Vazio e o medo que ele provoca são feridas compartilhadas a todas as pessoas.
A estrutura interna e externa pode favorecer a adoção de formas serenas de lidar com a dor.
Essas coisas não vem, necessariamente, em palavras. Elas podem ser transmitidas pela sensação de ser amado.
Ser amado interrompe a insegurança de existir em um mundo sem respostas. Acalenta o medo - embora não o destrua - a partir de uma sensação de pertencimento, que fornece estabilidade e estrutura.
Dar sentido às coisas não é algo que pode ser resolvido com palavras. Quando se é amado, há uma percepção de que a vida faz sentido pois você é necessário para alguém. Há um elo de continuidade entre o eu e o outro que tira a existência do vazio sem significado.
Ser amado é ser confiante
A ausência de amor gera o medo de tudo.
O medo de tudo não subsiste na sua forma original por muito tempo. Ele logo adota formas que o travestem, que buscam suplantá-lo. Ele assume a faceta de violência, controle e ódio.
O controle é apenas uma tentativa de estabilizar a insegurança que o medo traz. A violência e o ódio buscam, pela negação do outro, fortalecer a identidade do eu. É a forma primitiva através da qual o sujeito que odeia a si mesmo busca validar-se. Como é impossível identificar o valor de si mesmo, é através da deterioração do seu semelhante, que ele se exalta.
Nessa estrutura, a vulnerabilidade deve, a todo custo, ser afastada. A vergonha é o pior dos pecados. O orgulho e a tentativa de controle da imagem provocada são os mecanismos de estabilização da identidade, na ausência de qualquer coisa mais sólida que a segure.
Na verdade, o que impera no centro dessa dinâmica é o caos e o desespero. E o medo. O medo que tudo desmorone e a fragilidade seja exposta, já que ela é tudo o que existe.
Existem tentativas menos agressivas de estabilização da identidade, para aqueles que não se sentem seguros o suficiente. A busca pela validação do outro ou de um público incerto através da construção de uma imagem desejável é uma delas. É uma saída que oprime o próprio sujeito, ao invés de um terceiro. Ela requer uma manutenção constante da imagem projetada, seja através da ostentação material, física ou intelectual. É uma tentativa de auto-atribuição do valor através da agregação de qualidades consideradas desejáveis pelo meio social. Na verdade, ela só existe porque o sujeito não acredita possuir um valor intrínseco.
Ela nunca acaba. As conquistas possuem o efeito de aliviar, mas nunca preencher o vazio da autoestima. Por isso é necessário buscar sempre mais.
Apenas a clareza sobre essas dinâmicas, necessidades e sobre a dor fundamental é capaz de tranquilizar a mente. Não de eliminar a necessidade, mas ao menos fornecer uma visão clara sobre a razão do que fazemos e porque. Com essa clareza é possível tentar alinhar ações, sentimentos e pensamentos, buscando uma coerência interna e externa que traga alguma estabilidade, ainda que em meio ao caos. Ao elaborar uma estrutura interna de forma consciente, o sujeito pode retomar um pouco da sensação de controle - não sobre o outro, não sobre a percepção alheia em relação a si mesmo, mas sim sobre o seu próprio eu.
O desafio é mais difícil, mas não impossível, para quem não foi amado por uma pessoa. Quem não nasceu e cresceu em um ambiente de amor, pode aprender a nutri-lo em uma concepção mais ampla: amor por uma causa, um sonho, uma forma de viver. Amor por uma atividade, por um ofício, por um objetivo. Amor como elo de ligação que dá sentido e estrutura pertencimento. Esse é o eixo existencialmente estruturante, capaz de atribuir sentido e dar solidez.
E por fim, é preciso lembrar que não podemos ser otimistas a ponto de pensar no ódio apenas como um produto do terreno do desamor. O ódio também é alimentado por fatores externos, movimentos coletivos mentais, pelo contexto social, pela violência simbólica e estrutural infundida por macroestruturas que alimentam-se e lucram com a perpetuação sistêmica do ódio, que constroem simbolismos e o associam a necessidades básicas e primitivas, usurpando mentes que, por vezes, conheceram o amor, mas são ensinadas a desconhecê-lo.
E além disso, há o ódio que vem da maldade humana, que também é capaz de coisas que parecem inconcebíveis ou que tentamos justificar por um contexto de escassez, mas que devemos, à bem da justiça da realidade, admitir que existem, também, como um fenômeno autônomo e sem explicação.
Confiança - Clareza - Coerência - Coragem - Vulnerabilidade - Gentileza - Empatia
Controle - Vergonha - Insegurança - Necessidade - Medo - Violência - Fragilidade
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