segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Ponto final

-Todo o amor e saudade passaram. - Ela declarou, do alto de seu sorriso frio. As mãos longas, gélidas, sobre a mesa disfarçavam um discreto tremor que acompanhava a sensação de rebuliço em seu estômago.
Seu interlocutor assentiu, conformado.
Mentirosa, mentirosa, mentirosa. Repetiu ela mentalmente para si mesma.
Mas algo, de fato, passou.
Ela só não saberia dizer o quê.
-O que ficou? - Um fio de voz perguntou do outro lado da mesa.
Lá fora o vento era violento, balançava os cabelos de ambos, emaranhando aquele encontro de lembranças torpes, imprecisas, estilhaçadas. A unha vermelha e longa dela fez um círculo da mesa, o observando, com a expressão de quem mascara o cansaço de fingir. Inocente tentativa de dignidade.
-Alguma revolta pela forma como eu fui tratada. Mágoa. Desprezo pelas minhas descobertas sobre a real natureza do nosso relacionamento.
Ele engoliu em seco, inconsciente. Jamais entenderia um terço de suas palavras. Precisaria entrar em si mesmo, arrancar as tripas e o coração e olhá-los frente a frente. Coisa impossível para um homem que recusava-se sequer a olhar no espelho.
-Você se arrepende?
Nesse momento os olhares se cruzaram. Castanho no mel. Líquido no sólido. Ela olhava para ele e via tantas coisas mais: tudo o que viveram juntos em 10 anos de relacionamentos diluídos entre memórias reais e narrativas inventadas; entre gentis interpretações e genuína felicidade. Viu num só relance, como em um momento antes da morte: viu a inocência, o encontro, o fogo, o desengano, o desespero, o medo, o abraço, o acolhimento, a distância, o reencontro, a felicidade, ah! a felicidade, essa lhe doeu especialmente fundo, como um espinho inesperado. A felicidade do dia a dia, da tranquilidade em casa, das brincadeiras na cozinha, de ver o pôr do sol.
"Esse momento já parece uma lembrança", dissera profética, um dia, no passado, abraçada em seus braços, sentindo-se feliz. E então outras coisas: a incompreensão, o desespero, a ausência e o vazio; a solidão imensa, mesmo ao seu lado, o secar de seus lábios, o seu olhar frio. Essas lembranças mais recentes, essas, tão doídas, tanto quanto as alegres. Sim, eram suas maiores feridas.
A resposta não podia ser outra para um coração tão machucado:
-É claro que eu me arrependo.

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