terça-feira, 1 de julho de 2025

Conversa de fim de linha

-Você sente saudade? É saudade este sentimento?
-O tempo passou e eu me tornei assim. Antiga e desperta. O suficiente para entender que não há do que sentir saudade. Para reconhecer a natureza das minhas criações. Ver minhas lembranças pelo que são: sublimes criações. Meus momentos de paixão, entrega, euforia: maravilhosa construção de fantasia. A unilateralidade inevitável das coisas.
Eu estou desperta o suficiente para não conseguir entrar na simulação. Para ver através das camadas, mesmo que eu ponha vendas em meus olhos.
Eu não posso ter saudade de coisas que eu mesma criei. Mas não carrego mais a ignorância necessária para continuar a criá-las. Eu juro, eu penso, eu tentei. Mas minhas fichas mágicas finalmente acabaram.
Há tranquilidade nessa descoberta. Pé no chão: é assim que é estar desperta.
Mas há algo parecido com vazio. Não é exatamente frio, apenas realização.

-O que você vai fazer agora, então? A vida inteira você se preencheu de coisas irreais. Deliciosas demais. Agora delas você não tem mais nem a lembrança.
-Eu não sei. Talvez, quem sabe, eu gere uma criança. Se esse mundo não fosse tão destinado ao fracasso, esse seria um futuro válido para meu cansaço. Eu não vou mais encontrar realidade em nada além de vida. E de vidas vazias, bom, eu já estou preenchida.

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