Recentemente eu li que os fatos não geram efeitos emocionais em nós, por si mesmos. O que gera efeitos são as histórias que contamos sobre os fatos, as narrativas nas quais os enquadramos.
É um pensamento poderoso que sugere poder de escolha sobre a perspectiva que podemos adotar. Pensar assim faz eu me sentir um pouco mais poderosa, um pouco mais criadora de mundos. Menos refém de histórias nas quais eu já estou viciada em acreditar.
A questão da narrativa é importante porque por toda a minha vida – desde que eu possa me lembrar – eu me confrontei com a dificuldade entre separar a minha autoimagem e aquela imagem projetada de mim no olhar dos outros. Sempre me vi dependente da interpretação daquela imagem e convencida pelas histórias que ela me contava. É possível que estivesse, inclusive, errada, sobre ela. Eu não sei.
Foi já no meio da vida adulta que vi esse conflito tomar forma, organizando-se ao redor de uma mesma dualidade: a leveza e o peso.
À leveza eu associei o amor, ainda que sem perceber. Ser amada por ser leve, espontânea, fácil de lidar e aceitar. Despreocupada e até mesmo inconsequente. Diluída por uma ausência de rigidez que torna qualquer pessoa agradável e fácil de se conviver: amável. – Essa é a história que eu criei sobre a leveza e que revisitei diversas vezes, no objetivo de me machucar. Isso porque eu sempre me senti presa no outro extremo oposto: eu não sei bem se devido a uma autopercepção ou imagem projetada dos outros. Novamente, distingui-las é uma dificuldade minha.
Mas comigo sempre houve – ou desde que posso me lembrar – algum peso.
Só no peso eu fui capaz de expressar meu amor. Na atenção constante, rígida e consistente. Na responsabilidade e estabilidade. Que eu me tornei uma pessoa permeada por esses significados consigo afirmar com maior clareza, porque isso é atestado por minhas relações. A capacidade de resolver problemas e a segurança de estar presente são qualidades que fazem de mim um porto seguro. Mas que não me dão, de jeito nenhum, leveza. São qualidades relacionadas ao controle e à atenção aos detalhes. À cobrança, ao compromisso e pontualidade. Nenhuma dessas é característica de uma pessoa leve e a todas elas eu associei, por muito tempo, não ser amada.
Eu sempre me senti muito útil, mas pouco desejável. Capaz de dizer a palavra certa, mas com pouca vocação para provocar o riso espontâneo.
Não sei se minha inclinação para a retidão se deu parcial, ou totalmente, à minha obsessão por obter a perfeição em todas as minhas atividades – inclusive as interrelacionais. São coisas que hoje eu vejo que estão relacionadas com a necessidade de ser amada a partir da ação, o que é contraditório, já que ser assim fez eu me sentir pouco amável. Mas sim, era isso que eu queria: Fazer por merecer ser amada através de atitudes de excelência. Merecer. Coisas que não existem, eu sei. Hoje eu sei.
Eu também me perguntei porque, apesar de ser tão útil, tão confiável, eu não fui amada. Enquanto outras, por serem o exato oposto, foram. Eu vi uma injustiça nisso e me indignei. Vi um erro. Mas não existe erro. Existem apenas as coisas. E o amor é uma projeção – existem apenas pessoas e as coisas que elas querem ou podem suportar.
O que eu concluí com isso eu não sei exatamente. Apenas que eu estava desejando as coisas erradas do jeito errado. Que eu lamentei as coisas erradas. E que eu, insistentemente, tentei enfiar narrativas e histórias para tornar as coisas todas mais suportáveis. Mas eu não vejo mais graça em transformar as coisas no que elas não são. Não adianta construir fantasmas e alimentar idealizações. As coisas que eu procuro não estão fora, nessas respostas, ou em um reparo de mim mesma.
Talvez o que eu possa concluir, se é que posso, é que não tem absolutamente nada de errado em ser quem eu sou. Que eu não sou melhor ou pior que ninguém, então não adianta eu tentar comparar e intuir os defeitos escondidos dos outros. Que eu preciso parar de olhar para os outros e alimentar meu mundo interior, em busca de uma vida mais tranquila e consciente. Determinar as coisas que são importantes para mim, permitindo que sejam elásticas e flexíveis, e vive-las.
Não é tão fácil assim, não é nenhum pouco fácil assim. Eu vejo a imagem do que não sou e que, a meu ver, mereceu amor, e eu ainda torço pelos defeitos ocultos que me elevem diante de sua falha. Mas eu não quero mais sentir isso então eu posso começar parando de alimentar.
Afinal, eu também li que pensamentos são como seres vivos: crescem quando alimentados, morrem de inanição, quando privados.
A saída não é bloquear com placas imaginárias de “pare”, fazer estratégias mentais de fuga desesperada. Vou encher minha mente de reflexões mais sinceras e profundas sobre os motivos das coisas. Afinal, sim, eu penso demais, eu sempre pensei demais e sim, todo mundo já me disse isso.
E eu não vou mudar.
Eu não preciso mudar quem eu sou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário