Annie era ruiva, escocesa. Olhos castanhos, grandes, suaves e desejosos.
Era uma transeunte, flanando por banalidades em busca do que lhe preenchesse.
Buscava algo que lhe calasse o vazio. Procurava nos lugares mais obscuros, nos olhos mais frios, em braços inseguros. - Até que o viu.
Mr. K.
Com seus olhos azuis, falou a melodia da necessidade e angústia. Notas doces derramavam de seus lábios cor de fúcsia.
Falava em seu ouvido, e de repente, lhe parecia ser o abrigo que respondia à sua busca.
Enchia o buraco no estômago de Annie com espuma.
Mais e mais espuma.
De longe, eu observo, como quem conhece o roteiro antigo.
Murmuro uma antiga balada, a memória de uma canção triste.
Sobre a morte de um sentimento, sobre a perda da inocência.
De cima desses prédios, sob a noite iluminada pelas luzes amarelas. Sob a geada cortante, o som de gemidos e alegrias vazias.
Sob o tom de mistério, que de novo não tem nada.
Observo quase triste os olhos de Annie derretidos em chocolate.
A essa altura, já parecia uma pelúcia estufada. A expressão de Mr. K, sentimento algum entregava. De seus lábios experientes, toda palavra é calculada.
Em dias de suor, prazer e cor. Cada momento arma o cenário, para o início de uma nova dor.
Quando o cerco está feito, o plantio realizado.
É hora de Mr. K, regozijar-se de seu prato.
A remoção estratégica: Linguagem, presença, afeto.
Retiradas mais que cirúrgicas, só não esperava deixar um feto.
Quando soube da novidade, sua máscara já desgastada... Partiu-se em mil pedaços. Ao Mr. K que conhecera, já em nada se assemelhava...
Onde estavam os olhos azuis ternos? A mão macia que lhe tocara? As palavras, juras, promessas? O ideal que se realizava?
Annie não podia crer, quando sua barriga ele cortava, e arrancava cada uma das espumas, que em seu vazio lhe estufara.
A retirada já não era estratégica. Tornara-se fria e implacável. Nada ficaria sobrando em Annie, que atestasse aquele laço.
Agora ele lhe negava três vezes: Sequer seu nome ele ratificava.
Para ele, era só mais um urso de pelúcia, cuja espuma ele emprestara.
Com quem brincara de teatro: Marido e mulher, fantasiara.
Até tornar-se muito real: era hora de bater em retirada.
Todo o desenrolar tão previsível. Me fizera quase verter uma lágrima. Enquanto via os fios de Annie, de um fogo vivo tornarem-se lava.
Seus olhos castanhos vivos, perderem a chama e derramarem...
Gotas de amargor vazio, sobre a nova vida que ela gerava.
Ao passo que do outro lado, a muralha de gelo se perpetuava.
E Mr. K oferecia
Mais um punhado de espuma
Para uma nova desavisada.
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