sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Fora da caverna (Training season is over)

Eu adoro ver seu nome
Estampado na minha parede de notificações.
Adoro causar ondas em seu cinismo seco
Adoro suas reações.
Quero decifrar, dedilhar e exterminar
Cada uma de suas contradições.

Seus olhos azuis, doce fonte de vazio mistério
Sua boca hesitante, seu passado, seu império.
Tantos muros a derrubar.
Quero me refestelar com os destroços.
E anunciar a criação de um novo lar.
Um que seus olhos jamais irão vislumbrar.

Adoro o equilíbrio perfeito
Entre querer tanto o que eu realmente não quero.
Adoro minha fome, minha ilusão, meu sorriso.
Minha adoração, tanta emoção nesse querer misto.
Frio, caloroso, ambíguo, insincero.

Quero esse querer, esta força, esta energia.
Mesmo sabendo a natureza do fruto, entendendo
É verdade, agora eu entendo tudo.
Mesmo sabendo que na verdade o tudo é nada
Eu quero destrinchá-lo
Vilipendiá-lo
Da forma mais imediata.

Ah, o meu objeto.
Ele é tão simplório.
É difícil até de travesti-lo
Com a aquarela do meu ócio.
Mas eu tento, eu remendo, eu preciso
Extrair dessa história mais um suspiro.

Eu quero ver sua boca arquejar
Quero vê-lo perder o ar.
Odiar, implorar.
Querer viver, amar e matar.
Quero provocar as sensações
Tão distantes do que eu sinto.
Eu sinto,
Não sinto,
Eu minto.
Você, a meus olhos, é só um menino.
Tudo isso é a busca por um estímulo.

Algo que não foi perdido, não, eu estava enganada.
Nada me foi levado, retirado, tudo foi *criado*.
Criações minhas, procedimento sofisticado.
Quimeras incríveis, o melhor que posso produzir, obras primas inegáveis. É difícil decifrar.

Não é decepcionante descobrir, não, agora eu posso sorrir.
Todas as coisas belas e as dolorosas também,
A cor do sol, o brilho nos olhos, as cores do amor, e além
Todas invenções da minha imaginação
Minha mente capaz de tanto sentimento
E de tanta criação.

Sentir sem um interlocutor
Minha peça de um só ator
Agora eu posso entender o profundo fruto
De toda aquela dor.
Buscando o fim da corda, invisível
Uma expectativa impossível
Tatear no escuro pelo intangível, chega.
Se havia alguma explicação, eu sei
Agora eu sei
O gosto da libertação.

O gosto é doce a arisco
É gosto de sangue, de flores, de risco.
É gosto de riso à meia noite
Brincar com a dor e a sorte
Amor e morte.
Como meus mais antigos amigos.
Eu preciso lembrar dessa descoberta, dessa verdade
Lembrar do poder nas minhas mãos, revertendo a gravidade
Sabor doce e solitário
Inegável esquadro do quarto ato
Minha liberdade.

Agora vamos nos refestelar.
A mesa está posta, o cardápio foi anunciado.
Só me falta preparar. Olhos ardentes, faca e garfo.
É hora de começar.
A partir de agora uma nova era,
Mais lúcida, mais sincera,
Está prestes a começar.

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