Quem diria que eu
Tiro cego de emoção
Paixão escrachada, grito aos 4 lados
Excesso
Explosão
Fosse de tristeza, fúria, ou autodestruição
Pura emoção
Ia me tornar alguém que ama baixinho
Sofre baixinho
Esperando não ser ouvida.
Eu tive uma coisa nova essa semana
Se chama Enxaqueca áurea, me disseram.
Eu perdi a visão, senti tontura e enjoo em frente a dezenas de pessoas
E continuei andando e falando
A versão mais sofisticada do meu mecanismo de piloto automático.
Eu continuei agindo da forma esperada, reagindo a questionamentos, aparentando.
Eu lidei com a situação
.
As pessoas me dizem que eu sou alguém que sabe lidar com as coisas.
Que sou confiável.
Que meu julgamento é racional, sóbrio e sensato
E que tenho os pés no chão e uma visão ampla das situações.
Essa é a mais pura verdade.
Eu estou sempre tomando decisões.
Todo dia.
Todo o dia.
Uma bateria de decisões confiáveis.
Eu me pergunto, às vezes
Como minhas ações tornaram-se tão diferentes do que já foram
E se isso muda, essencialmente, como pessoa.
Como alguém tão impulsiva,
Intensa, estridente, explosiva
Incapaz de reagir a ofensas calada,
Teve suas emoções dominadas pela racionalidade
E suas ações e reações programadas
Com uma quase naturalidade
Sempre para a opção mais sensata
É sem muito esforço que agora resisto
Ao que um tempo atrás seriam impulsos invencíveis:
Engatar em romances disfuncionais
Alimentar obsessões minhas e dos demais
Optar pelo obtuso, obscuro, sempre por mais.
Agir, sem pensar. Só agir. Não pensar.
Recolher depois os cacos.
Tudo isso
Esse rebuliço
Essa versão sem compromisso
Ficou no passado.
Por dentro, será que mudou?
A dor ainda arde,
Ainda sinto amor.
Meu coração ainda é frágil,
Meu gênio irritável.
Mas mais forte que tudo isso é a trava
Que entre pensamentos e ações, se formou.
O que exatamente mudou?
Às vezes me pergunto,
Entre seca e vazia no espelho.
Mas ontem alguém me lembrou.
Eu tive
Meu coração estraçalhado.
Minha identidade renegada
E todas as minhas coisas mais belas
Aquelas oferecidas sem medida e sem reservas
Diminuídas e distorcidas
Em uma narrativa egoísta
De quem nunca me valorizou.
Eu tive a revelação brusca
Sobre a desimportância da minha natureza crua
Para a pessoa que a recebeu por inteiro
No meu mais completo ato de amor.
Eu tive
Minha alma machucada
Pela ausência de respeito e tato
Por um ser humano inapto
ao mais sutil olhar de carinho e de cuidado
Ou sequer de empatia.
Que diante do mais inocente em mim
O mais puro, o mais real
Respondeu com a cortesia de quem chuta um animal
E que com o egoísmo em sua forma mais fria.
Quem diria
E eu, que já hipotetizei por anos
Como seriam verdadeiros danos
Sequelas e dores emocionais
Nunca pensei
Que a sequela do desrespeito
Muito mais do que a do desamor
Fosse capaz de consequências tais
Tão reais
Consequências demais.
O suficiente para modificar meu ser.
Para me dizer: pare
Não faça nada que se machuque
Aja para seu bem estar.
Para seu instinto autodestrutivo
Não existe mais lugar
Não existe mais espaço.
O que havia para te destruir
Já veio em quantidade o suficiente
Do outro lado.
Do lado inesperado.
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