É misterioso o caso das facas e garfos que desaparecem na cozinha de casa.
São conjuntos novos comprados, depósitos visíveis, armazanemento ao olho nu.
Ainda assim, quando se procura, não se tem nada: onde estão os talheres desaparecidos dessa casa?
Uma sensação de dormência me faz encarar os dedos enquanto escrevo.
Podem ser os remédios, mas ainda, é algo a mais.
Eu me sinto muito mais velha hoje, muito consciente de meus processos internos - calma e perigosamente.
A linguagem, manifesta como resfôlego da supressão, me ajuda:
com ela, analiso, categorizo, guardo em caixas e traço caminhos.
Ela me ajuda, com natural fluidez, cada vez mais natural, a identificar cada fenômeno que me engole e cospe e vomita e extermina.
Mas aonde isso vai me levar?
Reconheço a dor. Reconheço a fome. Reconheço o buraco negro da angústia, que expande-se na velocidade da luz que se apaga de meus olhos, ano a pós ano.
Reconheço, em especial, as contradições de análise, que me lembram da efemeridade de meus reconhecimentos. Da fragilidade e sujeição ao tempo, à experiência, à todas as coisas céticas e reais.
Dessa vez, o reconhecimento foi certeiro e inequívoco: é uma história sobre o amor.
O amor e falsa suposição que há qualquer tipo de paralelismo automático, conexão natural, entre sentimentos e ações. Um não puxa o outro, não, porque entre o sentimento e a ação há o universo caótico e desconexo de necessidades internas, matéria frágil, pessoal e individualizada. Eu posso, sim, amar o outro, e tratá-lo mal. É a coisa mais óbvia. O pensamento infantil de que quem ama cuida e faz dez mil coisas mais, como um ato automático, cravado na genética do conhecimento afetivo: todas essas coisas, todas todas são construídas. Nós, animais históricos, seres de passado, criaturas aprisionadas nas próprias jornadas. Nada é natural, tudo é aprendizado. Tentativa e erro. Esforço. Nada é dado, tudo deve ser construído cuidadosamente e contra nossos piores e mais orgânicos instintos.
Eu posso, sim, amar, mas deixar o obscuro em mim, afastar minhas ações de meus sentimentos. É um instinto quase natural, o da fragilidade. Escape para todas as coisas pequenas e gritantes, que buscam manifestar toda sua baixeza, toda sua necessidade aperreada, seu choro afogado, agora alto, agora em forma de grito.
Graças a Deus existe o outro para me frear.
O amor precisa de freios, os limites do amor do outro. O reconhecimento que cada um faz de seu próprio ciclo de admissibilidades, com base naquela difícil, mas racional operação de respeitar-se. Respeitar a si, para ser respeitado. Coisas óbvias.
Que apesar de óbvias, eu esqueci. Eu sabia na teoria em relação ao outro e minizava sua aplicação a mim, criatura estruturalmente hipócrita. Quão fácil e quão difícil é mudar a perspectiva me colocando no mesmo ponto de análise que o outro. Quão claras são as suas motivações quando o reconheço como outro como eu. Eu não sou especial.
Esse tempo todo
Era embaixo do meu assoalho
Que estavam esquecidas as facas e garfos.
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