso.
Chamo pequenas encenações de compromisso.
Amo fazer-te querer, necessitar, o enlaço promíscuo
Resultado finalístico de nossas obsessões.
Eu me sinto vazia enquanto faço isso.
Enquanto preencho teu querer promíscuo.
E me confundo com o que finjo, arrisco
Satisfazer tuas criações.
Eu me confundo com teu martírio
Minha força se torna um querer submisso
Me submeto pelo bem de tuas idealizações.
Eu vou além, um pouco mais disso. Mordo meu lábio, o sangue é arisco. Vou mais e mais, busco a última das retaliações.
Enquanto tu desejas, eu raciocínio. Minha oferenda, teu desatino. Te dou em doses calculadas o que tu chama de emoções.
Nada é real, tudo é preciso. O que eu entrego é o que necessito. Para ser desejada te construo castelos de ilusões;
Nada é real, tudo é um grito. De desespero, carinho omisso. O que tu procuras é tua própria aceitação.
Minha submissão: um prêmio raro. Em minhas mãos, o poder do não.
O administro com pouco talento.
Quero vencer, é verdade, eu tento.
Mas sou tão frágil quanto você: cheia de limitações.
Um homem tão patético e lento. Autoestima aos frangalhos, a vida um lamento. Infância e ressentimento: uma personalidade vazia, preenchida de distrações. Seu sonho é dominar algo poderoso, através da fome e de seu dorso, domar a força e se tornar algo digno de admiração. Eu, do meu lado, tenho tudo: a faca, o queijo e o escudo. Mas também tenho meu absurdo: com tanto poder, minha fragilidade cheia de hesitação.
Não consigo dominar o seu impulso. Ainda, mas sei o método. Aguarde silenciosamente e quieto. Vou devorar suas intenções.

sábado, 5 de abril de 2025

Brilho eterno de uma mente sem lembranças - A consumação

Silêncio. Um zumbido no ouvido e uma imagem imprecisa na mente. De repente, tudo é vácuo. Muito, muito tempo atrás... Uma risada alta... Ou seria um choro?
-O que você está pensando?
Corta para a realidade. Ela pisca duas vezes e dá um sorriso frouxo, levemente confuso.
-Nada não, estava lembrando de algo.
Repete o sorriso e continua a focar na estrada, sob o olhar desconfiado de sua companhia.
Era uma mentira parcial. Não estava lembrando bem de nada ultimamente.
Algumas coisas estavam acontecendo com a sua memória nos últimos anos. Não sabia distinguir realidade de sonhos às vezes.
Principalmente quando bebia e dormia em seguida. E outras coisas... Bom, outras coisas estavam sumindo.
A memória, que sempre foi sua aliada e opositora, começava a apresentar seus primeiros sinais de declínio.
Sentia a clareza das cenas diluindo-se na confusão e na dúvida. Será que foi naquele lugar? Será que foi aquela pessoa?
Era confuso, porque as memórias sempre vieram carregadas de sensações. Tudo encerrara-se no presente, mas o passado guardava aqueles tesouros da mente: as sensações. Era onde ela passeava às vezes, revisitando os túmulos de sentimentos que seu eu atual já não era capaz de sentir. Mas cuja sensação lembrava, devido ao passado.
Se estreitasse bem os olhos, se os fechasse. Se fizesse um esforço, se estivesse silêncio, as imagens voltavam. Voltava o suave raio solar refletido no olhar castanho de alguém que um dia amou. Voltava a sensação de euforia e aventura de correr por ruas noturnas e desconhecidas com um empolgante estranho. Voltava um dia nublado, em que o cheiro de alguém se tornava inesquecível e o ambiente parecia perder todo o ar. Voltava o rebuliço no estômago e a visão turva do exato momento de apaixonar-se. Voltava uma risada alta em frente ao rio, ao lado da companhia de uma amiga, que hoje lhe era uma estranha. Ou fechar os olhos e sentir o calor do sol, fazendo padrões imprecisos através de suas pálpebras fechadas, enquanto sentia o frio do chão na casa de um parente que já partiu. As sensações novas, as fortes, as inesperadas e envolventes. E aquelas não tão novas, mas persistentes, aquelas que lhe faziam se sentir gente. Aquelas que tinha cada vez menos. Essas coisas simples, sagradas e misteriosas que só atingem uma parte da vida, essas coisas estavam guardadas em pedaços de passado, que cada vez eram mais raros.
Através dessas janelas, ela visitava seu eu antigo. Sua inocência, sua energia, sua disposição para o amor. E como amara, se aventurara, como sentira intensamente cada momento de alegria e desespero. Como sofrera, se despedaçara, sentira a dor e a frustração apoderarem-se de suas veias, fazendo caminhos líquidos dentro de seu corpo, fundindo-se ao seu sangue e coagulando sua vontade de viver. Sentira tudo e do seu próprio jeito, sempre mais.
Até que, sem o menor aviso, passou a sentir menos.
Cada vez mais esforço para recobrar aquela disposição ao sentimento. Cada vez os olhos se estreitam mais para lembrar. Em especial, para sentir. Os cenários belos, oníricos e objetivamente estimulantes agora não lhe inspiravam mais. Precisava aguçar todos os sentidos para que seu olfato resgatasse o cheiro de uma sensação. Suas mãos, menos macias, faziam uma maior pressão para que o toque as sensibilizasse.
Seria novamente a ilusão da indiferença? Aquela potente arma contra a mágoa?
Ou será que...
Será que agora era verdade?

domingo, 16 de março de 2025

Autoimagem

Miriam estava impressionada. Fascinada até. Miriam estava encantada.
Surpresa, pega de improviso.
Não, ela não estava inerte. Muito menos entediada.
Miriam nunca foi boa nisso.

Visitando aquele museu de grandes e pequenas declamações.
Sentimentos derramados, mais palavras que ações.
Era impressionante reconhecer-se nas delicadas e inocentes confissões.
Não foi ontem nem semana passada.
Aquele sentimento cru e familiar foi talhado pela sua versão que pensara superada.

O que podia concluir, era que sempre fora exatamente a mesma:
Sonhando com uma frieza da qual nunca foi capaz, tentativas de fugir de sua fragilidade, coração na carne viva, medo e necessidade.
Explosão e ousadia.
Desespero por alguma magia.
Vontade e sinceridade.
Tantas coisas entregues de graça.
É verdade, o mundo era cruel. Mas isso ela já esperava.
Não imaginava que se machucaria tanto, mas alguma turbulência já esperava.

O que mudou, pensava? No que cresceu?
Talvez reconhecer sua própria fragilidade seja o mais revolucionário que lhe aconteceu.
Não era fria nem indiferente.
Não sabia tratar mal nenhuma gente.
Nem mesmo aquelas que mereciam.

Em sua fantasia, era a mulher de unhas longas e lábios vermelhos.
Pele de cristal, gélida e brutal.
Fazendo coisas só pela diversão.
E sentia. É verdade, reconhecia a euforia.
A fluidez do poder que atravessava seus nervos, em cada momento de lucidez.

Sentia-se potente, às vezes.
Quando lhe passava a correta corrente.
Sentia eletricidade e vontade.
Quando encontrava a perfeita liberdade.
Mas isso não era sempre, era quase uma realidade.
Quando alguém lhe prendia a mente, nas rédeas de sua fragilidade: tudo voltava a ser doente, a lhe causar ansiedade.
Obsessão e ciclos repetitivos.
Dificuldade de ser seu próprio abrigo.
Limites turvos, imprecisos.
Eram seu maior desafio, mas não eram seu destino.

Vinha lutando e mudando, muito pouco lentamente.
Mas agora os via e tocava, sabia de sua natureza de gente que sente.
Miriam estava impressionada.
Tão pouco mudara daquela menina.
Tanto vivera, tão forte sentira.
Será que ainda tinha muito a lhe surpreender assim na vida?
Miriam estava, de fato, impressionada.
Por mais que quisesse, ela nunca sabia ser entediada.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Chove na selva de luzes amarelas

-Você acha que as pessoas não mudam?
Eu perguntei.
Dei outro gole.
Observei.
Seus olhos afiaram-se como navalhas.
Azul vivo, dois raios rasgados.
-Não, as pessoas não mudam jamais.
Dei uma risada.
Estava tarde e eu cansada
Mas por que não prolongar um pouco mais?
Era de toda forma, um conto impossível,
Um romance noturno na cidade de luzes
Com um homem desprezível.
Mas quando foi que o impulso perdeu uma luta
Nesse meu coração invencível?
Eu sempre quero provar mais da fruta
Até minha língua sentir o amargo previsível.

Estava chovendo na cidade das luzes,
Onde toda noite é um fascinante mistério
Agora estou bem longe dessas ruas,
Na selva urbana onde o calor impera.
Não tenho mais nem tantas lembranças
Nem a sensação de amor.
Mas meus dedos lembram das frases
Proclamadas por meu opositor.

Olho uma lembrança de um passado recente
Há apenas poucos meses eu jurava
Que minha essência tornara-se diferente
A dor e a mágoa me enganavam
Me fazendo tornar-me uma descrente
Na inocência que o impulso provocara
Em toda minha vida, uma elétrica corrente.
Por um momento, me acreditei mudada.

Eu acreditei ter ficado fria
Achei ter perdido minha centelha
Que a ingenuidade se apagara
E minha visão se tornara certeira.
Tão racional como uma água,
Mais uma vez eu recriava
Toda uma nova forma de inocência.

É verdade, olhos rasgados
Eu ainda sou exatamente a mesma.
As ondas de mágoa não me mudaram
No máximo trouxeram experiência.
Se ela se será desperdiçada
Ou se tornará uma ferramenta
Vou deixar para o futuro
Se uma coisa aprendi
É não cravar certezas assim
Nem tentar prever as cartas
Ou confiar tanto em mim.

The Longing

Long eager arms
Aiming something unknown
A companionship without a face
A breath before the sea
An anccient taste.

I still gather in me
All the little shiny pieces
The untouched material
Desired and amazed.

Do i still long for something, do i ask
And my own answer is a loud Yes
I long for the feelings to be felt
In the most natural way
I long for the unexpected
In a regular sunny day
I long for feeling the thrill
And peace i don't need to chase
I long for resting with a smile
That comes naturally to my face.

I still have so many dreams
Even if i can't properly name them
But i feel it in my bones the chill
Of still wanting them to take me
To take me to somewhere new
When i can once again be a stranger
Explore the unexpected hills
Falling in love all over again.

I want to fall in love for every second
That time can still gently provide me
And be in awe with the unexpected
That gently visit me in this life.

terça-feira, 4 de março de 2025

Epitáfio de um amor doente

Eu preciso exorcizar a herança dos seus olhos azuis.
Sorrateiros, escorregadios, um breu onde não nasce luz.
Cheios de mentiras, lembranças ferinas, manchas vazias.
Eu preciso regurgitar toda a falta de lógica
De ainda pensar, obsessionar, com a mais oca das histórias.

Não sei o que é essa corrente, que ainda prende minha mente
Que ao fechar meus olhos, me faz sentir doente.
Consome minha memória, segura meus pensamentos.
Não me dá trégua nenhuma hora, insiste por fechamento.
Engole minha razão, me deixa sem resposta alguma
Não sei que magia lançou, mas a destruo até segunda.

Me livrei de todos os estímulos, já não vejo mais o seu rosto.
Não te olho mais nas redes, resisto a toda fonte de desgosto.
Mas minha memória me sabota, com generosidade de detalhes.
Seus olhos inexpressivos, o gosto de sua pele me arde.
Sua voz no prazer, seu gemido no meu ouvido.
Não consigo ainda esquecer. Eu tento, eu forço, mas não consigo.

Você é o maior dos inconsistentes.
Não há nada que me puxe em sua personalidade.
Seu caráter um lixo, sua mente tão doente. Nem nas mentiras tem criatividade.
Seu gosto é duvidoso, tudo que escolhe, meu exato desgosto.
Em você encontro reunidas todas as coisas que eu detesto,
E que me atraem como uma cintila, a versão de mim em que não presto.

Que me deixou te humilhar sem culpa. Jogar na sua cara sua incompetência.
E depois te ver rastejar dizendo que me ama. Me regozijar na sua incoerência.
Me atraio pelo seu esgoto, onde por um momento me misturo relaxada.
Mas depois sinto a ressaca pesar, sinto nojo. Preciso te expulsar da minha sala.

Para você dei coisas boas e também te enchi de loucuras ruins.
Debochei, te expulsei, te pisei. Depois te enforquei, dizendo que você era só para mim.
Seus olhos brilhavam diante da loucura, repetia como um boneco o que eu ordenava.
Por dentro, estava tudo estragado. Você é oposto do que é saudável.
Você talvez seja a última prova: a mistura de todos meus instintos doentes.
Com você vivi cada um deles, agora é hora de te exorcizar da minha mente.
Me despeço desse conto final, a última das minhas tentativas de autodestruição.
Com você vai minha atração pelo mal, minha tendência de ir sempre na contramão.

Na sua cova enterro tudo do que eu abdico:
A posse, a obsessão, a atração pelo doentio.
O riso seco, a mentira dupla, a vontade de dominar e destruir.
Nessa longa despedida, pego tudo que tenho de adoecido, e depois de ter vivido,
Finalmente deixo ir.
Com você, expulso a distância entre o que vivo
E vida que quero viver, com a paz que eu preciso
E o amor puro que sonho em ter.
Junto contigo, me despeço do resultado de todas as minhas feridas.
Causadas pelos traumas de abandono, pelo medo de ser esquecida.
Junto com você, olhos azuis vazios, abandono o vício por você e pela dor
E começo, então, uma nova vida.

Idiota raiz

Me surpreendo com sua notificação na minha tela
Numa noite em que de você mal me lembrei
Seu nome esquisito me pega de assalto
Quase esqueço o quanto por isso esperei.

Você diz que sente minha falta, pensa em mim o tempo todo.
Todas as coisas que eu queria ouvir enquanto rastejava no seu esgoto
Quando te pedia um pouco mais de carinho. "Dorme comigo essa noite, por gentileza."
A noite sempre foi o prenúncio da sua mais inesperada frieza.

E pra você, ouvidos mudos, o acordo não era esse.
O que está ao seu alcance nunca te despertou interesse.
Agora lembra de mim, um fantasma na sua mente.
Não consegue nem dormir, não importa o quanto tente.

As coisas que tínhamos juntos
Por si só tão interessantes
Desabafos estranhos e profundos,
Nossa vocação para amantes.
Só agora parece perceber
Que é tudo o que você sempre quis
Pena que é viciado em perder
Um completo idiota raiz.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

De repente não é mais tão divertido brincar de sofrer

Eu gosto do seu desprezo previsível
De como, do pedestal de sua mediocridade
Me faz sentir invisível.
Eu gosto do amargo do gosto
Do reciclado e cansado desgosto
Gosto, tento, digo que gosto
Mas quando percebo, surpresa, eu choro.

É verdade que eu sou insignificante?
Os dias passaram, o passado num instante.
Sou pouco mais que a poeira nos seus dias
Um fantasma esquecido em sua cidade fria
Sou uma coceira incômoda, não chego a um pensamento
Sou o ensaio de um lamento, nada que ocupe o seu tempo.

Você achar que eu te desprezo não é mais um consolo
Quando a resposta é seu prometido silêncio
Imploro que não fale, mas espero pelo seu rosto
Cada maldição que te lancei, o oposto de um sentimento.

Me pergunto como seu corpo treme
Quando com outra mulher sente prazer
Quero esmagar essa parte da minha mente
Que me faz refém do que quero esquecer

Tento me anestesiar com músicas, com torpeza
Quero esquecer todo resquício de beleza
Preciso me livrar da sequela do seu toque
Antes que isso vire saudade
Que me mate
Ou no mínimo
Que me sufoque.

Suffocated by emptiness

The last time we talked was Valentine's day
He went "It's such a shame we have to say goodbye this way."
So many things are such a shame, i wanted to say.
But i Just stood silent.
Solemn and controlled silence.
He said he would miss me, he would miss me a lot.
I miss only the days i thought he really did adore.
He has sly eyes. Slippery mind
I couldn't put up with any more of his lies
Feeling so tired all the fucking time.

If only i could rest
If you could just reset.
We could start over something new.
But even though he couldnt fight the lure
Not even once had he been truly real.

"This is the last time i'll talk to you", he promised
And i hoped he could this time keep It
How long will take me to cure this? I wondered
Maybe too long, maybe just a weekend.

How long till i give up the longing
And the each time blurrier memories dissapear
I Just wish you don't touch your phone
When It's again that time of the year.

I get drunk messages "i miss you"
From a random almost stranger
Everything i've ever wanted
Have always left me empty handed
Everytime i long for something
So hardly my longing could almost cry
I got that just for a moment
Then It ate me up and sucked me dry.

Yeah its true i'm so adored
Don't wanna play anymore with these men, so plain
Couldnt help but feeling bored
Don't wanna their lips on my feet, their dull complains
Game is not so much fun for me anymore
Guess it can be distressfull to be adored
When all things i want, i stubbornly wish for:
Sly blue eyes. Vícious smile
Desired empty prize
I can't obtain.

Feelings can creep in Just like that (a Junkie of the heart)

O que falar sobre ela?
É viciada em amar
Em jogar tudo pela janela Ou se jogar em alto mar
Em abandonar todas as rédeas
Em arriscar mais uma vez

Que beleza
Outro desfecho trágico sobre a mesa
Material para desabafo
De amor tosco enfadado
Choro de criança, abraço apertado
Sentimento ilhado
Morto-vivo, desperdiçado

Ela nunca colocou suas emoções no lugar certo
Sempre escolhendo os alvos mais controversos
E querendo por perto
Pedindo carinho
Um toque, um ninho
Todas as coisas que prometeu abandonar
Mas ela é, de fato, viciada em amar.

Ensaiando em sua mente adolescente mil declarações de amor
Desejando ardentemente a entrega que ninguém deu
Mas se perguntar se ela se arrepende
Um sorriso maroto surge
Um viciado nunca se desilude
E de amor ninguém nunca morreu.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Você fica me jogando fora como um pedaço de pano sujo

Eu tentei te deixar três vezes.
Fala de voz mansa. Estratégia tosca. Anos de experiência.
Fiz a tranquila, a sarcástica, a definitiva. Te dispensei como se não fosse nada
Tentei
Te remover da minha antessala.
Mas você com inesperada habilidade me dobrou
Me confundiu com sua voz suave, me iludiu com esse odor
Cítrico, macio e abraçável, me fez colar no seu braço e abraçar seu cachecol.
Não sei como fez, como logrou.
Me dissuadiu, vez por vez, diluindo meu fervor.
Eu tentei te deixar, tentei ser cruel, tentei ser má.
Você não se abala, porém. Mantém a postura tranquila, os olhos transparentes, fez de refém minha mente.
Ainda não consegui te deixar, mas você sabe, e eu também, que de novo vou tentar.

Pela quarta vez quis te deixar e você não deixou.
Te fiz sentir um pedaço de pano sujo - você me disse - e de nada adiantou.
Falei da lógica, da ausência, da falta, da raiva, falei de tudo
E no final, a seus olhos tranquilos, do que adiantou? De nada
Começo falando que nunca mais te vejo
Termino te ouvindo me chamar de namorada.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

I sure like the feeling of an endless road

A questão do sono sempre foi problemática para mim...

-Você não consegue mais distinguir? O que foi real ou não?

Tudo soa real para mim. Eu lembro de tudo e sinto tudo. - Olhos arregalados. -Eu fui construído pelas coisas que aconteceram em todos esses momentos, mesmo os que não aconteceram.


Eu não consigo lembrar...

-Você pode transformar uma lembrança em um sonho? Pegue-a com a sua mão, amasse-a. Ela só existe na sua mente, de repente não existe mais. Você pode torcer a realidade assim, revertendo a gravidade. Segurando o vento, pressionando sua força. Você pode inverter o tempo, você pode refazer todas as coisas.

Isso parece loucura. Parece o roteiro para enlouquecer.

Riso surpreso. Você acha que isso é algo que... ainda vai acontecer?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Transbordando de sentimentos (That's the kind of love i've been dreaming of)

Mais uma vez eu vou embora
Depois de plantar outro horizonte de memórias.
Vou embora depois de gargalhadas altas, de correr na chuva, de criar um pequeno lar, de experimentar ser tua.
Vou embora depois de brigar e te botar pra fora, de te sentir me empurrar contra a porta, de desejo e vontade, de ficar bem à vontade, de esquecer que eu vou embora.
Depois de beijos no elevador, de passeios em roda gigante. Depois de ficar bêbada e boba, de pegar briga e chorar num rompante.
Vou depois de aprender suas cicatrizes, de me acostumar com a textura dos seus cabelos, de cheirar seu pescoço mil vezes, de ansiar pelos seus zelos.
Vou embora, não volto. Finjo que sim, e que não te adoro.
Vou depois de ter te mentido, de ter partido, de ter voltado e te enlouquecido. De te deixar triste, sedento, com o dedo em riste, ciumento.
Depois de segurar tua mão enquanto passeamos, de ser pega de surpresa por teus beijos, de sentir teu toque na minha coxa, de ficar toda roxa, de carícias e de amor.
Vou embora depois de te amaldiçoar. De dizer que você nunca mais ia me tocar. E depois implorar de saudades para que um sussurro te chamasse. De sentir o coração acelerar de ansiedade, as mãos tremerem de ciúmes, de ficar louca e livre e, sobretudo, tua.
Vou e levo um turbilhão, não sei se cabe em meu coração. Vou embora com uma pequena vida vivida, que muito em breve será esquecida. Vou embora e você nem sabe.
A dor de quem fica ainda é desconhecida
Estou vivendo a de quem parte.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

It's all over now baby blue

Vejo o detalhe
A sutileza da ondulação
Que transforma o interesse em descaso
A fome em desatenção
A vontade de causar redemoinhos
Na mais pura apatia.
Quando tudo o que me interessa é conquistar e destruir
E o conteúdo não me traz euforia
Sintoma claro de minha conquista vazia.

Olhando bem nos seus olhos transparentes
Não há muito o que me provoque curiosidade.
Seus tecidos mais primários, que te fazem gente
São da mais básica qualidade.
Outrora me faria empolgar o exame em si:
Saber e decifrar tudo, degustar sua verdade.
Mas que verdade é? Sua perspectiva ignorante enfim
O faz andar em círculos assim, tateando com ansiedade.

Pode até ter curiosidade por mim.
Aperta bem esses seus olhos azuis, enrola a língua assim.
Tenta num esforço tolo falar um pouco do meu português.
Mas sua mente não alcança nada mais uma vez
Serei eu a te ensinar e pegar na sua mão?
Te olhar tão encantada, por querer saber quem eu sou?

I don't think so.
Meus neurônios queimaram para todo o esforço com o gênero oposto.
Não vou te dar esse gosto, de agir fora do meu próprio prazer.
E até te ver revirar o olho assim, se retorcer por mim
Vai perdendo o sentido, se minha vaidade não depende mais de você.
Os elos que nos ligavam: interesse, desafio e acaso
Vão perdendo a força e o laço
Começa a se desfazer.
É assim
Que vejo outra paixão morrer.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Quem sou eu em 2025

O que me faz feliz

Liberdade. Sentir controle sobre minha mente e reações. Me aventurar no desconhecido, mas com racionalidade e cautela. Me sentir vazia de expectativas, mas cheia de curiosidade. Me divertir. Achar tudo divertido por não levar nada muito a sério. Sentir o sabor do céu, do ar, do frio, da música, da minha própria companhia. Me orgulhar do rumo dos meus pensamentos e das minhas ações. Reagir na medida do que acho certo e cabível. Controlar minhas reações. Compartilhar bons momentos com quem amo, mas reservando a minha parte, só minha. Ter limites e fronteiras entre mim e o outro. Conseguir transitar bem entre trazer felicidade ao outro e respeitar a mim mesma, meu espaço e tempo, minha individualidade. Apreciar minha individualidade. Sorrir comigo mesma. Sentir prazer longe do olhar do outro. Ter ideias, boas ideias. Liberdade com ocasional companhia. A sensação de ser amada. A sensação de ser eu mesma. Sentir-me eu mesma: identificar em minhas falas e ações coerência com meus pensamentos. Falar em voz alta: sentir-me estranha, ácida, tranquila e cética. Identificar quem eu sou, verdadeiramente, livre de mudar a mim mesma para me adequar ao outro, e sê-lo. Apenas ser.

O que me faz triste

Sentir pressão. Me sentir injustiçada, incompreendida, manipulada. Me sentir tolhida, com medo, com necessidade de me justificar. Precisar atender carências alheias desproporcionais às situações. Precisar me frear de ações minhas por questões do outro. Sentir culpa, mesmo sem ter ferido o outro. Sentir culpa devido às feridas e dores que vem internamento do outro. Sentir a expectativa pela atenção ser frustrada. Me sentir rejeitada, descartável, invisível. Querer, querer e não tatear o que quero. Sentir o desprezo do outro e também a necessidade exacerbada do outro sobre mim. Sentir essas dores e querer compartilhar mas não ter quem me escute e em quem eu possa confiar. Tentar me adaptar para ser querida, vista, amada. Modular falas, ações, pensamentos. Ver a mim mesma primeiro através dos olhos do outro e em segundo plano dos meus. Priorizar a opinião externa sobre meu próprio ser. Me perder. Esquecer quem eu sou, do que gosto, como me movo pelo mundo. Depender da visão do outro para me sentir bem. Esperar aprovação. Não encontrar solidez e firmeza em mim mesma.

I wanna fucking tear you apart

Não há conexão.
Não com um homem.
Expectativa inútil.
Criada. Performada. Inexata. Mentirosa.
Que estratégia mais perigosa.
Nos levando a decisões sérias, inegociáveis.
Jogando no abismo da estratégia, voluntárias mártires.

Agora eu tenho o mindset correto, eu descobri o mistério.
É madrugada, o gosto na minha língua é aventura e descoberta.
Tudo é uma brincadeira, tudo é temporário.
Tudo é vontade, nada é saudade.
Quero diversão, quero reação. Quero ver você passando mal na minha mão.
Quero engolir suas restrições, acariciar seus medos.
Quero satisfazer cada um dos meus desejos.
Vendo nos seus olhos brilhantes o apelo.
Quero te ver implorar por mais, quero ver suas feridas patéticas de homem, pedindo guarida.
Quero jogar a mais ácida das aguardentes.
Nada é sua culpa, é verdade, é uma estrutura.
Num universo ideal, você teria tratamento e sutura.
Mas não estamos nele, como atestam meus anos de vida.
Agora eu entendi, eu entrei, eu decidi
Comigo você terá prazer, terá loucura.
Mas no final do jogo,
O gosto
Será da mais delicada tortura.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Fora da caverna (Training season is over)

Eu adoro ver seu nome
Estampado na minha parede de notificações.
Adoro causar ondas em seu cinismo seco
Adoro suas reações.
Quero decifrar, dedilhar e exterminar
Cada uma de suas contradições.

Seus olhos azuis, doce fonte de vazio mistério
Sua boca hesitante, seu passado, seu império.
Tantos muros a derrubar.
Quero me refestelar com os destroços.
E anunciar a criação de um novo lar.
Um que seus olhos jamais irão vislumbrar.

Adoro o equilíbrio perfeito
Entre querer tanto o que eu realmente não quero.
Adoro minha fome, minha ilusão, meu sorriso.
Minha adoração, tanta emoção nesse querer misto.
Frio, caloroso, ambíguo, insincero.

Quero esse querer, esta força, esta energia.
Mesmo sabendo a natureza do fruto, entendendo
É verdade, agora eu entendo tudo.
Mesmo sabendo que na verdade o tudo é nada
Eu quero destrinchá-lo
Vilipendiá-lo
Da forma mais imediata.

Ah, o meu objeto.
Ele é tão simplório.
É difícil até de travesti-lo
Com a aquarela do meu ócio.
Mas eu tento, eu remendo, eu preciso
Extrair dessa história mais um suspiro.

Eu quero ver sua boca arquejar
Quero vê-lo perder o ar.
Odiar, implorar.
Querer viver, amar e matar.
Quero provocar as sensações
Tão distantes do que eu sinto.
Eu sinto,
Não sinto,
Eu minto.
Você, a meus olhos, é só um menino.
Tudo isso é a busca por um estímulo.

Algo que não foi perdido, não, eu estava enganada.
Nada me foi levado, retirado, tudo foi *criado*.
Criações minhas, procedimento sofisticado.
Quimeras incríveis, o melhor que posso produzir, obras primas inegáveis. É difícil decifrar.

Não é decepcionante descobrir, não, agora eu posso sorrir.
Todas as coisas belas e as dolorosas também,
A cor do sol, o brilho nos olhos, as cores do amor, e além
Todas invenções da minha imaginação
Minha mente capaz de tanto sentimento
E de tanta criação.

Sentir sem um interlocutor
Minha peça de um só ator
Agora eu posso entender o profundo fruto
De toda aquela dor.
Buscando o fim da corda, invisível
Uma expectativa impossível
Tatear no escuro pelo intangível, chega.
Se havia alguma explicação, eu sei
Agora eu sei
O gosto da libertação.

O gosto é doce a arisco
É gosto de sangue, de flores, de risco.
É gosto de riso à meia noite
Brincar com a dor e a sorte
Amor e morte.
Como meus mais antigos amigos.
Eu preciso lembrar dessa descoberta, dessa verdade
Lembrar do poder nas minhas mãos, revertendo a gravidade
Sabor doce e solitário
Inegável esquadro do quarto ato
Minha liberdade.

Agora vamos nos refestelar.
A mesa está posta, o cardápio foi anunciado.
Só me falta preparar. Olhos ardentes, faca e garfo.
É hora de começar.
A partir de agora uma nova era,
Mais lúcida, mais sincera,
Está prestes a começar.