quarta-feira, 5 de março de 2025

Chove na selva de luzes amarelas

-Você acha que as pessoas não mudam?
Eu perguntei.
Dei outro gole.
Observei.
Seus olhos afiaram-se como navalhas.
Azul vivo, dois raios rasgados.
-Não, as pessoas não mudam jamais.
Dei uma risada.
Estava tarde e eu cansada
Mas por que não prolongar um pouco mais?
Era de toda forma, um conto impossível,
Um romance noturno na cidade de luzes
Com um homem desprezível.
Mas quando foi que o impulso perdeu uma luta
Nesse meu coração invencível?
Eu sempre quero provar mais da fruta
Até minha língua sentir o amargo previsível.

Estava chovendo na cidade das luzes,
Onde toda noite é um fascinante mistério
Agora estou bem longe dessas ruas,
Na selva urbana onde o calor impera.
Não tenho mais nem tantas lembranças
Nem a sensação de amor.
Mas meus dedos lembram das frases
Proclamadas por meu opositor.

Olho uma lembrança de um passado recente
Há apenas poucos meses eu jurava
Que minha essência tornara-se diferente
A dor e a mágoa me enganavam
Me fazendo tornar-me uma descrente
Na inocência que o impulso provocara
Em toda minha vida, uma elétrica corrente.
Por um momento, me acreditei mudada.

Eu acreditei ter ficado fria
Achei ter perdido minha centelha
Que a ingenuidade se apagara
E minha visão se tornara certeira.
Tão racional como uma água,
Mais uma vez eu recriava
Toda uma nova forma de inocência.

É verdade, olhos rasgados
Eu ainda sou exatamente a mesma.
As ondas de mágoa não me mudaram
No máximo trouxeram experiência.
Se ela se será desperdiçada
Ou se tornará uma ferramenta
Vou deixar para o futuro
Se uma coisa aprendi
É não cravar certezas assim
Nem tentar prever as cartas
Ou confiar tanto em mim.

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