Eu preciso exorcizar a herança dos seus olhos azuis.
Sorrateiros, escorregadios, um breu onde não nasce luz.
Cheios de mentiras, lembranças ferinas, manchas vazias.
Eu preciso regurgitar toda a falta de lógica
De ainda pensar, obsessionar, com a mais oca das histórias.
Não sei o que é essa corrente, que ainda prende minha mente
Que ao fechar meus olhos, me faz sentir doente.
Consome minha memória, segura meus pensamentos.
Não me dá trégua nenhuma hora, insiste por fechamento.
Engole minha razão, me deixa sem resposta alguma
Não sei que magia lançou, mas a destruo até segunda.
Me livrei de todos os estímulos, já não vejo mais o seu rosto.
Não te olho mais nas redes, resisto a toda fonte de desgosto.
Mas minha memória me sabota, com generosidade de detalhes.
Seus olhos inexpressivos, o gosto de sua pele me arde.
Sua voz no prazer, seu gemido no meu ouvido.
Não consigo ainda esquecer. Eu tento, eu forço, mas não consigo.
Você é o maior dos inconsistentes.
Não há nada que me puxe em sua personalidade.
Seu caráter um lixo, sua mente tão doente. Nem nas mentiras tem criatividade.
Seu gosto é duvidoso, tudo que escolhe, meu exato desgosto.
Em você encontro reunidas todas as coisas que eu detesto,
E que me atraem como uma cintila, a versão de mim em que não presto.
Que me deixou te humilhar sem culpa. Jogar na sua cara sua incompetência.
E depois te ver rastejar dizendo que me ama. Me regozijar na sua incoerência.
Me atraio pelo seu esgoto, onde por um momento me misturo relaxada.
Mas depois sinto a ressaca pesar, sinto nojo. Preciso te expulsar da minha sala.
Para você dei coisas boas e também te enchi de loucuras ruins.
Debochei, te expulsei, te pisei. Depois te enforquei, dizendo que você era só para mim.
Seus olhos brilhavam diante da loucura, repetia como um boneco o que eu ordenava.
Por dentro, estava tudo estragado. Você é oposto do que é saudável.
Você talvez seja a última prova: a mistura de todos meus instintos doentes.
Com você vivi cada um deles, agora é hora de te exorcizar da minha mente.
Me despeço desse conto final, a última das minhas tentativas de autodestruição.
Com você vai minha atração pelo mal, minha tendência de ir sempre na contramão.
Na sua cova enterro tudo do que eu abdico:
A posse, a obsessão, a atração pelo doentio.
O riso seco, a mentira dupla, a vontade de dominar e destruir.
Nessa longa despedida, pego tudo que tenho de adoecido, e depois de ter vivido,
Finalmente deixo ir.
Com você, expulso a distância entre o que vivo
E vida que quero viver, com a paz que eu preciso
E o amor puro que sonho em ter.
Junto contigo, me despeço do resultado de todas as minhas feridas.
Causadas pelos traumas de abandono, pelo medo de ser esquecida.
Junto com você, olhos azuis vazios, abandono o vício por você e pela dor
E começo, então, uma nova vida.
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