Silêncio. Um zumbido no ouvido e uma imagem imprecisa na mente. De repente, tudo é vácuo. Muito, muito tempo atrás... Uma risada alta... Ou seria um choro?
-O que você está pensando?
Corta para a realidade. Ela pisca duas vezes e dá um sorriso frouxo, levemente confuso.
-Nada não, estava lembrando de algo.
Repete o sorriso e continua a focar na estrada, sob o olhar desconfiado de sua companhia.
Era uma mentira parcial. Não estava lembrando bem de nada ultimamente.
Algumas coisas estavam acontecendo com a sua memória nos últimos anos. Não sabia distinguir realidade de sonhos às vezes.
Principalmente quando bebia e dormia em seguida. E outras coisas... Bom, outras coisas estavam sumindo.
A memória, que sempre foi sua aliada e opositora, começava a apresentar seus primeiros sinais de declínio.
Sentia a clareza das cenas diluindo-se na confusão e na dúvida. Será que foi naquele lugar? Será que foi aquela pessoa?
Era confuso, porque as memórias sempre vieram carregadas de sensações. Tudo encerrara-se no presente, mas o passado guardava aqueles tesouros da mente: as sensações. Era onde ela passeava às vezes, revisitando os túmulos de sentimentos que seu eu atual já não era capaz de sentir. Mas cuja sensação lembrava, devido ao passado.
Se estreitasse bem os olhos, se os fechasse. Se fizesse um esforço, se estivesse silêncio, as imagens voltavam. Voltava o suave raio solar refletido no olhar castanho de alguém que um dia amou. Voltava a sensação de euforia e aventura de correr por ruas noturnas e desconhecidas com um empolgante estranho. Voltava um dia nublado, em que o cheiro de alguém se tornava inesquecível e o ambiente parecia perder todo o ar. Voltava o rebuliço no estômago e a visão turva do exato momento de apaixonar-se. Voltava uma risada alta em frente ao rio, ao lado da companhia de uma amiga, que hoje lhe era uma estranha. Ou fechar os olhos e sentir o calor do sol, fazendo padrões imprecisos através de suas pálpebras fechadas, enquanto sentia o frio do chão na casa de um parente que já partiu. As sensações novas, as fortes, as inesperadas e envolventes. E aquelas não tão novas, mas persistentes, aquelas que lhe faziam se sentir gente. Aquelas que tinha cada vez menos. Essas coisas simples, sagradas e misteriosas que só atingem uma parte da vida, essas coisas estavam guardadas em pedaços de passado, que cada vez eram mais raros.
Através dessas janelas, ela visitava seu eu antigo. Sua inocência, sua energia, sua disposição para o amor. E como amara, se aventurara, como sentira intensamente cada momento de alegria e desespero. Como sofrera, se despedaçara, sentira a dor e a frustração apoderarem-se de suas veias, fazendo caminhos líquidos dentro de seu corpo, fundindo-se ao seu sangue e coagulando sua vontade de viver. Sentira tudo e do seu próprio jeito, sempre mais.
Até que, sem o menor aviso, passou a sentir menos.
Cada vez mais esforço para recobrar aquela disposição ao sentimento. Cada vez os olhos se estreitam mais para lembrar. Em especial, para sentir. Os cenários belos, oníricos e objetivamente estimulantes agora não lhe inspiravam mais. Precisava aguçar todos os sentidos para que seu olfato resgatasse o cheiro de uma sensação. Suas mãos, menos macias, faziam uma maior pressão para que o toque as sensibilizasse.
Seria novamente a ilusão da indiferença? Aquela potente arma contra a mágoa?
Ou será que...
Será que agora era verdade?
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