Eu planejo a minha partida dessa cidade, dessa vida, de mim mesma.
Planejo silenciosamente e penso que 33 anos talvez seja uma boa idade para ressuscitar.
Eu vejo diante de mim um objetivo claro agora - Sei que chegou a hora. Vejo o destino para onde minha mente se direciona: É hora de ir embora.
Nessa cidade vivi todas as coisas que ela podia me oferecer. Os mesmos rostos que me fizeram sorrir são os mesmos que quero esquecer. Não tenho mais nenhuma intenção que me ligue às raízes desse sertão. Não tenho mais vergonha ou receio de fazer esta declaração.
Eu vou para um lugar onde posso ser estranha e desconhecida. Vou concretizar meus desejos de mistério, de brotar uma segunda vida. Vou em busca da minha personalidade verdadeira, da liberdade de estar sozinha. Vou embora. Não volto. Sorrio com a expectativa.
Vou viver uma vida nova, em que eu finalmente seja eu mesma. Não pretendo me reinventar, só me livrar do que me mantém presa. Não lamento a partida, não sinto nem a sombra da despedida. A menina que amava o passado - feita de histórias e nostalgia - fica para trás agora. Junto com meus ressentimentos, com as lembranças, e os lamentos. Tudo escorre com o passar das horas. Tudo deixo e vou embora.
Meus planos estão traçados. O futuro me energiza.
Vivo como se aqui já fosse o passado. Contando os minutos para essa nova vida.
sexta-feira, 27 de junho de 2025
I'm gonna leave that city far behind and get a long, long way from there
Quando eu estou triste, não quero conversar com ninguém.
Eu ando triste esses dias. Não sei se é só cansaço.
Paro e me vejo perguntando se eu sou mesmo parecida com o que acham todas as pessoas que não me amaram.
Todas essas pessoas que, de algum modo, agora parecem ser felizes.
Se é verdade que eu não sou livre o suficiente, solta o suficiente. Perfeitamente misturada com a matéria vaporosa ao meu redor. Como um confete do ambiente. Um riso fácil.
Eu acho que, de fato, eu não sou assim.
Eu tenho uma sombra escura no coração, que me aperta por todas as dores vividas. Eu sinto ressentimento, rancor e até ódio. Por todas as vezes que não me protegi. Minhas fantasias são cenários obscuros e não reluzentes. E os momentos em que eu me sinto mais feliz - aquela felicidade plena e tranquila, como um líquido denso e delicioso - são quando estou sozinha.
Eu gostaria, de verdade, de me livrar de todo o ressentimento. De me libertar da ferida da não aceitação. De não me importar - faz tanto sentido racionalmente, por que não posso me sentir assim?
Gostaria de ignorar o fato de que as melhores coisas em mim já foram - e talvez não só uma vez - banalizadas ao limite do descarte.
Às vezes eu sinto que possuo coisas preciosas. Puras e misteriosas. Que em meu jeito, possuo uma beleza única e particular. Mas hoje simplesmente não é um desses dias. Talvez eu só esteja cansada.
Eu ando triste esses dias. Não sei se é só cansaço.
Paro e me vejo perguntando se eu sou mesmo parecida com o que acham todas as pessoas que não me amaram.
Todas essas pessoas que, de algum modo, agora parecem ser felizes.
Se é verdade que eu não sou livre o suficiente, solta o suficiente. Perfeitamente misturada com a matéria vaporosa ao meu redor. Como um confete do ambiente. Um riso fácil.
Eu acho que, de fato, eu não sou assim.
Eu tenho uma sombra escura no coração, que me aperta por todas as dores vividas. Eu sinto ressentimento, rancor e até ódio. Por todas as vezes que não me protegi. Minhas fantasias são cenários obscuros e não reluzentes. E os momentos em que eu me sinto mais feliz - aquela felicidade plena e tranquila, como um líquido denso e delicioso - são quando estou sozinha.
Eu gostaria, de verdade, de me livrar de todo o ressentimento. De me libertar da ferida da não aceitação. De não me importar - faz tanto sentido racionalmente, por que não posso me sentir assim?
Gostaria de ignorar o fato de que as melhores coisas em mim já foram - e talvez não só uma vez - banalizadas ao limite do descarte.
Às vezes eu sinto que possuo coisas preciosas. Puras e misteriosas. Que em meu jeito, possuo uma beleza única e particular. Mas hoje simplesmente não é um desses dias. Talvez eu só esteja cansada.
segunda-feira, 16 de junho de 2025
Animais de pelúcia (Sobre homens que odeiam as mulheres)
Annie era ruiva, escocesa. Olhos castanhos, grandes, suaves e desejosos.
Era uma transeunte, flanando por banalidades em busca do que lhe preenchesse.
Buscava algo que lhe calasse o vazio. Procurava nos lugares mais obscuros, nos olhos mais frios, em braços inseguros. - Até que o viu.
Mr. K.
Com seus olhos azuis, falou a melodia da necessidade e angústia. Notas doces derramavam de seus lábios cor de fúcsia.
Falava em seu ouvido, e de repente, lhe parecia ser o abrigo que respondia à sua busca.
Enchia o buraco no estômago de Annie com espuma.
Mais e mais espuma.
De longe, eu observo, como quem conhece o roteiro antigo.
Murmuro uma antiga balada, a memória de uma canção triste.
Sobre a morte de um sentimento, sobre a perda da inocência.
De cima desses prédios, sob a noite iluminada pelas luzes amarelas. Sob a geada cortante, o som de gemidos e alegrias vazias.
Sob o tom de mistério, que de novo não tem nada.
Observo quase triste os olhos de Annie derretidos em chocolate.
A essa altura, já parecia uma pelúcia estufada. A expressão de Mr. K, sentimento algum entregava. De seus lábios experientes, toda palavra é calculada.
Em dias de suor, prazer e cor. Cada momento arma o cenário, para o início de uma nova dor.
Quando o cerco está feito, o plantio realizado.
É hora de Mr. K, regozijar-se de seu prato.
A remoção estratégica: Linguagem, presença, afeto.
Retiradas mais que cirúrgicas, só não esperava deixar um feto.
Quando soube da novidade, sua máscara já desgastada... Partiu-se em mil pedaços. Ao Mr. K que conhecera, já em nada se assemelhava...
Onde estavam os olhos azuis ternos? A mão macia que lhe tocara? As palavras, juras, promessas? O ideal que se realizava?
Annie não podia crer, quando sua barriga ele cortava, e arrancava cada uma das espumas, que em seu vazio lhe estufara.
A retirada já não era estratégica. Tornara-se fria e implacável. Nada ficaria sobrando em Annie, que atestasse aquele laço.
Agora ele lhe negava três vezes: Sequer seu nome ele ratificava.
Para ele, era só mais um urso de pelúcia, cuja espuma ele emprestara.
Com quem brincara de teatro: Marido e mulher, fantasiara.
Até tornar-se muito real: era hora de bater em retirada.
Todo o desenrolar tão previsível. Me fizera quase verter uma lágrima. Enquanto via os fios de Annie, de um fogo vivo tornarem-se lava.
Seus olhos castanhos vivos, perderem a chama e derramarem...
Gotas de amargor vazio, sobre a nova vida que ela gerava.
Ao passo que do outro lado, a muralha de gelo se perpetuava.
E Mr. K oferecia
Mais um punhado de espuma
Para uma nova desavisada.
Era uma transeunte, flanando por banalidades em busca do que lhe preenchesse.
Buscava algo que lhe calasse o vazio. Procurava nos lugares mais obscuros, nos olhos mais frios, em braços inseguros. - Até que o viu.
Mr. K.
Com seus olhos azuis, falou a melodia da necessidade e angústia. Notas doces derramavam de seus lábios cor de fúcsia.
Falava em seu ouvido, e de repente, lhe parecia ser o abrigo que respondia à sua busca.
Enchia o buraco no estômago de Annie com espuma.
Mais e mais espuma.
De longe, eu observo, como quem conhece o roteiro antigo.
Murmuro uma antiga balada, a memória de uma canção triste.
Sobre a morte de um sentimento, sobre a perda da inocência.
De cima desses prédios, sob a noite iluminada pelas luzes amarelas. Sob a geada cortante, o som de gemidos e alegrias vazias.
Sob o tom de mistério, que de novo não tem nada.
Observo quase triste os olhos de Annie derretidos em chocolate.
A essa altura, já parecia uma pelúcia estufada. A expressão de Mr. K, sentimento algum entregava. De seus lábios experientes, toda palavra é calculada.
Em dias de suor, prazer e cor. Cada momento arma o cenário, para o início de uma nova dor.
Quando o cerco está feito, o plantio realizado.
É hora de Mr. K, regozijar-se de seu prato.
A remoção estratégica: Linguagem, presença, afeto.
Retiradas mais que cirúrgicas, só não esperava deixar um feto.
Quando soube da novidade, sua máscara já desgastada... Partiu-se em mil pedaços. Ao Mr. K que conhecera, já em nada se assemelhava...
Onde estavam os olhos azuis ternos? A mão macia que lhe tocara? As palavras, juras, promessas? O ideal que se realizava?
Annie não podia crer, quando sua barriga ele cortava, e arrancava cada uma das espumas, que em seu vazio lhe estufara.
A retirada já não era estratégica. Tornara-se fria e implacável. Nada ficaria sobrando em Annie, que atestasse aquele laço.
Agora ele lhe negava três vezes: Sequer seu nome ele ratificava.
Para ele, era só mais um urso de pelúcia, cuja espuma ele emprestara.
Com quem brincara de teatro: Marido e mulher, fantasiara.
Até tornar-se muito real: era hora de bater em retirada.
Todo o desenrolar tão previsível. Me fizera quase verter uma lágrima. Enquanto via os fios de Annie, de um fogo vivo tornarem-se lava.
Seus olhos castanhos vivos, perderem a chama e derramarem...
Gotas de amargor vazio, sobre a nova vida que ela gerava.
Ao passo que do outro lado, a muralha de gelo se perpetuava.
E Mr. K oferecia
Mais um punhado de espuma
Para uma nova desavisada.
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