sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Intermezzo: sobre as coisas frágeis belas, e também as repulsivas (Ou: quando eu descobri que sou Linda)

As pessoas escutam meus conselhos. Elas os seguem.
Eu acho que não deveriam. Não com tamanha disciplina.
Eu sou uma viciada em coisas. Em álcool, passado e prazeres passageiros. E nós sabemos que não devemos, por princípio, escutar viciados.
Mas elas não sabem. Então elas seguem.
Elas se apoiam em algumas premissas básicas para fazê-lo: que eu sou sábia, sensata e bela.
Elas não estão erradas em suas percepções. Eu sou, de fato, capaz das maiores sensatezes. De empatia. A portadora da responsabilidade. Eu não as engano, não as desminto: eu sou essas coisas. Mas sou outras também, outras coisas. Sou o excesso, o impulso, o vício. A obsessão e repetição. Sou o caos ilógico, logo eu, que amo a lógica. Sou o intermezzo, se é que essa palavra existe em português. Mas eu sou.
Algumas pessoas sabem todas as coisas que eu sou, poucas pessoas. Como os homens com quem me relacionei. Eles me viram beber demais, falar demais, brigar e chorar demais. Depois beijar e intensificar, tudo. Todos os homens que me amaram disseram que eu os levava do céu ao inferno em um minuto.
Com todos eles, eu tive, em algum momento, o seguinte diálogo:
-Você tem que entender que eu não sou perfeita.
Ao que eles responderam:
-Eu sei bem disso.
O que me ofendeu profundamente.
A maior parte das pessoas acha que eu sou perfeita.
Eu recebo comentários de estranhos, semidesconhecidos: ela é bonita, inteligente e gentil. Como não é perfeita?
Esses homens, esses que não me achavam perfeita, hoje eu vejo que eles tinham inveja de mim.
É evidente que eu não sou perfeita, mas hoje eu vejo, eu vejo claramente: todos os homens que eu amei tiveram inveja de mim.
Parece prepotente, mas é simples assim.
Pequenas competições cotidianas. Cuidados diários com seu ego frágil e sua ausência de realizações. Camuflar meu próprio sucesso, minha própria beleza.
Os homens são assim: as coisas mais frágeis.
E todas as coisas, por óbvio, todas as pessoas - e isso eu tenho dito em repetição - são frágeis. Sendo eu um belo exemplo delas, tão frágil que sou cristalina.
Mas os homens são frágeis de um jeito diferente, eu procuro outras palavras em meu cérebro, mas o que me vem é: de um jeito patético.
Uma fragilidade com ego, que precisa da constante submissão do outro. A fragilidade que se apoia em violência. Minha empatia não alcança todo esse fracasso, toda essa ausência.
E assim eram eles: uma sequência de homens frágeis, meus mil anéis de prata: sempre alegando minha imperfeição, como uma vitoriosa descoberta.
-Então ela não é tão superior assim, tão adorável assim, ela não é perfeita. Então ela não é límpida.
Eu sempre percebi o exato momento: o misto de descoberta e vitória. Me tirar do meu altar, me descer de patamar. Descobrir meu erro e incoerência sempre foi para eles uma potência, nunca um motivo a mais para me amar.
Todos eles sempre se regozijaram em meus defeitos, o gozo que é a antítese da empatia. Sempre se elevaram diante meus erros, e preencheram minha tristeza com sua folia.
É por isso que me ver pelos olhos dos homens é um exercício perigoso: por trás de sua fragilidade, apatia.
Que engraçado.
Todas as mulheres que conhecem meus mais profundos defeitos - o vício, a raiva, a incoerência - nunca me disseram que eu não sou perfeita - ainda que eu não seja.
Nunca me disseram que eu não sou límpida.
Ao contrário.
Todas elas sempre me fizeram sentir-me linda.

Um comentário:

  1. Querida kristal...
    Quando se está no escuro, é importante segurar as mãos de quem conhece essas sombras e que também tateia por elas em busca de saída. É possível que a antiga metáfora do “cego guiando cego”,necessite de outra interpretação: Se temos de andar na escuridão, então talvez seja bom que ao menos não estejamos sozinhos. Podemos todos dar as mão e entrelaçar no escuro os nossos dedos com mil anéis de prata. Não ouso falar pelos homens, pois alem de ser um exemplar pouco representativo da espécie (para o bem e para o mal),sou péssimo porta voz de classes e às vezes, represento pessimamente até a mim mesmo. Mas, sim, somos frágeis. E apavorados com nossa fragilidade, portanto, com força fanática, a negamos. Convencidos de que o simulacro de virilidade a que nos agarramos, nos impedirá de nos encolher a noite, nos diálogos íntimos com a escuridão. Dai buscar e enfatizar a “imperfeição” do outro, como forma de, por um lado, negar a nossa e por outro, nos reconfortar sabendo que não somos os únicos a ter rachaduras na “perfeição”, embora as neguemos. E se somos todos perfeitos na nossa imperfeição - uma maneira poética de definir nossa humanidade - acho essencial que nos guiemos pelos conselhos de quem está como nós mesmos; Dançando com as próprias contradições. Afinal, que sabem os deuses acerca de fragilidades?

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