segunda-feira, 25 de maio de 2026

Reunião de ex-alunos

-Você disse que veio por conta de uma queixa. Qual seria ela? 

A mulher lhe indagava, com olhos redondos e simpáticos. Sua boca tinha um batom alaranjado que lhe lembrava uma tangerina velha, que ultrapassou o ponto da doçura e flertava com o amargor.

-Meu problema é o sono. - Ela olhava as próprias mãos. Longas, pálidas. Mãos de pianista.

-Você tem sonhos ruins?

-Não. Eu não tenho sonhos. Meu problema é que eu mal durmo.

Não era mentira. Ainda assim, não se sentiu confiante em uma possível melhora após a sessão. Olhando-se no espelho do elevador da clínica, pensava quão pouco sentido fazia sua figura atualmente. Como explicar que ela tinha sido, na verdade, uma garota de 15 anos, com medo de tudo, sempre em estado de sobrevivência? Uma garota que tinha um anseio desesperado por ser querida e nenhuma critério sobre como e por quem. Como entender que aquela menina tinha se tornado esta mulher, cuja presença emanava uma solene confiança, aspirando com naturalidade todo o ar de qualquer ambiente em que entrasse, como se tudo fosse, gentilmente, seu.

Saiu pelo saguão do prédio com um pé direito altíssimo, atraindo olhares enquanto o fazia. Ela era aquela figura mística, intocável. Silenciosamente atraia a energia, apenas por estar presente. Alguém incompatível com o ambiente. Como aquela menina reagiria sabendo que este era seu corpo, agora?

Era difícil identificar o ponto em que houve a virada. Em que sua pele parou de ser uma esponja para o mundo exterior. Em que passou a reconhecer as coisas por sua real forma, e precisar de coisas de dentro de si, não de fora. Mas a transição foi tão brusca, tão intensa, que era difícil conciliar essas duas realidades. O passado e o presente pareciam tão distantes como duas dimensões. Mas ainda assim, confusamente, não era difícil resgatar a memória.

Porque a verdade é que se lembrava. Se lembrava bem. Como era ter medo o tempo todo, ser dominada por carência e desespero. Moldar-se a desejos, deixar-se levar pelas mais absurdas situações na esperança de ser amada. Uma navegante de mares de outrem. Sempre à deriva.

Agora, não conseguia pensar em uma situação que fosse capaz de lhe constranger ou intimidar. Acostumada a lidar diariamente com as pessoas de todos os tipos, era natural olhar nos olhos e deslocar o foco de si, para o outro. A opinião do outro sobre si não era um fato que sequer cogitava, muito menos buscava controlar. Sentia-se alinhada com o seu eu, e por ele guiada e suas ações eram resultado de seus pensamentos. O mundo exterior tinha influência bastante limitada na forma como ela se sentia. Tornara-se, sem perceber quando, alguém incapaz de ser acuada. Não por tentativa, por consequência. De que? É difícil saber. 

Mas naquela noite, por alguma razão, sua consciência partia-se entre presente e passado e a elegante mulher sentia-se confusa sobre a identidade perdida de menina. Foi bem naquela hora, como se o adversário visse o ponto cego de uma barricada e a atacasse, que o telefone tocou.

-Reencontro? - Sua voz melódica soou no cômodo vazio de sua sala. A palavra lhe era cara, não era com isso que estava flertando?

Quando desligou a ligação, passou alguns momentos sentava em seu sofá de camurça branco. Afundada em si, encolhida como uma concha, como uma menina de 15 anos. Encarou as longas e altas janelas que davam para a vista noturna da cidade, cobrindo as paredes de seu apartamento. Sentiu-se pequena como se não conhecesse nada, como se tivesse apenas começado a viver. Como se fantasiasse com o futuro, ouvindo músicas em uma manhã chuvosa a caminho da escola. 

Em seguida balançou a cabeça e riu, deparando-se com seu próprio reflexo no vidro: Toda encolhida em um robe de veludo preto. Que absurdo. Nada disso tem razão de ser. E aceitou o convite.

**

Ela não costumava chegar atrasada nem adiantada. Na verdade, tão acostumada com o controle do fluxo das coisas, se adaptava ao tempo disponível de tal forma natural, que mesmo sem grande planejamento sempre chegava nos compromissos exatamente no horário proposto. Dessa vez, porém, chegou antes. Ainda faltavam 20 minutos para o horário, quando estacionou na rua do restaurante. Desligou o carro e ficou lá. Esperando para entrar. Uma atitude que nunca em sua vida adulta tivera. Se chegasse mais cedo, entraria mais cedo. Tomaria um drink, olharia os transeuntes. Não ficaria esperando sentada em um carro desligado, preocupada com o que sua chegada cedo poderia parecer. Preocupada com os pensamentos dos outros, com o que pensariam dela. 

Chega, decidiu. Essas tolices devem parar. 

E foi até o restaurante, pedindo uma mesa em seu local preferido - no 1o andar, na sacada. E informando o pequeno número de pessoas que em breve se juntariam a ela. 

Sentir o líquido suave do vinho descer por sua garganta, agora tão acostumada com sabores exóticos e sofisticados, lhe fez sentir-se si mesma novamente. Fechou os olhos por um momento, deixou o vento noturno tocar-lhe a face pálida, as sobrancelhas cheias, os cílios longos. Um sorriso sutil se formou em seu rosto. Momentos assim, saborosos, em que sentia-se como ela mesma, alimentavam a pessoa que descobrira que era. Foram os momentos em que sentiu o prazer inesperado de ser, que lhe forneceram a confiança que mil performances nunca conseguiriam emular ou muito menos construir.

Foi quando ele chegou.

Seu cheiro lhe atingiu do outro lado do salão. Cítrico, amadeirado, cheio de nuvem densa. De menino do rio. Quando ela abriu os olhos, de sua pequena meditação interna, os dele a encaravam, a metros de distância. Um elo direto, depois de tantos anos. Do outro lado do restaurante.

Ela observou quando ele sorriu para o garçom polidamente, sinalizando que tinha encontrado sua mesa e se dirigiu em sua direção. Ele também chegara cedo.

Era, para todos os efeitos, o mesmo: cabelos louros, de fios lisos e grossos. Agora um pouco mais longos, acompanhando o pescoço. Rosto de pele fina, pálida. Olhos baixos, meio sorriso. Estava mais alto, é verdade. Um pouco mais forte, mas ainda magro. Mas sempre com aquele jeito curvado, de senhor de idade de, agora, trinta e poucos anos.

Ela o observou enquanto ele se aproximava, sem nenhum constrangimento. A ausência de necessidade de desviar o olhar ou fingir surpresa ou indiferença lhe tranquilizou de que naquela noite, tinha voltado a sintonizar com quem era agora. E não há 15 anos atrás.

Ele chegou trazendo seu cheiro, tocou a cadeira em frente a dela, e sorriu. Sentou-se sem dizer uma única palavra, como se de alguma forma, entre eles, ainda fosse normal, serem completamente alheios a convenções sociais. 

A falta de um cumprimento formal, que os colocaria na condição de antigos conhecidos, imediatamente ressuscitou o elo da intimidade. Em poucos segundos, estava estabelecido que se comportariam como eles mesmos e não como suas personas sociais.

O garçom chegou com uma nova taça e ele se serviu, sem cortesia ou brinde. O contato ocular entre eles ainda não tinha sido quebrado, nem uma única vez.

Ela, então, sorriu. E voltou a olhar para a escuridão da noite, dos prédios, do vento noturno. Ele fez o mesmo, acompanhando o seu olhar. Beberam do mesmo vinho, enquanto o mesmo vento daquela cidade em que nasceram, em que cresceram e em que tragicamente se separaram, tocava-lhes o rosto. 

Assim permaneceram por exatos 15 minutos. Sem uma única palavra, em um reencontro após quase 10 anos. Algo tão estranho que só eles seriam capazes de fazer. Uma intimidade tão absoluta que só eles seriam capazes de conservar tanto tempo depois. 

Ao final do minuto 15, como a badalada que encerra o conto, seus demais ex-colegas chegaram. Sorrisos, abraços, cumprimentos. Ambos automaticamente assumiram seus papéis sociais. Palavras, comentários, histórias, atualizações. Conversaram com os demais e entre si. Tão sociáveis e cordiais que para qualquer um dos demais colegas, poderiam até mesmo esquecer que aqueles dois se amaram um dia. Que fizeram a vida um do outro um inferno. Durante 2 horas de jantar, sobremesa, amenidades e gentilezas, foi fácil parecer que nada daquilo jamais tinha acontecido.

Mas tinha. Porque por 15 minutos, eles foram novamente os mesmos. A garota de 15 anos, que tinha medo da própria sombra. O garoto raivoso e estranho, que fazia tudo errado. Anos de erros. Discussão na madrugada. Os primeiros grandes arrependimentos. As primeiras percepções do amor. Os primeiros choros de ciúmes. Descontrole e inocência. O começo de tudo. Uma conexão tão estranha que jamais baseou-se em declarações, e sim em frases soltas. Pensamentos compartilhados. Telepatia e silêncio.

Naqueles 15 minutos, foram novamente eles. E depois disso, por toda a vida, eles nunca tornaram a se reencontrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Seu céu, meu mar

 Aqui você tem 18 anos de inventário da minha vida.
Minha vida.
O que você vai fazer com minha vida?
Além de ter curiosidade e ressentimento.
Eu aproveito, com um prazer passageiro, esses instantes de curiosidade.
Coisa rápida, passageira. Só dura enquanto dura a idade.
Enquanto dura a beleza.
E o fascínio da disparidade
Entre uma mente potente e um coração louco.
Não foi sempre esta minha dualidade?
Se eu causo fascínio em seu repertório rouco
É só pelo poder encantador do contraste.

Eu entendo, talvez demais
Que o que sentem por mim nunca é amor.
Curiosidade, desafio
E outras formas de ardor.
Eles passam, como passa o frio
Diante da mais eficiente fonte de calor.
Ninguém quer aclarar o que é sombrio
É na sombra que sobrevive o esplendor.
Não serei eu a quebrar sua imagem
De mil contos de uma belíssima miragem.

Mas caso queira se aprofundar
Largar o encanto, botar os pés no mar
Em um dia de maio, posso te mostrar
Quando a chuva cai e o tempo não é frio
Quando estamos bobos e risonhos do abril
Quando não tenho nada a provar e tudo a surpreender
Nessa disposição de espírito, talvez possa te enternecer
Com algo além da imagem, da miragem
Algo além da perfeição que sua mente criou e na qual me aprisionou
Algo que eu posso dar, algo real a se amar

Mas até alguém chegar
Que não queira meu céu, e sim meu (a)mar
Devo, per forza, continuar
A performar...
A performar... 


Acerto de contas

Sinceridade.
Garota, você teve coragem.
O que diz agora, no acerto de contas consigo mesma?
O quanto se amou? que compromissos honrou?
Não faça perguntas injustas.
Eu fiz o que pude. Minhas chances nunca foram justas.
Nasci no berço do amor e do abandono. Minhas lentes demasiadamente puras.
Demorei tempo e experiência para entender: as coisas belas, as coisas cruas.
Estou tentando me perdoar: pelo abandono que não pude retroceder. Estou tentando me amar. Estou tentando viver!
É tudo tão difícil: não é fácil, isso é mentira. É absurdamente difícil.
Sentir o outro, entender. E a si mesmo, perdoar. Amar, amar. Sentimento enorme, dolorido, sacrificado e ingrato.
E de gratidão não há o que falar, porque no fim do dia são comigo mesma as contas a acertar:
O quanto me amei? O quanto me respeitei?
O quanto consegui nas condições que me foram dadas. Que não foram tão boas. Nem foram tão árduas.
O que fiz com elas: essas são minhas marcas.
Violência, carinho. Eu sempre fui assim. Nunca estável, sempre um passarinho. Em busca de um coração, em busca de um ninho. Destruindo sem compaixão tudo o que me atravessava o caminho.
Agora estou tranquila: tento pensar antes, olho nos olhos a vida. Abraço minha fragilidade. A esgano, por vezes, com vontade - é verdade. Depois a retomo, sou liberdade.
Coisa incerta. Menos clara do que certa. Que tenta acertar, mas parece que só erra. Que ri de tanto erro, mas que se nega
A viver uma vida supérfula.

Planeta Felicidade (Meu texto preferido)

(Bruxelas, 2024, uma tarde. Eu fugia do que há de pior em mim. Eu encontrava o melhor de mim. Planeta Felicidade.)

A prece de todo final de tarde. Cores cósmicas, azul e rosa. Minha pequenez em frente a tudo.
Amor.
Surpresa e expectativa. Esperança no inesperado.
Coisas pequenas, simples, rotineiras, permeadas por tanto sentimento que transborda, não cabe, molha tudo ao meu redor e me deixa submersa.
Eu me lembro.
De cheiros e cores. De sons espontâneos. Da textura do abraço, do calor de um sentimento.
Tentativa e erro.
Olhos que parecem que a qualquer momento vão desaguar.
Amor, amor. O que mais?
Alívio, talvez. Que eu não mudei. Que a dor não levou o melhor de mim. Que eu ainda posso me emocionar com as cores do céu, o toque do frio, você.
Você.
Vocativo aberto, um lugar.
Uma insistente esperança de lhe preencher.

Parte II

Nostalgia, sentimento quente e terno, deixo me dominar.
Mas nostalgia com o futuro, não com o passado.
Saudade do que vou encontrar, da possibilidade.
Saudade e vontade. Um coração preparado para o inesperado.
Bem vestido, alcochoado, apto a receber a felicidade.
Para isso, me despeço de um antigo traço de personalidade. Me despeço do meu velho hábito, ser histórico feito de passado: escrevendo para viver uma segunda vez e dessa segunda ser mais palatável.
Escrevendo para dizer: meu tempo e amor não foram desperdiçados.

Rompo esta linha hoje.
Um dia nem quente, nem frio.
Para todos os efeitos, mais uma noite de abril.

Nostalgia do futuro é o que me preenche agora, um músculo de cada vez, percorre minhas veias e relaxa minha tez.

Chega da saudade. Não há espaço para o passado quando meus olhos estao inebriados pela possibilidade.

É o Planeta Felicidade.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Todas as outras dentro de mim

Aquela casa pequena em uma rua que ninguém se importa em nossa cidade insignificante.
Todas as coisas do nosso passado são assim: pequenas, irrelevantes. Nada comparado a sua vida agora.
Tanta vida, tanto sentimento. Tanta infinitude nos preencheu em tardes insignificantes.
Será que você lembra?
Que cada acordo e plano era um mundo a ser desbravado.
Que cada conversa, risada e brincadeira enchia o quarto de sensação de sonho e infinitude?
Será que você lembra de tudo isso?

- Todas as coisas existiram.
Elas foram enormes, infinitas, pioneiras e puras.
As coisas mais sinceras foram com vocês.
Aquelas fruto de amor, de obsessão, de desespero e de medo.
Todos os sentimentos na carne crua.
Aqueles sinceros, autênticos, lidos nos olhos.
Todas as coisas comigo foram assim, todas as coisas que existiam em mim.
Todo o amor que eu dei, as histórias que eu criei: pautadas na verdade e na adoração.
Uma adoração pelo presente, pela infinitude dos momentos.
Todas as minhas despedidas doeram como amputações: pedaços da minha carne sendo arrancados do meu coração.
Em cada um desses mundos, deixei um punhado de emoção.

Nunca nesse mundo existiu uma menina tão apaixonada.

Capaz de entregar tudo, de enlouquecer a si mesma e aos outros.
Capaz de quebrar cada uma das promessas que fez para si mesma, de abdicar da sanidade.
Guiada por impulsos, vontade e liberdade.
Todas essas histórias foram infinitas, imersas em sinceridade.
Em cada uma delas depositei esperanças de futuro
Sem saber que o presente
Era o limite da realidade.
Mas vivendo intensamente
Muito mais intensa que uma tempestade.
Devastando moinhos, quebrando limites, beirando a linha da insanidade.
E o quanto me entreguei, doei, apaixonei.
O quanto amaldiçoei, gritei, inconformei.
O quanto vivi, o quanto quis, o quanto fiz.
Todas as coisas que eu quis, eu fiz. E quão completamente.
No final de tudo isso
Eu não tenho arrependimentos
Só lembranças
Sorrisos delicados 
Um pouco de passado
Que me faz rir,
Imensa e distante
Do extremo oposto de uma linha plana
Que acaba e recomeça,
Tornando-se uma coisa nova.
Eu sou a outra, enfim
Guardando com carinho
Mas distante da nostalgia
Todas as outras dentro de mim.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Eu ouvi falar que nesse bosque moram fadas

Eu toquei com as pontas dos dedos a lembrança dos sentimentos de um outro tempo.
Inefável - eu odeio as pessoas que usam essa palavra.
As que se autodenominam aprendizes, o consciente movimento de auto-rotulação de humildade.

Estou cansada. Mergulho em mim, dou um salto. A distância é segura aqui. Procuro conforto na escuridão e silêncio.
É melhor do que uma noite cor de cinza em que vejo a chuva pela janela e lembro, lembro, lembro.

Lembro de outra versão de mim, da capacidade de sentimento. De querer, imaginar, sonhar.
Acreditar em magia.

Porque desde criança, desde a minha primeira lembrança: eu sempre acreditei em magia.
Vendo bosques encantados em um matagal abandonado, confundindo o som dos passarinhos com fadas.
Se fossem bruxas, também queria, não importava: meu objetivo era a mágica.

Crescendo, troquei as mãos. Meu sonho se tornou algo mais humano: a magia em forma de uma pessoa.
Buscando aquele sentimento: aventura, compreensão e o inesperado. Projetando, ansiando. Querendo sempre mais.
Eu ainda sentia a mesma centelha de empolgação de desbravar meus bosques, ao idealizar um sentimento místico nos receptáculos mais inadequados.
Eu continuava em busca da magia de uma verdadeira companhia. A ambição máxima fundamental: ser vista como uma igual. Ou apenas se vista, conhecida. Ser ouvida. Nos dias mais ambiciosos, quem sabe, compreendida.

Mas magia não existe, ou existe, em outras formas. Existe na poesia, na capacidade de depois de tantos caminhos percorridos, ainda ter vontade de fazer prosa. Existe na centelha fumegante em meu peito, no carinho que escorre pelos meus dedos, nos cabelos de quem eu amo. Existe porque eu ainda chamo, eu ainda espero o inesperado. Existe porque eu ainda amo.

Existe na linha invisível. Na ingenuidade até mesmo risível. Incompreensível. Que persiste porque quando menos espero, recebo: dias de magia, tão sagrados quanto mágica.
Existe porque ainda choro, ainda anseio, ainda receio, ainda adoro. Existe em coisas que não conheço, e porque as quero descobrir.
Nessas duas lágrimas que caem sem que eu perceba, que me informam que não adormeci. Estou acordada, estou aqui, estou viva. Hoje, essa é minha forma de magia.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

I'm still so strange and wild

Às vezes eu ainda quero ser vista nesse mundo.
Quero ser conhecida, e ser vista e conhecida, a meu ver, é ser amada.
Às vezes ainda quero ser querida, da minha forma estranha e selvagem que me é natural.
Às vezes, ser um objeto distante de admiração não é suficiente, visto que minha própria companhia se torna sufocante.
Num repente, tudo muda assim: de equilíbrio e a desespero, tudo sucumbe num instante.
Minha mente, onde habito, torna-se um ambiente inóspito. Minhas tentativas de melhorias passam a sufocar-me até os ossos.
Questiono tudo: palavras, pensamentos e ações. Passado, planos e projeções. Questiono e me envergonho. Tenho tanta vergonha que quero me encolher, sumir. E de repente não quero ser vista, nem conhecida. Não quero ser amada, só quero me tornar invisível.

São todos os mesmos sentimentos da infância, da adolescência. O retorno a um centro tão famíliar me faz sentir que não evoluí nada. O fato dessa convicção seguir sensações de grande clareza e coerência me faz duvidar da minha própria percepção. Me sinto confusa, insana, pouco confiável.

Tento dar dois passos para longe de mim e ver a mim mesma. Entender o motivo da minha tristeza. Dessa tristeza estranha que me toma de assalto em uma tarefa banal. Coloca lágrimas nadando pelos olhos sem nunca escorrer, como uma represa esperando para transbordar.

Não tenho uma resposta clara nessa condição, apenas flashes de coisas que doem: a ideia de amar algo estranho e inóspito. A saudade de coisas que nunca aconteceram. A vergonha que se acumula em pilhas. A percepção da fragilidade alheia, tão palpável, tão crua. Tudo me dói, penetra minhas entranhas e balança o vazio no meu peito que mais parece com um grito oco, cru e visceral aprisionado.

Esse contraste entre silêncio e estrondo parece me sufocar porque não tem lógica, sentido ou contorno bem definidos. Não consigo encaixá-lo em uma narrativa, explicá-lo com clareza ou me conciliar com seus motivos. Apenas existe em pequeno caos, habitando meu pequeno ser do qual eu sinto tanta vergonha e nesses momentos tanta repulsa. Do qual não me orgulho, o qual não protejo. Do qual me ressinto em silêncio. Um silêncio que queima meus tímpanos.

Saleiro derramado

Ser amado é ser confiante

A ausência de amor gera o medo de tudo.

Descobrir um truque mental é como quebrar um encanto.
Não dá para voltar atrás.

Ela me ensinou a não transformar o medo em violência


*A relação dela com vergonha era muito diferente da dele. Uma quase serenidade com a derrota. Um humor gentil, não ácido. Ela não se atacava de forma depreciativa, embora se sentisse responsável por muitas coisas. (Ela tem uma família meio estranha, mas feliz e afetuosa)

Toda tentativa totalizante de controle nasce de uma sufocada fragilidade

Temas:
Controle
Vergonha
Identidade
Coerência
Validação
Inocência

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contraste (Balance)

É um pensamento comum a muitas culturas e correntes filosóficas que é preciso que haja a escuridão para que a luz aparece. Equilíbrio entre opostos é apresentado em ideias como o Yin e Yang, como uma necessária complementação entre extremos de um mesmo fenômeno, como o bem e o mal; a leveza e o peso; o controle e o caos. O delicado equilíbrio (balance) entre dois opostos pode ser interpretado como um estado muito mais desejável do que a presença de um deles, ainda que do extremo positivo. A felicidade, de forma geral, passa a ser reconhecida - compreendida, diante do conhecimento prévio sobre o que é a tristeza. É difícil conceber a apreciação plena de um estado positivo sem que o sujeito possua cognição sobre seu oposto. O contraste, mais do que um ideal, é uma condição necessária para que haja uma compreensão possível dos extremos que pontuam uma dada situação. A identidade se reforça diante de sua antítese. Elas são complementares, pois uma ajuda a dar sentido à outra. Não é à toa que o contraste, em procedimentos médicos, é usado, para melhorar a visibilidade de estruturas e substâncias. É através da comparação que se obtém uma clara percepção sobre a coisa. Seria, afinal, possível, conhecer algo, sem conhecer aquilo que ele não é? Seríamos capaz de identificar que uma cor é uma cor se apenas ela existisse e não fosse possível ver as outras cores, distinguindo-as? Essas reflexões podem nos levar a crer que as coisas - sentimentos, estados de espírito ou formas de experienciar possíveis não são só resultado do fato/momento em si, elas são sentidas e interpretadas a partir do conjunto de informações (memórias) sobre seus contrastes e elementos distintivos. Quanto mais conhecedor da dor e tristeza, mais capaz de identificar (e talvez, apreciar) a felicidade. Quanto maior a experiência na desordem e descontrole, melhor a habilidade de valorizar a paz e a calmaria.

Eu prefiro ser a coisa imaginada

Nós, seres previsíveis
Movidos à imaginação e mistério
Alimentados pela fome que só o desejo do incompreensível traz
Enfeitiçados por ilusões: encantados pelo imaginado
Sempre, eternamente, com o recorrente entediados.
Não é possível amar alguém
Não a longo prazo
Não como única opção.
Porque o finito e previsível nos recorda também nossa finitude
"Esse é meu par para a vida" é um atestado de que a sua vida acaba e seu destino está determinado
Que as possibilidade foram fechadas
Que uma hora acaba.

A maior fantasia:
Uma cidade imensa
De caminhos imprevisíveis
Possibilidades e rodovias
A cada esquina um novo mundo, tudo novo
O inesperado
Aquilo que nos dá a ilusão do inimaginável
Vida eterna
Possibilidades
A casa de mil portas
Tudo aquilo que nos lembra
Do imaginário
Da ideia de surpresa
De sorte
E nos faz esquecer
Da morte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Depois da perda da inocência

Vazio e o medo que ele provoca são feridas compartilhadas a todas as pessoas.
A estrutura interna e externa pode favorecer a adoção de formas serenas de lidar com a dor.
Essas coisas não vem, necessariamente, em palavras. Elas podem ser transmitidas pela sensação de ser amado.
Ser amado interrompe a insegurança de existir em um mundo sem respostas. Acalenta o medo - embora não o destrua - a partir de uma sensação de pertencimento, que fornece estabilidade e estrutura.
Dar sentido às coisas não é algo que pode ser resolvido com palavras. Quando se é amado, há uma percepção de que a vida faz sentido pois você é necessário para alguém. Há um elo de continuidade entre o eu e o outro que tira a existência do vazio sem significado.
Ser amado é ser confiante
A ausência de amor gera o medo de tudo.
O medo de tudo não subsiste na sua forma original por muito tempo. Ele logo adota formas que o travestem, que buscam suplantá-lo. Ele assume a faceta de violência, controle e ódio.
O controle é apenas uma tentativa de estabilizar a insegurança que o medo traz. A violência e o ódio buscam, pela negação do outro, fortalecer a identidade do eu. É a forma primitiva através da qual o sujeito que odeia a si mesmo busca validar-se. Como é impossível identificar o valor de si mesmo, é através da deterioração do seu semelhante, que ele se exalta.
Nessa estrutura, a vulnerabilidade deve, a todo custo, ser afastada. A vergonha é o pior dos pecados. O orgulho e a tentativa de controle da imagem provocada são os mecanismos de estabilização da identidade, na ausência de qualquer coisa mais sólida que a segure. Na verdade, o que impera no centro dessa dinâmica é o caos e o desespero. E o medo. O medo que tudo desmorone e a fragilidade seja exposta, já que ela é tudo o que existe.

Existem tentativas menos agressivas de estabilização da identidade, para aqueles que não se sentem seguros o suficiente. A busca pela validação do outro ou de um público incerto através da construção de uma imagem desejável é uma delas. É uma saída que oprime o próprio sujeito, ao invés de um terceiro. Ela requer uma manutenção constante da imagem projetada, seja através da ostentação material, física ou intelectual. É uma tentativa de auto-atribuição do valor através da agregação de qualidades consideradas desejáveis pelo meio social. Na verdade, ela só existe porque o sujeito não acredita possuir um valor intrínseco.
Ela nunca acaba. As conquistas possuem o efeito de aliviar, mas nunca preencher o vazio da autoestima. Por isso é necessário buscar sempre mais.

Apenas a clareza sobre essas dinâmicas, necessidades e sobre a dor fundamental é capaz de tranquilizar a mente. Não de eliminar a necessidade, mas ao menos fornecer uma visão clara sobre a razão do que fazemos e porque. Com essa clareza é possível tentar alinhar ações, sentimentos e pensamentos, buscando uma coerência interna e externa que traga alguma estabilidade, ainda que em meio ao caos. Ao elaborar uma estrutura interna de forma consciente, o sujeito pode retomar um pouco da sensação de controle - não sobre o outro, não sobre a percepção alheia em relação a si mesmo, mas sim sobre o seu próprio eu.

O desafio é mais difícil, mas não impossível, para quem não foi amado por uma pessoa. Quem não nasceu e cresceu em um ambiente de amor, pode aprender a nutri-lo em uma concepção mais ampla: amor por uma causa, um sonho, uma forma de viver. Amor por uma atividade, por um ofício, por um objetivo. Amor como elo de ligação que dá sentido e estrutura pertencimento. Esse é o eixo existencialmente estruturante, capaz de atribuir sentido e dar solidez.

E por fim, é preciso lembrar que não podemos ser otimistas a ponto de pensar no ódio apenas como um produto do terreno do desamor. O ódio também é alimentado por fatores externos, movimentos coletivos mentais, pelo contexto social, pela violência simbólica e estrutural infundida por macroestruturas que alimentam-se e lucram com a perpetuação sistêmica do ódio, que constroem simbolismos e o associam a necessidades básicas e primitivas, usurpando mentes que, por vezes, conheceram o amor, mas são ensinadas a desconhecê-lo.

E além disso, há o ódio que vem da maldade humana, que também é capaz de coisas que parecem inconcebíveis ou que tentamos justificar por um contexto de escassez, mas que devemos, à bem da justiça da realidade, admitir que existem, também, como um fenômeno autônomo e sem explicação.

Confiança - Clareza - Coerência - Coragem - Vulnerabilidade - Gentileza - Empatia

Controle - Vergonha - Insegurança - Necessidade - Medo - Violência - Fragilidade

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Performática

Transitando entre mundos, entre extremos
Tomando decisões.
Porque eu sempre fui assim: performática.
Inventando ao outro e me distorcendo
Mentindo na cara dura.
Que eu era fria, que era ácida, que era dura.
Quando na verdade era pura doçura
Era pura.
Agora, eu não sei
Possivelmente vivo pela mesma lei.
Mas prefiro buscar a coerência
É na minha verdade interna que está a potência.
Atestar a fragilidade do outro
Degustar a levianidade de sua opinião
Me deu uma certa liberdade
Um reencontro comigo mesma
Ou o primeiro encontro da vida, talvez.
Para mim, que sempre fui performática
E me vi tornar a imagem emblemática
Agora sem esforço, encrustada na mente alheia
Com uma simbologia tão mística quanto zombeteira
Justamente quando não me importo mais
Consegui ser o que sempre quis.
Agora quero outra coisa
Que não está dentro de ninguém além de mim
Agora, estou voltando para a casa
Agora a performance tem fim.

I couldn't help be bored. Guess it can be stressfull to be adored.

-Eu sou a pessoa mais entediante.
Respondeu ela. Sorriso gentil, vazio.
Ele não podia acreditar.
Não tinha nada, nem aquela afirmação, que soasse entediante.
Mas existia um mundo interno que ele não conhecia, do qual não se aproximava.
A sombra de um rosto, sob o rosto.
Sob a camada de loucura, selvageria, sensualidade e impulsividade.
Havia a camada do sorriso oco, riso seco, gentileza vazia. Vácuo.
E atrás disso, havia outra coisa mais.
Seria talvez o tédio?
As pessoas confundiam com mistério.

Ela observou, curiosidade e previsibilidade.
Sentia a vida escorrendo pelas próprias veias, a textura do lençol tocando a pele. O suor, o gosto, o cheiro.
A experiência que seu paladar tocava, apreciava. Extraía em uma operação extrema, detalhista.
Cavando um poço em busca de um mineral precioso.
Encontrando o oco do espelho. O escuro. O reflexo. O vazio.

O grito mudo desperado no subtexto da sua beleza.

E ao mesmo tempo, a segurança da invulnerabilidade.

A verdade, ao ser dita, diz que ela gostava do poder. E o tinha.
É engraçado que não costumasse a escrever sobre isso.
Tão afeita às coisas frágeis e sua descrição.
À expressar, com clareza, sua própria vulnerabilidade.

Nem parecia que sabia que era aquela mulher.
Aquela que controlava o ambiente com um mínimo gesto.
Que gerava modulação na corrente de ar com o ensaio de um movimento.
Ela sentia o poder fluir dela como um curso natural na maior parte dos ambientes.
Quando ela sorria, eles sorriam.
Quando elogiava, eles choravam.
Acessava o íntimo das pessoas com a naturalidade de quem opera um mecanismo conhecido.
Olhar distraído e preciso.
E gostava.
Saber que fascinava era um gentil elogio. Mas que também a entediava.
Era tão fácil. Tão... natural.
Separar a parte pura do ser animal.
No final das contas, todo mundo era igual.

2026 (os anos novos)

Há dois anos eu estava em frangalhos.
Tudo estava se despedaçando, o chão sob meus pés.
Eu sentia toda a dor excruciante do abandono e indiferença. Sentia uma fome vital de recuperar minha mente, caos. Quando minhas tentativas de sobreviver mentalmente falharam, me senti em desespero. Aquela dor que aperta o peito, excruciante. Você não sabe mais onde vai caber tanta dor. Foi assim meu início de 2024.

Há um ano eu estava do outro lado do mundo. E ainda assim, eu estava sentindo dor.
Depois de achar que tinha superado, me reinventado, estava em outro espiral tão parecido, tão igual. Esperando por alguém. Uma mensagem, um sinal de atenção. Colocando em um estranho minha autoafirmação.
Eu estava, ironicamente, sozinha na multidão. Na forma mais glamourizada que já vivi de solidão.

Hoje eu estou sólida. Não estou exultante, mas estou minha, estou sóbria.
Me sinto vigilante. Coerente, satisfeita. Fazendo planos sem desespero. Questionando os impulsos da minha própria mente.
Estou em um lugar seguro e calmo pela primeira vez em tanto tempo.
Estou quase surpresa ao comparar o hoje com o passado, esses dias atuais, que pareciam tão banais. E descobrir que estou em paz.
Olhar para os anos atrás de mim, e ver como, com tanta dificuldade, atravessei as armadilhas repetitivas da minha mente e do desespero em busca do outro.
Estou presente. Estou contente.
Feliz ano novo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Luz sobre os pensamentos (I)

Recentemente eu li que os fatos não geram efeitos emocionais em nós, por si mesmos. O que gera efeitos são as histórias que contamos sobre os fatos, as narrativas nas quais os enquadramos.
É um pensamento poderoso que sugere poder de escolha sobre a perspectiva que podemos adotar. Pensar assim faz eu me sentir um pouco mais poderosa, um pouco mais criadora de mundos. Menos refém de histórias nas quais eu já estou viciada em acreditar.
A questão da narrativa é importante porque por toda a minha vida – desde que eu possa me lembrar – eu me confrontei com a dificuldade entre separar a minha autoimagem e aquela imagem projetada de mim no olhar dos outros. Sempre me vi dependente da interpretação daquela imagem e convencida pelas histórias que ela me contava. É possível que estivesse, inclusive, errada, sobre ela. Eu não sei. Foi já no meio da vida adulta que vi esse conflito tomar forma, organizando-se ao redor de uma mesma dualidade: a leveza e o peso.
À leveza eu associei o amor, ainda que sem perceber. Ser amada por ser leve, espontânea, fácil de lidar e aceitar. Despreocupada e até mesmo inconsequente. Diluída por uma ausência de rigidez que torna qualquer pessoa agradável e fácil de se conviver: amável. – Essa é a história que eu criei sobre a leveza e que revisitei diversas vezes, no objetivo de me machucar. Isso porque eu sempre me senti presa no outro extremo oposto: eu não sei bem se devido a uma autopercepção ou imagem projetada dos outros. Novamente, distingui-las é uma dificuldade minha.
Mas comigo sempre houve – ou desde que posso me lembrar – algum peso. Só no peso eu fui capaz de expressar meu amor. Na atenção constante, rígida e consistente. Na responsabilidade e estabilidade. Que eu me tornei uma pessoa permeada por esses significados consigo afirmar com maior clareza, porque isso é atestado por minhas relações. A capacidade de resolver problemas e a segurança de estar presente são qualidades que fazem de mim um porto seguro. Mas que não me dão, de jeito nenhum, leveza. São qualidades relacionadas ao controle e à atenção aos detalhes. À cobrança, ao compromisso e pontualidade. Nenhuma dessas é característica de uma pessoa leve e a todas elas eu associei, por muito tempo, não ser amada. Eu sempre me senti muito útil, mas pouco desejável. Capaz de dizer a palavra certa, mas com pouca vocação para provocar o riso espontâneo.
Não sei se minha inclinação para a retidão se deu parcial, ou totalmente, à minha obsessão por obter a perfeição em todas as minhas atividades – inclusive as interrelacionais. São coisas que hoje eu vejo que estão relacionadas com a necessidade de ser amada a partir da ação, o que é contraditório, já que ser assim fez eu me sentir pouco amável. Mas sim, era isso que eu queria: Fazer por merecer ser amada através de atitudes de excelência. Merecer. Coisas que não existem, eu sei. Hoje eu sei. Eu também me perguntei porque, apesar de ser tão útil, tão confiável, eu não fui amada. Enquanto outras, por serem o exato oposto, foram. Eu vi uma injustiça nisso e me indignei. Vi um erro. Mas não existe erro. Existem apenas as coisas. E o amor é uma projeção – existem apenas pessoas e as coisas que elas querem ou podem suportar.
O que eu concluí com isso eu não sei exatamente. Apenas que eu estava desejando as coisas erradas do jeito errado. Que eu lamentei as coisas erradas. E que eu, insistentemente, tentei enfiar narrativas e histórias para tornar as coisas todas mais suportáveis. Mas eu não vejo mais graça em transformar as coisas no que elas não são. Não adianta construir fantasmas e alimentar idealizações. As coisas que eu procuro não estão fora, nessas respostas, ou em um reparo de mim mesma.
Talvez o que eu possa concluir, se é que posso, é que não tem absolutamente nada de errado em ser quem eu sou. Que eu não sou melhor ou pior que ninguém, então não adianta eu tentar comparar e intuir os defeitos escondidos dos outros. Que eu preciso parar de olhar para os outros e alimentar meu mundo interior, em busca de uma vida mais tranquila e consciente. Determinar as coisas que são importantes para mim, permitindo que sejam elásticas e flexíveis, e vive-las.
Não é tão fácil assim, não é nenhum pouco fácil assim. Eu vejo a imagem do que não sou e que, a meu ver, mereceu amor, e eu ainda torço pelos defeitos ocultos que me elevem diante de sua falha. Mas eu não quero mais sentir isso então eu posso começar parando de alimentar.
Afinal, eu também li que pensamentos são como seres vivos: crescem quando alimentados, morrem de inanição, quando privados. A saída não é bloquear com placas imaginárias de “pare”, fazer estratégias mentais de fuga desesperada. Vou encher minha mente de reflexões mais sinceras e profundas sobre os motivos das coisas. Afinal, sim, eu penso demais, eu sempre pensei demais e sim, todo mundo já me disse isso.
E eu não vou mudar.
Eu não preciso mudar quem eu sou.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Intermezzo: sobre as coisas frágeis belas, e também as repulsivas (Ou: quando eu descobri que sou Linda)

As pessoas escutam meus conselhos. Elas os seguem.
Eu acho que não deveriam. Não com tamanha disciplina.
Eu sou uma viciada em coisas. Em álcool, passado e prazeres passageiros. E nós sabemos que não devemos, por princípio, escutar viciados.
Mas elas não sabem. Então elas seguem.
Elas se apoiam em algumas premissas básicas para fazê-lo: que eu sou sábia, sensata e bela.
Elas não estão erradas em suas percepções. Eu sou, de fato, capaz das maiores sensatezes. De empatia. A portadora da responsabilidade. Eu não as engano, não as desminto: eu sou essas coisas. Mas sou outras também, outras coisas. Sou o excesso, o impulso, o vício. A obsessão e repetição. Sou o caos ilógico, logo eu, que amo a lógica. Sou o intermezzo, se é que essa palavra existe em português. Mas eu sou.
Algumas pessoas sabem todas as coisas que eu sou, poucas pessoas. Como os homens com quem me relacionei. Eles me viram beber demais, falar demais, brigar e chorar demais. Depois beijar e intensificar, tudo. Todos os homens que me amaram disseram que eu os levava do céu ao inferno em um minuto.
Com todos eles, eu tive, em algum momento, o seguinte diálogo:
-Você tem que entender que eu não sou perfeita.
Ao que eles responderam:
-Eu sei bem disso.
O que me ofendeu profundamente.
A maior parte das pessoas acha que eu sou perfeita.
Eu recebo comentários de estranhos, semidesconhecidos: ela é bonita, inteligente e gentil. Como não é perfeita?
Esses homens, esses que não me achavam perfeita, hoje eu vejo que eles tinham inveja de mim.
É evidente que eu não sou perfeita, mas hoje eu vejo, eu vejo claramente: todos os homens que eu amei tiveram inveja de mim.
Parece prepotente, mas é simples assim.
Pequenas competições cotidianas. Cuidados diários com seu ego frágil e sua ausência de realizações. Camuflar meu próprio sucesso, minha própria beleza.
Os homens são assim: as coisas mais frágeis.
E todas as coisas, por óbvio, todas as pessoas - e isso eu tenho dito em repetição - são frágeis. Sendo eu um belo exemplo delas, tão frágil que sou cristalina.
Mas os homens são frágeis de um jeito diferente, eu procuro outras palavras em meu cérebro, mas o que me vem é: de um jeito patético.
Uma fragilidade com ego, que precisa da constante submissão do outro. A fragilidade que se apoia em violência. Minha empatia não alcança todo esse fracasso, toda essa ausência.
E assim eram eles: uma sequência de homens frágeis, meus mil anéis de prata: sempre alegando minha imperfeição, como uma vitoriosa descoberta.
-Então ela não é tão superior assim, tão adorável assim, ela não é perfeita. Então ela não é límpida.
Eu sempre percebi o exato momento: o misto de descoberta e vitória. Me tirar do meu altar, me descer de patamar. Descobrir meu erro e incoerência sempre foi para eles uma potência, nunca um motivo a mais para me amar.
Todos eles sempre se regozijaram em meus defeitos, o gozo que é a antítese da empatia. Sempre se elevaram diante meus erros, e preencheram minha tristeza com sua folia.
É por isso que me ver pelos olhos dos homens é um exercício perigoso: por trás de sua fragilidade, apatia.
Que engraçado.
Todas as mulheres que conhecem meus mais profundos defeitos - o vício, a raiva, a incoerência - nunca me disseram que eu não sou perfeita - ainda que eu não seja.
Nunca me disseram que eu não sou límpida.
Ao contrário.
Todas elas sempre me fizeram sentir-me linda.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Lembranças anônimas (I love it when feelings make me feel human again.)

Fechar os olhos e deixar que esses sons entrem, dançando, como antigos conhecidos, em minha mente.
Balancem meu coração. Marejem meus olhos.
A inocência daqueles sonhos, daqueles anos. Daqueles fulgazes encontros. Dos destruidores desencontros.
A sensação de sentir. De ter vontade. De embriagar-se de sensações.
Eu toco com os dedos da minha mente em cada uma daquelas recordações, alforriadas de suas circunstâncias.
Os sentimentos meus, tão meus. Criados e cultivados por minha mente gentil, pura e cheia de possibilidades.

Eu não sei se ainda existe
A chance de um retorno a esse ponto.
Duvidar seria talvez
Mais ingenuidade ainda do que tê-lo vivido.

Querer.
Querer mais.
Ter e, ainda assim, querer.
Misturar-se nas cores e texturas do mundo feito pelo encontro.
Onde realidade e projeção misturam-se sem limites
E a ausência de limites é só um detalhe.

São essas as formas de descrever
Aqueles sentimentos aos quais eu só tenho acesso
Através de lembranças anônimas.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Conversa de fim de linha

-Você sente saudade? É saudade este sentimento?
-O tempo passou e eu me tornei assim. Antiga e desperta. O suficiente para entender que não há do que sentir saudade. Para reconhecer a natureza das minhas criações. Ver minhas lembranças pelo que são: sublimes criações. Meus momentos de paixão, entrega, euforia: maravilhosa construção de fantasia. A unilateralidade inevitável das coisas.
Eu estou desperta o suficiente para não conseguir entrar na simulação. Para ver através das camadas, mesmo que eu ponha vendas em meus olhos.
Eu não posso ter saudade de coisas que eu mesma criei. Mas não carrego mais a ignorância necessária para continuar a criá-las. Eu juro, eu penso, eu tentei. Mas minhas fichas mágicas finalmente acabaram.
Há tranquilidade nessa descoberta. Pé no chão: é assim que é estar desperta.
Mas há algo parecido com vazio. Não é exatamente frio, apenas realização.

-O que você vai fazer agora, então? A vida inteira você se preencheu de coisas irreais. Deliciosas demais. Agora delas você não tem mais nem a lembrança.
-Eu não sei. Talvez, quem sabe, eu gere uma criança. Se esse mundo não fosse tão destinado ao fracasso, esse seria um futuro válido para meu cansaço. Eu não vou mais encontrar realidade em nada além de vida. E de vidas vazias, bom, eu já estou preenchida.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

If nothing stays forever, who laughs next?

Eu planejo a minha partida dessa cidade, dessa vida, de mim mesma.
Planejo silenciosamente e penso que 33 anos talvez seja uma boa idade para ressuscitar.
Eu vejo diante de mim um objetivo claro agora - Sei que chegou a hora. Vejo o destino para onde minha mente se direciona: É hora de ir embora.

Nessa cidade vivi todas as coisas que ela podia me oferecer. Os mesmos rostos que me fizeram sorrir são os mesmos que quero esquecer. Não tenho mais nenhuma intenção que me ligue às raízes desse sertão. Não tenho mais vergonha ou receio de fazer esta declaração.

Eu vou para um lugar onde posso ser estranha e desconhecida. Vou concretizar meus desejos de mistério, de brotar uma segunda vida. Vou em busca da minha personalidade verdadeira, da liberdade de estar sozinha. Vou embora. Não volto. Sorrio com a expectativa.

Vou viver uma vida nova, em que eu finalmente seja eu mesma. Não pretendo me reinventar, só me livrar do que me mantém presa. Não lamento a partida, não sinto nem a sombra da despedida. A menina que amava o passado - feita de histórias e nostalgia - fica para trás agora. Junto com meus ressentimentos, com as lembranças, e os lamentos. Tudo escorre com o passar das horas. Tudo deixo e vou embora.

Meus planos estão traçados. O futuro me energiza. Vivo como se aqui já fosse o passado. Contando os minutos para essa nova vida.

I'm gonna leave that city far behind and get a long, long way from there

Quando eu estou triste, não quero conversar com ninguém.
Eu ando triste esses dias. Não sei se é só cansaço.
Paro e me vejo perguntando se eu sou mesmo parecida com o que acham todas as pessoas que não me amaram.
Todas essas pessoas que, de algum modo, agora parecem ser felizes.

Se é verdade que eu não sou livre o suficiente, solta o suficiente. Perfeitamente misturada com a matéria vaporosa ao meu redor. Como um confete do ambiente. Um riso fácil.

Eu acho que, de fato, eu não sou assim.
Eu tenho uma sombra escura no coração, que me aperta por todas as dores vividas. Eu sinto ressentimento, rancor e até ódio. Por todas as vezes que não me protegi. Minhas fantasias são cenários obscuros e não reluzentes. E os momentos em que eu me sinto mais feliz - aquela felicidade plena e tranquila, como um líquido denso e delicioso - são quando estou sozinha.

Eu gostaria, de verdade, de me livrar de todo o ressentimento. De me libertar da ferida da não aceitação. De não me importar - faz tanto sentido racionalmente, por que não posso me sentir assim?
Gostaria de ignorar o fato de que as melhores coisas em mim já foram - e talvez não só uma vez - banalizadas ao limite do descarte.

Às vezes eu sinto que possuo coisas preciosas. Puras e misteriosas. Que em meu jeito, possuo uma beleza única e particular. Mas hoje simplesmente não é um desses dias. Talvez eu só esteja cansada.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Animais de pelúcia (Sobre homens que odeiam as mulheres)

Annie era ruiva, escocesa. Olhos castanhos, grandes, suaves e desejosos.
Era uma transeunte, flanando por banalidades em busca do que lhe preenchesse.
Buscava algo que lhe calasse o vazio. Procurava nos lugares mais obscuros, nos olhos mais frios, em braços inseguros. - Até que o viu.
Mr. K.
Com seus olhos azuis, falou a melodia da necessidade e angústia. Notas doces derramavam de seus lábios cor de fúcsia.
Falava em seu ouvido, e de repente, lhe parecia ser o abrigo que respondia à sua busca.
Enchia o buraco no estômago de Annie com espuma.
Mais e mais espuma.

De longe, eu observo, como quem conhece o roteiro antigo.
Murmuro uma antiga balada, a memória de uma canção triste.
Sobre a morte de um sentimento, sobre a perda da inocência.
De cima desses prédios, sob a noite iluminada pelas luzes amarelas. Sob a geada cortante, o som de gemidos e alegrias vazias.
Sob o tom de mistério, que de novo não tem nada.

Observo quase triste os olhos de Annie derretidos em chocolate.
A essa altura, já parecia uma pelúcia estufada. A expressão de Mr. K, sentimento algum entregava. De seus lábios experientes, toda palavra é calculada.

Em dias de suor, prazer e cor. Cada momento arma o cenário, para o início de uma nova dor.
Quando o cerco está feito, o plantio realizado.
É hora de Mr. K, regozijar-se de seu prato.
A remoção estratégica: Linguagem, presença, afeto.
Retiradas mais que cirúrgicas, só não esperava deixar um feto.
Quando soube da novidade, sua máscara já desgastada... Partiu-se em mil pedaços. Ao Mr. K que conhecera, já em nada se assemelhava...

Onde estavam os olhos azuis ternos? A mão macia que lhe tocara? As palavras, juras, promessas? O ideal que se realizava?
Annie não podia crer, quando sua barriga ele cortava, e arrancava cada uma das espumas, que em seu vazio lhe estufara.

A retirada já não era estratégica. Tornara-se fria e implacável. Nada ficaria sobrando em Annie, que atestasse aquele laço.
Agora ele lhe negava três vezes: Sequer seu nome ele ratificava.
Para ele, era só mais um urso de pelúcia, cuja espuma ele emprestara.
Com quem brincara de teatro: Marido e mulher, fantasiara.
Até tornar-se muito real: era hora de bater em retirada.

Todo o desenrolar tão previsível. Me fizera quase verter uma lágrima. Enquanto via os fios de Annie, de um fogo vivo tornarem-se lava.
Seus olhos castanhos vivos, perderem a chama e derramarem...
Gotas de amargor vazio, sobre a nova vida que ela gerava.

Ao passo que do outro lado, a muralha de gelo se perpetuava.
E Mr. K oferecia
Mais um punhado de espuma
Para uma nova desavisada.

sábado, 7 de junho de 2025

These things you want. They are so empty. You are so empty. You don't even look like a real person.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Overlay

You have thick hair
And a wicked mind
I couldn't grasp who you was back then
When you seemed so kind.

Your overlays scary me then
Time over time
I couldn't face you, couldn't fake you, are you
one of a kind?

You looked like an angel when you smile
I now find pleasure in getting lost in your lies
Couldn't understand when you looked at me
Humor in your eyes

Thought you could pass as just insecure
Thought you were true, thought you were pure
Now that i know i mistaken you at all
I adore you.

Now i see a glimpse of your true self
Playing your games, doing your ways
Now that i see you have all the control
I can't let you go

Think about you when i try to sleep
When i seek some rest
Retracing every mistake i did
As if i could change it

I try to solve you like a puzzle
As if i could use you
I wish i could take hold of you but i like it
I love the unusual

You became a ghost in my mind
A welcomed nightmare
I can't look at any other glance right now
Without seing you stare

On the other side you remained unbothered
Cold and adored
I wish i could mess up with your mind
As you did with mine
But i just want you more.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Ode à rainha

Lendo sem muitas surpresas aquele livro antigo, eu percebo que me tornei uma versão aprimorada do que eu idealizei. Decadente e virtuosa, em medidas perfeitamente proporcionais o suficiente para garantir a admiração e a ironia da situação. Sim, é verdade. Eu estou agora vivendo meu auge. Eu consigo sentir em meu rosto, agora tão mais macio, a gentileza do elogio. A admiração que desperto, os sorrisos de imerecido afeto. O reconhecimento desperto. Eu consigo sentir tudo isso de perto. Me sentir bonita é inevitável quando os olhos abrem-se assim e as palavras jorram como rios sem um escoamento. De outro lado, o riso interno. A verdade conhecida por poucos. Que sou uma low-key alcóolotra, sleep-deprived workaholic, uma junkie. Que gosto de coisas estranhas, tenho um humor estranho, adoro pessoas estranhas. E tudo isso distancia os dois mundos, tornando ambos banais. Meramente instrumentais. Me distancio e saio. Muto e mudo, vou de um a outro, a meu bel prazer. E nos dois chego portando segredos, desfrutando dos meus disfarces. A rainha dos meus mundos. É nesse ponto que estamos, eu não sinto nada, que não esteja em meu poder.

domingo, 18 de maio de 2025

What do they know, anyway, you read it in a book. (Fox in the snow)

Música, solidão, álcool. Um gole de sentimento genuíno, dança, sorrisos estranhos, sombrios, solitários. Eu me sinto eu mesma assim, eu volto pra casa dentro de mim. Eu fecho os olhos, sorrio, lembro de sensações, choro. Sinto. Lembro de como é sentir pela primeira vez. Entre melancolia e alívio, sei que nunca mais terei aquelas novas antigas sensações. Tenho outras, porém. Confiança, solidez. Uma genuína e gentil apreciação pela síntese de tudo o que me aconteceu. Extrair o belo da dor, extrair a ternura da dor. Extrair da dor - que tanto me corroeu e agora é uma lembrança. Extrair da inocência e da ingenuidade a delícia das primeiras e segundas sensações. Ser transportada para lá e por um momento me sentir livre e louca e eu. Sem observadores. Sem uma câmera, uma companhia, uma validação. Apenas eu e essa sensação que me escorre pelos cabelos, pelos pelos, pelos sentidos. Essa sensação de eu, e que eu gosto. Eu gosto. Eu acho que posso estar começando a me amar.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

You want me to transgress when I’m on my Sunday best

Adoras meu pescoço fino
Tão fino
Frágil
Uma quebradiça de distância de teu desatino
Corromper esse corpo limpo
Tão limpo
Pálido e perfeito, “feito artesanalmente”. Tão sutil e raro. Tão pálido. Todas as fantasias de seu imaginário.
Você quer minha submissão. A fantasia máxima: uma mulher poderosa em adoração.
Cabeça empurrada contra a cama, devoção.
Tudo o que é necessário para um ego frágil em construção.
Eu lido bem com tudo isso.
Chamo pequenas encenações de compromisso.
Amo fazer-te querer, necessitar, o enlaço promíscuo
Resultado finalístico de nossas obsessões.
Eu me sinto vazia enquanto faço isso.
Enquanto preencho teu querer promíscuo.
E me confundo com o que finjo, arrisco
Satisfazer tuas criações.
Eu me confundo com teu martírio
Minha força se torna um querer submisso
Me submeto pelo bem de tuas idealizações.
Eu vou além, um pouco mais disso. Mordo meu lábio, o sangue é arisco. Vou mais e mais, busco a última das retaliações.
Enquanto tu desejas, eu raciocínio. Minha oferenda, teu desatino. Te dou em doses calculadas o que tu chama de emoções.
Nada é real, tudo é preciso. O que eu entrego é o que necessito. Para ser desejada te construo castelos de ilusões;
Nada é real, tudo é um grito. De desespero, carinho omisso. O que tu procuras é tua própria aceitação.
Minha submissão: um prêmio raro. Em minhas mãos, o poder do não.
O administro com pouco talento.
Quero vencer, é verdade, eu tento.
Mas sou tão frágil quanto você: cheia de limitações.
Um homem tão patético e lento. Autoestima aos frangalhos, a vida um lamento. Infância e ressentimento: uma personalidade vazia, preenchida de distrações. Seu sonho é dominar algo poderoso, através da fome e de seu dorso, domar a força e se tornar algo digno de admiração. Eu, do meu lado, tenho tudo: a faca, o queijo e o escudo. Mas também tenho meu absurdo: com tanto poder, minha fragilidade cheia de hesitação.
Não consigo dominar o seu impulso. Ainda, mas sei o método. Aguarde silenciosamente e quieto. Vou devorar suas intenções.

sábado, 5 de abril de 2025

Brilho eterno de uma mente sem lembranças - A consumação

Silêncio. Um zumbido no ouvido e uma imagem imprecisa na mente. De repente, tudo é vácuo. Muito, muito tempo atrás... Uma risada alta... Ou seria um choro?
-O que você está pensando?
Corta para a realidade. Ela pisca duas vezes e dá um sorriso frouxo, levemente confuso.
-Nada não, estava lembrando de algo.
Repete o sorriso e continua a focar na estrada, sob o olhar desconfiado de sua companhia.
Era uma mentira parcial. Não estava lembrando bem de nada ultimamente.
Algumas coisas estavam acontecendo com a sua memória nos últimos anos. Não sabia distinguir realidade de sonhos às vezes.
Principalmente quando bebia e dormia em seguida. E outras coisas... Bom, outras coisas estavam sumindo.
A memória, que sempre foi sua aliada e opositora, começava a apresentar seus primeiros sinais de declínio.
Sentia a clareza das cenas diluindo-se na confusão e na dúvida. Será que foi naquele lugar? Será que foi aquela pessoa?
Era confuso, porque as memórias sempre vieram carregadas de sensações. Tudo encerrara-se no presente, mas o passado guardava aqueles tesouros da mente: as sensações. Era onde ela passeava às vezes, revisitando os túmulos de sentimentos que seu eu atual já não era capaz de sentir. Mas cuja sensação lembrava, devido ao passado.
Se estreitasse bem os olhos, se os fechasse. Se fizesse um esforço, se estivesse silêncio, as imagens voltavam. Voltava o suave raio solar refletido no olhar castanho de alguém que um dia amou. Voltava a sensação de euforia e aventura de correr por ruas noturnas e desconhecidas com um empolgante estranho. Voltava um dia nublado, em que o cheiro de alguém se tornava inesquecível e o ambiente parecia perder todo o ar. Voltava o rebuliço no estômago e a visão turva do exato momento de apaixonar-se. Voltava uma risada alta em frente ao rio, ao lado da companhia de uma amiga, que hoje lhe era uma estranha. Ou fechar os olhos e sentir o calor do sol, fazendo padrões imprecisos através de suas pálpebras fechadas, enquanto sentia o frio do chão na casa de um parente que já partiu. As sensações novas, as fortes, as inesperadas e envolventes. E aquelas não tão novas, mas persistentes, aquelas que lhe faziam se sentir gente. Aquelas que tinha cada vez menos. Essas coisas simples, sagradas e misteriosas que só atingem uma parte da vida, essas coisas estavam guardadas em pedaços de passado, que cada vez eram mais raros.
Através dessas janelas, ela visitava seu eu antigo. Sua inocência, sua energia, sua disposição para o amor. E como amara, se aventurara, como sentira intensamente cada momento de alegria e desespero. Como sofrera, se despedaçara, sentira a dor e a frustração apoderarem-se de suas veias, fazendo caminhos líquidos dentro de seu corpo, fundindo-se ao seu sangue e coagulando sua vontade de viver. Sentira tudo e do seu próprio jeito, sempre mais.
Até que, sem o menor aviso, passou a sentir menos.
Cada vez mais esforço para recobrar aquela disposição ao sentimento. Cada vez os olhos se estreitam mais para lembrar. Em especial, para sentir. Os cenários belos, oníricos e objetivamente estimulantes agora não lhe inspiravam mais. Precisava aguçar todos os sentidos para que seu olfato resgatasse o cheiro de uma sensação. Suas mãos, menos macias, faziam uma maior pressão para que o toque as sensibilizasse.
Seria novamente a ilusão da indiferença? Aquela potente arma contra a mágoa?
Ou será que...
Será que agora era verdade?

domingo, 16 de março de 2025

Autoimagem

Miriam estava impressionada. Fascinada até. Miriam estava encantada.
Surpresa, pega de improviso.
Não, ela não estava inerte. Muito menos entediada.
Miriam nunca foi boa nisso.

Visitando aquele museu de grandes e pequenas declamações.
Sentimentos derramados, mais palavras que ações.
Era impressionante reconhecer-se nas delicadas e inocentes confissões.
Não foi ontem nem semana passada.
Aquele sentimento cru e familiar foi talhado pela sua versão que pensara superada.

O que podia concluir, era que sempre fora exatamente a mesma:
Sonhando com uma frieza da qual nunca foi capaz, tentativas de fugir de sua fragilidade, coração na carne viva, medo e necessidade.
Explosão e ousadia.
Desespero por alguma magia.
Vontade e sinceridade.
Tantas coisas entregues de graça.
É verdade, o mundo era cruel. Mas isso ela já esperava.
Não imaginava que se machucaria tanto, mas alguma turbulência já esperava.

O que mudou, pensava? No que cresceu?
Talvez reconhecer sua própria fragilidade seja o mais revolucionário que lhe aconteceu.
Não era fria nem indiferente.
Não sabia tratar mal nenhuma gente.
Nem mesmo aquelas que mereciam.

Em sua fantasia, era a mulher de unhas longas e lábios vermelhos.
Pele de cristal, gélida e brutal.
Fazendo coisas só pela diversão.
E sentia. É verdade, reconhecia a euforia.
A fluidez do poder que atravessava seus nervos, em cada momento de lucidez.

Sentia-se potente, às vezes.
Quando lhe passava a correta corrente.
Sentia eletricidade e vontade.
Quando encontrava a perfeita liberdade.
Mas isso não era sempre, era quase uma realidade.
Quando alguém lhe prendia a mente, nas rédeas de sua fragilidade: tudo voltava a ser doente, a lhe causar ansiedade.
Obsessão e ciclos repetitivos.
Dificuldade de ser seu próprio abrigo.
Limites turvos, imprecisos.
Eram seu maior desafio, mas não eram seu destino.

Vinha lutando e mudando, muito pouco lentamente.
Mas agora os via e tocava, sabia de sua natureza de gente que sente.
Miriam estava impressionada.
Tão pouco mudara daquela menina.
Tanto vivera, tão forte sentira.
Será que ainda tinha muito a lhe surpreender assim na vida?
Miriam estava, de fato, impressionada.
Por mais que quisesse, ela nunca sabia ser entediada.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Chove na selva de luzes amarelas

-Você acha que as pessoas não mudam?
Eu perguntei.
Dei outro gole.
Observei.
Seus olhos afiaram-se como navalhas.
Azul vivo, dois raios rasgados.
-Não, as pessoas não mudam jamais.
Dei uma risada.
Estava tarde e eu cansada
Mas por que não prolongar um pouco mais?
Era de toda forma, um conto impossível,
Um romance noturno na cidade de luzes
Com um homem desprezível.
Mas quando foi que o impulso perdeu uma luta
Nesse meu coração invencível?
Eu sempre quero provar mais da fruta
Até minha língua sentir o amargo previsível.

Estava chovendo na cidade das luzes,
Onde toda noite é um fascinante mistério
Agora estou bem longe dessas ruas,
Na selva urbana onde o calor impera.
Não tenho mais nem tantas lembranças
Nem a sensação de amor.
Mas meus dedos lembram das frases
Proclamadas por meu opositor.

Olho uma lembrança de um passado recente
Há apenas poucos meses eu jurava
Que minha essência tornara-se diferente
A dor e a mágoa me enganavam
Me fazendo tornar-me uma descrente
Na inocência que o impulso provocara
Em toda minha vida, uma elétrica corrente.
Por um momento, me acreditei mudada.

Eu acreditei ter ficado fria
Achei ter perdido minha centelha
Que a ingenuidade se apagara
E minha visão se tornara certeira.
Tão racional como uma água,
Mais uma vez eu recriava
Toda uma nova forma de inocência.

É verdade, olhos rasgados
Eu ainda sou exatamente a mesma.
As ondas de mágoa não me mudaram
No máximo trouxeram experiência.
Se ela se será desperdiçada
Ou se tornará uma ferramenta
Vou deixar para o futuro
Se uma coisa aprendi
É não cravar certezas assim
Nem tentar prever as cartas
Ou confiar tanto em mim.

The Longing

Long eager arms
Aiming something unknown
A companionship without a face
A breath before the sea
An anccient taste.

I still gather in me
All the little shiny pieces
The untouched material
Desired and amazed.

Do i still long for something, do i ask
And my own answer is a loud Yes
I long for the feelings to be felt
In the most natural way
I long for the unexpected
In a regular sunny day
I long for feeling the thrill
And peace i don't need to chase
I long for resting with a smile
That comes naturally to my face.

I still have so many dreams
Even if i can't properly name them
But i feel it in my bones the chill
Of still wanting them to take me
To take me to somewhere new
When i can once again be a stranger
Explore the unexpected hills
Falling in love all over again.

I want to fall in love for every second
That time can still gently provide me
And be in awe with the unexpected
That gently visit me in this life.

terça-feira, 4 de março de 2025

Epitáfio de um amor doente

Eu preciso exorcizar a herança dos seus olhos azuis.
Sorrateiros, escorregadios, um breu onde não nasce luz.
Cheios de mentiras, lembranças ferinas, manchas vazias.
Eu preciso regurgitar toda a falta de lógica
De ainda pensar, obsessionar, com a mais oca das histórias.

Não sei o que é essa corrente, que ainda prende minha mente
Que ao fechar meus olhos, me faz sentir doente.
Consome minha memória, segura meus pensamentos.
Não me dá trégua nenhuma hora, insiste por fechamento.
Engole minha razão, me deixa sem resposta alguma
Não sei que magia lançou, mas a destruo até segunda.

Me livrei de todos os estímulos, já não vejo mais o seu rosto.
Não te olho mais nas redes, resisto a toda fonte de desgosto.
Mas minha memória me sabota, com generosidade de detalhes.
Seus olhos inexpressivos, o gosto de sua pele me arde.
Sua voz no prazer, seu gemido no meu ouvido.
Não consigo ainda esquecer. Eu tento, eu forço, mas não consigo.

Você é o maior dos inconsistentes.
Não há nada que me puxe em sua personalidade.
Seu caráter um lixo, sua mente tão doente. Nem nas mentiras tem criatividade.
Seu gosto é duvidoso, tudo que escolhe, meu exato desgosto.
Em você encontro reunidas todas as coisas que eu detesto,
E que me atraem como uma cintila, a versão de mim em que não presto.

Que me deixou te humilhar sem culpa. Jogar na sua cara sua incompetência.
E depois te ver rastejar dizendo que me ama. Me regozijar na sua incoerência.
Me atraio pelo seu esgoto, onde por um momento me misturo relaxada.
Mas depois sinto a ressaca pesar, sinto nojo. Preciso te expulsar da minha sala.

Para você dei coisas boas e também te enchi de loucuras ruins.
Debochei, te expulsei, te pisei. Depois te enforquei, dizendo que você era só para mim.
Seus olhos brilhavam diante da loucura, repetia como um boneco o que eu ordenava.
Por dentro, estava tudo estragado. Você é oposto do que é saudável.
Você talvez seja a última prova: a mistura de todos meus instintos doentes.
Com você vivi cada um deles, agora é hora de te exorcizar da minha mente.
Me despeço desse conto final, a última das minhas tentativas de autodestruição.
Com você vai minha atração pelo mal, minha tendência de ir sempre na contramão.

Na sua cova enterro tudo do que eu abdico:
A posse, a obsessão, a atração pelo doentio.
O riso seco, a mentira dupla, a vontade de dominar e destruir.
Nessa longa despedida, pego tudo que tenho de adoecido, e depois de ter vivido,
Finalmente deixo ir.
Com você, expulso a distância entre o que vivo
E vida que quero viver, com a paz que eu preciso
E o amor puro que sonho em ter.
Junto contigo, me despeço do resultado de todas as minhas feridas.
Causadas pelos traumas de abandono, pelo medo de ser esquecida.
Junto com você, olhos azuis vazios, abandono o vício por você e pela dor
E começo, então, uma nova vida.

Idiota raiz

Me surpreendo com sua notificação na minha tela
Numa noite em que de você mal me lembrei
Seu nome esquisito me pega de assalto
Quase esqueço o quanto por isso esperei.

Você diz que sente minha falta, pensa em mim o tempo todo.
Todas as coisas que eu queria ouvir enquanto rastejava no seu esgoto
Quando te pedia um pouco mais de carinho. "Dorme comigo essa noite, por gentileza."
A noite sempre foi o prenúncio da sua mais inesperada frieza.

E pra você, ouvidos mudos, o acordo não era esse.
O que está ao seu alcance nunca te despertou interesse.
Agora lembra de mim, um fantasma na sua mente.
Não consegue nem dormir, não importa o quanto tente.

As coisas que tínhamos juntos
Por si só tão interessantes
Desabafos estranhos e profundos,
Nossa vocação para amantes.
Só agora parece perceber
Que é tudo o que você sempre quis
Pena que é viciado em perder
Um completo idiota raiz.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

De repente não é mais tão divertido brincar de sofrer

Eu gosto do seu desprezo previsível
De como, do pedestal de sua mediocridade
Me faz sentir invisível.
Eu gosto do amargo do gosto
Do reciclado e cansado desgosto
Gosto, tento, digo que gosto
Mas quando percebo, surpresa, eu choro.

É verdade que eu sou insignificante?
Os dias passaram, o passado num instante.
Sou pouco mais que a poeira nos seus dias
Um fantasma esquecido em sua cidade fria
Sou uma coceira incômoda, não chego a um pensamento
Sou o ensaio de um lamento, nada que ocupe o seu tempo.

Você achar que eu te desprezo não é mais um consolo
Quando a resposta é seu prometido silêncio
Imploro que não fale, mas espero pelo seu rosto
Cada maldição que te lancei, o oposto de um sentimento.

Me pergunto como seu corpo treme
Quando com outra mulher sente prazer
Quero esmagar essa parte da minha mente
Que me faz refém do que quero esquecer

Tento me anestesiar com músicas, com torpeza
Quero esquecer todo resquício de beleza
Preciso me livrar da sequela do seu toque
Antes que isso vire saudade
Que me mate
Ou no mínimo
Que me sufoque.

Suffocated by emptiness

The last time we talked was Valentine's day
He went "It's such a shame we have to say goodbye this way."
So many things are such a shame, i wanted to say.
But i Just stood silent.
Solemn and controlled silence.
He said he would miss me, he would miss me a lot.
I miss only the days i thought he really did adore.
He has sly eyes. Slippery mind
I couldn't put up with any more of his lies
Feeling so tired all the fucking time.

If only i could rest
If you could just reset.
We could start over something new.
But even though he couldnt fight the lure
Not even once had he been truly real.

"This is the last time i'll talk to you", he promised
And i hoped he could this time keep It
How long will take me to cure this? I wondered
Maybe too long, maybe just a weekend.

How long till i give up the longing
And the each time blurrier memories dissapear
I Just wish you don't touch your phone
When It's again that time of the year.

I get drunk messages "i miss you"
From a random almost stranger
Everything i've ever wanted
Have always left me empty handed
Everytime i long for something
So hardly my longing could almost cry
I got that just for a moment
Then It ate me up and sucked me dry.

Yeah its true i'm so adored
Don't wanna play anymore with these men, so plain
Couldnt help but feeling bored
Don't wanna their lips on my feet, their dull complains
Game is not so much fun for me anymore
Guess it can be distressfull to be adored
When all things i want, i stubbornly wish for:
Sly blue eyes. Vícious smile
Desired empty prize
I can't obtain.

Feelings can creep in Just like that (a Junkie of the heart)

O que falar sobre ela?
É viciada em amar
Em jogar tudo pela janela Ou se jogar em alto mar
Em abandonar todas as rédeas
Em arriscar mais uma vez

Que beleza
Outro desfecho trágico sobre a mesa
Material para desabafo
De amor tosco enfadado
Choro de criança, abraço apertado
Sentimento ilhado
Morto-vivo, desperdiçado

Ela nunca colocou suas emoções no lugar certo
Sempre escolhendo os alvos mais controversos
E querendo por perto
Pedindo carinho
Um toque, um ninho
Todas as coisas que prometeu abandonar
Mas ela é, de fato, viciada em amar.

Ensaiando em sua mente adolescente mil declarações de amor
Desejando ardentemente a entrega que ninguém deu
Mas se perguntar se ela se arrepende
Um sorriso maroto surge
Um viciado nunca se desilude
E de amor ninguém nunca morreu.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Você fica me jogando fora como um pedaço de pano sujo

Eu tentei te deixar três vezes.
Fala de voz mansa. Estratégia tosca. Anos de experiência.
Fiz a tranquila, a sarcástica, a definitiva. Te dispensei como se não fosse nada
Tentei
Te remover da minha antessala.
Mas você com inesperada habilidade me dobrou
Me confundiu com sua voz suave, me iludiu com esse odor
Cítrico, macio e abraçável, me fez colar no seu braço e abraçar seu cachecol.
Não sei como fez, como logrou.
Me dissuadiu, vez por vez, diluindo meu fervor.
Eu tentei te deixar, tentei ser cruel, tentei ser má.
Você não se abala, porém. Mantém a postura tranquila, os olhos transparentes, fez de refém minha mente.
Ainda não consegui te deixar, mas você sabe, e eu também, que de novo vou tentar.

Pela quarta vez quis te deixar e você não deixou.
Te fiz sentir um pedaço de pano sujo - você me disse - e de nada adiantou.
Falei da lógica, da ausência, da falta, da raiva, falei de tudo
E no final, a seus olhos tranquilos, do que adiantou? De nada
Começo falando que nunca mais te vejo
Termino te ouvindo me chamar de namorada.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

I sure like the feeling of an endless road

A questão do sono sempre foi problemática para mim...

-Você não consegue mais distinguir? O que foi real ou não?

Tudo soa real para mim. Eu lembro de tudo e sinto tudo. - Olhos arregalados. -Eu fui construído pelas coisas que aconteceram em todos esses momentos, mesmo os que não aconteceram.


Eu não consigo lembrar...

-Você pode transformar uma lembrança em um sonho? Pegue-a com a sua mão, amasse-a. Ela só existe na sua mente, de repente não existe mais. Você pode torcer a realidade assim, revertendo a gravidade. Segurando o vento, pressionando sua força. Você pode inverter o tempo, você pode refazer todas as coisas.

Isso parece loucura. Parece o roteiro para enlouquecer.

Riso surpreso. Você acha que isso é algo que... ainda vai acontecer?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Transbordando de sentimentos (That's the kind of love i've been dreaming of)

Mais uma vez eu vou embora
Depois de plantar outro horizonte de memórias.
Vou embora depois de gargalhadas altas, de correr na chuva, de criar um pequeno lar, de experimentar ser tua.
Vou embora depois de brigar e te botar pra fora, de te sentir me empurrar contra a porta, de desejo e vontade, de ficar bem à vontade, de esquecer que eu vou embora.
Depois de beijos no elevador, de passeios em roda gigante. Depois de ficar bêbada e boba, de pegar briga e chorar num rompante.
Vou depois de aprender suas cicatrizes, de me acostumar com a textura dos seus cabelos, de cheirar seu pescoço mil vezes, de ansiar pelos seus zelos.
Vou embora, não volto. Finjo que sim, e que não te adoro.
Vou depois de ter te mentido, de ter partido, de ter voltado e te enlouquecido. De te deixar triste, sedento, com o dedo em riste, ciumento.
Depois de segurar tua mão enquanto passeamos, de ser pega de surpresa por teus beijos, de sentir teu toque na minha coxa, de ficar toda roxa, de carícias e de amor.
Vou embora depois de te amaldiçoar. De dizer que você nunca mais ia me tocar. E depois implorar de saudades para que um sussurro te chamasse. De sentir o coração acelerar de ansiedade, as mãos tremerem de ciúmes, de ficar louca e livre e, sobretudo, tua.
Vou e levo um turbilhão, não sei se cabe em meu coração. Vou embora com uma pequena vida vivida, que muito em breve será esquecida. Vou embora e você nem sabe.
A dor de quem fica ainda é desconhecida
Estou vivendo a de quem parte.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

It's all over now baby blue

Vejo o detalhe
A sutileza da ondulação
Que transforma o interesse em descaso
A fome em desatenção
A vontade de causar redemoinhos
Na mais pura apatia.
Quando tudo o que me interessa é conquistar e destruir
E o conteúdo não me traz euforia
Sintoma claro de minha conquista vazia.

Olhando bem nos seus olhos transparentes
Não há muito o que me provoque curiosidade.
Seus tecidos mais primários, que te fazem gente
São da mais básica qualidade.
Outrora me faria empolgar o exame em si:
Saber e decifrar tudo, degustar sua verdade.
Mas que verdade é? Sua perspectiva ignorante enfim
O faz andar em círculos assim, tateando com ansiedade.

Pode até ter curiosidade por mim.
Aperta bem esses seus olhos azuis, enrola a língua assim.
Tenta num esforço tolo falar um pouco do meu português.
Mas sua mente não alcança nada mais uma vez
Serei eu a te ensinar e pegar na sua mão?
Te olhar tão encantada, por querer saber quem eu sou?

I don't think so.
Meus neurônios queimaram para todo o esforço com o gênero oposto.
Não vou te dar esse gosto, de agir fora do meu próprio prazer.
E até te ver revirar o olho assim, se retorcer por mim
Vai perdendo o sentido, se minha vaidade não depende mais de você.
Os elos que nos ligavam: interesse, desafio e acaso
Vão perdendo a força e o laço
Começa a se desfazer.
É assim
Que vejo outra paixão morrer.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Quem sou eu em 2025

O que me faz feliz

Liberdade. Sentir controle sobre minha mente e reações. Me aventurar no desconhecido, mas com racionalidade e cautela. Me sentir vazia de expectativas, mas cheia de curiosidade. Me divertir. Achar tudo divertido por não levar nada muito a sério. Sentir o sabor do céu, do ar, do frio, da música, da minha própria companhia. Me orgulhar do rumo dos meus pensamentos e das minhas ações. Reagir na medida do que acho certo e cabível. Controlar minhas reações. Compartilhar bons momentos com quem amo, mas reservando a minha parte, só minha. Ter limites e fronteiras entre mim e o outro. Conseguir transitar bem entre trazer felicidade ao outro e respeitar a mim mesma, meu espaço e tempo, minha individualidade. Apreciar minha individualidade. Sorrir comigo mesma. Sentir prazer longe do olhar do outro. Ter ideias, boas ideias. Liberdade com ocasional companhia. A sensação de ser amada. A sensação de ser eu mesma. Sentir-me eu mesma: identificar em minhas falas e ações coerência com meus pensamentos. Falar em voz alta: sentir-me estranha, ácida, tranquila e cética. Identificar quem eu sou, verdadeiramente, livre de mudar a mim mesma para me adequar ao outro, e sê-lo. Apenas ser.

O que me faz triste

Sentir pressão. Me sentir injustiçada, incompreendida, manipulada. Me sentir tolhida, com medo, com necessidade de me justificar. Precisar atender carências alheias desproporcionais às situações. Precisar me frear de ações minhas por questões do outro. Sentir culpa, mesmo sem ter ferido o outro. Sentir culpa devido às feridas e dores que vem internamento do outro. Sentir a expectativa pela atenção ser frustrada. Me sentir rejeitada, descartável, invisível. Querer, querer e não tatear o que quero. Sentir o desprezo do outro e também a necessidade exacerbada do outro sobre mim. Sentir essas dores e querer compartilhar mas não ter quem me escute e em quem eu possa confiar. Tentar me adaptar para ser querida, vista, amada. Modular falas, ações, pensamentos. Ver a mim mesma primeiro através dos olhos do outro e em segundo plano dos meus. Priorizar a opinião externa sobre meu próprio ser. Me perder. Esquecer quem eu sou, do que gosto, como me movo pelo mundo. Depender da visão do outro para me sentir bem. Esperar aprovação. Não encontrar solidez e firmeza em mim mesma.

I wanna fucking tear you apart

Não há conexão.
Não com um homem.
Expectativa inútil.
Criada. Performada. Inexata. Mentirosa.
Que estratégia mais perigosa.
Nos levando a decisões sérias, inegociáveis.
Jogando no abismo da estratégia, voluntárias mártires.

Agora eu tenho o mindset correto, eu descobri o mistério.
É madrugada, o gosto na minha língua é aventura e descoberta.
Tudo é uma brincadeira, tudo é temporário.
Tudo é vontade, nada é saudade.
Quero diversão, quero reação. Quero ver você passando mal na minha mão.
Quero engolir suas restrições, acariciar seus medos.
Quero satisfazer cada um dos meus desejos.
Vendo nos seus olhos brilhantes o apelo.
Quero te ver implorar por mais, quero ver suas feridas patéticas de homem, pedindo guarida.
Quero jogar a mais ácida das aguardentes.
Nada é sua culpa, é verdade, é uma estrutura.
Num universo ideal, você teria tratamento e sutura.
Mas não estamos nele, como atestam meus anos de vida.
Agora eu entendi, eu entrei, eu decidi
Comigo você terá prazer, terá loucura.
Mas no final do jogo,
O gosto
Será da mais delicada tortura.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Fora da caverna (Training season is over)

Eu adoro ver seu nome
Estampado na minha parede de notificações.
Adoro causar ondas em seu cinismo seco
Adoro suas reações.
Quero decifrar, dedilhar e exterminar
Cada uma de suas contradições.

Seus olhos azuis, doce fonte de vazio mistério
Sua boca hesitante, seu passado, seu império.
Tantos muros a derrubar.
Quero me refestelar com os destroços.
E anunciar a criação de um novo lar.
Um que seus olhos jamais irão vislumbrar.

Adoro o equilíbrio perfeito
Entre querer tanto o que eu realmente não quero.
Adoro minha fome, minha ilusão, meu sorriso.
Minha adoração, tanta emoção nesse querer misto.
Frio, caloroso, ambíguo, insincero.

Quero esse querer, esta força, esta energia.
Mesmo sabendo a natureza do fruto, entendendo
É verdade, agora eu entendo tudo.
Mesmo sabendo que na verdade o tudo é nada
Eu quero destrinchá-lo
Vilipendiá-lo
Da forma mais imediata.

Ah, o meu objeto.
Ele é tão simplório.
É difícil até de travesti-lo
Com a aquarela do meu ócio.
Mas eu tento, eu remendo, eu preciso
Extrair dessa história mais um suspiro.

Eu quero ver sua boca arquejar
Quero vê-lo perder o ar.
Odiar, implorar.
Querer viver, amar e matar.
Quero provocar as sensações
Tão distantes do que eu sinto.
Eu sinto,
Não sinto,
Eu minto.
Você, a meus olhos, é só um menino.
Tudo isso é a busca por um estímulo.

Algo que não foi perdido, não, eu estava enganada.
Nada me foi levado, retirado, tudo foi *criado*.
Criações minhas, procedimento sofisticado.
Quimeras incríveis, o melhor que posso produzir, obras primas inegáveis. É difícil decifrar.

Não é decepcionante descobrir, não, agora eu posso sorrir.
Todas as coisas belas e as dolorosas também,
A cor do sol, o brilho nos olhos, as cores do amor, e além
Todas invenções da minha imaginação
Minha mente capaz de tanto sentimento
E de tanta criação.

Sentir sem um interlocutor
Minha peça de um só ator
Agora eu posso entender o profundo fruto
De toda aquela dor.
Buscando o fim da corda, invisível
Uma expectativa impossível
Tatear no escuro pelo intangível, chega.
Se havia alguma explicação, eu sei
Agora eu sei
O gosto da libertação.

O gosto é doce a arisco
É gosto de sangue, de flores, de risco.
É gosto de riso à meia noite
Brincar com a dor e a sorte
Amor e morte.
Como meus mais antigos amigos.
Eu preciso lembrar dessa descoberta, dessa verdade
Lembrar do poder nas minhas mãos, revertendo a gravidade
Sabor doce e solitário
Inegável esquadro do quarto ato
Minha liberdade.

Agora vamos nos refestelar.
A mesa está posta, o cardápio foi anunciado.
Só me falta preparar. Olhos ardentes, faca e garfo.
É hora de começar.
A partir de agora uma nova era,
Mais lúcida, mais sincera,
Está prestes a começar.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Você quer dançar comigo? (Infelizmente a sua cor preferida é âmbar)

Você diz que gosta de tudo sobre ele.
Olha nos olhos, faiscando de intenção:
"Quero você só para mim."
E aprecia cada detalhe de sua reação.

O calor de seus olhos translúcidos, a urgência de suas mãos.
Cada sintoma é agradável, quer ser especial, quer significado.
Quer vê-lo derreter-se em seus dedos gelados,
Num esforço belo e inútil de aquecer seu coração congelado.

Mas ele não sabe ainda, sua visão é turva e distorcida.
Sabe apenas da sua fome, não conhece sua ferida.
Vê apenas o que sua boca mostra, as palavras que escorrem dela.
Não atentou-se para o oculto, através da fresta da janela.

Você manifesta através de todos os sentidos o seu desejo.
Beija as palavras dele, toca com sorrisos seus cabelos.
Entrega todas as formas mais expressivas de carinho.
Você dá tudo de si naquele exato momento.
Construindo um aconchegante ninho.

-Não é insincero, eu quero
Em algum nível eu quero amar.
Mesmo com mentiras, falsidade e distorção,
Ainda tenho uma ou duas coisas puras para entregar.

Mas enquanto ele não chega
Azul escuro, calma submersa.
Vamos ensaiar.
Vamos ensaiar.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

I think you should know you're his favourite worst nightmare

Você não precisa me dizer. Ninguém precisa me contar.
Fotos não preciso ver, nem boatos quero escutar.
Eu já estou cansada de saber, que por você
Enquanto você viver
Serei colocada em um altar.

Vou assaltar sua mente,
Perante o mínimo dos estímulos.
Comparações são evidentes,
Pesadelos sobre o destino.
Era óbvio até para mim,
Que tanto gosto de duvidar,
Que depois das minhas mãos e lábios,
Jamais você encontraria um lar.

Jamais você poderá se curar
Das lembranças do que sacrificou.
Jamais parará de duvidar
Das decisões que, cego, tomou.
Jamais esquecerá o arrependimento
Ou a dúvida
O sofrimento
E a busca
Por qualquer coisa igual
Ou completamente oposta
A tudo o que fui eu
Qualquer coisa que te faça esquecer
Que na maior de todas as apostas
Você jogou e perdeu.

Encontro e reencontro além-mar

Eu reencontrei minha versão mais autêntica, além do mar, na distância de tudo o que eu conheço e no que me reconheço.
Reencontrei a sensação de rir no escuro, na chuva, no absurdo, no caos. A sensação de energia nas minhas veias e nos lábios, silêncio. Gelo por fora, calma nos olhos, fogo por dentro.
Eu me sinto assim agora, energizada, viva, silenciosa e estranha. Eu me sinto absurdamente eu, e esse reencontro é algo que não quero que acabe.
Seria, eu me pergunto, a solidão, meu estado mais perfeito?
Até se eu chorar - o que não tem acontecido - a lágrima tem um gosto agradável. Gosto de verdade.
Não há culpa, não há medo, não há esforço de encaixe. Apenas a vida e sua imprevisibilidade causando arrepios em meus pêlos. Sem mais desejos frustrados, necessidades desencontradas, sem mais preces ou apelos.

Eu conheci um doce rapaz de grandes olhos azuis que sempre querem mais.
Ele disse que eu o fascino, ilumino, que minha imprevisibilidade complementa seu temperamento tímido.
Ele me fala em palavras estrangeiras, e tenta entender meu idioma e coração.
Ele o tenta acessar, com seu cavalheirismo belga, o tenta tocar com sua mão.
Pobre desejo vão.
Não há nada inteligível aqui.
Mesmo que fale minha língua, jamais poderá descobrir
Todo o caos que está dentro desse coração
Que se afundar mais sua mão
Somente vai te engolir
.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Everything is imaginary/fiction.

Dark blue dreams. My feet on the sand, your hands on my waist.
As I laugh, as I run, as I drink, as I live.
A mind with no track of the past, a heart healed.
Hand in hand, connection and imagination.
Sometimes the silence guides the mind and leaves to a place so far away.
I wanna live wild things in the security of a warm hug.
I still want it, though.
I want to feel the spark of excitement, of enchantment, the thrill, the rush. I want get drunk with a kiss, get lost in a gaze. I want the hoping and wondering, even if it leads to later deception.
I’ll write our names in the sand. And stare it with a warm heart. Even if the sea waves will eventually take them away.

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Desabafo com os olhos vermelhos

Escrevo usando esse corpo, que desconheço.
Com sentimentos novos, com sensação de velhos.
Escrevo cansada, esperançosa, cansada.
Na expectativa de paz, de coisas que não conheço.
Eu quero estar bem.
Eu quero sentir amor e esperança.
Estar rodeada de coisas que fazem meu coração vibrar.
Eu me pergunto se já acabou a parte da minha vida em que eu senti essas coisas.
Se eu as perdi, se foram retiradas de mim.
Eu consegui absolutamente todas as coisas que desejei ardentemente.
Me tornei a ídola de mim mesma.
Alguém tão segura, calma, bela e realizada.
Mas tão sozinha.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Ponto zero absoluto

Mais uma experiência foi necessária
Para reforçar minha desilusão óbvia
Mais uma
Sutil matança de esperança
Tão pequena e frágil, mal pude crer que existia
Quando começou o rebuliço na minha mente, poesia
Imaginação de cenários na hora que dormia
Histeria
Maluquice clara
Mas alívio também
Uma verdade deve ser celebrada
Alguma ingenuidade segue preservada

Mas o tempo e experiência cumpriram sua tarefa
Pisaram na rebelde, estraçalharam a sequela
De algum desejo longínquo, algum ardor
Algum pensamento efêmero
Algum ensaio de amor
Desastrado
Tão mal acostumado
Que sequer concluiu o segundo ato

Dessa vez tive algumas coisas boas
Frio na barriga, sorrisos tolos
Esqueci da dor. Esqueci do grotesco
Das lágrimas rezadas nas contas do terço
Do meu sôfrego resfolegar, do meu pretexto
Por um pouco mais de fé e paixão

Ensaiei momentos de adoração
Com a sinceridade que não vinha há meses
No momento, porém, que tirei sua venda
As cores reais eram amarelo e bege
Fosco, sem graça, do tipo mais comum de canalha
Que se encontra por essas terras verdes.

Não senti raiva ou desaforo
Dei dois beijos em suas bochechas, cada um de um lado
"Quando se apaixona por alguém, se quer tudo. Não se contabiliza nada".
Didática até no amor, lá estava eu de novo dando aula
Sobre os princípios básicos do querer, esquecidos por toda uma geração
Singela decepção
Mais um homem adulto com mal formação na emoção
Fazendo contas com pessoas, julgando seu próprio valor em métricas inadequadas.
Insegurança e fragilidade
Que na dor do outro ressoa.
"Você tem que ser amado por quem te ame como pessoa"
Disse eu, palavras indecifráveis
Diante de dois olhos confusos
Prontas a serem jogadas ao acaso
No momento em que eu saísse do carro.

Mas saio tranquila
Sem a impulsividade da minha carência maltrapilha
Sem inverdades, sem passividade
Apenas eu e minha singela guerrilha
Que se recusa a se render à dor ou crueldade
à frieza ou utilitarismo
se recusa a mergulhar no abismo
Das coisas frias e irreais.

Tanto faz.
Eu sempre fui das que amam demais.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Enxaqueca áurea (O lado inesperado)

Quem diria que eu
Tiro cego de emoção
Paixão escrachada, grito aos 4 lados
Excesso
Explosão
Fosse de tristeza, fúria, ou autodestruição
Pura emoção
Ia me tornar alguém que ama baixinho
Sofre baixinho
Esperando não ser ouvida.

Eu tive uma coisa nova essa semana
Se chama Enxaqueca áurea, me disseram.
Eu perdi a visão, senti tontura e enjoo em frente a dezenas de pessoas
E continuei andando e falando
A versão mais sofisticada do meu mecanismo de piloto automático.
Eu continuei agindo da forma esperada, reagindo a questionamentos, aparentando.
Eu lidei com a situação
.
As pessoas me dizem que eu sou alguém que sabe lidar com as coisas.
Que sou confiável.
Que meu julgamento é racional, sóbrio e sensato
E que tenho os pés no chão e uma visão ampla das situações.
Essa é a mais pura verdade.
Eu estou sempre tomando decisões.
Todo dia.
Todo o dia.
Uma bateria de decisões confiáveis.

Eu me pergunto, às vezes
Como minhas ações tornaram-se tão diferentes do que já foram
E se isso muda, essencialmente, como pessoa.
Como alguém tão impulsiva,
Intensa, estridente, explosiva
Incapaz de reagir a ofensas calada,
Teve suas emoções dominadas pela racionalidade
E suas ações e reações programadas
Com uma quase naturalidade
Sempre para a opção mais sensata

É sem muito esforço que agora resisto
Ao que um tempo atrás seriam impulsos invencíveis:
Engatar em romances disfuncionais
Alimentar obsessões minhas e dos demais
Optar pelo obtuso, obscuro, sempre por mais.
Agir, sem pensar. Só agir. Não pensar.
Recolher depois os cacos.
Tudo isso
Esse rebuliço
Essa versão sem compromisso
Ficou no passado.

Por dentro, será que mudou?
A dor ainda arde,
Ainda sinto amor.
Meu coração ainda é frágil,
Meu gênio irritável.
Mas mais forte que tudo isso é a trava
Que entre pensamentos e ações, se formou.

O que exatamente mudou?
Às vezes me pergunto,
Entre seca e vazia no espelho.
Mas ontem alguém me lembrou.

Eu tive
Meu coração estraçalhado.
Minha identidade renegada
E todas as minhas coisas mais belas
Aquelas oferecidas sem medida e sem reservas
Diminuídas e distorcidas
Em uma narrativa egoísta
De quem nunca me valorizou.
Eu tive a revelação brusca
Sobre a desimportância da minha natureza crua
Para a pessoa que a recebeu por inteiro
No meu mais completo ato de amor.
Eu tive
Minha alma machucada
Pela ausência de respeito e tato
Por um ser humano inapto
ao mais sutil olhar de carinho e de cuidado
Ou sequer de empatia.
Que diante do mais inocente em mim
O mais puro, o mais real
Respondeu com a cortesia de quem chuta um animal
E que com o egoísmo em sua forma mais fria.

Quem diria
E eu, que já hipotetizei por anos
Como seriam verdadeiros danos
Sequelas e dores emocionais
Nunca pensei
Que a sequela do desrespeito
Muito mais do que a do desamor
Fosse capaz de consequências tais
Tão reais
Consequências demais.
O suficiente para modificar meu ser.
Para me dizer: pare
Não faça nada que se machuque
Aja para seu bem estar.
Para seu instinto autodestrutivo
Não existe mais lugar
Não existe mais espaço.
O que havia para te destruir
Já veio em quantidade o suficiente
Do outro lado.
Do lado inesperado.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Vermelho é a cor do berço, é a cor do desespero.

Você poderia pensar que minha cor preferida é vermelho, mas na verdade é azul.
-As coisas estão ruins, ein? Para voltar aqui.
Estão. Suficientemente ruins para eu ver metáforas em cores. Para que minhas unhas vermelhas representem o caos do qual só gosto na teoria. E o azul aquela coisa inatingível. A coisa que eu sempre amei, eu sempre quis. Eu só não sabia.
-O que é o azul? É aquela sensação quente?
É aquela sensação morna e líquida. É o abraço que não aperta. Passagem de ar. É respirar paz, boiar à tarde. O céu sem nuvens e sem sol. O amanhecer. As rajadas claras no meio da escuridão. É algo que me faz chorar, porque eu não encontrei ainda. Tudo o que vejo é vermelho, vermelho sangue. Entranhas, desejo visceral. Destruição travestida de amor. Morte. O vermelho me consome, ele suga meus lábios, meus seios, minha paz. Ele leva tudo de mim e eu sinto que nada sobra mais. Ele é violência e fragilidade, insegurança e intensidade. Ele vem de olhos sedentos, oblíquos, enevoados pelo desejo voraz. Eu não quero mais ser alvo desses olhos, dessas mãos afoitas. Não quero mais ser depósito de projeções, esperanças, sonhos inventados. Não quero mais a ausência de paz que esse rebuliço todo causa. E depois suga, consome, gruda, implora, pede, machuca. Não aguento mais essa fruta suculenta que apodrece na minha boca na segunda mordida. E me consome, confunde, anestesia e joga fora. Me tensiona entre a necessidade e o abandono e responde meus limites com obsessão, violação e controle. O vermelho queima meus olhos, incha minhas olheiras, comprime meu corpo, me afunda no chão. Para ele, não tenho sequer reação. Não tenho força, não tenho pulsão.
Não aguento mais o vermelho na minha vida, que é só o que me procura e que rejeito como destino.
Nada tranquilo nunca cruzou o meu caminho.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Homem de cálculos (Você se sente amado?)

"Você se sente amado?"
Olhos baixos, marejados.
Rubor no rosto, cabelos bagunçados.
Sorriso frouxo, relaxado.
Uma anuência lenta e sincera.
Está devidamente salgado.
Essa é a hora mais bela.

Um homem de cálculos me sorri
Mente objetiva, exata.
Coração posto, mesa decorada.
Um monte de lembranças, dores, desabafos.
Receita reutilizada.
Pego minhas percepções, calculo seus fardos
Crio as soluções
Para meu homem de cálculos.

Leio seus lábios
Suas necessidades
O que em sua fragilidade ressoa
Ou lhe toca como belo
Calculo os fatores dessa pessoa
E sutilmente os entrego.

Lentamente me aproximo
Lhe ensino
A sensação de ser aceito
De destino.
A sensação de ser descoberto
De carinho.
Enrolo em doce presente
Lhe envolvo.
Corpo, coração e rosto
Oferenda gentil e inesperada
De irresistível tempero e gosto.

Enquanto o faço, esvazio.
Nunca na minha história
Eu senti tanto frio.
Enquanto salgo o almoço
Órgão decorado pelo tempo e esforço
No ponto certo da degustação
Não sinto culpa nessa operação
Não tenho desculpa para minha ação
Não vejo sentido em justificar
O coração do meu homem de cálculos
Entregue em meus braços
Nasceu para ser meu jantar.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Arapuca

Eu sinto o peso das suas amarras
Aperta o couro, arranha a pele, marca.
De vez em quando parecem me abraçar
Afinal, eu também sou criatura que anseia amar.
Me deixo invadir, às vezes, pelos seus cuidados e calor
Me deixo confundir a percepção, até fantasio que é amor.

Mas no fundo ela fareja, respirando fundo,
Quieta e observadora, o seu odor.
Meu eu raposa identifica, ela não vacila, ela viveu mil vidas
Ela conhece o sabor.
Ela sente o agridoce, o amargo na língua, o torpe
A real natureza da pele, do gosto, do doce
Que se desmancha em fel, desfazendo miragens
Que se derrete, diluindo mil imagens borradas
Mediante o mais frágil dos toques
Que com delicadeza ocultam navalhas.

Necessidade frágil
Violenta
Desesperada
A natureza humana não cansa
De me sugar
Me expurgar
E me deixar exausta.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Ouro de tolo

Quanta idiotice.
Eu não queria zombar do passado, mas acho
Que todo esse tempo vivi um chiste.
Eu sei que achar isso fácil
É inevitável
Depois de regurgitar tanto sentimento.
Mas não posso evitar
E lamento
Ter me dado com tanta futilidade
Para fins de pura banalidade
Como isso ocorreu eu não compreendo.

Eu sempre vi mais ou menos a natureza das coisas
Talvez até com mais clareza que agora
Me admirava com o inusitado e novo
Era entediada e poderosa.
Mas o vazio em mim sempre possibilitou
Pequenos raptos de sanidade
Sequestros de minha autonomia
Sacrifício de autenticidade
O domínio da fantasia
Me dando doses de euforia
Em troca da minha liberdade.

Nunca mais na minha vida
Vou imaginar em outro alguém
Palácios indizíveis
Impérios inalcançáveis
Todo o místico e poesia
Que só vinha da minha arte.

Quero continuar lúcida e minha
Terrivelmente acordada.
Saborear o que me convier
Com doses saudáveis de realidade
Não há nobreza em forjar
Belezas feitas de falsidade.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Suas flores têm odor de cemitério

Você diz que quer meu amor. Diz que quer minha atenção.
Você diz que quer acesso. Quer o contato, o íntimo, o excesso.
Quer muito mais do que sexo.
Conhecer-me profundamente, acalentar as minhas mãos.
O que você quer com esse pedido? O que pretende com essa invasão?
Você quer encontrar meu íntimo? Penetrar nos órgãos, mastigar meu coração?
Sentir o gosto em sua língua. Saborear-se e cuspir-me fora?
Eu vou embora.
Vejo através de sua paixão intensa.
Vejo as cores de cada uma das labaredas que te esquenta.
De seu desejo que eu fale.
"Fale."
As pessoas dizem "sem julgamentos", mas isso é uma mentira.
Querem que você fale sem barreiras, para ter mais informações e assim,
Julgarem o que precisarem
Se deliciarem.
Ao encontrarem motivos para o desamor.

Ah, a segurança do desamor.
Quanto mais eu conhecê-lo, mais motivos a meu dispor.
Menos as correias do medo de perder me aprisionarão.
Quanto mais confiante de seus defeitos
Estiver minha percepção.
E um dia quando ruir
A ilusão criada pela paixão
Poder partir sem nenhum arrependimento
Pelos destroços que eu deixei.

Ah, como não crer neste procedimento?
Fui eu mesma que o criei.