terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Gentil

Esses dias alguém fez um comentário sobre meu livro que me deixou muito feliz. Foi um elogio sobre como a relação romântica é composta por duas pessoas essencialmente gentis.
Isso me pegou de tal forma que já faz alguns dias que tento escrever sobre a minha referência para escrever sobre uma relação gentil.
Mas seria um texto de amor e eu já não escrevo mais textos de amor.
Ainda escrevo sobre todas as outras coisas que me inflamam o peito: a ansiedade das decisões, o medo do tempo, a natureza das coisas frágeis.
Mas escrever sobre o amor foi ficando cada vez menos natural à medida que eu fui envelhecendo e meu amor foi amadurecendo.
Olhando para meus textos antigos, percebo que eram também textos ansiosos. Meu amor era inseguro, com uma frágil consciência sobre o que o definia. Essa lacuna exorbitava em palavras. Eu precisava defini-lo: Esse é o amor! Ainda quando não sabia direito nem o que era amar.
Agora é tão claro.
O amor é tranquilo e gentil e me deixa completamente à vontade para não escrever sobre ele. Ainda quando eu quero compartilhar como é feliz me sentir coberta por seu manto de carinho, a timidez cresce sobre temas que antes não atingia. Hoje eu sou tímida para falar de amor. Eu, a pessoa que escreveu, recortou e enrolou 365 motivos para amar.
Mas apesar disso, hoje eu preciso dizer que não são necessários 365 motivos para identificar. O que me traz de forma mais clara a face do amor é que ele é gentil.
Um dia, vidas atrás, eu descobri que não amava um homem no momento exato em que, olhando em seus olhos, anunciei, quase como uma descoberta: você não é um homem gentil. Nesse mesmo instante, me surpreendendo, veio à minha mente a imagem do homem mais gentil que já conheci, que já não estava ao meu lado, mas que hoje é o motivo pelo qual eu escrevo esse texto, assim como o foi também para 365 motivos muitos anos atrás.
Mas como eu disse, 365 motivos não são mais necessários.
É com muita paz e clareza que me vem à mente, com toda a simplicidade da descoberta de algo que já estava lá: Eu amo um homem gentil.

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