domingo, 16 de março de 2025

Autoimagem

Miriam estava impressionada. Fascinada até. Miriam estava encantada.
Surpresa, pega de improviso.
Não, ela não estava inerte. Muito menos entediada.
Miriam nunca foi boa nisso.

Visitando aquele museu de grandes e pequenas declamações.
Sentimentos derramados, mais palavras que ações.
Era impressionante reconhecer-se nas delicadas e inocentes confissões.
Não foi ontem nem semana passada.
Aquele sentimento cru e familiar foi talhado pela sua versão que pensara superada.

O que podia concluir, era que sempre fora exatamente a mesma:
Sonhando com uma frieza da qual nunca foi capaz, tentativas de fugir de sua fragilidade, coração na carne viva, medo e necessidade.
Explosão e ousadia.
Desespero por alguma magia.
Vontade e sinceridade.
Tantas coisas entregues de graça.
É verdade, o mundo era cruel. Mas isso ela já esperava.
Não imaginava que se machucaria tanto, mas alguma turbulência já esperava.

O que mudou, pensava? No que cresceu?
Talvez reconhecer sua própria fragilidade seja o mais revolucionário que lhe aconteceu.
Não era fria nem indiferente.
Não sabia tratar mal nenhuma gente.
Nem mesmo aquelas que mereciam.

Em sua fantasia, era a mulher de unhas longas e lábios vermelhos.
Pele de cristal, gélida e brutal.
Fazendo coisas só pela diversão.
E sentia. É verdade, reconhecia a euforia.
A fluidez do poder que atravessava seus nervos, em cada momento de lucidez.

Sentia-se potente, às vezes.
Quando lhe passava a correta corrente.
Sentia eletricidade e vontade.
Quando encontrava a perfeita liberdade.
Mas isso não era sempre, era quase uma realidade.
Quando alguém lhe prendia a mente, nas rédeas de sua fragilidade: tudo voltava a ser doente, a lhe causar ansiedade.
Obsessão e ciclos repetitivos.
Dificuldade de ser seu próprio abrigo.
Limites turvos, imprecisos.
Eram seu maior desafio, mas não eram seu destino.

Vinha lutando e mudando, muito pouco lentamente.
Mas agora os via e tocava, sabia de sua natureza de gente que sente.
Miriam estava impressionada.
Tão pouco mudara daquela menina.
Tanto vivera, tão forte sentira.
Será que ainda tinha muito a lhe surpreender assim na vida?
Miriam estava, de fato, impressionada.
Por mais que quisesse, ela nunca sabia ser entediada.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Chove na selva de luzes amarelas

-Você acha que as pessoas não mudam?
Eu perguntei.
Dei outro gole.
Observei.
Seus olhos afiaram-se como navalhas.
Azul vivo, dois raios rasgados.
-Não, as pessoas não mudam jamais.
Dei uma risada.
Estava tarde e eu cansada
Mas por que não prolongar um pouco mais?
Era de toda forma, um conto impossível,
Um romance noturno na cidade de luzes
Com um homem desprezível.
Mas quando foi que o impulso perdeu uma luta
Nesse meu coração invencível?
Eu sempre quero provar mais da fruta
Até minha língua sentir o amargo previsível.

Estava chovendo na cidade das luzes,
Onde toda noite é um fascinante mistério
Agora estou bem longe dessas ruas,
Na selva urbana onde o calor impera.
Não tenho mais nem tantas lembranças
Nem a sensação de amor.
Mas meus dedos lembram das frases
Proclamadas por meu opositor.

Olho uma lembrança de um passado recente
Há apenas poucos meses eu jurava
Que minha essência tornara-se diferente
A dor e a mágoa me enganavam
Me fazendo tornar-me uma descrente
Na inocência que o impulso provocara
Em toda minha vida, uma elétrica corrente.
Por um momento, me acreditei mudada.

Eu acreditei ter ficado fria
Achei ter perdido minha centelha
Que a ingenuidade se apagara
E minha visão se tornara certeira.
Tão racional como uma água,
Mais uma vez eu recriava
Toda uma nova forma de inocência.

É verdade, olhos rasgados
Eu ainda sou exatamente a mesma.
As ondas de mágoa não me mudaram
No máximo trouxeram experiência.
Se ela se será desperdiçada
Ou se tornará uma ferramenta
Vou deixar para o futuro
Se uma coisa aprendi
É não cravar certezas assim
Nem tentar prever as cartas
Ou confiar tanto em mim.

The Longing

Long eager arms
Aiming something unknown
A companionship without a face
A breath before the sea
An anccient taste.

I still gather in me
All the little shiny pieces
The untouched material
Desired and amazed.

Do i still long for something, do i ask
And my own answer is a loud Yes
I long for the feelings to be felt
In the most natural way
I long for the unexpected
In a regular sunny day
I long for feeling the thrill
And peace i don't need to chase
I long for resting with a smile
That comes naturally to my face.

I still have so many dreams
Even if i can't properly name them
But i feel it in my bones the chill
Of still wanting them to take me
To take me to somewhere new
When i can once again be a stranger
Explore the unexpected hills
Falling in love all over again.

I want to fall in love for every second
That time can still gently provide me
And be in awe with the unexpected
That gently visit me in this life.

terça-feira, 4 de março de 2025

Epitáfio de um amor doente

Eu preciso exorcizar a herança dos seus olhos azuis.
Sorrateiros, escorregadios, um breu onde não nasce luz.
Cheios de mentiras, lembranças ferinas, manchas vazias.
Eu preciso regurgitar toda a falta de lógica
De ainda pensar, obsessionar, com a mais oca das histórias.

Não sei o que é essa corrente, que ainda prende minha mente
Que ao fechar meus olhos, me faz sentir doente.
Consome minha memória, segura meus pensamentos.
Não me dá trégua nenhuma hora, insiste por fechamento.
Engole minha razão, me deixa sem resposta alguma
Não sei que magia lançou, mas a destruo até segunda.

Me livrei de todos os estímulos, já não vejo mais o seu rosto.
Não te olho mais nas redes, resisto a toda fonte de desgosto.
Mas minha memória me sabota, com generosidade de detalhes.
Seus olhos inexpressivos, o gosto de sua pele me arde.
Sua voz no prazer, seu gemido no meu ouvido.
Não consigo ainda esquecer. Eu tento, eu forço, mas não consigo.

Você é o maior dos inconsistentes.
Não há nada que me puxe em sua personalidade.
Seu caráter um lixo, sua mente tão doente. Nem nas mentiras tem criatividade.
Seu gosto é duvidoso, tudo que escolhe, meu exato desgosto.
Em você encontro reunidas todas as coisas que eu detesto,
E que me atraem como uma cintila, a versão de mim em que não presto.

Que me deixou te humilhar sem culpa. Jogar na sua cara sua incompetência.
E depois te ver rastejar dizendo que me ama. Me regozijar na sua incoerência.
Me atraio pelo seu esgoto, onde por um momento me misturo relaxada.
Mas depois sinto a ressaca pesar, sinto nojo. Preciso te expulsar da minha sala.

Para você dei coisas boas e também te enchi de loucuras ruins.
Debochei, te expulsei, te pisei. Depois te enforquei, dizendo que você era só para mim.
Seus olhos brilhavam diante da loucura, repetia como um boneco o que eu ordenava.
Por dentro, estava tudo estragado. Você é oposto do que é saudável.
Você talvez seja a última prova: a mistura de todos meus instintos doentes.
Com você vivi cada um deles, agora é hora de te exorcizar da minha mente.
Me despeço desse conto final, a última das minhas tentativas de autodestruição.
Com você vai minha atração pelo mal, minha tendência de ir sempre na contramão.

Na sua cova enterro tudo do que eu abdico:
A posse, a obsessão, a atração pelo doentio.
O riso seco, a mentira dupla, a vontade de dominar e destruir.
Nessa longa despedida, pego tudo que tenho de adoecido, e depois de ter vivido,
Finalmente deixo ir.
Com você, expulso a distância entre o que vivo
E vida que quero viver, com a paz que eu preciso
E o amor puro que sonho em ter.
Junto contigo, me despeço do resultado de todas as minhas feridas.
Causadas pelos traumas de abandono, pelo medo de ser esquecida.
Junto com você, olhos azuis vazios, abandono o vício por você e pela dor
E começo, então, uma nova vida.

Idiota raiz

Me surpreendo com sua notificação na minha tela
Numa noite em que de você mal me lembrei
Seu nome esquisito me pega de assalto
Quase esqueço o quanto por isso esperei.

Você diz que sente minha falta, pensa em mim o tempo todo.
Todas as coisas que eu queria ouvir enquanto rastejava no seu esgoto
Quando te pedia um pouco mais de carinho. "Dorme comigo essa noite, por gentileza."
A noite sempre foi o prenúncio da sua mais inesperada frieza.

E pra você, ouvidos mudos, o acordo não era esse.
O que está ao seu alcance nunca te despertou interesse.
Agora lembra de mim, um fantasma na sua mente.
Não consegue nem dormir, não importa o quanto tente.

As coisas que tínhamos juntos
Por si só tão interessantes
Desabafos estranhos e profundos,
Nossa vocação para amantes.
Só agora parece perceber
Que é tudo o que você sempre quis
Pena que é viciado em perder
Um completo idiota raiz.