quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Resto

O glitter remanescente no chão dias após a festa
O eco da folia ou gritaria
As últimas gotas que escoam de uma chuva que terminou
É isso que resta de uma tristeza
Que já foi um oceano devorador.

Relances de lembranças
Pontadas.
Pequenas memórias de abandono
Partículas maltratadas.
Elas existem e desconfio
Que sempre existirão.
Mas são cada vez menores
À medida que eu digo não.

Recuso qualquer tentativa de maquiar
A crueza dura e seca do que aconteceu.
Refuto a continuidade das máscaras enferrujadas
Com as quais cobri por anos você e eu.

Danço com essa tristeza
Gentil e suave que me abraça.
Que me faz entender meu passado
Que me leva sem pressa no seu passo.
Sei que devo conhecê-la
E me reconhecer dentro dela.
Sei que ela é temporária
Sei que ela é uma janela.

Fecho meus olhos,
As partículas vermelhas atravessam minhas pálpebras.
O sol está alto, o vento transborda
Faíscas de eletricidade me embalam.
É um sopro sutil e terno em meus cabelos
Uma pequena liberdade que nasce.

Quando abrir estes meus olhos, as cores serão reais
Meu coração, minha voz e minhas mãos serão iguais.
Mas você não estará aqui.
Nem em minha frente
Nem dentro de mim.
Quando eu abrir meus olhos
Terá dissolvido nesse sol
Nesse calor que sinto em minha pele
Todo resquício de elo.
Quando eu finalmente abri-los
Não terá sobrado nem o resto.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Carta para ela

Eu olho para aquela menina.
Eu quero abraçá-la
Eu leio suas palavras
Suas preces desesperadas
Sua autocrítica faminta
Sua cegueira desenfreada
Baseada em culpa e dor
Alimentada de forma desregrada.

Eu nunca tinha entendido
A vontade de abraçar o passado
Até entender o quanto o meu
Foi continuamente machucado
Até conhecer a verdadeira
Perda da inocência
Da qual tanto eu tinha falado.

Ela acreditava ser tudo sua culpa
Portadora de uma doença sem solução
Acreditava merecer o desamor,
Distorcida pela própria visão.

Descontrole. Desespero. Medo. E solidão.

Todos os sentimentos que não pertencem ao repertório do amor
Eram o que pautava sua relação.
Incutidos sistematicamente
Diria até mesmo acidentalmente
Por uma outra mão.

O que eu queria dizer-lhe?
Não.
Nada disso é culpa sua, menina.
Sua capacidade de amor é infinita.
É uma pena que está prestes a ser destruída.
Era uma raridade tão bonita.
A inocência que você dizia perdida brilha em seus olhos
Você nem imagina.
Por favor se proteja e parta
Por favor salve a sua vida.

E para ele?
Nada.
Eu não queria dizer nada.
Não há nenhum ímpeto de resolução.
Não há palavra ou acusação.
Não há nenhum elo entre nós.
Aquele homem
Nunca mais ouvirá a minha voz.

Desilusão é a desconstrução do que nunca existiu

Frio na barria
Aperto no peito
O que eu estou sentindo é
O amor ao contrário.

Desilusão é a desconstrução de uma miragem
Que estranho perceber que ela não era sequer bem feita
Nem mesmo era bem disfarçada.

Exijo coisas.
De mim mesma, dos outros.
Dele, não exijo nada.

Nunca na história
Um amor foi tão completamente vomitado.

Olho para o passado,
Retratos antigos.
Em cada memória, um vício oculto bem mal escondido
Que sempre esteve lá.
Uma letargia invisível, invencível
Tanto que derrotou todo o resto, como uma leve corrente de ar.

Eu escolho não me anestesiar da dor.
Deixo fluir, como essa chuva que agora mesmo começou.
Deixo nascer nas raízes de meus cabelos, espalhar-se pelos nervos.
Deixo apertar meu peito e mastigá-lo, enfraquecer meus braços e pernas.
E então deixo-a passar, tomar seu caminho docilmente
Em uma partida tão lenta e definitiva quanto a sua chegada.

Cada um dos sentimentos pertinentes vem e faz sua morada.
A dor pelo abandono e o desprezo.
O medo de ter sido enganada.
O constrangimento e vergonha
Por ter sido tão facilmente humilhada.
A mágoa por toda a dedicação dada
E nunca valorizada.
O rancor pelas palavras não ditas
E muito menos pensadas.
A raiva pela injustiça da indiferença
Pela falta de humanidade
Tão própria de um ser humano
Imerso na própria fragilidade.
Tudo vem, faz sua morada. Espalha-se e em seguida parte,
Partes minhas para nunca mais serem encontradas.

Não há nada de positivo nisso
Nessa dor não há aprendizado.
Não há nada que fortaleça ou engrandeça o espírito
Não há cor que ilumine o quadro.
De tudo isso
De toda essa tralha
Eu me arrependo.
Eu me arrependo de tudo.