- Por que você veio aqui hoje? Faz tempo que não me chama para conversar.
- Estou tendo pensamentos suicidas de novo. Eles me pegam de improviso, em momentos casuais. Quando caminho em silêncio, quando sorrio em uma conversa. Estão sentados em meus ombros, como companhias silenciosas. Convidativas ideias.
-Talvez você devesse voltar a escrever. Quando você escrevia, um impulso de vida te acompanhava.
-É verdade. Mas me sinto paralisada demais para isso. Quis só vir aqui para ver você mesmo. Ver se ainda existia.
-Tudo bem.
-...
-...
-Lembra daquela sensação antiga, de que algo estava me procurando? Que eu corria, corria, com medo de sua chegada?
-Sim.
-Eu sinto que me alcançou. Estou capturada em uma armadilha. Faz todo o meu corpo doer. Sinto a tristeza escorrer de dentro para fora. Ela transborda em sorrisos. Nos meus sonhos realizados. No afeto que me direcionam. Não consigo sequer chorar ou gritar. Minha chama se apagou.
-Talvez você só esteja cansada.
-Mas eu não quero estar! Não quero repousar. Não quero me sentir tranquila, tampouco ser calma e boa. Eu era a tempestade! Eu era magma invertido, riso alto e sarcástico. Eu... eu...
-Você também não era feliz ali. Você era a tempestade. Era magma invertido. Era riso alto e sarcástico. Era dor e desespero. Confusão e despreparo. Ingenuidade, sempre pronta a ser quebrada em mil pedaços. Até que não doeu tanto assim, não é?
-Não, não doeu. E isso é o que me dói mais. Foi suave e gradual. Natural e artificial. Aconteceu lentamente, um dia após o outro, e então de repente. A perda da inocência.
-Você sente falta, não é?
-Não tanto do tempo em si. Mas da expectativa e potencialidade. Quando tudo era projeção e ficção. Tudo estava por vir. Eu sinto falta de você. Da imagem romântica de um fantasma. De ver cores no preto e branco, de ver sangue em mero plasma. A inocência e a esperança...
-São só grandezas esperando para serem quebradas.
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